segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar e Benedito Nunes

Foto: Unicamp
Benedito Nunes (1929 - 2011)


Foto: Portal Literal
Moacyr Scliar (1937 - 2011)


Dois homens das letras brasileiras morreram ontem, domingo: o gaúcho Moacyr Scliar e o paraense Benedito Nunes. O primeiro era muito conhecido. O segundo, nem tanto (e deveria). Mas ambos são muito importantes para a cultura brasileira.

Scliar, que também era médico sanitarista, contribuiu de forma decisiva para a literatura brasileira ao escrever contos, romances e crônicas, muitos dos quais em cima da temática judaica. Seus livros foram traduzidos em dezenas de línguas.

Já Nunes, que era filósofo e professor, publicou vários livros de estética, teoria poética, linguagem, narrativa e sobre os grandes pensadores do Ocidente, além de escrever vários ensaios sobre os grandes da literatura brasileira, entre eles Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

O livro de introdução O tempo na narrativa e o de ensaios O crivo de papel, de Nunes, são ótimas dicas para quem começa a explorar o terreno da escrita.

O poeta e hoje professor da USP, Fernando Paixão escreve sobre Benedito Nunes na Folha de S. Paulo desta segunda-feira. Paixão era diretor do núcleo de Infanto-Juvenil e paradidáticos da Ática quando trabalhei nessa editora, em 2001 e parte de 2002.

Foi nessa época que li alguns livros de Nunes publicados ali, alguns deles editados pelo próprio Paixão. Segue abaixo o texto.

Erudito, autor foi mestre da humildade

FERNANDO PAIXÃO
ESPECIAL PARA A FOLHA


"Quando adolescente, Benedito Nunes recebia com frequência, em Belém do Pará, uma remessa de livros enviada pelo tio médico, também erudito e tradutor amador, residente em São Paulo.

A cada envio, era uma alegria e uma vereda nova que se abria para a curiosidade do rapaz, que começou a escrever versos e se tornou um dos maiores intelectuais brasileiros. Em alguma medida, essa história contém a chave de sua existência.

Continuou sempre fiel à sua cidade de origem, mas atiçado pelo gosto confesso de viajar, fosse por conta dos compromissos universitários ou pela curiosidade pessoal.

Depois de se formar em filosofia na capital paraense, fez estudos complementares em Paris e teve aulas com Paul Ricoeur e Merleau-Ponty, que marcaram o seu modo de pensar e de escrever. Dedicou-se ainda ao estudo de filósofos alemães, sobre os quais veio a realizar estudos fecundos e originais, focando Heidegger em especial.

Ao lado dos temas filosóficos, desenvolveu reflexões sobre a obra de Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros. Entendia a expressão literária em vínculo estreito com a existência, de um lado, e os recursos de linguagem, de outro. Nesse encontro ele sabia reconhecer a singularidade de cada autor.

Erudito de rica formação, foi um mestre da humildade. Admirava Proust, mas também acompanhava com interesse a produção de autores jovens. Quem teve o privilégio de conviver com ele, pôde conhecer uma feliz combinação entre inteligência e simpatia, rigor intelectual e despojamento. Pessoa rara.

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Fernando Paixão, 55, é poeta e professor de literatura do IEB-USP (Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo). Foi editor de algumas obras de Benedito Nunes, pela editora Ática."

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Rakushisha: de dor e recomeço



Com texto sutil, atentamente preocupado com os detalhes do cotidiano, o romance Rakushisha (Rocco, 2009, 132 páginas), de Adriana Lisboa, aproxima duas culturas de horizontes opostos, Brasil e Japão, para falar de sentimentos. O fio condutor do livro é a viagem do desenhista de origem japonesa Haruki ao país do sol nascente para pesquisar mais sobre o poeta inventor do haikai, Matsu Bashô (1644-1694).

Haruki é um nisei de 40 anos que nasceu no Brasil e se vê totalmente integrado à cultura brasileira, à língua, aos costumes, ao Rio de Janeiro. É um carioca da gema. Sequer sabe falar japonês. Seu pai tentava incutir nele a memória do Japão e tinha como resposta a resistência.

Mas quando o velho morre, Haruki recebe uma proposta de ilustrar uma tradução do diário de Bashô e decide ir à terra natal de seu pai, com a intenção de captar melhor a essência daquilo que seria ilustrado. No metrô do Rio de Janeiro, de volta da visita ao consulado japonês, Haruki encontra a também carioca Celina.

Numa reação impulsiva, ele a convida para viajar e ela aceita, como quem aceita as rédeas do destino sem espernear. Chegando ao Japão, o desenhista viaja para Tokyo e ela fica em Kyoto (o anagrama dos nomes não é coincidência de escolha, são cidades-espelho, como são os dois personagens).

Em Kyoto, antiga capital japonesa e cidade onde viveu Bashô, ela passa a escrever um diário sobre as impressões de seu olhar estrangeiro. O romance fala de dor, não só a que se tem após uma desilusão, mas também a dor do recomeço.

Sentido da vida

Na história do homem, a contemporaneidade é o maior celeiro de desajustes, desencontros, crise, caminhos que de repente se desfazem e precisam ser retomados, sob o risco de não se recuperar nunca mais o sentido da vida (loucura). A literatura, claro, tende a retratar isso.

