sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Clóvis de Barros Filho e a beleza nos olhos de quem vê

                                                                                                                                            Foto: Divulgacão
Clóvis de Barros Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP): a potência de agir aumentada é alegria e beleza

Em uma aula magnífica sobre estética, do professor Clóvis de Barros Filho, postada no Youtube, ele comenta rapidamente a frase “a beleza está nos olhos de quem vê”. Segundo Clóvis, um de seus alunos perguntou quem teria dito a frase.

Já vi em vídeo várias dessas aulas de Clóvis, professor da Universidade de São Paulo (USP), detentor de vários títulos de doutorado e um de Livre Docência (que pra ele é seu maior troféu). Para mim, é como se eu estivesse assistindo a uma aula de modo presencial, é tão válida quanto. Muitas delas têm uma qualidade didática sem igual. Sua erudição é impressionante, e o modo como ele fala dos gregos me encanta.

À medida que você vai assistindo às aulas do professor Clóvis, sobre Nietzsche, Kant, Maquiavel, em cursos sobre Ética, Política, Estética etc, você vai invariavelmente aprendendo sobre a biografia dele também: filho único de um policial de Ribeirão Preto, estudou com bolsa em escola de rico em São Paulo, entrou na faculdade de direito do Largo de São Francisco, da USP, aos 15 anos, segundo ele. 

Graduou-se também em jornalismo e filosofia. Um de seus doutorados é em sociologia, feito na França sob a orientação de Pierre Bourdieu. Não é pouca coisa. Foi colega de quarto de Joaquim Barbosa, em Paris. Foi atleta de natação, campeão brasileiro e sul-americano, colega de Ricardo Prado, inclusive fazendo parte da equipe do revezamento 4 X 100 nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, segundo informação do próprio Clóvis.

Quem leu Coisas Ditas, de Bourdieu, compreende logo onde Clóvis buscou seu método. A aula sobre Kant e o século XXI é incrível. As aulas sobre literatura francesa à luz da filosofia também são muito proveitosas, com destaque para as aulas sobre O vermelho e o negro, de Stendhal, e Os miseráveis, de Victor Hugo. Está tudo no Youtube.

Clóvis parece saber tudo. Eis que ao falar da frase “a beleza está nos olhos de quem vê”, ele surpreende a mim duplamente. Surpreende-me porque não sabe de onde a frase vem, ou sugere que não sabe, e porque faz um comentário absolutamente preciso, certeiro, sobre de onde ela poderá ter vindo.

“O pensamento moderno se caracteriza por uma revolução”, diz o professor. “É belo o que agrada, o que alegra, o que de certa forma cai bem a quem contempla. A ideia de beleza, portanto, se desloca definitivamente para a sensibilidade, para o corpo, para a singularidade do observador.”

Quando um de seus alunos lhe pergunta por quem a frase “a beleza está nos olhos de quem vê” poderia ter sido dita, Clóvis responde: “Certamente não poderia ter sido dita por Platão, que acreditava na beleza do triângulo equilátero, e o triângulo equilátero é o mesmo, independentemente dos olhos de quem vê. Certamente, não por Aristóteles, porque a beleza em Aristóteles pressupunha algum tipo de eudaimonia e, portanto, uma inscrição num todo ordenado que transcende, e não apenas nos olhos de quem vê. Portanto, você percebe que quando você fala que a beleza está nos olhos de quem vê, você reduz a beleza a uma questão de sensibilidade que é, digamos, uma revolução tipicamente moderna, e poderíamos pensar a frase a partir de 1600, a considerar essa perspectiva como historicamente confiável.”

Ao fazer esta observação, Clóvis diz: “Mas não é só uma questão dos olhos de quem vê, é uma questão de corpo inteiro.” Com suas palavras, ele então cita Espinosa: “O mundo nos afeta na medida em que afeta nossa essência, e nossa essência é nossa potência de agir. (...) O mundo pode aumentar nossa potência de agir e nos alegrar, ou diminuir nossa potência de agir e nos entristecer. Aí está o fundamento filosófico da beleza: o mundo é belo porque, e na medida em que, nos alegra; o mundo é feio porque, e na medida em que, nos entristece. Nosso corpo inteiro é o critério da beleza do mundo.”

O professor poderia ter sido um pouco mais dialético e entendido a frase “a beleza está nos olhos de quem vê” como uma metonímia, em que se usa a parte pelo todo. E aí, a frase se encaixaria justamente na definição espinosiana dada por ele. Ao longo de todo o resto de sua palestra sobre beleza, a definição era semelhante ao significado da frase em questão.

