sexta-feira, 23 de junho de 2017

A humanidade resgatada em Mil e uma noites

Pela boca de Sherazade, cada história mantém uma mensagem e carrega uma luta pela sobrevivência do gênero feminino e, por tabela, a sobrevivência da humanidade. Nessa imbricação, surge inclusive a metáfora da arte de narrar como o elemento salvador do humano

Foi assim. Tudo começou quando a mulher do sultão Shahzaman o traiu com um ajudante de cozinha, lá na sua terra, Samarcanda (atual região do Uzbequistão), no momento em que ele se preparava para ir visitar o irmão mais velho, o rei Shariyar. Este reinava soberanamente um império de vastas terras que iam da Pérsia até a Indochina, e cuja sede ficava na Índia.

Chegando ao reino de Shariyar, Shahzaman disse ao irmão que todas as mulheres traíam os maridos, e o convenceu a armar um flagrante contra a cunhada. Os dois fingiram ir caçar. Voltaram à noite, e o poderoso Shariyar viu sua mulher transando com um escravo negro.

Os irmãos, então, decidiram procurar alguém que fosse mais infeliz que eles dois juntos. No caminho, encontraram um ifrit (demônio, gênio) dormindo. A mulher do ifrit, uma “bela jovem de membros gentis, um doce sorriso no rosto de lua cheia”, estava presa. Eles a soltaram. Ela disse aos dois que transassem com ela, caso contrário, ia acordar o ifrit.

Depois do sexo, a mulher disse: “Deem-me seus anéis para que eu os junte com esses outros e complete cem anéis; assim, cem homens terão me descoberto bem no meio dos cornos desse ifrit nojento e chifrudo.” E ainda vaticinou: “Quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la.”

Depois dessa demonização feminina, Shariyar não teve dúvida. Mandou seu vizir (espécie de administrador-geral, primeiro-ministro) assassinar a rainha. “E tomou a resolução de não se manter casado senão uma única noite: ao amanhecer, mataria a mulher a fim de manter-se a salvo de sua perversidade e perfídia.” E assim ele foi se casando e matando suas esposas. Matou filhas de nobres, de chefes militares e de mercadores da cidade.

O vizir tinha duas filhas, Sherazade, a mais velha, e a caçula Duniazade. A violência havia atingido todos os níveis sociais, e o reino estava sombrio. Sherazade, então, pediu ao pai que desse sua mão ao rei sedento de sangue. “Quer morrer?”, perguntou o vizir. Sherazade disse que sabia o que fazer para acabar com a série de assassinatos e salvar outras moças.

Sherazade casou-se com Shariyar, mas antes combinou com Duniazade o seguinte: “Minha irmãzinha, preste bem atenção no que vou lhe recomendar: assim que eu subir até o rei, vou mandar chamá-la. Você subirá e, quando vir que o rei já se satisfez em mim, diga-me: ‘Ó, irmãzinha, se você não estiver dormindo, conte-me uma historinha.’ Então, eu contarei a vocês histórias que serão motivo da minha salvação e da liberdade de toda esta nação.”

A partir daí, cria-se uma trama intrigante e cômica, que subjaz ao texto principal, e vai até o fim. Na noite de núpcias, Sherazade diz ao rei que quer se despedir de sua irmã, e ele aceita que Duniazade entre nos aposentos reais e fique debaixo da cama, enquanto os dois transam.

Depois de ouvir o gozo do casal, Duniazade sai debaixo da cama e pede à irmã que conte uma história. Shariyar consente, e Sherazade começa sua narrativa incrível, que atravessa a noite. Duniazade serve como uma espécie de assistente de palco, encarregando-se em sempre dizer: “Como é agradável e insólita a sua história, irmãzinha!”

Nem sempre uma história fica pela metade. Quando o fim da narração coincide com o fim da história, o que permanece em suspense é a promessa de Sherazade de contar na noite seguinte uma história mais arrebatadora que a anterior.


De retalhos e atalhos

Desse modo, o leitor entra no universo fabuloso da literatura árabe clássica, o mundo do Livro das mil e uma noites. Até hoje, muitos só o conhecem em versões infantis, de compilações a partir do francês ou do inglês, e por algumas histórias vertidas para o cinema, como Aladdin e Sinbad - a lenda dos Sete Mares. Mas é uma obra muito maior e mais importante que isso. Escrito, aliás, num estilo pouco apropriado para o público da Disney.