Celina carrega na alma uma grande perda. Essa perda segue como trauma, uma amarra que não a deixa seguir a vida normalmente. Talvez por isso tenha aceitado o desafio da aventura.

“Para andar, basta colocar um pé depois do outro. Um pé depois do outro. Não é complicado. Não é difícil. Dá para ter em mente pequenas metas: primeiro só a esquina. Aquele sinal com a faixa de pedestres e o homem esperando para atravessar com um guarda-chuva transparente e um cachorro de capa amarela.”

Como mantra, como muleta psicológica, ela repete a frase o tempo todo. “Para andar, basta colocar um pé depois do outro.” Curiosidades, drama pessoal, desencontros em função das diferenças culturais, o cotejo entre a milenar cultura japonesa e a brasileira, que ainda sustenta o olhar quase adolescente sobre o resto do mundo, são o feixe de propósitos do romance.

Leveza poética

O livro de Adriana tem a uma escrita leve, uma leveza, no entanto, que traz a inevitável sensação de beleza e tristeza. “Por fora, ela era o sorriso mais triste que ele tinha visto nos últimos tempos”, é a impressão de Haruki quando vê Celina pela primeira vez.

Haruki também tinha tido uma perda, a de seu pai. São, portanto, duas pessoas fendidas pela vida que se encontram no metrô e decidem se unir numa viagem longa, que equivale a dizer, uma viagem em busca de um recomeço, no caso de Celina, e da recuperação de uma identidade esquecida ou perdida, no caso de Haruki. Os dois estão no mesmo barco.

O espectro da tristeza criado pela autora é tocante, como um vento leve que vai esfriando a superfície da pele aos poucos. O leitor sente a atmosfera sombria do romance, mas não o bastante para cair junto com os personagens. Porque a narrativa é coberta pela sutileza poética sugerida. Talvez este seja o valor maior do livro de Adriana. No meio do caminho, sente-se aos poucos a transformação de Haruki e Celina.

Ela procura se reestruturar, sentir o chão de novo, após perder a filha de sete anos. “Qual é o lugar que eu ocupo no mundo? Tem nome, esse lugar? Tem dimensões? Altura, largura, profundidade? Será um som, apenas, ou um gesto, ou um cheiro, ou uma possibilidade nunca explorada?”

Ele, a pensar no pai e mergulhado num Japão que cobra sua ancestralidade, se pergunta sobre si mesmo, já como consciência descoberta, a julgar pela palavra entre parênteses.

“E por que nunca conversamos sobre essas coisas? E por que eu nunca te dei atenção, velho desgraçadamente ausente agora, quando você vinha querer conversar sobre essas coisas comigo? E por que eu nunca dei a menor bola para as suas (minhas) origens japonesas, e por que nunca achei os meus olhos mais puxados do que o de qualquer brasileiro? Por que foi que eu te ignorei, e a mim também?”

Esse trecho revela uma consciência em plena luz. Um nisei que não acha que seus olhos sejam mais puxados do que os de qualquer brasileiro está na mesma situação do negro que não aceita sua origem africana e se vê apenas moreno, como quem se queima de sol todos os dias.

Geografia poética

Rakushisha não é o melhor romance de Adriana. Mas vale pelo experimentalismo, mesclando tradução de haikais, tankas, e trechos do diário de Bashô, em meio à narrativa em terceira pessoa que, por sua vez, completa as notas de diário da própria Celina, formando um mosaico de vozes antigas e modernas.

Tudo isso mostra como se movem, no espaço e no tempo, as sociedades, como Kyoto e Rio de Janeiro, oposições temporais e espaciais. Sobre o Rio, Haruki – que preferia andar de ônibus e metrô – diz:

“Os carros, além de custarem dinheiro, custavam seguro, custavam garagem, custavam pneus furados, custavam um dia o vidro espatifado pelo cara que levou o som, custavam vagas e custavam procura de vagas, custavam lanternas quebradas numa porradinha sem importância, custavam para-choques arranhados e laterais arranhadas por alguém que passou com um prego ou uma chave e custavam medo dos sequetros-relâmpago.”

Já Kyoto, observada por Celina, merece um plano harmônico, como se passado e presente, tradição e modernidade, o humano e o tecnológico andassem sempre lado a lado:

“Carros, pessoas e bicicletas, guarda-chuvas e saltos altos se entendiam”, diz Celina. Em todo caso, seja no Rio ou em Kyoto, “é preciso ter pequenas metas. Um pé depois do outro. Até que o peso das pernas se anule e caminhar seja quase fácil, quase corriqueiro”, como escreve Celina, repetindo seu mantra.

Na palavra “rakushisha”, cujo som é delicioso de se pronunciar e lembra qualquer jogo fonético infantil, se esconde outro sinal da fragilidade da vida e da necessidade de se reerguer para continuar vivendo. Trata-se do local onde Bashô se hospedou, a casa de um discípulo seu chamado Mukai Kyorai.

