domingo, 16 de junho de 2019

O suicídio de Mishima

“O caminho do samurai é a morte” (Hagakure)

“Vou cometer haraquiri/ Mesmo sabendo que nesse momento você ri”(A Banda Mais Bonita da Cidade)

                                                                                                                                      Foto: Elliott Erwitt/Magnum Photos
Yukio Mishima (1925-1970): uma morte ímpar, cometida por razões ímpares, dizem os fãs, condenando o gesto, mas aplaudindo a bravura

O suicídio é tabu em todos as culturas, inclusive na japonesa que, bem antes dos homens-bomba muçulmanos, expressou sua vontade de morrer num ritual de guerra espetacular, na figura dos kamikaze, na Segunda Guerra Mundial. 

Kami, em japonês, é deus, e kaze, vento. Logo, a morte dos homens que se encapsulavam num avião de guerra – carregado de bomba, voando direto ao alvo até tudo explodir – era o resultado de um “sopro divino”.

Não era a morte em si que interessava a esses bravos homens. A morte em si era apenas uma consequência da beleza do gesto, do sopro de deus que os empurrava até seu destino inexorável.

Encarar a morte como elemento estético não é para qualquer um. Mas a cultura antiga dos japoneses já estava acostumada com esse espírito, acima de tudo, corajoso, esse espírito invencível, ao mesmo tempo elástico e inquebrável, porque nem a morte os vencia. A morte era só uma passagem, só mais uma etapa do truque da vida. 

No caso dos samurais, a morte, segundo o próprio Hagakure, o segundo código ético dos guerreiros que mais valorizaram a beleza como elemento essencial da existência (o primeiro é o Bushido), era apenas o caminho por meio do qual realizavam a própria vida. 

Um dia, esse caminho chegava ao fim, que poderia ser uma planície (metáforas minhas) – morte na velhice, talvez, uma trajetória longa e enfadonha –, uma montanha, luta malograda, o ápice, ou um precipício, que seria o famigerado seppuku, que no Ocidente ficou conhecido por meio de outra palavra japonesa, haraquiri, ritual sublime, espantoso, que há muito tempo é condenado pelos códigos morais do Japão moderno. 

Os samurais eram homens cultos, sensíveis. Um dos grandes samurais da história japonesa, Matsuo Bashô criou a forma poética por excelência do Japão, o hai-kai. Mas não se arredavam da morte. Não se curvavam, não se acovardavam. 

Sinceridade nas vísceras

Na cultura dos samurais, o haraquiri é cometido para reparar uma falta grave diante do seu senhor, seu mestre, o xogum, ou da própria sociedade. Todo samurai vivia como defensor das terras do xogum (donos de terra, que mantinham servos para cultivá-la e samurais para defendê-la).

Se houvesse algum desentendimento, e o samurai, em vez de se matar, resolvesse sair fora, ele se tornava um ronin. Mas a maioria preferia a morte. 

O escritor japonês Yukio Mishima costumava contar a história de que o maior valor do samurai era a sinceridade, que estava nas vísceras. Quando cometia algo vergonhoso diante do seu senhor, o samurai pedia perdão. Para demonstrar que seu pedido de perdão era sincero, rasgava o ventre no ritual de haraquiri.

Para quem quer entender melhor esse jogo espiritual, há um filme japonês chamado justamente Haraquiri (Seppuku, em japonês), de 1962, que teve um remake homônimo em português, em 2011, mas que em japonês se chama Ichimei. O filme retrata a contradição entre a velha cultura japonesa e a nova, tendo a prática do haraquiri como fulcro.

Mishima se gabava de ter uma alma clássica japonesa, embora amasse também a arte ocidental, mas não a política. Ele nasceu em 1925, em Tokyo, e, portanto, testemunhou a ascensão e a derrocada do Japão imperial do século XX.

Ele viu o belicoso Estado japonês, que chegou a dominar a China e a Coreia, ser trucidado pelas forças armadas americanas, no final da segunda Guerra Mundial, com o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki.

Ele cresceu com essa espécie de angústia lhe cravando a alma. Mishima tem romances belíssimos. Era um criador de metáforas sublimes, como no Templo do pavilhão dourado, que narra a história de um jovem desajustado que quando garotinho presenciou a mãe transando com o amante ao lado do leito de morte do pai. 