Em 2005, a série de histórias começou a aparecer em sua totalidade na língua portuguesa, graças à tradução direta do árabe feita por Mamede Mustafa Jarouche, professor da Universidade de São Paulo (USP). Em 2012, ele finalizou o quarto e último volume (Editora Globo, selo Biblioteca Azul).

Algumas coletâneas incluem Ali Babá e os 40 ladrões na lista das narrativas do Livro das mil e uma noites, mas, segundo Jarouche, esta história não está presente nem nos manuscritos originais do ramo sírio (século XIII), fonte usada para a tradução dos dois primeiros volumes, nem nas outras quatro edições árabes consolidadas em que aparecem também os contos do ramo egípcio (dividido em antigo e tardio, elaborado a partir do século XVIII, que completam as mil e uma noites do título, sequestrando histórias de outros livros como Kalila e Dimna e Histórias espantosas e crônicas maravilhosas). Mesmo assim, Jarouche anexou o conto no final do quarto volume.

A princípio, Jarouche e seus editores planejavam publicar em cinco volumes a obra completa. Ele chega a comentar isso no prefácio do primeiro livro. Mas depois, viu-se que poderia finalizar a edição em quatro volumes mesmo. E deu tudo certo. No prefácio do quarto volume, ele cita uma curiosidade, de que a primeira pessoa a traduzir diretamente do árabe algumas histórias das Mil e uma noites foi Dom Pedro II.

O Livro das mil e uma noites é de autoria desconhecida, e, pelas razões já descritas, sabe-se que é uma obra coletiva, que remonta à cultura persa, antes de imergir no imaginário árabe e ser completada por copistas caprichosos desde Bagdá e Cairo.

Em todo caso, essa volumosa narrativa serviu nos últimos séculos como arquétipos consumidos pelos grandes autores modernos do Ocidente, de Laurence Sterne, Jonathan Swift e Machado de Assis a Dostoiévski e Marcel Proust. Há histórias cujos grãos essenciais lembram enredos de Shakespeare, como A megera domada; outras, lembram os pícaros nordestinos, como João Grilo e Pedro Malasartes.

O espectro da narrativa do Livro das mil e uma noites é imenso e profundo. O leitor pode escolher em que vai se concentrar. Em relação a espaço e tempo, as histórias são ambientadas em lugares diversos que vão da China ao Iêmen, passando por Índia, Afeganistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Irã, Iraque, Arábia Saudita, Argélia,  Egito e Síria, num prisma temporal que capta a essência mitológica dos mundos árabe, persa e grego, além da abrangência histórica desde o século IX, pelo menos.

Princípios de moralidade, comportamento, crítica social e política, mostrando como a alma árabe se relaciona com o poder (este, com arroubos de tirania e bondade impressionantes) podem ser acompanhados na leitura.

Além disso, podem-se distinguir com clareza a figura da mulher (em meio ao machismo reinante), os matizes do realismo fantástico, as intertextualidades, as figuras do judeu e do negro, quase sempre de modo pejorativo (inclusive levantando um perfil histórico bastante revelador da prática da escravidão do homem africano no mundo árabe desde esse tempo), bem como a valorização da poesia e da cultura árabes. O Leituras vai explorar, em sequências posteriores, cada uma dessas particularidades da narrativa.


Grandezas

Cada volume traz na quarta capa um escritor brasileiro fazendo sua leitura do grande texto. Nessa ordem, Milton Hatoum, Ignácio de Loyola Brandão, Ferreira Gullar e Alberto Mussa falam de suas experiências de contato com as histórias do Livro das mil e uma noites.

Para Hatoum, escritor brasileiro de origem árabe (libanesa), Jarouche captou o ritmo e a melodia do original. “E assim o leitor se depara com tramas ardilosas e escabrosas, cheias de fantasia e surpresa, numa geografia mutável e exuberante como num sonho ou pesadelo.”

Brandão diz que o Livro das mil e uma noites “antecipou a estrutura dos folhetins, das telenovelas e dos velhos filmes seriados.” E, ao comentar o motivo da narradora, diz: “A palavra nos salva, nos torna imortais, porque, transformada em narrativa, permanece além de nós até a eternidade.”