“Diz a lenda que Kyorai tinha cerca de quarenta pés de caqui crescendo no jardim de sua cabana em Saga, subúrbio de Kyoto. Tinha acertado a venda dos frutos, certo outono em que as árvores estavam carregadas, mas na véspera do dia em que deveria entregá-las uma forte tempestade caiu, à noite. Não sobrou um único caqui. Desse dia em diante Kyorai passou a chamar sua casa de Rakushisha, a Cabana dos Caquis Caídos.”

Perfil

Adriana Lisboa, que atualmente mora nos Estados Unidos, tem a idade de seus dois personagens centrais nesse livro, e também é carioca. É um dos mais prolíferos autores de sua geração. Isso não significa ser ela o melhor romancista de sua geração, mas escreve muito bem, tem domínio, é autora premiada. Não dá para dizer que a crise de Celina tenha a ver com a própria autora, embora a dedicatória do romance sugira tal relação (que quase sempre existe).

Rakushisha é uma espécie de recompensa pela viagem que fez ao Japão e aos estudos sobre a língua e a cultura japonesas pagos por uma bolsa da Fundação Japão. Escritora premiada, entre seus livros estão Os fios da memória, Sinfonia em branco e Um beijo de Colombina. Como tradutora, já traduziu Cormac McCarthy, Amy Bloom e Robert Louis Stevenson.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto)


Serviço

Título: Rakushisha
Autor: Adriana Lisboa
Editora: Rocco, 2009, 132 páginas
Gênero: Romance
Preço: R$ 24,00

sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Não quero ir na rabada dos etcs"


João Ubaldo Ribeiro deu uma entrevista à Ilustrada, da Folha, neste sábado. Ele será homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty, que vai ser realizada entre 6 e 10 de julho. Ubaldo Ribeiro já esteve para participar uma vez dessa festa, mas, depois de estar tudo acertado, recuou porque não se sentiu prestigiado pelos organizadores.

"O que mudou para o senhor para aceitar o convite da Flip, depois da confusão em 2004?

Nada, nunca bati a porta, apenas me trataram condignamente, como qualquer outro. Não quero ser estrela, só não quero ir na rabada dos etcs., pois não sou um iniciante. É a primeira vez que me convidam depois daquele episódio. E provavelmente vou gostar, apesar de não ter mais saco para viajar.

O que aconteceu afinal?

Tive a desinteligência de reparar que meu nome era raramente divulgado entre os convidados, aí eu decidi não ir. No release aparecia "fulano, fulano, fulano e outros". Esse "outros" era eu. Aí eu disse: outros o caralho! De qualquer forma, não foi nenhuma briga."

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Gulliver-Black: uma viagem


O recente filme As viagens de Gulliver, que pega emprestado algumas coisas do clássico de Johnatahn Swift, não me parece se propor ficar à altura do romance irlandês.

Protagonizado por Jack Black, que fez o bom Escolinha do rock, o filme não traz nada de animador e Black não tem graça nenhuma. Foi feito para crianças, mas não acho que seja marcante nem mesmo para os enfants de hoje.

Algumas comparações: O Gulliver de Black é solteiro, imaturo, bobalhão e franco atirador de piadinhas sem graça. É falsário, plagiador e jornalista (seria por isso?).

O Gulliver de Swift é casado, irônico, sagaz, bom observador e mentiroso de primeira linha. É sarcástico, dotado de uma incrível capacidade de fazer prognósticos e relatos, e é médico. Em suas memórias de viagens, faz uma leitura paralela, arrasadora e real dos costumes humanos.

A mim me parece que um real filme sobre As viagens de Gulliver teria de ser narrado, o próprio Gulliver teria de narrar essas aventuras passadas em Lilipute, Blefuscu, Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib, Japão e no país dos Houyhnhnms.

O que acontece, no entanto, é uma narrativa plana, sem off, em que Gulliver é arrastado por uma tediosa historinha que leva em conta apenas o cenário dos mínimos homens de Lilipute e dos gigantes de Blefuscu.

Entrementes, a adaptação à contemporaneidade traz uma saraivada de citações sem controle, como cenas de Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, Titanic e Avatar, de Cameron, Escolinha do rock, James West, Transformers, e até o seriado blockbuster Glee.

Um colega de Gulliver (Black) diz a ele: “Você é bem humorado e até divertido, às vezes”. Mas é só isso. O personagem na pele de Black não empolga. À primeira vista, pensa-se que o Gulliver de Black é só um bobalhão, mas logo se vê que a estultícia está em quem escreveu o roteiro, Joe Stillman e Nicholas Stoller.

A direção é de Rob Letterman. Há uma ressalva nessa minha célere leitura. No original de Swift, por onde passa, Gulliver acaba se dando bem, encontra um protetor. Entre os Blefuscus, por exemplo, uma menina de nove anos o protege dos perigos de gatos e ratos e tutti quantti.

No filme, pelo contrário, a menina é normal, uma pestinha que faz de Gulliver-Black a sua boneca secundária. Procurei o filme em busca de imagens do livro, como quando Gulliver está na ilha voadora, ou junto ao governador feiticeiro que evoca mortos (Machado de Assis passou por ali).

Debalde, esperei reencontrar Gulliver no país dos Houyhnhnms, cavalos inteligentes e civilizados que escravizam animais de forma humana chamados Yahoos. Esta é a quarta parte do livro de Swift, a mais corrosiva, a mais constrangedora a nós humanos, em que o narrador faz severas observações de quem somos e como vivemos.