Esse rapaz não assimilou bem o baque, e mais tarde desenvolveu um senso estético que beirava a loucura, apaixonando-se apenas pelas coisas estranhas, feias, fora do padrão, mas tomou gosto pela beleza do Pavilhão Dourado (construído em 1397), em Kyoto, que existe até hoje, mas que de fato fora queimado várias vezes, e a última delas por um monge que inspirou Mishima.

Contra o artigo 9º da Constituição 

O presente texto tem como objetivo apenas descrever a cena da morte de Mishima, e não exatamente falar de sua obra que tem uma riqueza digna de um texto separado. Ele era um suicida esteta, que levava a sério a ideia dos samurais sobre rasgar o ventre para demonstrar sua sinceridade.

Quando o Japão criou sua nova Constituição em 1946, entrando em vigor em 1947, Mishima tinha 22 anos de idade. Desde aquela época, ele não se conformava com o fato de o artigo 9º ser um ato de submissão japonesa ao império americano, dizendo que abdicava de forças armadas ofensivas.

É por aí que a biografia de Mishima vai se embrenhando até sua morte. Era um nacionalista exaltado, um orador inflamado. Inteligente, e dono de uma verve literária ímpar, foi algumas vezes candidato bem cotado para o Nobel de Literatura. 

Em 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972), a quem Mishima admirava, ganhou o Nobel, e Mishima entendeu que dificilmente seria laureado. A partir daí, aumentou sua onda de protesto contra a Constituição Japonesa.

O fascínio dos autores japoneses pela morte é algo fora da curva. Muitos se mataram ou escreveram sobre suicídio. Kawabata, por exemplo, se mataria em 1972. Mas antes, em 1970, Mishima se matou, fazendo de seu suicídio uma ficção levada ao grau máximo. 

Foi um gesto para mostrar sua sinceridade sobre o artigo 9º da Constituição japonesa, que submetia a nação nipônica aos EUA. A história é contada na biografia A vida e a morte de Mishima, do jornalista britânico Henry Scott Stokes.

Mishima tinha uma milícia de estudantes (permitida no Japão da época), e escolheu três de seus melhores integrantes para auxiliá-lo no espetáculo macabro que se desenrolaria no gabinete do chefe do Estado-Maior do Japão (que fora rendido), com toda a imprensa convocada, lá fora. 

Há documentários, filmes e vídeo com cenas reais do caso no Youtube, para quem possa se interessar. Após cometer haraquiri, Mishima teria de ter a cabeça decepada, conforme pedia o protocolo do ritual, para que não ficasse em agonia até morrer.

Segue o que se narra

“O escritor (Mishima) desceu o pequeno lance de degraus, coberto por tapete vermelho, que dava acesso à sala do general.

- Eles não conseguiram escutar direito o que eu disse – comentou com os estudantes.

Morita entrou na sala atrás dele.

Mishima começou a abrir os botões da túnica. Estava num canto da sala, perto da porta do gabinete do chefe do Estado Maior, de onde não podia ser visto, através dos vidros quebrados, pelos homens no corredor.

Já tinham tirado a mordaça da boca do general. Ficou olhando enquanto Mishima despia a túnica, mostrando o torso nu – não usava nem camiseta.

- Pare! – exclamou Mashita. – Não vai adiantar nada.

- Me comprometi a fazer isso – retrucou Mishima. – O senhor não deve seguir meu exemplo. A responsabilidade não é sua.

- Pare!

Mishima não atendeu o pedido. Desamarrou os coturnos, jogando-os longe. Morita se aproximou e pegou o sabre.

- Pare!

Mishima tirou o relógio do pulso e entregou-o ao estudante. Ajoelhou-se no tapete vermelho, a uns dois metros da cadeira de Mashita. Abriu a braguilha e afrouxou a calça. A fundoshi (tanga) branca que usava por baixo ficou visível. Já estava quase nu. O peito pequeno, possante, ofegava.

Morita tomou posição atrás dele, de sabre em punho.

Mishima segurava um yoroidoshi, punhal pontiagudo, de lâmina reta e uns trinta centímetros de comprimento, na mão direita.

Ogawa se adiantou com um mohitsu (pincel) e uma folha de papel. Mishima tinha planejado escrever uma última mensagem com seu próprio sangue.

- Não. Eu não preciso disso – disse o escritor.

Com a mão canhota, esfregou a parte inferior esquerda do ventre. Naquele ponto, fincou o punhal que tinha na mão direita.

Morita levantou o sabre bem alto, de olhos fixos na nuca de Mishima. A testa do estudante estava coberta de suor. A ponta do sabre tremia, as mãos haviam perdido a firmeza.