Segundo Ferreira Gullar, a obra traz consigo a gênese do suspense, por fazer que “a narradora interrompa a narração antes do desfecho para, com isso, adiar a própria morte.” Já Alberto Mussa, outro escritor brasileiro de origem árabe, e estudioso a fundo dessa cultura, reivindica a essência árabe do livro, rebatendo a tese de que ele traz arquétipos persas. E elogia a tradução de Jarouche, dizendo: “Há muito tempo a comunidade de língua portuguesa – idioma que tanto deve ao árabe – merecia uma tradução digna da grandeza do livro.”

A grafia dos nomes dos personagens na tradução de Mamede Jarouche é complexa. O tradutor não quis ser tão traidor e tentou aproximar sua dicção da do original. Para não truncar o texto, com explicações desse tipo, busquei na internet a grafia mais fácil.

Logo, como já se viu na abertura deste texto, Šāhrāzād, a heroína, virou Sherazade, sua irmã Dīnāzād ou Dīnārzād é Duniazade, o rei uxoricida Šāhriyār se tornou Shariyar, e seu irmão Šāhzamān é Shahzaman. Os outros nomes ao longo da história vão se arranjando também.


A morte adiada

Sherazade é um dos personagens mais fascinantes da história da literatura, justamente por contar histórias. Ela é mais do que o fio condutor da imensidão de vidas, dramas, tragédias, violência, riso e horror que desfilam toda noite naquele quarto, mantendo o rei interessado em saber o que vai acontecer depois, a ponto de ir adiando a morte de mais uma esposa.

Do ponto de vista da ficção, é de dentro dela, é da alma dela que saem as palavras, o conhecimento imbricado. Tenha ela lido, ouvido alguém ou inventado cada trama, umas triviais e outras geniais, mas cada uma mantendo uma mensagem e carregando uma luta pela sobrevivência do gênero feminino e, por tabela, a sobrevivência da humanidade. Nessa imbricação, surge inclusive a metáfora da arte de narrar como o elemento salvador do humano.

É claro que junto com o prazer da narrativa (e sua capacidade redentora), há o prazer do sexo. Esta parte também subjaz, fica implícita. Afinal, sexo e suas mil maneiras de fazê-lo é o que não falta nas histórias contadas por Sherazade. Logo, se ela sabe contar, ela sabe fazer. Ela sabe o que fazer e o que não fazer, e vai ensinando isso ao rei, enquanto demonstra que existe um espaço imenso de subjetividade dentro do qual todo mundo é diferente e único.

Enquanto lemos o Livro das mil e uma noites, além de acompanharmos todos os parâmetros da vida humana que aparecem na narrativa, estamos diante de uma mulher bonita, inteligente, corajosa, culta, sábia, libertária, engraçada, serena, inventiva e com um aguçado senso de justiça. Sherazade é um grande modelo feminista.

No quarto volume, inclusive, ela discorre sobre a condição feminina com uma piada, uma ironia para a época, segundo Jarouche, mas que revela também uma leve contestação, quando uma mulher questiona sua vizinha:

“Às mulheres só é lícito o casamento com um único homem, e não podem possuir um único escravo ou serviçal, ao passo que os homens podem se casar com quatro de nós, além de ter quantas amantes secretas e concubinas quiserem. O que você acha disso?”

E a vizinha responde: “É porque dos homens é que provêm os profetas, os santos, os califas, os reis, os vizires, os comandantes e os juízes; e é por isso que eles tomam todas as decisões em causa própria.”

No primeiro volume, Sherazade é descrita como uma moça que “tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.”

Há uma humanidade descrita nessa narrativa que também é importante, que vai além da literariedade do texto. Neste sentido, a coisa dita é tão interessante quanto o modo de dizê-la, e é isso que faz do Livro das mil e uma noites uma obra incrível.


“Nenhuma obra se realiza sem palavras.”

A narrativa não se faz em labirintos de técnica e forma como nos romances do século XX do Ocidente, como Ulysses, por exemplo, ou Em busca do tempo perdido (embora, contraditoriamente, ambos tenham buscado recursos narrativos do clássico árabe, provavelmente passando antes pela fonte russa Os irmãos Karamázov).

A narrativa do Livro das mil e uma noites oferece uma teia intensa e imensa de micro-histórias. Seu modo de dizer, no entanto, é mais simples que o dos romances modernos. Muitas vezes, apresenta-se como fábula, crônica, narrativa de viagem, e na maioria dos casos como contos antigos, mas numa vertiginosa sucessão de tramas.