Sinceramente, acho Jack Black engraçado. Mas em Gulliver, ele aparece de maneira patética e desinteressante. Só os efeitos especiais podem se salvar. Em todo caso, não procurarei outras versões.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O dia em que nasci

No dia que nasci, 25 de março de 1975, uma terça-feira, a manchete da Folha de S. Paulo foi “Manobras no Oriente Médio agravam tensão.” Isso diz alguma coisa? Não nasci ontem.

A atual convulsão em alguns países árabes foi deflagrada no Norte da África, mas está tudo muito interligado ali (Iêmen e Bahrein, por exemplo ficam no Oriente Médio e também já se deu lá seu sinal de inquietação. Embora nada disso se refira ao conflito Palestinos X Israelenses, nunca se sabe por onde passa o rio invisível).

Há diversos tipos de ensaios naquelas regiões, desde fotográficos, literários, até bélicos e suicidas. Mas, enfim. Na capa da Ilustrada vinha um desaforo (ou seria um elogio?) a Graham Greene: “Graham Greene Apenas Um Bom Autor Popular”.

Nasci num lugar muito distante de São Paulo, e meu pai, semianalfabeto contumaz, não leu a Folha daquele dia, nem de dia algum de sua vida. Ele, portanto, não saberia me dizer o que acontecia no Oriente Médio, nem em São Paulo, não poderia dizer o que acontecia, nada, em qualquer parte do país.

Nasci num ano em que a informação não era coisa fácil e a vida no Brasil não era mole. Se meu pai desejasse saber algo pelos jornais naquele fatídico dia, ficaria bem informado, por exemplo, de que Ernesto Geisel estava exigindo um formulário mais simples do Imposto de Renda (será pra quê?), para abocanhar gente mais simples, do tipo meu pai. Depois foi só.

Se os rudimentos de leitura de meu pai o levassem à Ilustrada da Folha, talvez ele lesse, e se deliciasse, com a crônica de Lourenço Diaféria (esse empinador de estrela) daquele dia, em que falava de “Glórias e miséria do bacalhau”. Mas, ó, raios!

Sei de tudo isso que aconteceu no meu dia (que seria de cão?) porque a Folha (falha minha, mas é quase o único jornal que leio) acaba de lançar o Acervo Folha, com todo seu cabedal, desde a fundação do jornal em 1921, com Folha da Manhã.

Não é a primeira, diga-se de passagem. A revista Veja já tinha feito isso há uns dois anos. E o serviço não será de graça. Está aberto só para degustação, deus sabe lá até quando.

O que sei é que na Ilustrada do dia em que nasci, há uma campanha do DNER com o seguinte título:

“Não é só o carro que tem de ter freio, o motorista também.”

Depois segue o texto:

“Dependendo do motorista, um restaurante de beira de estrada pode ser tão perigoso como uma lombada ou uma pista derrapante. As estatísticas provam que um copo a mais já fez muita gente terminar a viagem bem antes do fim.”

O foco, no entanto, é para outro tipo de consumo: “Na estrada qualquer abuso pode acabar numa tragédia. Comer demais é tão arriscado quanto correr demais.”

É. Comer de menos também é arriscado. A pessoa pode morrer de fome. Como se vê, o dia em que nasci, pela Folha, foi o mais normal dos dias. Mesmo porque, fui dado à luz à noite.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Palimpsestos: o desdobramento do ser

Gostaria de retomar a leitura de um livro do goiano Wesley Peres, Palimpsestos (UFG, 2007), sobre o qual já falei na Tribuna do Planalto, cujo texto repliquei no Leituras (Leia). O que disse lá, reitero aqui. O livro de Peres traz poemas que tratam da busca de sentido do ser. E faz isso por modos não convencionais. Faz isso pelo avesso das coisas, se debatendo em grades metafísicas, enquanto a concretude do mundo emerge em águas, chuva, vento e outros fenômenos naturais.

É um belo livro justamente porque oferece, nos versos, ancestralidades e presenças. Fala muito do eu, que é uma construção da linguagem, dentro da qual se debate para encontrar a luz da compreensão da existência. Nesse sentido, é metafísico.

“Me respira a menina remando, com os olhos, o tempo.
Em torno disso, a unidade mosaica da chuva.”

Esse olhar do sujeito poético para a chuva lá fora, ampulheta do tempo, enquanto se sente enclausurado na própria casa, numa construção intencionalmente cheia de vírgulas, é um exemplo da força metafórica de sua poesia.

“O que quer que seja a vida, a morte não é o seu contrário,
Mas as vírgulas desse mistério
Que, por impronunciável, metaforizo: eu.”

Em Palimpsestos (a rigor, “papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro”), a clara releitura de Rimbaud, Manoel de Barros, Cruz e Sousa e Georg Trakl se joga e se prende às teias de Lacan e Heidegger. Pelos parâmetros do filósofo alemão, podemos dizer que o eu, na poesia de Peres, não remete à pessoa como fenômeno, como aquilo que aparece, mas como o próprio ser.

