sábado, 28 de fevereiro de 2026

Urubus e a literatura que os lê

                                                                                                                        Foto: Gilberto G. Pereira


Ali na região do Lago das Rosas, há muitos urubus sobrevoando os prédios vizinhos. Eles planam como rosas negras esvoaçantes, os urubus da classe média de Goiânia. Durante muito tempo, morei na Vila Nova, mas em 2025 me mudei para o Centro, e aqui também há urubus sobrevoando. 


Muitos deles posam nas bordas das coberturas dos prédios ou nas pontas das antenas, para “urubuservar a vida besta do alto do urubuservatório.” (Waly Salomão, In: Poesia Total).


Fiquei encantado com esses bichos que a gente sempre tomou como agourento, e que sempre foram utilizados como metáforas de xingamentos contra nós negros, o racismo, essa praga, os racistas, esses seres que nasceram para a luz das fogueiras. 


Comecei a utilizar minha câmera para fotografá-los em pleno voo, ou em descansos tristes, meditabundos, meio encurvados. Urubus de cidades. Que carniças pressentem para além dos restolhos do zoológico! Que faros esses urbanos pássaros da morte têm para pensamentos! Usineiros do mau cheiro. Ah, se não fossem eles! A classe média teria mais máscaras.


Minha cabeça está cheia de literatura. Então, quando comecei a presenciar os urubus sobrevoando minha existência, me lembrei do poeta maldito Augusto dos Anjos, “um urubu pousou na minha sorte”. E fiquei com isso como asas batendo em minha mente. Comecei a literalizar o urubu, a pensar nele enquanto lia literatura, e depois a pensar na literatura que o lia.


E o resultado – sempre incompleto, há muito mais que isso – é o que se segue:



Janela de Marinetti


“de pouco vale agora essa sabença.

o chão e tudo é só paisagem calcinada

e tela deserta e miragem e cena envidraçada.

janela de marinetti

sem vista panorâmica

me lixo pro louvre da vitória de samotrácia

apois aposto na corrida futurista da preá

pego carona na rasante de um urubu

diviso lajedo molhado espelhando umbuzeiro gravatá.”


Waly Salomão (Poesia Total)


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El Solitario


“Más que a la paloma y al moral

me quiere el otoño. Y a mí regala el velo. 

Borda en el ribete: ‘Para soñar préndelo’, 

y: ‘Dios tan cerca como el buitre está’.”


Pero otro pañuelo recogí además:

más basto que éste y sin bordados.

Si lo tocas cae nieve en el zarzal. 

Si lo agitas oyes que el águila ha gritado.


Paul Celan (La arena de las urnas/Obras Completas)


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Unicorn and the White dove*


“Vultures, rocking high in air

By the western gate,

Warned me with discordant cry

You are even such as I:

You have no mate.”


Robert Graves (Whipperginny/ The Complete Poems)


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Oda a los niños de Madrid muertos por la metralla


“Bajo la luz de la luna se vieron

las hediondas aves de la muerte:

aviones, motores, buitres oscuros cuyo plumaje encierra”


Vicente Aleixandre (Poesía completa)


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Viento, Blanca Voz... Segunda versión


“¡Tierra mía! ¡Cordillera en arrebol! ¡Serenidad! ¡Pureza! 

¡El grito del buitre! Solitario oscurece el cielo,

poderosa se hunde la blanca cabeza en la linde del bosque.

Sube de tenebrosos abismos la noche.


Despertando revolotean en torno al durmiente cándidos girasoles.” 


Georg Trakl (Obra Postuma/Obras Completas)


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Chuva


“Vai chover chuva de vento

Já estou sentindo um cheiro d’água

que vem do céu cinzento.

As formigas lavadeiras cruzam o quintal

em filas compridas de correição.

Minhocas brotam à flor da terra.

— Eh aguão!...

A chuva vai vir da banda da serra,

porque o joão-de-barro abriu a sua porta

virada para o sul.

As sementinhas do meloso seco

devem estar dançando na poeira.

Eu não ouvi o primeiro trovão,

mas o zebu está escutando,

com a cabeça encostada no chão.

