terça-feira, 29 de março de 2011

O mais profundo dos risos ou dos pesares


Nota: Publiquei esta resenha no dia 29 de março de 2011, como se vê, sob o título O latido da prosa. Mas depois me desgostei do título. Acheio-o pouco expressivo, um trocadilho bobo. Mudei para o que se vê acima. Portanto, é o mesmo texto. Só o título é outro.

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A literatura contemporânea é cheia de trocadilhos e peças pregadas. Talvez sempre tenha sido assim ao longo da história. Mas é neste bojo que me encontro. É neste mar que pesco. É onde vejo e leio os parcos livros que consigo obter, entre uma luta e outra para garantir o pão.

Foi assim que me chegou às mãos um pequeno exemplar de maldades cotidianas, o livro Vida cachorra (Usina de Letras, 2011, 78 páginas), do carioca mariel reis (tal como assina o autor, amante das minúsculas). É uma bela peça. Um livro que imprime a marca da marginalidade, a voz dos esquecidos, a miséria sem grandeza, a confissão ordinária dos malditos.

São 12 contos forjados numa linguagem seca e rápida. Em alguns casos, os contos estão carregados de cinema e rap que convidam o leitor a uma espécie de dança ‘fenomelopaica’, como no que abre a coletânea, Absolvição. Aqui o narrador depõe seu crime a um suposto delegado.

Seduziu a enteada, ainda garota. Ao flagrar a filha com o marido, a mãe se desesperou e os esfaqueou, em meio a um jogo armado de sangue e baixeza. Tudo isso o narrador conta ao tal doutor. Ele está preso pela denúncia de estupro. O desfecho da história – mãe e filha alternando visitas íntimas ao criminoso – é a tônica da vida cachorra de cortinas abertas.

Os personagens de reis confessam os crimes, mas também o ambiente miserável onde vivem, onde se reconstroem todos os dias. Se a desgraça humana é obscena, pode ser descaramento falar dela com tanta naturalidade. É cinismo. E este é o ponto do projeto literário de reis.

Nivelamento

Se literatura é transgressão, o autor procura transgredir, não sem um senso estético. Mas sua matéria-prima já é pura dinamite. Dizer até onde ele chegará é o tipo de exercício que requer mais tempo de avaliação. Seus contos neste livro trabalham a vida marginalizada de modo horizontal, tudo está no mesmo nível, ou quase tudo.

O doutor ainda é doutor e senhor. O resto é “filho da puta mesmo”, cachorros, senhores da vida rota, sem nomes, sem donos. Um dos marcos desta horizontalidade é a maneira estilizada de narrar. A maioria dos personagens se parece, no trato com a narrativa, no tom da fala, do vocabulário.

Outro nivelamento é o texto inteiro em minúsculas (horizontalidade gráfica). Esta atitude, aliás, já parece ser uma tendência pós-cummings, que não cabe aqui a análise, mas é repetida por escritores como Whisner Fraga e o português valter hugo mãe (como reis, escreve o próprio nome em minúsculas e em seu último livro também tratou dessa representação zoomórfica).

No caso do cinismo como método expositivo, o autor tem lá suas referências, inclusive citando Michel Foucault na epígrafe. Mas vale lembrar o que diz Nietzsche, segundo o qual, os cínicos confessam ingenuamente a animalidade, a vulgaridade.

“O cinismo é a única força sob a qual as almas vulgares roçam o que se chama sinceridade”, diz o mestre destruidor de tudo. Eis uma chave para acessar o pequeno livro de reis. Em Absolvição, o personagem narrador fala abertamente sobre sua real condição.

Falar assim a uma autoridade é estar com a alma livre para não sentir o peso moral, nem a ameaça da lei. É como os cínicos. É um cinismo entre aquilo que se entende por cinismo hoje (só descaramento) e o conceito grego.

Para certa escola grega do século IV a.C., ser cínico era desprezar a riqueza e o prazer, acreditando que o objetivo do homem é a felicidade, mas a felicidade que consiste na virtude, sem adornos materiais, encontrada na simplicidade semelhante à vida dos cães de rua.

A voz dos marginais

Essa proposição cala na alma o mais profundo dos risos ou dos pesares, quando se olha para os pobres de hoje. Vida cachorra tem essa ironia, expondo a dicção dos homens sem tato, a voz dos marginais.

Ler o livro é como ouvir os entrevistados de Gil Gomes. Ainda em Absolvição, há duas lapadas retóricas entrecortadas pelas frases refinadas e certeiras de Tolstoi. “todas as famílias felizes se parecem, as infelizes o são cada uma à sua maneira.”

O interessante é que há ali um jogo de contrastes. No lugar em que se espera a felicidade, há o conflito. O conflito se instala no ambiente da paz, no ‘aconchego do lar’. Já na segunda parte, quando a infelicidade seria traçada, com o personagem na cadeia, quem reina no local de crise é a harmonia. Uma felicidade possível, contrária à felicidade dita pequeno-burguesa.

Neste sentido, o livro de reis é um outdoor que mostra o disparate de valores entre os que têm posses, que podem ser canalhas tanto quanto os outros, mas que podem se proteger, e os que não têm, fios desencapados, largados à margem. Sugere o fosso entre os vira-latas e os de pedigree.

Reis, editor do blog Cativeiro Amoroso e Doméstico, é um jovem autor que vem surgindo devagar no fluxo da nova geração de escritores brasileiros. Nasceu em 1976 no Rio de Janeiro. Cursou Letras na Universidade Estadual (UERJ) e já havia publicado um livro de contos, John Fante trabalha no Esquimó (Caliban, 2008, 80 páginas).