O interessante é que neste caso, nesta proposta poética, abre-se a cortina da filosofia. O ser do eu é também o ser do outro, ou quase. Há muito pouco do indivíduo na essência do ser. A herança ancestral que o ser carrega nas costas como fardo, como memória, sua única riqueza, é a mesma para todos, no escopo da condição humana. Neste sentido, Peres é universal.

O que é então o ser, nessa concepção? Se levarmos a sério a filosofia heideggeriana para ler Peres, a resposta está pronta. “O ser é mais longínquo que qualquer ente e está mais próximo do homem que qualquer ente”, diz Heidegger. Mas essa explicação não chega lá.

Segundo Heidegger, em Carta sobre o humanismo, que é uma espécie de texto introdutório ao seu pensamento, a filosofia ocidental ainda não tinha sido capaz de atingir a essência do agir, que, segundo ele, é o consumar. O consumar, por sua vez, é o desdobrar de alguma coisa até a plenitude de sua essência.

Heidegger, portanto, oferece ferramentas que, em sua opinião, seriam capazes de desdobrar os significados da palavra até a plenitude de sua essência, ou seja, capazes de penetrar o âmago da linguagem, escarafunchar o mínimo grão e descobrir a verdade do ser. A verdade do ser está na linguagem, está dentro da linguagem.

A linguagem é a casa do ser, mas não é propriamente ele quem mora ali. É o homem. Mas não qualquer homem, apenas pensadores e poetas. A linguagem é a casa do ser. Eis a máxima da poesia de Peres em Palimpsestos.

No poema Origami, esse conceito pode ser aplicado com propriedade, justamente porque é uma ideia do desdobrar-se. Peres sabe, e sente, que em algum lugar absconso no coração do ser a melodia reflui (alhures toca a música da vida). Neste caso, o poeta fala de amor. É a mulher amada se desdobrando, mas não sem dificuldade, como no amor mesmo. No poema, vê-se claramente um confronto entre o eu e o ela.

“eu,
de frente para um livro,
de frente para ela,
ou mesmo de frente para mim,
eu,
esse rumo,
muro,
onipresente e oniausente em cada agora
- entre eu e a coisa que me existe, esse fora
que, ao dizê-lo, me devolve: o outro,”

Peres é psicanalista, conhece bem as leituras da psicanálise desde a origem até chegar a Jacques Lacan, que inclusive foi seu objeto de dissertação de Mestrado na Universidade Federal de Goiás (UFG), quando o poeta comparou as teorias do psicanalista, que trouxe Heidegger e Nietzsche para o campo da psicanálise, com a poesia de Manoel de Barros.

(Este texto já foi publicado na seção Gibateca, da Tribuna do Planalto, em 22/07/2010)

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Prêmio São Paulo abre inscrições para 2011

Deu na Folha de S. Paulo deste sábado:

"Escritores e editoras podem inscrever qualquer obra de ficção do gênero romance publicada pela primeira vez em 2010 até o próximo dia 4/4. Os prêmios serão dados nas categorias de melhor livro do ano e de autor estreante. O regulamento completo está disponível em www.cultura.sp.gov.br e os vencedores serão conhecidos em 1º/8."

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Patti Smith: simplicidade e atitude


“Take me now baby here as I am/ pull me close, try and understand/ desire is hunger is the fire I breathe/ love is a banquet on which we feed.” Esta é a canção de Patti Smith que não me sai da cabeça já há alguns dias.

Alguém pode dizer que é a mais batida das canções de Patti, e é. Mas esse alguém também tem de reconhecer que a música tem lá sua pegada poética, uma sonoridade na letra que ecoa na própria melodia. Aliás, o verso "Love is a banquet on which we feed" (O amor é um banquete do qual nos alimentamos) relê Platão.

Por isso mesmo é a que mais me pega agora, porque Patti, leitora de Rimbaud e dos beats, fã de Bob Dylan quando saiu de New Jersey para Nova York, é cria da cultura punk. Os punks nos deram simplicidade e atitude na música.

No caso desta, o solo de piano é um chuvisco à noite. A noite que se abre aos amantes (da música, da vida), enfim. Mas o que me fez lembrar a poeta, cantora e compositora Patti foi seu livro Só garotos (Companhia das Letras, 2010, 240 páginas) e sua entrevista com Jorge Pontual na Globo News, na segunda-feira, 14. O livro fala de sua relação com Robert Maplethorpe, um de seus amigos e amores.

É só uma lembrança. Conheço algumas músicas de Patti, mas não estou imerso nessa cultura, sou um voyeur apenas. Provavelmente não vou ler o livro dela, porque não vou comprar (sairei perdendo, talvez). Se o encontrasse em alguma biblioteca, o leria por ali. São tantas leituras que ficam pelo caminho, à espera, como nós mesmos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O japonês e a lágrima imaginada


O belo filme Memórias de uma gueixa (2003), baseado no livro homônimo de Arthur Golden, mostra a transformação da mentalidade japonesa no cerne de seu comportamento cultural. Essas células divisórias mostradas no filme estão entre o antes e o depois da Segunda Guerra Mundial.