Três urubus passam no alto,

em voo lento,

em reta longa.

em voo lento,

em reta longa.

Vão para as lapas dos lajedos.

‘Vai fazer tua casa, Urubu!...

Tempo de chuva aí vem, Urubu!...’”


João Guimarães Rosa (Magma)



“Mas antes tinha carecido de lavar os pés: quem vai se deitar em estado sujo, urubu vem leva. ”

João Guimarães Rosa (Campo Geral)



“Gavião e urubu arrastavam sombras.”

João Guimarães Rosa (Campo Geral)


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O rio (excertos), ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do Recife


“Lá o céu perdia as nuvens,

derradeiras de suas aves;

as árvores, a sombra,

que nelas já não pousava.

Tudo o que não fugia,

gaviões, urubus, plantas bravas,

a terra devastada

ainda mais fundo devastava.”


João Cabral de Melo Neto (Melhores poemas)


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A orillas del duero


“Un buitre de anchas alas con majestuoso vuelo

cruzaba solitario el puro azul del cielo.”


Antonio Machado (Poesías completas)


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Algazarra


“o coração só constrói

decapitado

e mesmo então

os urubus

não comparecem”


Ana Cristina Cesar (Poética)


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Quase


“vozes surrealistas de crianças levantam voo por detrás de um varal; um urubu solitário espirala, talvez à cata de carniça entre o crepúsculo.”


Ana Cristina Cesar, em 1969, aos 17 anos (Poética)


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O filho pródigo


“‘Dá tua herança aos urubus,

Joga teus mantimentos

Aos aviadores perdidos nas ilhas;

Enforquem minha namorada!’

Sacuda as asas,

Parto para o empíreo da cozinha.

Não me mato, estou cansado demais.”


Murilo Mendes (Os Melhores Poemas)


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Tradução (amadora) de brinde para quem chegou até aqui: Gilberto G. Pereira



*O unicórnio e a pomba branca


Urubus balançam lá no alto 

Pelo portão do Ocidente,

Advertem em gritos de breu

Você é exatamente como eu:

Sem amigo e sem parente.


Robert Graves (Whipperginny)


terça-feira, 9 de setembro de 2025

Gabriel Nascente e Pio Vargas - breve cotejo de estreias



                                                                                                    Foto: Gilberto G. Pereira

Poesia é um troço mágico, que te pega pelo ritmo e te arrasta até o groove do significado. Um poeta é menos construção como poeta do que dom de manejar a palavra fora da fileira gramatical, num campo específico do poético. Talvez por isso, seja mais fácil testemunharmos uma precocidade na poesia do que na prosa. Por isso, é comum vermos poetas nascerem cedo, e não romancistas.


Indo à Biblioteca Pública da Praça Cívica, decidi ler um livro de Gabriel Nascente chamado Os gatos, que ele lançou aos 16 anos, em 1966, na famosa livraria Bazar Oió. A livraria, que foi um aglutinador de intelectuais nos anos 1950 e 1960 em Goiânia, não existe mais. Mas o livro de Nascente ainda está vivo por aí, como portador de sete vidas (e a magia da poesia cede mais vidas do que isso). 


Nascente não rejeitou seu livro de estreia. Em 2011, ele publicou a segunda edição de Os gatos, fazendo apenas o alerta de que eram seus primeiros versos, um tanto românticos, um tanto ingênuos.


Não dá para buscar excelência no primeiro livro de Nascente, mas pode-se constatar nele a verve criativa do poeta, o modo como ele expressa sua visão de mundo, tentando compreender a si mesmo no estado de coisas. 


Pio Vargas


As principais figuras que surgem no corpo poético de Os gatos são a figura do eu, da natureza e da mulher, metaforizada nos gatos ou não. Neste sentido, a aparição de Nascente em 1966 tem o mesmo valor da aparição de outro poeta goiano, Pio Vargas, em 1983. 


A diferença das estreias é que Pio Vargas, mais tarde, meio que rejeitaria – pelo menos recomendou que não lessem – seu primeiro livro publicado, Janelas do espontâneo, escrito entre seus 13 e 17 anos.