Além disso, está em Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira (AGIR, 2004, 102 páginas), junto com revelações interessantes, que já se tornaram celebridades das letras, por um motivo ou outro, como Tatiana Salém-Levy, Antonia Pellegrino, Cecilia Giannetti e João Paulo Cuenca.

Mantra

A esses jovens escritores, vale perguntar: o que dizem? como dizem? por que dizem? No caso de reis, sua literatura quer se firmar como um contraponto ao cânone, como todo jovem escritor que demonstra ter talento. Resta saber se vai conseguir se sustentar, pois ainda não dá para se fazerem previsões. Mas é possível ler seu texto sem o prejuízo do bocejo.

Esta literatura que retrata a vida cachorra demonstra outra coisa importante. As normas armadas pelo Estado democrático de direito nem sempre (ou quase nunca) têm a ver com o espírito da vida prática de quem vive à margem. Esta vida é regida por outras baquetas.

Vida cachorra também pode ser um mantra para quem tem medo de palavrão. Leia o livro em voz alta, interprete, faça-se passar pelo desvairado e violento ser que confessa seus crimes, entre eles, o de viver como um chutável cão de quinta categoria.

Em Amor filial, há o exemplo do riso cínico da vida. “estudei um pouco. terminei o científico”, diz anacronicamente o narrador deste conto. Ele pode até acreditar que isso seja um diferencial, e pode até sê-lo no ambiente em que vive. Mas na sociedade contemporânea, até os cursos superiores estão banalizados, que dirá o ensino médio público (certamente o caso do confessor).

O conto em questão fala de um rapaz, ex-presidiário, que morava com a mãe e o irmão gêmeo que sofria de transtornos psicológicos. Só os três. O rapaz é quem narra. Sua narração é um exemplo de como o autor se apropria de outras técnicas, como a do cinema.

Num dos trechos, o narrador diz: “cheguei em casa tarde. meu irmão não estava. minha mãe preocupada. teu irmão saiu e não voltou ainda. pra que lado ele foi? perguntei aos moleques da rua.” Veja como o plano muda de dentro de casa para a rua num átimo. Não é invenção de reis, mas é uma síntese, em todo caso. É uma montagem.

Há também a paródia sutil do posicionamento do personagem de Grande sertão: veredas. A diferença é que, enquanto Riobaldo fala a um homem considerado doutor tanto pela importância social quanto pelo título talvez de médico (talvez o próprio Guimarães Rosa), os personagens de reis falam a um doutor pela força da autoridade, não pelo respeito que se tem, mas pelo medo tácito, pelo poder do outro.

Essa abordagem é ao mesmo uma paródia e apenas a tônica da realidade. As pessoas simples, de frente para um delegado, por mais reles e ignorante que este seja, por mais canino, elas não hesitarão em chamá-lo de doutor, porque não verão nele seu igual, mas seu superior.

O doutor somos nós

O que a literatura de reis tem a dizer? É isso. Ela sugere com bastante contundência os meandros da vida cachorra. Mais do que isso, ela expõe, escancara, grita, late, berra. Ela é um pequeno tratado da maldade cotidiana, da maldade imposta sobre o homem, que a aceita, que a toma como inseparável companheira, por não ter o que fazer, por não saber como fazer diferente.

Cabe aos personagens argumentar sem esperança, numa postura aberta, trazer a face da desgraça humana como um espelho, em que os dois lados da moeda aparecem: os vira-latas e os de pedigree. Tudo isso é feito de modo consciente, uma consciência puxada desde a epígrafe de Michel Foucault, conforme o trecho abaixo.

“a parrésia é uma forma de crítica tanto ao outro quanto a si mesmo, mas sempre numa situação em que o crítico encontra-se numa posição de inferioridade em relação ao interlocutor. o parrésico é sempre menos poderoso do que aquele a quem dirige a palavra. a parrésia vem “de baixo” e se dirige a quem está “em cima”.

Nesse sentido, não só os personagens, mas também o autor se coloca humildemente como um deles. E nós, os leitores, somos o doutor. Nós a sociedade, somos quem está em cima. É uma provocação dos diabos. Aliás, Deus e o diabo na prosa de reis se encontram no mesmo nível gráfico, com menos poder de agilidade para o primeiro. “deus age devagar demais”, diz um dos personagens.

Bruteza

Dos 12 contos, um ou dois parecem não ter funcionado bem. Parecem ter fugido da tônica, como o Espírito natalino, em que um bandido vestido de Papai Noel deixa de matar a encomenda depois de conhecer o filho da vítima.

Há nesse conto um pathos incompatível com a vida canina proposta na espinha dorsal do livro. Tem pouca tensão e um desfecho frouxo. Em contrapartida, o conto Despejo oferece ao leitor fortes doses de ironia e bruteza humana. É narrado por uma senhora de 50 anos, analfabeta, moradora do Parque Felicidade, uma área ocupada ilegalmente.

A mulher foi despejada de sua casa, demolida pela Defesa Civil. Ela e sua neta (que fora abandonada pela mãe) ficaram sem teto. Nesse ínterim, “minha menina arruma um companheiro. o cachorro é pequeno, malhado. ela aperta o animalzinho. meu irmãozinho, vó. posso ficar com ele? fica.”

“vó. o que é. ele também nunca ficará sem casa. ah, é. por que? vou ser sempre a casinha dele. aquilo me deu um troço no peito, uma vontade de chorar. não sei bem direito por que.” Isso é cinismo do personagem. A velha sabe. E a situação toda é fruto do descaramento social e político. Viver é mesmo muito perigoso.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O livro e o filme

O site da Livraria Cultura traz sempre dicas interessantes para quem gosta de variar seus hábitos de leitura. A última deles é a lista do casamento entre livro e filme. A livraria pretende apontar os filmes mais interessantes que nasceram de livros interessantes.