Antes se viam saquês nas celebrações dos japoneses nos momentos de lazer. No final do filme, após o atropelamento das forças aliadas sobre o velho Japão, uma das gueixas se torna prostituta. E já não é mais glamour, é decadência. Em determinada cena, ela sobe num avião americano com a garrafa de uísque na mão. Se eu fosse japonês, choraria nesse momento.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A escrita dolorosa de Akutagawa

Akutagawa (1892 - 1927): o mestre do moderno conto japonês


Nos últimos dez anos tem chegado ao mercado editorial brasileiro uma saraivada de livros japoneses, entre contos, romances, ensaios e poesia. Esse interesse cada vez maior do público leitor tupiniquim pela literatura fascinante que vem da seara nipônica reflete a qualidade das traduções diretas da fonte.

Nesse sentido, o leitor brasileiro tem acesso a um dos autores mais intrigantes e geniais do Japão, considerado o pai do conto japonês moderno, Ryunosuke Akutagawa. O fio delicado da loucura, a dor da miséria humana e a decadência moral, tudo isso se torna um poderoso signo poético em sua literatura. E tudo isso pode ser visto em Kappa e o levante imaginário (Estação Liberdade, 2010, 346 páginas, tradução de Shintaro Hayashi).

Nessa coletânea, o autor explora o lado sombrio e fantástico da existência. Seus personagens são todos cheios de vícios, possuidores de almas perdidas, são seres que se entregaram à miséria ou foram tragados por ela, seres que foram entregues à decadência por desencanto, muitas vezes, ou por falta de forças para lutar.

São almas desencantadas, mas descritas ou criadas de forma tão elegantemente bela, tão competentemente singular que o leitor logo penetra a surrealidade do autor e se encanta com sua magistral habilidade de fazer arte a partir da desgraça humana.

Ele mesmo teve um destino trágico. Ele mesmo nasceu e cresceu sob um desígnio fatídico de alta sensibilidade e desencanto. Sua escrita é dolorosa porque seu entendimento de mundo também o era. Akutagawa nasceu em 1892, em Kyōbashi, distrito da capital Tokyo, numa família supersticiosa ao extremo, a ponto de descartar o filho ainda bebê, porque acreditavam ter a criança nascido numa época imprópria.

Essa inadequação era traduzida pela idade dos genitores. O pai tinha 42 anos e a mãe, 33. Idades que revelavam azar, atraso de vida, e que não traziam nenhuma fortuna aos filhos gerados nessa ocasião, segundo a cultura japonesa, talvez pelo fato de haver a palavra “shi”, que quer dizer ‘quatro’, mas também ‘morte’, no primeiro caso, e a soma de três e quatro, que dá sete, mais uma vez trazendo o prefixo ‘shi’ para ‘shichi’ (sete).

Pode ser que a explicação seja outra. Os dados dos textos biográficos do autor (a que tive acesso) não fazem nenhum esclarecimento sobre essa superstição. Mas os japoneses sempre tiveram um temor em pronunciar as palavras com esse prefixo. Tanto é que ‘quatro’ (shi) na contagem cotidiana é dito ‘yon’, e sete se torna ‘nanna’. O mais intrigante disso é que a palavra ‘poesia’ em japonês também é ‘shi’.

Loucura

Em todo caso, em função desse medo em torno dos números reveladores, os pais decidiram abandonar o bebê na rua, mas de modo que os parentes soubessem e fossem buscá-lo para criar. Akutagawa foi adotado por um dos tios. Logo depois sua mãe foi internada num manicômio com transtornos mentais. Dois anos mais tarde, ela morreria como uma louca.

O garoto Ryunosuke Akutagawa cresce sabendo dessas histórias. Sua inteligência e grande habilidade com as palavras o levaram para a Universidade de Tokyo, em 1910. Em 1915 publica “Rashomon”, hoje um de seus contos mais conhecidos porque deu origem ao filme homônimo de Akira Kurosawa, embora haja também elementos de outro conto do autor, “No matagal” (ou Dentro do Bosque), ambos presentes na coletânea Kappa.

Com profundo domínio da língua e das técnicas de narrar, mestre do conto, Akutagawa plasma natureza e paisagem, vida e morte, como nenhum outro contista japonês. Sua prosa é de uma sobriedade e de uma nobreza admiráveis.

Ele soube como poucos atingir a essência da insanidade humana. Ainda tão jovem, conseguiu reproduzir alguns momentos de maldade, aquele tipo de mal que se sabe vir de algum lugar entre a obstinação e a loucura, mas também da negação do humano.

Em seus contos, cada som de palavra é trespassado pelos neutrinos da ironia, do silencioso riso de escárnio. Em “Kappa e o Levante Imaginário”, primeiro conto da coletânea e que traz o título do livro, o primeiro narrador se remete a um homem internado num hospício, o paciente 23, que, por sua vez, relata a experiência de ter vivido entre os kappas.

Morte

Os kappas são animais lendários do Japão, semelhantes a sapos bípedes, que vivem secretamente no fundo dos rios e que arrastam pessoas para lá. Ali, naquele estranho mundo, o homem diz ter vivido tempo suficiente para aprender a língua e todos os costumes deles. A rigor, são sátiras invertidas ou leituras sarcásticas da própria sociedade humana.

A certa altura, o paciente 23 se depara com a estrutura industrial do país dos kappas funcionando muito bem sempre, sem exército de reserva entre a classe operária, sem greves, tudo muito organizado. A explicação era simples. “É porque nós devoramos a todos”, diz Guel, “o capitalista dos capitalistas”.