Contudo, que águas correm neste grande rio de sinestesia, imagens, cores, olores e histórias espetaculares! Registro de um mundo mágico, diferente, rico, de infinitas implicações, regado a sexo, comida, poder, evocações míticas e religiosas, racismo, traições e espertezas.

A reivindicação da fala é fulcral nessa narrativa. Afinal, como diz um personagem, “nenhuma obra se realiza sem palavras.” E para mil e uma noites, há mil e uma palavras girando em tensão no tecido da trama, que em muitos episódios se desenvolve como uma imensa boneca russa de histórias.

No universo narrado por Sherazade, contar histórias era um modo de se defender ou de se entregar à justiça, cuja verdade da narrativa era um salvo conduto. Ela sabia disso muito bem, e por isso arriscou o pescoço para salvar as mulheres, narrando enredos com desfechos diversificados.

Desde o primeiro volume, os personagens narram para tentar se salvar. Em muitos casos, o recurso narrativo traz uma sucessão de transferência de voz dentro da narração, que, segundo Jarouche, é conhecido como “regressão temporal linear”. Sherazade começa a narrar, e aí ela passa a fala para outro, que passa para outro, no estilo “ouvi de fulano, que ouviu de beltrano, que ouviu de sicrano, que ouviu de alano etc.”

O terceiro volume é sherazadiano por excelência, pois apresenta a história como reivindicação ou busca do salvamento. É uma evocação da salvação. É nesse volume que aparece Sindabad (grafado como Simbad, nas versões mais conhecidas), o navegante, narrando suas sete aventuras por mares fantásticos.

A história de Alauddin (Aladdin) e a lâmpada mágica vem no quarto volume, tomando quase cem páginas do livro. É a narração mais espetacular das Mil e uma noites. Trata-se do exemplar por excelência das narrativas fantásticas. Sua trama é ímpar. A tensão gerada, as soluções dos problemas do personagem, a carga dramática, a evocação dos velhos mitos árabes, tudo é meticulosamente bem narrado, e nada se parece com a melodramática e solar trama da Disney.


Versos e provérbios

O enfileiramento de provérbios geniais é outra riqueza do Livro das mil e uma noites. Há um sem número deles ao longo dos quatro volumes, conforme já foi publicado no Leituras. Podemos ler citações como “aquele que roga o perdão de seus superiores deve perdoar os pecados de seus inferiores.” Ou: “Quem gasta sem calcular empobrece sem notar.” Ou ainda: “O sabor da vida não sentem senão os loucos.” E mais: “Às vezes escapa o cego de um buraco/ no qual despenca o lúcido clarividente.”

A poesia também é um bálsamo para o coração dos sujeitos dessas histórias, como diz Budur, uma bela jovem protagonista de um dos contos: “Não tenho senão lágrimas copiosas e recitação de poesias.” Com a poesia, eles evocam a inspiração, expressam sentimentos. Um dervixe (monge muçulmano que faz voto de pobreza), ao narrar suas desventuras a uma moça que o hospedou em Bagdá, recita um poema:

“Estou perplexo, por Deus! Ninguém duvida:
por outro lado, desgraças me abalam a vida.
Serei paciente até que a paciência se canse da minha paciência;
serei paciente até que Deus decida o meu caso em sua clemência;
serei paciente até que Deus saiba que eu
fui paciente com coisas mais amargas do que a paciência que me deu;
(...)”

A poesia é uma força motriz na alma árabe desse tempo. Ela está presente na fala, nas citações (na memória). Em alguns contos, ela surge escrita em portas, tapetes, portais, jarras, cartas, bilhetes. Essa veiculação dos sentimentos e da fé por meio da poesia dá uma ideia de como as coletividades daquela região do Oriente pensavam, e expõe a razão pela qual livros sagrados como a Bíblia e o Alcorão foram escritos em versos.


Metalinguagem sherazadiana

No terceiro volume, há uma série de contos que remetem à metalinguagem da narrativa de Sherazade. Um rei que gostava de ouvir boas histórias manda buscar narradores de várias partes do reino. A última história relata o drama de um vizir condenado à morte por seu sultão (rei), e, para não morrer, vai contando uma história mais espantosa que a outra. Desse modo, o sultão vai adiando a morte do vizir para ouvir os desfechos dessas narrações.

Sherazade conhecia estas histórias, e por isso sabia que podia fazer algo parecido com Shariyar. Ela trazia consigo um acervo de códigos morais, além do poder estético de suas narrativas. Por isso se salvou.