É verdade que cada um de nós tem sua própria lista. É verdade também que ela faz isso para vender um tiquitinho a mais de livros. Mas vale dar uma espiada (aqui).

quinta-feira, 17 de março de 2011

O Belas Artes e a senhora do abaixo-assinado

Foto: Plínio Dondon

Lounge do Belas Artes, durante à noite, no famoso 'Noitão'


André Sturm, cineasta e diretor do Cine Belas Artes, que fecha as portas hoje, escreveu um emocionado texto sobre o Belas na seção Tendências e Debates da Folha de S. Paulo. Ele fala das inúmeras manifestações de cinéfilos contra o fechamento do cinema. Entre elas está a de uma senhora, que me fez replicar parte do texto aqui para circular mais pela internet.

Em tempo, para quem mora em São Paulo e quiser se despedir do velho Belas Artes, hoje à noite serão apresentadas as últimas seções.

"O Belas Artes não vai morrer hoje!

ANDRÉ STURM

(...)
O La Casserole [um bistrô que fica no Largo do Arouche] liderou junto a outros excelentes restaurantes da cidade a campanha ‘Tudo pode dar certo’. Um grupo de frequentadores e alguns funcionários criaram um abaixo-assinado.

Numa tarde, tomando café com uma amiga, notei uma senhora que convidava as pessoas a assinar. Então ela se virou para nós e perguntou, muito severa: ‘Jovens, vocês já assinaram?’. Fiquei sem graça de dizer quem eu era e de perguntar o nome dela, mas fica aqui meu muito obrigado a essa senhora e a todos os que colocaram seus nomes no abaixo-assinado. (...)"

quarta-feira, 16 de março de 2011

A poética do chão

Manoel de Barros (1916 - ) não pode ser descartado como pó de prateleira

Manoel de Barros não conquistou a crítica literária, ainda. Sua literatura não caiu nas graças dos acadêmicos, embora já haja trabalhos nesse sentido. Segundo ele, isso é o de menos, porque o que lhe interessa mesmo é o público leitor formado pela grande massa. O que ele quer é ser poeta popular, e isso ele já é.

Aliás, é muito mais. Manoel de Barros é hoje também um poeta de poetas. Não é para menos. Sua poesia põe de lado qualquer lembrança de leituras antigas, mesmo trabalhando os elementos mais primitivos do mundo. Tudo é novo, tudo se faz, num átimo, novidade. Ou quase tudo. Mas mesmo a popularidade entre o público leitor esperou uma caminhada de longos anos da poesia desse sulmatogrossense, que também é fazendeiro, nascido em 1916.

Seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, foi publicado originalmente em 1937. De lá para cá, muitos outros cada vez mais poéticos e originais se seguiram. Mas só em meados de 1990 é que a editora Record o descobriu de fato e começou a recuperar sua obra, reeditando todos os livros, além dos inéditos subsequentes.

Talvez não por coincidência, essa ‘descoberta’ se deu logo após o jornalista e crítico literário José Castello publicar no jornal O Estado de S. Paulo uma matéria sobre o poeta do Pantanal, em 1996. Mais tarde, Castello, que também é editado pela Record, foi a Campo Grande fazer uma nova entrevista pessoalmente. Essas histórias ele conta num ensaio chamado “Retrato perdido no pântano”, do livro Inventário das Sombras.

Castello, acostumado às teias da Psicanálise, escreve um texto em que se perde para, ao mesmo tempo, procurar a si mesmo e o poeta que ele costumava ler com devoção. Enquanto viajava de avião ao Mato Groso do Sul, procurava antecipar o homem por trás da poesia, mas, até encontrá-lo de fato, o que via era um emaranhado de preconceitos.

Seguia rumo ao Pantanal entre a ansiedade de ver o artista e o receio de encontrar não mais que um caipira talentoso com as palavras, mas sem a menor ideia do que fazia. “Tentarei me agachar no quintal ao seu lado”, graceja o crítico. “Talvez esteja envolvido demais com suas galinhas”, conjetura. O que encontraria quando chegasse?, era a pergunta de Castello. “Eu esperava um homem curvado com calças arregaçadas.”

Mas não foi isso o que aconteceu. Ao chegar, Castello é recebido “por um sujeito que veste impecáveis calças sociais, camisa de linho, óculos modernos. Ele mora numa casa de arquitetura arrojada, ainda que discreta, espremida em espaços estreitos e bem planejados”, diz um jornalista perplexo e aliviado.

A quebra de expectativa de Castello entre a poesia que lia e o autor que esperava encontrar é mais ou menos a mesma experiência que o leitor tem ao ler Manoel de Barros, a cada poema. Os títulos já denunciam um caráter diferenciado de sua poesia, que faz muita gente compará-lo a Guimarães Rosa, de certa forma, equivocadamente.

Compêndio para uso dos pássaros (1960), Gramática expositiva do chão (1966), Concerto a céu aberto para solos de ave (1991), Tratado geral das grandezas do ínfimo (2001) são exemplos de títulos de livros que já surgem como extensão poética dos versos encontrados lá dentro.

Laboratório

Em Poemas concebidos sem pecado, reeditado pela Record em 1999, para o leitor de hoje, é possível enxergar um futuro repleno de inquietação poética, que o autor ainda não sabe bem no que se tornaria, algo na base da transgressão moral e na contestação social, mas também no drible da gramática e do significado usual do verbo (a poesia arquitetada).

Mas uma coisa é certa e sabida. Neste livro, o poeta quer forjar a carga de sentimento, lembranças e invenções que, aos 21 anos, traz da recente infância. Todo escritor sabe que a primeira tradição do labor criativo são as reminiscências infantis. Manoel de Barros também tinha plena consciência disso.