Guel continua a explanação: “Os empregados despedidos são todos mortos e sua carne transformadas em alimentos. Veja este jornal. Este mês o desemprego atingiu exatamente 64.769 trabalhadores. Por isso, o preço da carne sofreu queda no mercado.”

Em outro momento, fica patente a dor e a revolta do próprio autor de ter nascido, sem ao menos ter tido o direito de dizer ‘não’. “Não há nada mais cômico para nós, seres humanos, do que o parto de um kappa”, comenta o paciente 23. “Digo isso porque fui assistir ao serviço de parto da esposa de Bag [um pescador] em sua cabana.”

“Antes do parto”, continua o paciente 23, “o que eles fazem é em tudo semelhante ao que fazemos, isto é, recorrem ao auxílio de médicos e parteiras. Mas, no instante do nascimento, o pai encosta a boca no órgão sexual da esposa e fala em voz alta, como se estivesse ao telefone: ‘Você quer mesmo nascer? Pense bem e responda!’”

“Sem fugir à regra, Bag também se ajoelhou e repetiu a pergunta diversas vezes para depois gargarejar com um líquido desinfetante que estava sobre a mesa. Então a criança no ventre materno respondeu timidamente em voz baixa:

“— Eu não quero nascer. Mesmo porque a herança genética de insanidade mental que há no sangue de papai por si só já é preocupante. Além disso, não me parece boa a existência ‘kappal’.”

Consciência

Mais do que qualquer outro escritor japonês, pelo menos dos que são publicados no Brasil, Akutagawa faz o leitor se deparar com a existência humana acima das diferenças culturais, sem deixar que estas fiquem ausentes, forçando-nos a lê-lo com olhos e espírito de leitor ocidental, claro, mas fixando em nós a essência da cultura nipônica.

Apesar da dor, da ironia e do cinismo que forjam esta escrita dolorida, sua literatura é cheia de vida. Há ali a presença mágica e intensa de um jovem espírito que se transpôs para as letras e deixou de viver fora das capas dos livros. A presença da morte e do sentimento suicida, como existe em toda inteligência, a reflexão sobre a morte, está tudo ali.

Mas há também a marca daquilo que se pode chamar de destino humano e a vontade de lutar contra o seu próprio destino macabro. A maioria de seus contos, incluindo quase todos os 11 presentes nesta coletânea, se refere ao passado japonês. Akutagawa era mestre em pescar um caso curioso da história de seu povo e fazer disso literatura.

Segundo Martin Seymour-Smith, um dos maiores leitores que o mundo ocidental já teve, crítico literário e poeta, Akutagawa foi essencialmente brilhante, “escritor extremamente sensível, que não pôde encarar a dolorosa experiência de lidar consigo mesmo na extensão de seu ser.”

Em vez disso, diz Seymour-Smith, “ele projetou sua psique, sempre mais ou menos criticamente equilibrada, aos elementos oferecidos pelos episódios fantásticos que ocorreram na história.” Akutagawa tinha mesmo um grande apreço pelo realismo mágico. Estava entre Dostoievski e Edgar Allan Poe, revelando uma curiosa mescla estética.

Distorção

Outro aspecto relevante de sua estética é o apreço pelo feio, horrendo, medonho, desarmônico, o interesse pela pobreza, pelos esquecidos, numa época em que a estética japonesa ainda corria pelos veios do clássico. Nesse sentido, parece ter despertado o interessante de outro grande escritor japonês, Yukio Mishima (1925 - 1970).

O templo do pavilhão dourado, de Mishima, recria uma história real, trazendo um jovem gago, feio, do pé torto, que fica fascinado com a beleza do templo que existe em Kyoto, em que ele acaba pondo fogo. A réplica do templo queimado ainda existe e é uma das maiores atrações turísticas da cidade.

As histórias de Akutagawa são quase todas também ambientadas em Kyoto, numa época em que a cidade ainda era a capital japonesa, que perderia o posto para Edo, que se tornaria Tokyo, cidade natal do autor e também anagrama da antiga capital.

Ao ler os contos de Akutagawa, o leitor realmente sente sua dor, o desespero cerrado na alma, como quem pede socorro. A literatura já salvou muita gente, é verdade. A literatura, em particular, e a arte, de modo geral, já suspenderam o sofrimento existencial de muitos espíritos. Akutagawa conseguiu essa façanha. Ele pôde ser salvo pelo pendor literário, mas só até os 35 anos.

Nesta idade, em 1927, o genial escritor japonês sucumbiu à fúria dos “deuses da vingança” e se matou, tomando uma overdose de remédio para dormir, num momento de profunda depressão, deixando para trás uma mulher e três filhos.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, em 6/02/2010)

Serviço

Título: Kappa e o levante imaginário
Autor: Ryunosuke Akutagawa
Editora: Estação Liberdade, 2010, 346 páginas
Gênero: Contos
Preço: R$ 47,00

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Editora brasileira quer processar blogueiro por crítica negativa? É o fim



Um blogueiro chamado Igor, editor de um blog bem badalado, Lendo e Comentando, com 1.498 seguidores, postou uma carta neste sábado, 5, que afirma ser de certa editora protestando uma das resenhas escritas por ele. Igor não diz quem é a editora.