Pio Vargas morreu em decorrência de uma overdose de cocaína, aos 26 anos, em 1991. Como recompensa e homenagem à sua curta vida, em que se tornou um poeta notável, tido por alguns críticos como o maior de seu tempo em Goiás, deu-se seu nome à Biblioteca Pública da Praça Cívica.


Confesso que não conheço a poesia goiana tão bem a ponto de discordar, mas, parece-me que Vargas seria um grande poeta se não tivesse morrido. Só isso. Dizer que era o maior é querer ser grande com o ego dos outros, e que seria o maior é um desmedido exercício de futurologia do pretérito, uma espécie de grande necromancia crítica.


O que Pio Vargas fez em Janelas do espontâneo, Gabriel Nascente havia feito, com poucas modificações de olhar em Os gatos. Em seus respectivos começos, ambos têm uma precocidade verificável e verossímil, mas que não é rara nos poetas. 


É que temos o hábito de lembrar apenas dos poetas que se destacam nacional ou internacionalmente, como Paulo Leminski, que aos 16 anos era paparicado pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e chamado de novo Rimbaud, este que aos 16 anos despontou na cena poética de Paris, e aos 19, já havia se aposentado.


Paralelos


Alguns fazem um paralelo entre a figura de Vargas e a de Rimbaud para depois dizer que Vargas não pode ser considerado o Rimbaud do Cerrado porque, assim, sua poesia (a de Vargas) seria reduzida à de um epíteto. Outros, mais pé no chão, acham apenas que Pio Vargas estava acima de Leminski. 


Nem Leminski era um Rimbaud, não passando de um bom poeta (genial, no sentido de ser criativo à beça, mas longe de ser um gênio), nem Pio Vargas é um Leminski (poderia ter sido, talvez, se a vida tivesse lhe dado chance, para que eu mesmo não fique imune à necromancia crítica).


Li Anatomia do gesto, o livro mais maduro de Vargas, e gostei. Confesso que não li com tanto cuidado a ponto de fazer uma crítica, logo, isto aqui é só uma observação de leitor. Trata-se de um imenso avanço técnico e profundo cuidado imagético em relação ao livro de estreia. 


A organicidade dos poemas, o ritmo e as galerias metafóricas entre o corpo, a alma e a vida são impressionantes. Vargas já tentava fazer isso em Janelas do espontâneo, com menos sucesso, obviamente, pela falta de experiência de vida. 


O que vi no livro que reúne todos os seus livros, organizado por Carlos Willian Leite (editor da Bula, o bem-sucedido portal de literatura de Goiânia), me fez sentir vontade de ler Pio Vargas.


Comparações


Por enquanto, permaneço na lembrança de ter encontrado Os gatos, de Gabriel Nascente, na Biblioteca Pio Vargas, e acabei tendo a curiosidade de comparar o primeiro livro de Nascente com o primeiro de Vargas. 


Em Os gatos, o sujeito poético de Nascente diz coisas como:


“A densa tarde de brumas inacabadas

que hoje passa pelo farol noturno

das ruas é a surpresa da noite.” 


E Pio Vargas, em Janelas do espontâneo, diz:

 

“brilha o gigante girassol

no horizonte

vomitando luzes frouxas

à terra.

descansa o jardim

e minha tarde começa a acontecer.”


Diz Nascente em seu livro de estreia: 


“Cai chuva

porque

enquanto a terra molhas

eu choro meus versos

em silêncio.” 


Diz Pio Vargas em seu livro de estreia: 


“Há uma espera

entre a chuva e o vento:

o vento empurra cruciante

nuvens que querem chover!

a enorme folha cinzenta

desliza lentamente

no tempo,

enquanto o vento bravio

varre, preparando, a terra.

a terra sorri...

mais um pouco,

e o vento libera o espaço:

gotas de amor

no seio da semente...”


Para mim, o arroubo poético - a vontade de dizer alguma coisa que irrompe na alma - é a mesma, nas respectivas fases juvenis, que se deram em épocas diferentes. Nascente vindo primeiro, obviamente.


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