Ele sabia que as lembranças de infância são um laboratório da escrita criativa, e com Poemas concebidos fez seu próprio laboratório. A frase do italiano Cesare Pavese, citada na orelha do livro de Barros, traduz essa intenção do fazer literário: “Não é belo ser criança, belo é, na velhice, lembrar do tempo em que éramos crianças.”

Enquanto morava no Rio de Janeiro para onde havia ido estudar Direito, Barros frequentava a Biblioteca Nacional, lia e escrevia. Foi em meio a noites alcoólicas e praias férteis que ele deu início a uma vida de escritura. Mas os costumes do campo, a lida diária, a vida (o trabalho, as brincadeiras de criança, as lendas, a saudade desse tempo), tudo está lá, como uma elaboração poética de sua infância.

Maria-pelego-preto é um aperitivo da poesia primeira de Barros, em que o leitor encontra a contestação, em meio à corrosiva dose de humor e desgraça, apenas um exemplo que fez Ismael Cardim dizer, num texto de apresentação do poeta: “A poesia de Manoel de Barros não induz ao sofrimento, embora nos agarre pelas tripas.”


Maria-pelego-preto, moça de 18 anos, era abundante de pêlos no pente.
A gente pagava para ver o fenômeno.
A moça cobria o rosto com um lençol branco e deixava pra fora só o pelego preto que se espalhava quase até pra cima do umbigo.
Era uma romaria chimite!
Na porta o pai entrevado recebendo as entradas...
Um senhor respeitável disse que aquilo era uma indignidade e um desrespeito às instituições da família e da Pátria!
Mas parece que era fome.


Ainda não está aí o salto mortal do verbo em transe, mas mantém-se intacta a crítica social, feita em 1937, que será vista em Gabriel García Márquez, matizes parecidos, com A Incrível e Triste História de Cândida Erendira e Sua Avó Desalmada, entre outros livros, e em O Baixio das Bestas, filme de Claudio Assis, de 2007.

Mais um exemplo da mesma verve é Antoninha-me-leva:

Outro caso é o de Antoninha-me-leva:
Mora num rancho no meio do mato e à noite recebe os vaqueiros tem vez de três e até quatro comitivas
Ela sozinha!

Um dia a preta Bonifácia quis ajudá-la e morreu.
Foi enterrada no terreiro com o seu casaco de flores.
Nessa noite Antoninha folgou.

Há muitas maneiras de viver mas essa de Antoninha era de morte!

Não é sectarismo, titio.
Também se é comido pelas traças, como os vestidos.
A fome não é invenção de comunistas, titio.
Experimente receber três e até quatro comitivas de boiadeiros por dia!


Desconhecedor

“Quando já maduro, Manoel enveredou pelo interior dos seres inúteis, dos lixos, dos ciscos e outras existências aparentadas com o homem”, diz Ismael Cardim. E é aí que as estripulias com a palavra começam a aparecer. “Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)”, escreve o poeta em O guardador de águas, de 1989.

“O esplendor da manhã não se abre com faca”, diz na primeira parte de O livro das Ignorãças, publicado originalmente em 1993. É um dos mais seminais de Barros, prontamente lembrado pelos leitores. “Poesia é voar fora da asa”, ensina o poeta, em cuja receita ainda é possível encontrar imperativos do tipo: “Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma”, ou “― Botar aflição nas pedras/ (Como fez Rodin).”

Nada menos ingênuo do que pensava Castello. Um poeta que se propõe a moldar o significado das palavras nesse nível, a ponto de fazer pedra se expressar que nem gente (prosopopeia mineral), não pode ser descartável como pó de prateleira. Tudo em sua poesia surge como num espanto. “O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que/ primeiro é água e luz. Depois árvore. Depois/ lagartixas. Apareceu um homem na beira do rio.”

Embora antes também já houvesse versos tão inventivos quanto, O Livro das Ignorãças talvez seja o grande livro de Manoel de Barros, o que sistematizou seu simbolismo do chão e do mato, e o levaria para o estrelato. Aqui, a ignorância é o vazio, que por sua vez é o lugar da mente criativa, o espaço destinado a perguntas limpas de certezas e isento de grandezas impeditivas.

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.

Mais adiante, uma lição absolutamente precisa de regressão para a compreensão da naturalidade das coisas:

Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

Poeta e fazendeiro

Na linhagem da existência de Manoel de Barros está um nome muito conhecido dos leitores de tratados ditos sérios, aqueles que explicam os fenômenos sociais mais complexos. O economista renomado e político Roberto Campos, autor de A lanterna na popa, era seu primo. Tal como Campos, Barros também nasceu em Cuiabá, mas foi criado até a adolescência em terras sulmatogrossense.

Filho de fazendeiro, gozava de certos privilégios que outros pantaneiros não têm, ou seja, oportunidades. Seu pai o enviou para estudar na Faculdade de Direito de Niterói. Mas não frequentava as aulas. Em vez disso, ia para a Biblioteca Nacional. Chegou a se formar e se tornar advogado, mas logo sentiu o drama da falta de vocação.

“O primeiro sinal desse desarranjo veio no dia em que, diante de um juiz togado, quando se preparava para começar uma defesa, vomitou em cima do processo”, reconta Castello, em Inventário das Sombras. Barros então desistiu e, já envolvido coma poesia, foi tentar a sorte de empresário, atividade em que se deu muito bem, mas também não era o que queria fazer.

Conforme ele mesmo conta em Paixão pela palavra, uma série documental da TV Futura, ainda na casa dos 20 anos tornou-se sócio na imobiliária de um médico amigo seu. Mas depois os dois venderam a empresa valorizada, e a parte de Manoel de Barros foi gasta em viagens. Foi quando passou um ano em Nova York estudando pintura e cinema. Torrou todo o dinheiro e voltou para o Rio.

