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Não há espaço para ódio neste blog. Eventualmente uma ranzinzice crítica. Mas o amor às narrativas é o grande juiz aqui, a peneira vigente desta plataforma. Este é o lugar da paixão movedora de interesses afetivos.
sexta-feira, 20 de março de 2026
Mais 32 frases de Grande sertão: veredas – a sabedoria de Riobaldo 2
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terça-feira, 10 de março de 2026
Exercício de tradução - blues em preto e branco, de May Ayim
May Ayim (1960-1996) é uma poeta afro-germânica, conhecida no Brasil mais pelo esforço acadêmico de alguns pesquisadores e por internautas do que por interesse editorial. Ela viveu uma vida cheia de altos e baixos, e teve um fim trágico.
Filha de mãe branca alemã (Ursula Andler) e pai negro ganês (Emmanuel Ayim), que estudava medicina em Hamburgo, foi separada dos pais ainda bebê, entregue pela mãe para um casal de alemães brancos, enquanto o pai voltava para Gana. Os novos pais a chamaram de May Opitz, e a criaram até os 19 anos, quando foi expulsa de casa, depois de anos de maus tratos, segundo a própria May.
Já adulta, ela chegou a conviver com o pai biológico e com a família dele, passando a assinar May Ayim, mas continuava morando na Alemanha, onde estudou, fez graduação e mestrado, com uma importante pesquisa sobre mulheres afrodescendentes na Alemanha e a violência do racismo.
Aos 36 anos, sofreu um colapso mental, por estresse, e foi diagnosticada com depressão. Tentou o suicídio uma vez, tomando overdose de remédios, foi atendida pelos médicos, mas na segunda tentativa, pulou do 13º andar de um prédio e morreu, em Berlim.
O poema a seguir é de 1990, traduzido do alemão (blues in schrvarz weiss) para o inglês por Tina Campt, e em português por mim, como exercício de tradução. Mas foi retirado da abertura de Blues in black and white: a collection of essays, poetry and conversations, de 2002, com tradução para o inglês de Anne V. Adams.
.....//
blues em preto e branco
May Ayim
Tradução de Gilberto G. Pereira
de novo uma vez mais
há os que são
seperados, vendidos e distribuídos
os que sempre são, foram, e sempre serão os outros
de novo uma vez mais
os realmente outros se autodeclaram
os únicos verdadeiros
de novo uma vez mais
os realmente outros declaram contra nós
a guerra
é o blues em preto e branco
1/3 do mundo
dança sobre
os outros
2/3
eles celebram em branco
nós celebramos em preto
é o blues em preto e branco
é o blues
uma alemanha reunida
se celebra em 1990
sem seus imigrantes, refugiados, judeus e negros
celebra no seu círculo íntimo
celebra em branco
mas é o blues em preto e branco
é o blues
alemanha unida, europa unida, estados unidos
celebram 1992
500 anos desde colombo
500 anos – de escravidão, exploração e genocídio nas
américas
ásia
e áfrica
1/3 do mundo se une
contra os outros 2/3
no ritmo do racismo, do sexismo e do anti-semitismo
eles querem nos isolar; eliminar nossa história
ou mistificá-la ao nível do
irreconhecimento
é o blues em preto e branco
é o blues
mas estamos conscientes disso – estamos conscientes
1/3 da humanidade celebra em branco
2/3 da humanidade não entram na festa
.....//
blues in black and white
May Ayim
over and over again
there are those who are
dismembered, sold off and distributed
those who always are, were, and shall remain the others
over and over again
the actual others declare themselves
the only real ones
over and over again
the actual others declare on us
war
it's the blues in black-and-white
l/3rd of the world
dances over
the other
2/3rds
they celebrate in White
we mourn in black
it's the blues in black-and-white
it's the blues
a reunited germany
celebrates itself in 1990
without its immigrants, refugees, Jewish and black people
it celebrates in its intimate circle
it celebrates in White
but it's the blues in black-and-white
it's the blues
united germany united europe united states
celebrates 1992
500 years since columbus
500 years — of slavery, exploitation and genocide in the
americas
asia
and africa
l/3rd of the world unites
against the other 2/3rds
in the rhythm of racism, sexism, and anti-semitism
they want to isolate us; eradicate our history
or mystify it to the point of
irrecognition
it's the blues in black-and-white
it's the blues
but we're sure of it — we're sure
l / 3 r d of humanity celebrates in White
2/3rds of humanity doesn't join the party
terça-feira, 3 de março de 2026
Exercício de tradução - Canção de raiz, de Henry Dumas
O poema Canção de raiz é do afro-americano Henry Dumas. Está no livro Knees of a natural man – the selected poetry of Henry Dumas. O poeta morreu em 1968, aos 33 anos de idade, assassinado pela polícia, num Metrô de Nova York. Segundo Toni Morrison, Dumas era dotado de um gênio absoluto para a poesia.