É interessante notar que, nessa obra coletiva, houve alguém que foi o primeiro a pensar em colocar uma mulher genial para contar essas histórias, uma mulher, jovem, bela e, como um sol revelador do mundo, capaz de compreender a possibilidade desse suspense.

Esse alguém, tal como Sherazade, conhecia bem o conto do vizir que contava histórias. E antes de Sherazade e desse alguém primordial, houve ainda outro que criara a história do vizir, ou talvez mesmo ali tenham sido outros. É preciso dizer isso, porque as histórias que completam as mil e uma noites não foram criadas sistemática e linearmente. Elas foram juntadas, e a narradora foi incluída nessa junção.

Ao longo das mil e uma noites, Sherazade perpassa na alma do sultão (rei Shariyar) uma espécie de reeducação sentimental, uma reeducação moral, sexual e política. No quarto e último volume, sobre a história da astúcia do gênero feminino, ela diz: “Eu temo por mim mesma, porém, que o rei, ao ouvi-la, diminua o meu valor.”

Mesmo assim, vai em frente. Após narrar sobre os 16 capitães que contaram suas histórias sobre mulheres e suas astúcias para o sultão Baybars, Sherazade pede ao rei Shariyar para não ficar espantado com as histórias, pois sucedeu “aos reis, aos califas e aos soberanos sassânidas anteriores, e outros, o mesmo que lhe sucedeu relativamente às mulheres.”

Após mil noites, o sentido e o vocabulário das histórias haviam despertado a inteligência e a sensatez de Shariyar. Ele acabou reconhecendo que esse jogo de traições poderia ocorrer com qualquer um, mas dependia de quem estava do seu lado. Arrependeu-se das mortes e de seu passado violento. Casou-se com Sherazade e deu a ela uma festa de sete dias. Também casou seu irmão Shahzaman com Duniazade, a irmã caçula que tudo ouvia debaixo da cama.

A milésima primeira noite, então, foi de votos de amor eterno. O rei manda fazer cópias em 30 volumes das histórias de Sherazade. E tudo acaba bem, noite adentro, anos, décadas, séculos, até os dias de hoje.


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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bruna Caram e “o lado de dentro da tempestade”

                                                                                                            Foto: Twitter da cantora
“Meu coração/ anda endiabrado./ Numa hora berra!/ Noutra hora emperra,/ encurralado.”    

Quando abri o livro de poemas da cantora e atriz Bruna Caram, Pequena poesia passional (sem data, mas segundo seu site é de 2015), a primeira coisa que vi foi o prefácio de Luiz Tatit (compositor e doutor em semiótica, professor da USP). Vi o prefácio mas não li de antemão, para não me sentir influenciado pela leitura do autor de Capitu, aquela canção poeticamente insinuante sobre o personagem de Machado de Assis.

Fui direto aos poemas. Minha primeira pergunta às linhas de Bruna foi, obviamente, tem paixão em cada poema? Tem. O tema da paixão às vezes vem estampado no título, como em Amor mesmo, Amor, Coragens, Covardia, Endiabrado, Felicidade, Fossa, Instável, Inveja, Louca, Marra, Medinho, Passional, Qualquer coragem, Saudades, Sem-vergonha, Solidão.

Como o leitor deve ter observado, os poemas estão distribuídos em ordem alfabética pelo título. Obviamente, trata-se de um capricho (elemento passional) da poeta. Mas é interessante notar o modo como ela se preocupou em organizar seus poemas numa espécie de dualidade poética também, em que o poema anterior cria uma empatia verbal com o poema posterior, pelo título e pelo conteúdo. Senão, vejamos:

Alívio

“O tempo passa, com ou sem você.
Isso me conforta!

Melhor que isso
só você entrando agora
por esta porta.”


Altar

“Esqueço
ao subir ao palco
de tudo que sou,
recebo
ou causo.
Me aqueço de sonho
e salto.

Só acordo na hora do aplauso.”

O alívio é uma espécie de gozo, alcançado pelo sujeito poético no tempo, com ou sem a pessoa amada, porque no fim das contas, o sujeito poético não a esquece. Há uma lembrança dentro da passagem do tempo. Já no palco como altar, o sujeito poético se esquece de si mesmo. Ali, o gozo é mais intenso. É onde o tempo não passa.