No e-mail postado (leia aqui), tira o nome da pessoa e da empresa, mas no resto, escancara as ameaças delirantes. O post já saiu até no site de O Globo, se é que isso possa ser sinal de alguma credibilidade.

Parece que o garoto tem parcerias com várias editoras, é colunista da MTV e conhecedor de autores teens como Becca Fitzpatrick e Cassandra Clare. As editoras enviam livros para ele comentar. Mas esta editora em especial entende que o rapaz é obrigado a fazer comentários sempre positivos, elogiosos dos livros. É o fim.

OK, a parceria está firmada. Mas se quer mesmo elogios, mande sempre de Shakespeare para frente, e ainda assim corre o risco de o rapaz, que é fã de Harry Potter e dono de uma massuda biblioteca de 300 livros, não gostar do conteúdo que criou o humano e descer a lenha verbal. Qual é o problema? Qual é o maldito problema?

Sanando a possibilidade de ser esse e-mail um tremendo golpe de marketing, pondo de lado o fato de que não há nomes para se averiguar de que resenha se trata, qual é seu suposto conteúdo vergonhoso, vexatório, ordinariamente venenoso, não levando em conta o fato de que isso cria uma tremenda curiosidade de se lerem todos os posts do rapaz para instigar a imaginação a bater o martelo sobre uma ou duas possibilidades, atropelando essas vias possíveis, é lamentável uma atitude tão rasteira da editora, de alguém que faz livros.

No fundo, no fundo, algo de institivo me diz que isso pode ser mesmo uma espécie de marketing viral. Em todo caso, o blogueiro também tem de entender que se quer ser imparcial que vá comprar livros, não peça o mel à abelha para depois arrancar-lhe a casa.

Por outro lado, definitivamente, ameaças desta natureza, nem brincando. Entre os tiros que saem do rifle imaginário estão uma arrogante observação e uma raivosa e vingativa promessa:

“Somos de teoria que a finalidade de um blog é divulgar uma obra e não denegri-la.”

“Dessa forma, solicitamos que delete a referida resenha num prazo máximo de 72 hrs. Do contrário, nossa parceria será imediatamente finalizada e o nosso corpo judicial moverá ação contra o seu blog, pedindo o imediato fechamento desse.”

Onde essa pessoa pensa que está? Na China? Em Cuba? No Camboja do Pol Pot? Fala sério. Intimidar um blogueiro por causa de uma resenha desfavorável, realmente é o fim da humanidade. Daqui a pouco estarão censurando um lance de Twitter sobre poesia. Mas tudo isso deve ser uma grande blague.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

As feias não precisam se desculpar

Gina Lollobrigida em O Corcunda de Notre-Dame, clássico de 1956

Na literatura, “seria a beleza apenas o açúcar usado para adoçar um remédio amargo?” (Elif Batuman, in: Ilustríssima, FSP, 30 de janeiro de 2011). Não, de modo algum.

A beleza é o que o artista produz a partir de dados extraídos da imaginação, da realidade em volta, das verdades estabelecidas, dos fluxos de intriga e conflitos nascidos e sugeridos dentro da sociedade, da vida comum, da vida em solidão, da esperança, do desespero, da vontade de saber, de poder, de ser e até não ser.

A maneira como o artista trata tudo isso é a forma. O que ele consegue criar com tudo isso é o conteúdo. Não de modo tão simples. Forma e conteúdo, a coisa dita e o modo de dizê-la, são dois elementos que se constroem e se mostram inseparavelmente. Isso é literatura, é arte.

Há uma verdade, sempre plural, no interior da criação artística que para ser alcançada é preciso que se tenha disponível a consciência aberta, o sentimento sinestésico da vida, a capacidade de sentir pelos poros, a habilidade para captar sons, significados, cheiros, movimentos, cores, sabores, a espessura da carga verbal, a nervura dos objetos imaginados, como alguém capaz de sentir a presença do outro apenas pelos delicados filamentos de tecidos na planta dos pés.

Potencial

No caso específico da literatura, a imaginação, a inteligência treinada, a sensibilidade educada, o senso de observação do autor também devem estar no leitor, porque este tem de refazer o caminho daquele para se deliciar com tudo aquilo de que se falou anteriormente. Ler é colher cada palavra, cada som, para em seu conjunto oferecer um significado possível.

Na literatura, tudo isso se potencializa, porque a intenção do autor é aguçada e voltada para o plural, na vontade de tecer o mundo inteiro ao redor da vida recriada. A beleza não é só o belo. É também o feio, o ridículo, o mal, o bem, a torpeza (corroendo a alma) e a virtude (absconsa na lama).

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” (Vinícius de Moraes) é uma frase engraçadinha, mas sem valor estético, e até mesmo equivocada, porque beleza, ainda que seja fundamental, não é antônimo de feiúra. São duas coisas que existem independentemente, inclusive podendo ser a feiúra aquilo que há de mais importante numa estrutura de beleza, como toda a espinha dorsal de Flores do mal, ou O corcunda de Notre-Dame. As feias não precisam se desculpar.