sábado, 24 de maio de 2008

A OUTRA VOZ: o rastro da modernidade na leitura de Octavio Paz

“Meu medo é que minhas razões não convençam muita gente.” Octavio Paz

Em A outra voz, publicado originalmente em 1990, o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz revela sua preocupação com os rumos que a poesia vinha tomando. Para ele, a poesia contemporânea do final do século XX vivia uma crise sem precedentes.

Na concepção do poeta, o nobre gênero se via sujeito aos ditames do mercado, e isso era o pior dos males. É verdade que as outras artes, como a música e a pintura, também se encontravam na mesma situação, o que apenas reforçava o temor do velho bardo, falecido há dez anos.

Segundo Paz, ao longo da história da literatura, os poetas se apoiaram em duas vertentes basais, a verve mítica/religiosa, como em Homero, Dante Alighieri, William Blake e John Milton, e o fervor revolucionário, como em Friedrich Hölderlin e William Wordsworth.

Mas a partir do século XIX, a Modernidade trouxe à sociedade ocidental uma outra leitura da realidade, em que as artes deixaram de seguir somente as lições do passado e começaram a ser criadas também em novos parâmetros, totalmente contrários aos que já existiam.

A poesia adotou o princípio da negação da tradição e passou a viver o breve, o efêmero, como sendo a essência do novo, numa época em que “mil coisas solicitam ao mesmo tempo nossa atenção e nenhuma delas consegue nos segurar.”

Essa nova concepção de mundo não estava só nas artes, mas também no mercado, e provavelmente foi o que fez a arte envolver-se com a lógica de produção tão comprometedoramente, no ponto de vista do poeta mexicano.

Foi essa mesma visão que levara Karl Marx, ainda no século XIX, a comentar em seu Manifesto Comunista que “a subversão contínua da produção, o constante abalo de todo o sistema social, a permanente agitação e insegurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. (...) Todas as relações tornam-se superadas antes mesmo de se estabelecerem. O que parecia sólido, desaparece.”

Essa reflexão de Marx desencadeou uma série de considerações críticas que mais tarde dariam à luz ao conceito de pós-modernismo. Foi com base na reflexão marxista, por exemplo, que o crítico Marshal Berman escreveu o livro intitulado Tudo que é sólido desmancha no ar.

Afirmação e negação

O ápice dessa característica marcante da Modernidade ocorreu nas primeiras décadas do século XX, com a arte se opondo à própria modernidade, marcando justamente o que seria a Pós-modernidade, conceito tão controverso quanto à produção artística do século passado.

Tanto é assim que Paz se recusa a rotular o século XX de pós-moderno. Ele argumenta que, no caso da poesia, para atermos apenas ao nosso objeto de reflexão, os sintomas vividos nessa época já estavam em Baudelaire, Rimbaud, Walt Whitman e em muitos outros poetas do século XIX.

Para Paz, entre a religião e a revolução, está a verdadeira voz da poesia, aquela que persiste no íntimo do poeta, que é puxada pelos fios do mais profundo ser, os fios da memória, vinda da tenra infância, carregada de tudo que se aprendeu até o momento da criação poética.

Segundo ele, a afirmação e a negação da modernidade são dois princípios inerentes à poesia moderna, e não há nada mais moderno do que isso. O problema, diz o poeta, é que a poesia estava se rendendo ao mercado.

“Hoje as artes e a literatura estão expostas a um perigo distinto: não se vêem ameaçadas por uma doutrina ou um partido político onisciente, mas sim por um processo econômico sem rosto, sem alma e sem rumo.”

Com base nesse pano de fundo histórico e no cenário da poesia contemporânea, Paz lança seu grito de misericórdia, por acreditar que tudo se encontrava à deriva, e que por isso era preciso refletir sobre a poesia. “O urgente, hoje, é saber como vamos assegurar a sobrevivência da espécie humana. Diante dessa realidade, qual pode ser a função da poesia? Que pode dizer a outra voz?”

À sua pergunta, ele mesmo arrisca uma resposta: “Já disse que se nascesse um novo pensamento político, a influência da poesia seria indireta: lembrar certas realidades enterradas, ressuscitá-las e apresentá-las. Diante da questão da sobrevivência da espécie humana em uma terra devastada e desolada, a resposta não pode ser diferente. Sua influência [a da poesia] seria direta: sugerir, inspirar e insinuar.”

2 comentários:

Uziel Santos disse...

Que resumo estupendo. Busquei feito um doido este livro de Octavio Paz e não encontrei, iria lê-lo para a prova do mestrado, porém você conseguiu passar de forma concisa o que Paz critcou na OUTRA VOZ.
Acho que vou colocar seu blog no meu, virei fã.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Uziel! Volte sempre. Abraço!