Sua propensão para a boemia já delineava uma história de fracassos. Mas a essa altura, ao seu lado, já havia uma mulher, sua companheira de toda a vida. “Se eu não tivesse me casado com a Estela, teria morrido na sarjeta”, lembra o poeta. É que nessa época de juventude sem regras, o pai de Barros morreu em Campo Grande, e o poeta e boêmio quis vender tudo no Mato Grosso do Sul e continuar no Rio de Janeiro, mas Estela disse ‘não’. E os dois foram administrar a herança.

Hoje, aos 94 anos, Barros é quem mais vende livros de poesia no país. É tema do documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar, dá várias entrevistas e é valorizado pela nova geração de poetas como Fabrício Carpinejar, filho do grande poeta gaúcho Carlos Nejar, e o goiano Wesley Peres, cuja dissertação de mestrado na Universidade Federal de Goiás foi sobre ele.

Em 2010, a editora Leya Brasil comprou os direitos autorais que pertenciam à Record. O resultado é o relançamento de toa sua obra individualmente e um livro intitulado Poesia Completa.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, em março de 2010)

domingo, 13 de março de 2011

Os frasistas

Eco e Carrière: dois grandes leitores e frasistas

Não contem com o fim do livro (Record, 2010, 272 páginas, tradução de André Telles) é um diálogo entre duas inteligências: o historiador por formação, roteirista e escritor Jean-Claude Carrière, e o escritor e semiólogo Umberto Eco. Na conversa dos dois podemos pescar várias frases interessantes.

Sobre Eco, até que já sabemos mais sobre suas tiradas. É Carrière que me surpreende nesse livro. Autor de roteiros de filmes inesquecíveis como O fantasma da liberdade e Esse obscuro objeto de desejo, de Luis Buñuel, ele também é um grande frasista.

Eu já havia percebido alguns lampejos de suas frases em Prática do roteiro cinematográfico, que publicou junto com Pascal Bonitzer. Ali, é possível lermos coisas do tipo: “Se um autor escreve apenas para si mesmo, que não venha depois queixar-se de ficar sozinho.” Realmente gostei disso.

“O cinema é o homem que chega a cavalo numa cidade do Oeste e nada sabemos a seu respeito. Aos poucos, ele vai se definir, pelos gestos e os olhares.” Também esta se lê na Prática do roteiro.

Já em Não contem com o fim do livro, pela natureza da conversa, em torno de livros, linguagem e cultura, o relevo de suas frases é mais constante. “A técnica não é de forma alguma uma facilidade. É uma exigência”, diz Carrière a propósito da diferença de linguagem entre romance e roteiro, ou seja, literatura e cinema.

Vejamos uma série de ambos.

Jean-Claude Carrière

O saber é tudo com que somos entupidos e que nem sempre tem uma utilidade. O conhecimento é a transformação de um saber numa experiência de vida. Não sei se concordo com ele. Acho que o significado disso está na inversão do significado que se dá a conhecimento e saber. Mas é um diálogo.

O gênio isolado parece inconcebível. (...) Se um autor quiser evitar ser vítima de uma filtragem, é aconselhável que se alie, se filie a um grupo, que não fique isolado.

Cada época tem sua verdade de um lado e suas notórias imbecilidades do outro.

Ninguém chama impunemente o outro de imbecil sem se dar conta de que a burrice alheia é nada menos do que um espelho que nos reflete. Um espelho permanente, preciso e fiel.

O futuro dos ditadores é sombrio. Eles terão que agir numa escuridão profunda. Disse isso a respeito da permeabilidade da internet, que não reconhece censura por muito tempo. Nesse sentido, pode ser um contra-argumento ao que diz Umberto Eco sobre a internet também, e que pode ser lido mais abaixo.

Se quiser que se lembrem de você, você tem que escrever. Escrever e providenciar para que seus escritos não desapareçam em alguma fornalha.

Nada mais fácil de travestir do que a verdade.

A palavra não passa de uma porção irrequieta da frase, uma viela rumo ao sentido, uma vertigem da ideia que passa. Bravo! É uma bela frase, mas receio que não seja bem assim.

A palavra se isola e se entrelaça com absolta facilidade, se tornando grito e sussurro num átimo, arma e bálsamo, veneno e cura. Só a palavra, apenas ela. Na frase ou solitariamente, a depender do texto ou do contexto.

Umberto Eco

Qualquer discussão entre nós só pode se dar tendo como base uma enciclopédia comum.” Mais adiante ele sugere que a internet está no contrapé desta ideia, porque, segundo ele, a internet “contribuiu para o esfacelamento da experiência comum.

Neste caso, concordo em parte, porque, a meu ver, a internet é uma espécie de quarto escuro da consciência, em que há muita gente, ou todo mundo, podendo entrar mais, ou sair, a qualquer momento. Mas só se sabe disso ao acender a luz, como quando se acessa um site, ou um blog, enfim.

Por outro lado, pela perspectiva do oceano da informação, cada um tem sua ilha. E é aí que concordo com Eco. A internet pode afastar as pessoas da experiência comum, pode alienar o sujeito da afetividade, por exemplo. Mas também pode fazer o contrário disso. É o pluriverso.

Coleciono, como já disse, tudo que se refere à ciência falsa, charlatã, oculta, bem como às línguas imaginárias. (...) Sou fascinado pelo erro, pela má-fé e pela estupidez.

A religião é a cocaína do povo. Ela excita as massas.

Uma coleção de livros é um fenômeno masturbatório, solitário, e você raramente encontra pessoas com quem dividir sua paixão.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Crônicas diacrônicas


Segundo a escritora, jornalista e educadora carioca Rosiska Darcy de Oliveira, “nenhum espelho revela melhor a identidade que o exílio”. Talvez por isso, o primeiro texto de seu mais recente livro, Chão de terra (Rocco, 2010, 192 páginas), comece falando de uma mulher que volta às origens, depois de tanto tempo vivendo fora do Brasil.