Foi uma bela aula, como sempre, mas eu poderia discordar sobre o critério de beleza discorrido pelo professor. Parece-me que beleza na modernidade é mais que um conceito unívoco, um conceito em torno de uma qualidade específica das coisas, ou seja, do belo, cujo contrário seria a feiura.

Parece-me que, na modernidade, a beleza é uma categoria estética cuja imagem é a de um cacho no qual cabem muitas coisas, inclusive o feio, o horrendo, o sublime, o grotesco, o cômico e o próprio belo. Eu poderia, inclusive, estender-me e dizer que a beleza é sinônimo de estética, que é a essência da arte, sua conditio sine qua non, e que a estética age na obra como um elemento transgressor, transgressor da moral, dos costumes e da própria linguagem.

Logo, diante de uma obra como Criança morta, de Candido Portinari, não ficamos alegres e por isso reconhecemos a beleza da obra. Ficamos tristes e, ainda assim, reconhecemos sua beleza. Eu poderia enveredar por Edgar Allan Poe, um dos pais da estética moderna, na literatura, e dizer que a obra que nos enche de melancolia, enche-nos de beleza, porque a tristeza é o tom da mais alta manifestação da beleza, daí, Yasunari Kawabata ter um romance com o título Beleza e tristeza, por exemplo.

“O mundo pode aumentar nossa potência de agir e nos alegrar, ou diminuir nossa potência de agir e nos entristecer.” É verdade. Mas isso não tem a ver com o efeito da beleza em nossa alma, absolutamente, não. O mundo pode nos entristecer, e ainda assim, considerarmos aquele efeito da tristeza um efeito de beleza, de arte.

Mas, voltando para a frase “a beleza está nos olhos de quem vê”, trata-se de um ditado popular inglês, que o leitor pode encontrar no Dicionário Oxford: “Beauty is in the eye of the beholder” (buscando pela palavra-chave ‘beholder’ - "a beleza está nos olhos de quem vê"), significando que diferentes pessoas podem não considerar bonita a mesma coisa olhada.

Esse mesmo ditado pode ser encontrado numa peça de Shakespeare, Love’s Labour’s Lost (Trabalhos de amor perdidos, tradução canônica em português), de um modo levemente modificado: “Beauty is bought by judgement of the eye”. A peça foi escrita 1595. Logo, o professor tem razão em dizer que esse modo de ver a beleza só pode ter nascido por volta de 1600. Mas não tem razão, parece-me, na exposição sobre o conceito de beleza na modernidade, sobretudo, na pós-modernidade.

Clóvis é arredio à literatura em si; acha que é uma perda de tempo ficar lendo ao bel-prazer. Mas em suas palestras, o volume de citação literária é impressionante, indo de Gilgamesh a Vidas secas. Por outro lado (por esse mesmo lado de minha argumentação), nunca vi Clóvis citando John Milton, Shakespeare, Dante ou Goethe em suas aulas.

Para contextualizar a frase citada na peça Trabalhos de amor perdidos, o rei Ferdinando de Navarra decreta um período de três anos vivendo no castelo, junto com três amigos, sem mulheres e, por um dia da semana, sem comida. Nos outros dias, a refeição seria servida uma vez por dia. Dormir, só seria permitido durante três horas, sem cochilar depois. Tudo deveria girar em torno de um banquete de palavras. Estudar, ler, comentar literatura, palavras, palavras, palavras (para citar um jargão shakespeariano, em Hamlet), era a ordem.

Eis que entra um séquito de mulheres e homens da corte francesa, que chega ao castelo sem ser convidado, enviado do rei francês, tendo à frente a princesa da França, que não tem nome na peça. E começa a confusão. E um dos lordes da companhia da princesa, Boyet (que pelo nome devia ser bem jovem) aconselha-a a entrar para falar com Ferdinando, para fazer-lhe a corte, apresentando-se da melhor maneira possível, mostrando-lhe a graça, a educação, a inteligência, o brilhantismo inteiro como se a Natureza, no dia de sua concepção, não tivesse concedido nada a ninguém mais.

E aí, a princesa da França, vem com essa: “Beauty is bought by judgement of the eye/ Not uttered by base sale of chapmen’s tongue.” Ou seja, algo extremamente dialógico, como tudo escrito por Shakespeare, algo do tipo: “A beleza é uma negociação feita com os olhos de quem vê; não é expressa aos moldes de um leilão ordinário pela língua de um rapazinho.”

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