No encadeamento de outros títulos, a dualidade é muito mais explícita: Ano novo/Antídoto; Chuva/Cinema; Depois/Depressa; Desculpa/Desejo; Direito/Direto; Disco/Distância. E assim por diante.

Os poemas sugerem que a paixão é feita do cotidiano. O elemento passional é o conector da vida interior com o mundo exterior. A poesia de Bruna Caram, neste livro, retrata objetos, sentimentos, afetos e outras abstrações, lugares, tempo e memória como fulcrais da vida vivida. Eles surgem nos poemas como figuras ígneas da paixão, e a paixão passa então a ser não a busca, mas o resultado da vivência no dia a dia.

Bruna Caram traduz bem a passionalidade em seus poemas. Citando palavras como avião, hotéis, avô, travesseiro, estrada, canto, blues, ela traz um sentido mui pessoal (e passional), ou mui passional (e pessoal). Parece ser ela mesma essa passionalidade. Um atributo traduzido muito bem no título da letra de seu primeiro sucesso, Palavras do coração, cuja composição não é sua, mas deve ter sido feita exclusivamente para ela.

Isso também explica metáforas mais íntimas (interiores) como no poema Tempestade, em que o sujeito poético diz ser “o lado de dentro/ da tempestade.”

Os 180 poemas de Bruna Caram, distribuídos em 208 páginas de um livro de formato pequeno, são curtos. O maior deles, Hotéis, com 38 versos, está ali para provar que tamanho não é documento. Ele traz muito do cotidiano e pouco do poético.

Coragens, seu menor poema, no entanto, com dois versos apenas, dizem mais: “Todos os sonhos reagem/ a cada nova coragem.” O plural do título ressoa no singular do vocábulo do segundo verso sugerindo uma sucessão de sonhos, uma vida inteira em que, dia a dia, vive-se a jornada em busca das realizações.

Seu livro é uma produção independente. Não tem assinatura de nenhuma editora. Os poemas, ao nascerem, foram sendo publicados primeiro no Instagram, fotografados. Só depois, ela decidiu que eles mereciam o nobre espaço do livro.

No conjunto, há versos muito bons, sem dúvida. Embora, ela queira se aproximar de Manoel de Barros, pelo que indica a epígrafe com verso do poeta sul-mato-grossense falecido em 2014, em alguns momentos, seu modo de fazer poesia se aproxima mesmo é do de Affonso Romano de Sant’Anna.

Em Contratempo, ela diz:

“Meu coração imenso
anda dividido
entre o meu silêncio
e o seu ruído.”

Em Louca:

“Nunca
se continha:
Vinha
Me beijava a boca
Me tomava toda
Me invadia sem calma.

Um dia
Eu totalmente louca
Ainda permitiria
Ele tocar minha alma.”

Algo da poesia minimalista e semiótica de Paulo Leminski, alguém diria. Mas, então, o que sobra para ela mesma, de sua verve, seu ritmo, seu mundo vocabular? Sobra tudo que há de subjetivo e autoral. Para além de comparações, Bruna consegue boas rimas em uma cadência cujo ritmo é o da emotividade, a justa medida de sua proposta. Como no poema Bonita.

“Dormir com você
me deixa bonita.
Você me olha
como quem não acredita
e me beija valente.
Na hora, o mundo ferve,
nosso corpo, um no outro serve,
e o mundo serve à gente.
Você não entende.
Nem eu.
Depois acordo assim,
toda bonita,
Você também, me imita.
E ninguém explica
o que aconteceu.”

Pois bem. O que diz então Luiz Tatit, no prefácio? Rasga elogios à poeta, claro. Mas faz isso com análise. Ele é bom. Começa chamando a atenção para o tamanho dos poemas e já abrindo com o arremate: “A pequena poesia é o formato ideal para a lírica moderna. Mal o tema se define já vem o desfecho cortante desviando a linearidade da leitura.”

Tatit demonstra por que Bruna Caram domina o ofício da poesia e como ela transita bem nesse universo da ironia cotidiana das paixões. Joga luz sobre a capacidade da cantora de entender o funcionalidade dos signos e de manipulá-los. Não diz que é uma grande poeta, mas arranja-lhe um bom lugar. “Poesia boa é poesia esperta, com poucos versos já desconcerta.” Esta é a poesia de Bruna Caram.


Serviço


Livro: Pequena poesia passional
Ano: 2015
Páginas: 208
Quanto: R$ 20


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