O livro é uma coletânea de crônicas deliciosas em que a autora rememora o passado e avalia o presente, às vezes com um personagem narrando em terceira pessoa, às vezes retomando a narrativa confessional. Assim, ela vai costurando o tempo com as lembranças, vindo da infância até chegar a dias mais recentes, com um absoluto domínio do prosaico.

O interessante é que, ao fazer uma viagem para dentro de si mesma, a identidade revelada é de todos os contemporâneos. Não importa se já tenha vivido tanto quanto a autora nascida em 1944, ou seja, independente de o leitor ser jovem, uma ou outra história acaba batendo com o santo de quem lê.

O título Chão da terra recupera o velho mote mítico, segundo o qual, se tocarmos o chão com os pés nus, com as mãos ou qualquer parte do corpo, vamos resgatar o contato com a mãe Natureza e receber dela uma nova cota de vigor. O ato de tocar na madeira três vezes para isolar maus fluidos vem dessa ressonância mitológica desde Anteu.

Este era um gigante filho de Geia (ou Gaia), que recobrava as forças sempre que tocava na terra sua mãe. O herói Hércules lutou com Anteu e só o venceu depois de descobrir o truque e o suspender pela garganta até que o gigante morresse. Mas o ensinamento de que esse contato com a Natureza recobre forças continua.

Ironicamente, apesar da sabedoria popular, a recomendação dos pais ‘civilizados’ do interior e da capital é que as crianças não se afundem na terra da rua, nem dos quintais, não mergulhem na lama das chuvas, em brincadeiras aventurosas.

Nas grandes cidades, principalmente nos dias de hoje, essa recomendação é quase desnecessária, por falta de espaços e também porque se tem medo da violência de toda ordem. Neste caso, nem se adotassem tal filosofia, não se sentiriam confiantes de deliberar tal ato de liberdade a seus filhos.

Em todo caso, chafurdar na terra e brincar com os riscos causados pela Natureza é tudo que se gosta de fazer quando se vive uma infância ativa. Não era diferente com a menina que narra as crônicas nos primeiros textos do livro de Rosiska. Mas, sua mãe também a proibia de brincar na terra.

A proposta de Rosiska, ao começar justamente com o texto que leva o título do livro, reside nesse jogo de contradição (espaço geográfico, lugar da infância, terra natal, memória e espaço mítico). Dos aprendizados do chão também advém a lição dos sonhos.

Na crônica homônima, vê-se o encontro da mulher que viveu longe de seu passado e agora o reencontra. “Uma chuva banal num fim de tarde, um concerto de Rachmaninoff que ninguém tocou mas ela escutou, passos no chão molhado e, de repente, a vida, simplesmente a vida, como sempre deveria ser, e todo o resto nada mais que enganos.”

As lembranças de Rosiska fluem por esse caminho, chuviscando a memória de uma vida passada replena de acontecimentos que deram a ela a experiência necessária de afeto, de convivência e de comunicação. Em muitos outros textos vemos como trabalha a percepção infantil, em que a fantasia se alia à criatividade para criar fatos novos.

Nesses textos sobre a infância, Rosiska nos mostra como a criança cria outros modos de perceber a realidade adulta, que, por sua vez, é cheia de mentiras, de intenções dúbias. À medida que os anos passam para a autora, os textos acompanham a vida com outro olhar, numa nítida visão autobiográfica. Não sem antes o olhar sobre o meio ambiente, as questões sociais e trabalhistas e as relações humanas.

Aparências

Na crônica intitulada As turcas, por exemplo, a menina que narra fica fascinada pela cultura geral das vizinhas de quem a mãe dela quer manter distância. As turcas eram de uma “família libanesa, de imigração recente e pouco dinheiro, mas uma cultura ancestral resistente como os cedros.” Dessa relação conflituosa, a menina aprendeu o que era preconceito, mas também aprendeu a lidar com o diferente.

“Eu não sabia o que pensar das turcas, malditas na minha família, mas que ouviam músicas que me exaltavam e que aprendi a cantarolar”, diz a menina. Ela quis aprender a tocar piano com as vizinhas, mas sua mãe insistiu no veto, provocando brigas ruidosas que levaram as turcas a torceram o nariz também para a principal interessada.

“E foi assim que não toquei piano e desconfiei que minha família não gostava de gente, mesmo afável, que falava esquisito. O que redundou numa aprendizagem que me foi muito útil, já que na vida, com o passar do tempo, sempre nos transformamos nas turcas de alguém e, portanto, não me surpreendi quando, mesmo sendo afável, encontrei quem não gostasse de mim porque eu falava esquisito”, diz a menina, ou a mulher que se lembra de sua infância, cheia de aprendizados.

Além de ter um excelente texto, comprovado em suas crônicas e livros sobre sociologia da educação e em romances (regidos por outra cartilha narrativa), Rosiska tem muito o que ensinar pelo que viveu e como viveu. Estudou com Piaget, ao fazer doutorado em educação na Suíça, na Universidade de Genebra, e trabalhou com Paulo Freire.

Talvez tenha sido com esses mestres que aprendeu a se comprometer com a vida de um modo intenso. Hoje, Rosiska é atuante nas causas sociais, principalmente na área de educação e nas políticas de ações sociais. É presidente-executiva da ONG Rio Como Vamos, iniciativa que monitora e cobra a gestão municipal na cidade do Rio de Janeiro, e tem parcerias em várias outras cidades, onde se faz o mesmo, inclusive em Goiânia.