Minha tradução é um mero exercício, sem a pretensão de trazer para o português toda a carga semântica e poética do original que possa revelar o gênio do poeta, que talvez nem esteja tão aberto e exposto assim no poema em questão. Mas logo abaixo da tradução, o leitor tem a oportunidade de ler o original.
Canção de raiz
Henry Dumas
Tradução de Gilberto G. Pereira
Quando eu era árvore
a carne veio e orou em minhas raízes.
Meus ancestrais dormiram em meus
galhos estendidos e ouviram a carne
rogando e rezando ajoelhada.
Quando eu era árvore
o sol africano me acordou verde no amanhecer.
O vento africano penteou os ramos de meus cabelos.
A chuva africana lavou meus galhos.
O solo africano nutriu meu espírito.
A lua africana olhou por mim à noite.
Quando eu era árvore
a carne veio fazer sacrifício no meu tronco,
a carne veio para proteger minha voz,
a carne veio para honrar meus galhos
como tambores, como canoas, como máscaras,
como catedrais e templos de deuses ancentrais.
Agora a carne vem com dentes de metal,
com bastões que cortam,
e lança-chamas,
e a carne me derruba
e escraviza meus galhos para construir
fortes, navios, assentos para outros deuses,
paliçadas, curral de corpos,
e cruzes fincadas no alto para sacrificar deuses.
Agora a carne ri de minha forma vencida e em
chamas, me jogando na lama, queimando-me no fogo.
Agora a carne não ouve mais a voz
dos espíritos falando por meio de meus galhos.
A carne fez-se tédio aos ouvidos, agora.
A carne ficou pálida e preguiçosa.
A carne pecou contra os ancestrais.
Se a carne me ouvisse, eu lhe diria
que os espíritos estão descontentes
e estão planejando algo contra ela.
Mas a carne acha que estou morta, queimada e finda.
A carne acha que pode matar com fogo,
acha que, com dentes de metal, eu morro,
acha que me acorrentando em templos alheios
com novos deuses cravados na minha pele,
acha que todas as vozes
atadas da raiz aos galhos estão silenciadas,
acha que me derrubando,
não vou mais cantar e dançar,
mas a carne é preguiçosa e gorda.
A carne não sabe que ela
não me deu a vida,
nem que não pode me tirá-la.
Isso é o que o espírito canta agora.
Já é tempo de a carne
se ajoelhar de novo!
.......
Root Song
Henry Dumas
Once when I was tree
flesh came and worshiped at my roots.
My ancestors slept in my outstretched
limbs and listened to flesh
praying and entreating on his knees.
Once when I was free
African sun woke me up green at dawn.
African wind combed the branches of my hair.
African rain washed my limbs.
African soil nourished my spirit.
African moon watched over me at night.
Once when I was tree
flesh came to sacrifice at my foot,
flesh came to preserve my voice,
flesh came honoring my limbs
as drums, as canoes, as masks,
as cathedrals and temples of the ancestor-gods.
Now flesh comes with metal teeth,
with chopping sticks,
and firelaunchers,
and flesh cuts me down,
and enslaves my limbs to make
forts, ships, pews for other gods,
stockades, flesh pens,
and crosses hung high to sacrifice gods.
Now flesh laughs at my charred and beaten
frame, discarding me in the mud, burning me up in flames.
Now flesh listens no more to the voice
of the spirits talking through mylimbs.
Flesh has grown dull at the ears now.
Flesh has grown pale and lazy.
Flesh has sinned against the fathers.
If flesh would listen I would warn him
that the spirits are displeased
and are planning what to do withhim.
But flesh thinks I am dead, charred and gone.
Flesh thinks that by fire he can kill,
thinks that with metal teeth, I die,
thinks that chaining me in alien temples
with new gods carved upon my skin,
thinks that all the voices
linked from root to limb are silenced,
thinks that by cutting me down,
I will sing and dance no more,
but flesh is lazy and clogged with fat.
Flesh does not know that he
did not give me life,
nor can he take it away.
That is what the spirits are singing now.
It is time that flesh
bow down on his knee again!



