sexta-feira, 20 de março de 2026

Mais 32 frases de Grande sertão: veredas – a sabedoria de Riobaldo 2


Em 2009, o Leituras compilou e publicou 42 frases do romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, mas a compilação foi colhida só até a página 371.

O feixe de imagens impressas nestas 32 frases é grandioso tanto quanto as que vieram no lote de 42, embora lá elas apareçam com mais densidade. Riobaldo estava mais falante. À medida que o romance vai chegando ao fim, privilegia-se a ação rumo ao desfecho, e a reflexão se esconde um pouco.

Mesmo assim, podemos ler observações profundamente filosóficas e agudas da vida, como “quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”, ou “sossego traz desejos”. Para quem quer ser anti-Nietzsche, pode dizer: “Homem tem nojo é do humano.” E para quem deseja ser freudiano, ou até mais revelador que Freud, pode se agarrar à verificação metafísica desta frase: “E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio – feito remanchas n’água.”

 
A quem possa interessar, seguem agora as frases roseanas, a partir da página 373 de Grande sertão: veredas:


Posso me esconder de mim?” 

Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão.

O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo.

O sertão é confusão em grande demasiado sossego.

Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz.

A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação.

Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte.

Muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente.

Um menino nasceu – o mundo tornou a começar.

Arejei que toda criatura merecia tarefa de viver.

E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio – feito remanchas n’água.

Ao que tropecei, e o chão não quis minha queda.

Minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha?

Meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...

O amor só mente para dizer maior verdade.

O sertão aceita todos os nomes.

O que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.

Um homem é um homem, no que não vê e no que consome.

Homem tem nojo é do humano.

O sertão não tem janelas nem porta. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa...

Um lugar conhece o outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida.

A vida é um vago variado.

Picapau voa é duvidando do ar.

Sossego traz desejos.

Hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e, o que soubesse, deixei de saber o que sabia... (Diadorim falando pra Riobaldo)

Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.

Tinha medo não. Tinha era cansaço de esperança.

Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...

Aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

A vida da gente nunca tem termo real.

O existir da alma é a reza.

O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.

...
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terça-feira, 10 de março de 2026

Exercício de tradução - blues em preto e branco, de May Ayim


May Ayim (1960-1996) é uma poeta afro-germânica, conhecida no Brasil mais pelo esforço acadêmico de alguns pesquisadores e por internautas do que por interesse editorial. Ela viveu uma vida cheia de altos e baixos, e teve um fim trágico.

Filha de mãe branca alemã (Ursula Andler) e pai negro ganês (Emmanuel Ayim), que estudava medicina em Hamburgo, foi separada dos pais ainda bebê, entregue pela mãe para um casal de alemães brancos, enquanto o pai voltava para Gana. Os novos pais a chamaram de May Opitz, e a criaram até os 19 anos, quando foi expulsa de casa, depois de anos de maus tratos, segundo a própria May.


Já adulta, ela chegou a conviver com o pai biológico e com a família dele, passando a assinar May Ayim, mas continuava morando na Alemanha, onde estudou, fez graduação e mestrado, com uma importante pesquisa sobre mulheres afrodescendentes na Alemanha e a violência do racismo.


Aos 36 anos, sofreu um colapso mental, por estresse, e foi diagnosticada com depressão. Tentou o suicídio uma vez, tomando overdose de remédios, foi atendida pelos médicos, mas na segunda tentativa, pulou do 13º andar de um prédio e morreu, em Berlim.


O poema a seguir é de 1990, traduzido do alemão (blues in schrvarz weiss) para o inglês por Tina Campt, e em português por mim, como exercício de tradução. Mas foi retirado da abertura de Blues in black and white: a collection of essays, poetry and conversations, de 2002, com tradução para o inglês de Anne V. Adams.