Ciúme

Em Chão de terra, suas crônicas não ficam apenas no terreno da memória. Do meio para o fim, aparecem reflexões interessantes sobre diversos temas, como o ciúme. Com clareza de espírito, a autora defende a tese de que mesmo hoje, em meio à liberalidade excessiva, o ciúme reina com domínios amplos sobre o sujeito.

“Querem me convencer de que o ciúme saiu de moda. Ao que parece, se fosse palpável estaria no museu, para o lenço de Desdêmona numa caixa de vidro iluminada.” Mas é tudo fingimento, diz a cronista. “Nasci com um detector secreto que capta desesperos surdos e mentiras bem guardadas”, diz.

“O ciúme não está em extinção”, observa. “Percebo a mulher que disfarça bem a angústia de comparar-se com outra que sabe ser mais bonita, e passa a festa toda com um jeito cool mas um olhar aflito, fazendo a ponte entre ela e seu namorado, adivinhando ou inventando o que vai na alma do sujeito, que, preocupado com o resultado do futebol, ignora a sedução ameaçadora que as mulheres bonitas exercem sobre as outras.”

E assim segue uma sucessão de crônicas que valem a leitura. Ao longo dos textos o leitor também pode se deleitar com as construções de frases bem ritmadas da autora. “As gaivotas planam elegantes, depois de um bater de asas aflito, sobre o mar de Copacabana.” Ou “Imóvel, meu balão pingava lágrimas de fogo sobre o teto da casa.”

No bojo das reflexões de Rosiska, há espaço para falar de amor, feminismo, literatura, artes em geral e identidade, onde mora o centro de sua atenção. Cada texto se lança ao leitor num viés de identidade, numa costura interessante entre consciência e situar-se no mundo. Bravo!

(Gilberto G. Pereira. Originalmente publicado na Tribuna do Planalto)

Serviço

Título: Chão de terra
Autora: Rosiska Darcy de Oliveira
Editora: Rocco, 2010, 192 páginas
Preço: R$ 28,00

sábado, 5 de março de 2011

Virando a página



O cinema deve estar se sentindo em paz. Desde que a indústria da informática começou a lançar novas ferramentas de armazenagem de conteúdo, acopladas à internet e a todo o universo digital, não se fala mais no fim da sétima arte, a propósito de qualquer bugiganga que aparece.

O interesse agora é discutir se o livro se manterá de pé com a chuva de tablets e e-readers de toda natureza. O mundo letrado inteiro vai migrar para essas novas mídias. O papel vai virar fumaça. Bibliotecas valiosas serão uma espécie de museu da inteligência. Tudo será acessado na virtualidade, dizem.

Este também é o assunto de Não contem com o fim do livro (Record, 2010, 272 páginas, tradução de André Telles), em que o italiano Umberto Eco (79 anos) e o francês Jean-Claude Carrière (80) travam um delicioso bate papo com mediação do jornalista Jean-Philippe de Tonnac, que também é francês.

Mas ao contrário das variadas previsões sobre o fim do livro, os dois respeitados anciãos, dois grandes leitores e homens profundamente marcados pela erudição literária, argumentam no contrapé dessas profecias:

“Os cassetes magnéticos, como sabemos perdem as cores (...). Os CD-ROMs chegaram ao fim da linha. Os DVDs não terão vida longa. (...) Ainda poderemos ler livros, durante o dia, ou à noite à luz de uma vela, quando toda a herança audiovisual tiver desaparecido”, diz Carrière.

O martelo e o livro

Embora esteja mais próximo do cinema, roteirista de renome que é (com roteiros para Buñuel e Godard), Carrière fez sua carreira a partir de uma intensa vida ligada aos livros. Além de ser bibliófilo, tendo em casa duas mil obras antigas e raras e mais de 30 mil volumes de publicações modernas, também é historiador de formação.

Entre os argumentos preferidos dos dois interlocutores está a lista de objetos que não podem mais ser modificados nem ignorados pela civilização moderna. Segundo Carrière, “o livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. (...) Talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é.”

Eco, sem querer aqui abusar do infame trocadilho, ecoa as palavras do colega: “Bicicleta, óculos [também estão nesta lista]. Para não falar da escrita alfabética. Uma vez alcançada a perfeição, impossível ir mais longe.”

Neste sentido, o próprio livro já vem dessa espécie de palimpsesto. A palavra tem origem na segunda acepção do radical ‘livr’, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Vem do latim ‘liber’, que quer dizer “película que se acha entre a madeira e a casca exterior, o líber sobre o qual se escrevia antes da descoberta do papiro.”

Para a palavra se tornar metonímia do próprio material e representar o objeto foi questão de uso diário. Hoje quase nada existe daquela técnica, nem mesmo da maneira como se escrevia nos rolos de papiro, sem pontuação e outros recursos gráficos que dão o tom da escrita moderna.

Mesmo com tantas mudanças, com a invenção da imprensa de Gutemberg, por exemplo, a ideia de livro não morreu, pelo contrário, se fortaleceu e ganhou linha de montagem cada vez mais sofisticada. Ou seja, os argumentos se sustentam, embora paire sobre mim a pesada desconfiança de que daqui a cem, duzentos anos, o livro de papel esteja para os homens futuros como o papiro está para nós.

Já leu tudo isso?

A graça de Não contem com o fim do livro é o diálogo plural travado entre os dois homens. O debate é alimentado por Tonnac, que lança perguntas ora provocativas, ora reflexivas. Em um desses casos, ele questiona: “Vocês citaram, durante essas conversas, inúmeros títulos, variegados e às vezes espantosos, mas uma pergunta, por favor: vocês leram esses livros?”

A pergunta parte de uma indagação comum que todo colecionador de livros, por menor que seja seu acervo, escuta de suas visitas. E assim nos deparamos com respostas interessantes. Por exemplo, Umberto Eco diz “confesso que vim a ler Guerra e paz apenas aos 40 anos de idade. Mas sabia o essencial dele antes de lê-lo.”

“À pessoa que entra na sua casa pela primeira vez”, diz Eco, “descobre sua imponente biblioteca e não acha nada melhor para lhe perguntar a não ser: ‘você leu todos?’. Conheço várias maneiras de responder. Um amigo respondia: ‘mais, cavalheiro, mais.’”

“Quanto a mim”, continua o autor de Seis passeios pelo bosque da ficção, “tenho duas respostas. A primeira é: ‘Não. Esses livros são apenas os que devo ler semana que vem. Os que já li estão na universidade.’ A segunda resposta é: ‘Não li nenhum desses livros. Senão, por que os guardaria?’”

Na continuidade do assunto, Carrière costura uma sábia observação: “A finalidade não é ver a todo custo ou ler a todo custo, mas saber o que fazer com essa atividade e como extrair dela alimento substancial e duradouro.”

“Uma biblioteca”, segue o roteirista, “não é obrigatoriamente formada por livros que lemos ou livros que um dia leremos, é fundamental esclarecer isso. São livros que podemos ler. Ou que poderíamos ler. Ainda que jamais venhamos a lê-los.”

Homenagem

Não há dúvida de que a conversa entre os dois é uma homenagem ao livro para mostrar “que as tecnologias contemporâneas estão longe de havê-lo desqualificado”, para citar Tonnac, que se insere nesse quadro de amantes da leitura.

Mas Tonnac demonstra ser mais comedido no respeito às novas tecnologias, mesmo porque nenhuma delas descaracteriza a ideia de livro. “O filme matou o quadro? A televisão, o cinema? Boas-vindas então às pranchetas e periféricos de leitura que nos dão acesso, através de uma única tela, à biblioteca universal doravante digitalizada”, diz o mediador, na introdução.

Não contem com o fim é um debate emaranhado de assuntos. Fala de linguagem, de suas formas de armazenamento e da ameaça das novas tecnologias. Seus autores também exercitam previsão, lançam olhares para todos os lados e alinhavam passado e futuro, diluindo o presente numa conversa flutuante e deliciosa.

Em uma dos capítulos, eles tratam da noção de cultura que poderia ser preservada caso houvesse uma catástrofe natural e tivéssemos tempo de salvar apenas mínimas partes de nosso acervo. Em outro falam de suas coleções de incunábulos (livros pré-Gutemberg).

Ainda em outro capítulo, falam da demasiada pureza do cânone, muitas vezes em prejuízo à própria ideia de pluralidade cultural. “Talvez tenhamos saboreado na escola uma literatura demasiadamente filtrada e, por esse motivo, carente de sabores impuros”, analisa Carrière.

Um assunto, em particular, rende bastante interesse de colecionadores. O valor dos livros raros, entre eles os incunábulos. “Há incunábulos que agora custam milhões de euros e outros que você consegue adquirir por algumas centenas”, diz Eco.

Ele relata a história sobre um incunábulo de Ptolomeu, pelo qual o livreiro pedia 100 mil euros. Mas Eco não tinha esse dinheiro e, embora com muita vontade, acabou não comprando, imaginando que teria dificuldade de revendê-lo se fosse preciso. Três semanas depois, outro raro exemplar do mesmo Ptolomeu foi vendido num leilão por 700 mil euros.

Valores

O sonho de todo colecionador, comenta Umberto Eco, é adquirir uma Bíblia de Gutemberg [ou do Fólio de 1623, de Shakespeare]. Mas não existem exemplares da Bíblia de Gutemberg no mercado, segundo ele. “Estão todas agora nas grandes bibliotecas.”

O escritor comenta que viu duas dessas Bíblias na Pierpont Morgan Library, de Nova York. “Toquei numa na Biblioteca do Vaticano. A última cópia conhecida no mundo foi vendida, há uns vinte anos, para um banco japonês por, se bem me lembro, 3 ou 4 milhões de dólares da época.”

Quem ama, quem lê, ou aquele que ainda vara ruas e noites, cidades e países inteiros à procura de um livro, pela raridade, é o principal público desse diálogo entre Eco e Carrière. O primeiro, em 2010, apareceu no Brasil no bojo de uma enxurrada de publicações, entre reedições e novos projetos, como A vertigem das listas e Arte e beleza na estética medieval.

Já Carrière, autor de mais de 80 roteiros, entre eles Cyrano de Bergerac e Esse obscuro objeto de desejo, também tem assídua presença no mercado editorial brasileiro. Seu livro mais recente é uma coletânea de contos estrangeiros, que ele apenas organizou, chamado Contos filosóficos do mundo inteiro.

Esse bate papo magnífico, dinâmico e cheio de vontade de falar de cada uma das partes vale a pena ser lido até por quem se interessa só pela contemporaneidade. Tudo é debatido. Muita ‘profecia’ é cantada. Entre elas a de que “o futuro dos ditadores é sombrio. Eles terão que agir numa escuridão profunda”, em referência a quase onisciência da internet e do celular ligado a ela.

As palavras de Carrière eram uma generalidade a respeito da vigilância estreita sobre os atos espúrios da humanidade, entre eles, os atos políticos. Bem antes da onda de protestos que vem assolando o mundo árabe há cerca de um mês. A ironia, num debate sobre livros, é que eles, em conflitos com o poder, são sempre os primeiros a serem queimados.

(Gilberto G. Pereira. Originalmente publicado na Tribuna do Planalto, em 5/03/2011)

Serviço

Título: Não contem com o fim do livro
Autores: Umberto Eco e Jean-Claude Carrière
Editora: Record, 2010, 272 páginas
Gênero:
Preço: R$ 39,90