.....//


blues em preto e branco

May Ayim

Tradução de Gilberto G. Pereira



de novo uma vez mais

há os que são

seperados, vendidos e distribuídos

os que sempre são, foram, e sempre serão os outros

de novo uma vez mais

os realmente outros se autodeclaram

os únicos verdadeiros

de novo uma vez mais

os realmente outros declaram contra nós

a guerra


é o blues em preto e branco

1/3 do mundo

dança sobre

os outros

2/3

eles celebram em branco

nós celebramos em preto

é o blues em preto e branco

é o blues


uma alemanha reunida

se celebra em 1990

sem seus imigrantes, refugiados, judeus e negros

celebra no seu círculo íntimo

celebra em branco


mas é o blues em preto e branco

é o blues

alemanha unida, europa unida, estados unidos

celebram 1992

500 anos desde colombo

500 anos – de escravidão, exploração e genocídio nas

américas

ásia

e áfrica


1/3 do mundo se une

contra os outros 2/3

no ritmo do racismo, do sexismo e do anti-semitismo

eles querem nos isolar; eliminar nossa história

ou mistificá-la ao nível do

irreconhecimento

é o blues em preto e branco

é o blues


mas estamos conscientes disso – estamos conscientes

1/3 da humanidade celebra em branco

2/3 da humanidade não entram na festa


.....//


blues in black and white

May Ayim


over and over again

there are those who are

dismembered, sold off and distributed

those who always are, were, and shall remain the others

over and over again

the actual others declare themselves

the only real ones

over and over again

the actual others declare on us

war


it's the blues in black-and-white

l/3rd of the world

dances over

the other

2/3rds

they celebrate in White

we mourn in black

it's the blues in black-and-white

it's the blues


a reunited germany

celebrates itself in 1990

without its immigrants, refugees, Jewish and black people

it celebrates in its intimate circle

it celebrates in White


but it's the blues in black-and-white

it's the blues

united germany united europe united states

celebrates 1992

500 years since columbus

500 years — of slavery, exploitation and genocide in the

americas

asia

and africa


l/3rd of the world unites

against the other 2/3rds

in the rhythm of racism, sexism, and anti-semitism

they want to isolate us; eradicate our history

or mystify it to the point of

irrecognition

it's the blues in black-and-white

it's the blues


but we're sure of it — we're sure

l / 3 r d of humanity celebrates in White

2/3rds of humanity doesn't join the party

terça-feira, 3 de março de 2026

Exercício de tradução - Canção de raiz, de Henry Dumas


O poema Canção de raiz é do afro-americano Henry Dumas. Está no livro Knees of a natural man – the selected poetry of Henry Dumas. O poeta morreu em 1968, aos 33 anos de idade, assassinado pela polícia, num Metrô de Nova York. Segundo Toni Morrison, Dumas era dotado de um gênio absoluto para a poesia. 


Minha tradução é um mero exercício, sem a pretensão de trazer para o português toda a carga semântica e poética do original que possa revelar o gênio do poeta, que talvez nem esteja tão aberto e exposto assim no poema em questão. Mas logo abaixo da tradução, o leitor tem a oportunidade de ler o original.




Canção de raiz

Henry Dumas

Tradução de Gilberto G. Pereira



Quando eu era árvore

a carne veio e orou em minhas raízes.

Meus ancestrais dormiram em meus

galhos estendidos e ouviram a carne

rogando e rezando ajoelhada.


Quando eu era árvore

o sol africano me acordou verde no amanhecer.

O vento africano penteou os ramos de meus cabelos.

A chuva africana lavou meus galhos.

O solo africano nutriu meu espírito.

A lua africana olhou por mim à noite.


Quando eu era árvore

a carne veio fazer sacrifício no meu tronco,

a carne veio para proteger minha voz,

a carne veio para honrar meus galhos

como tambores, como canoas, como máscaras,

como catedrais e templos de deuses ancentrais.


Agora a carne vem com dentes de metal,

com bastões que cortam,

e lança-chamas,

e a carne me derruba

e escraviza meus galhos para construir

fortes, navios, assentos para outros deuses,

paliçadas, curral de corpos,

e cruzes fincadas no alto para sacrificar deuses.


Agora a carne ri de minha forma vencida e em

chamas, me jogando na lama, queimando-me no fogo.

Agora a carne não ouve mais a voz

dos espíritos falando por meio de meus galhos.


A carne fez-se tédio aos ouvidos, agora.

A carne ficou pálida e preguiçosa.


A carne pecou contra os ancestrais.

Se a carne me ouvisse, eu lhe diria

que os espíritos estão descontentes

e estão planejando algo contra ela.

Mas a carne acha que estou morta, queimada e finda.


A carne acha que pode matar com fogo,

acha que, com dentes de metal, eu morro,

acha que me acorrentando em templos alheios

com novos deuses cravados na minha pele,

acha que todas as vozes

atadas da raiz aos galhos estão silenciadas,

acha que me derrubando,

não vou mais cantar e dançar,

mas a carne é preguiçosa e gorda.


A carne não sabe que ela

não me deu a vida,

nem que não pode me tirá-la.


Isso é o que o espírito canta agora.

Já é tempo de a carne

se ajoelhar de novo!



.......



Root Song

Henry Dumas 



Once when I was tree

flesh came and worshiped at my roots. 

My ancestors slept in my outstretched

limbs and listened to flesh

praying and entreating on his knees.


Once when I was free

African sun woke me up green at dawn. 

African wind combed the branches of my hair. 

African rain washed my limbs.

African soil nourished my spirit.

African moon watched over me at night.


Once when I was tree

flesh came to sacrifice at my foot,

flesh came to preserve my voice,

flesh came honoring my limbs

as drums, as canoes, as masks,

as cathedrals and temples of the ancestor-gods.


Now flesh comes with metal teeth, 

with chopping sticks,

and firelaunchers,

and flesh cuts me down,

and enslaves my limbs to make

forts, ships, pews for other gods, 

stockades, flesh pens,

and crosses hung high to sacrifice gods.


Now flesh laughs at my charred and beaten 

frame, discarding me in the mud, burning me up in flames.

Now flesh listens no more to the voice 

of the spirits talking through mylimbs.


Flesh has grown dull at the ears now.

Flesh has grown pale and lazy.

Flesh has sinned against the fathers.

If flesh would listen I would warn him

that the spirits are displeased 

and are planning what to do withhim.

But flesh thinks I am dead, charred and gone.


Flesh thinks that by fire he can kill, 

thinks that with metal teeth, I die,

thinks that chaining me in alien temples 

with new gods carved upon my skin,

thinks that all the voices

linked from root to limb are silenced,

thinks that by cutting me down,

I will sing and dance no more,

but flesh is lazy and clogged with fat.


Flesh does not know that he 

did not give me life,

nor can he take it away.


That is what the spirits are singing now. 

It is time that flesh

bow down on his knee again!