Mishima gritou uma última saudação ao imperador.

- Tenno Heika Banzai! Tenno Heika Banzai! Tenno Heika Banzai!

Encolheu os ombros e expeliu o ar contido no peito. Os músculos das costas se distenderam. Aí, então, tornou a encher os pulmões, ao máximo.

- Haa... au!

Mishima soltou todo o ar que tinha no corpo, dando um último grito selvagem.

Fincou o punhal com toda a força na boca do estômago. Depois desse golpe violento, o rosto empalideceu e a mão direita começou a tremer. Mishima arqueou as costas, iniciando o corte horizontal, de um lado a outro. À medida que cravava o punhal, o corpo tentava rejeitar a lâmina; a mão que executava o trabalho sacudia de maneira impressionante. Procurou ajudar com a canhota, fazendo o máximo de pressão possível sobre o lado direito. O punhal permaneceu no talho e ele continuou a cortar em forma de cruz. O sangue jorrava da ferida, escorrendo ventre abaixo, caindo no colo, manchando a fundoshi de vermelho vivo.

Com derradeiro esforço, Mishima completou o corte transversal, de cabeça baixa e nuca exposta.

Morita se aprontou para atacar com o sabre e degolar a cabeça do líder.

- Não me deixe ficar muito tempo em agonia – tinha pedido Mishima.

O estudante cerrou os pulsos no cabo do sabre. Enquanto olhava, Mishima caiu de bruços no tapete vermelho.

Morita aplicou a lâmina com toda a força. Tarde demais. O impacto do golpe foi grande, mas o sabre estalou contra o tapete vermelho no lado oposto de Mishima, que recebeu um corte profundo nas costas e nos ombros.

- De novo! – gritaram os outros dois estudantes.

Mishima, caído no tapete, gemia, asfixiado pelo próprio sangue e se retorcendo de ambos os lados. Os intestinos lhe escorriam da barriga aberta.

Morita tornou a aplicar o sabre. Errou, mais uma vez, a pontaria. Acertou no corpo, e não no pescoço de Mishima. O ferimento foi terrível.

- Tentou de novo!

O estudante quase não tinha mais força nas mãos. Ergueu pela terceira vez o sabre cintilante e golpeou com violência total a cabeça e a nuca de Mishima. Quase lhe decepou o pescoço. A Nuca pendeu, enviesada, contra o corpo; o sangue jorrava sem parar.

Fuku-Koga se aproximou. Tinha experiência de kendô, a esgrima japonesa.

- Me dá esse sabre! – pediu.

Com uma única cutilada, separou a cabeça do corpo.

Os estudantes se ajoelharam.

- Rezem por ele – disse Mashita, curvando a cabeça da melhor maneira que lhe era possível.

Em silêncio, os três rapazes rezaram uma oração budista.

O único ruído que se ouvia na sala provinha dos soluços dos estudantes. Lágrimas lhes escorriam pelo rosto. O cadáver começou a borbulhar: o sangue, que afluía pelo pescoço, se espalhava pelo tapete vermelho.

A sala se encheu de fedor de carne viva. As vísceras de Mishima tinham se esparramado pelo chão.”

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domingo, 9 de junho de 2019

História social do jazz, um livro formidável de Hobsbawm


Todo apreciador de música deve ter em casa um exemplar de História social do jazz, do historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012). É um livro formidável. Publicado originalmente em 1961, não é a grande fonte histórica do gênero (nunca teve essa pretensão), mas é um clássico sobre como se cultiva o jazz desde sua criação.

As tiradas analíticas feitas por um apaixonado pelo assunto, e grande conhecedor da conjuntura que fez nascer um dos gêneros mais instigantes do século XX, ainda são o diferencial deste livro, que no Brasil só seria traduzido 25 anos depois, em 1986. Mas em 1989, já estava na terceira edição no mercado editorial tupiniquim. Em 2011, a Paz e Terra lançou a 6ª edição, com prefácio de Luís Fernando Verissimo.

Mais conhecido pela série histórica sobre as grandes revoluções que deram ao Ocidente a hegemonia política e econômica do mundo (as eras das revoluções, do capital, dos impérios e dos extremos), Hobsbawm escreveu História social do jazz como um hobby. E sua leitura deve ser feita assim também, como quem ouve música. 

Aliás, agora dá para fazer isso, sem problema. Praticamente tudo sobre o qual fala Hobsbawm neste livro está no Youtube. O leitor pode ir lendo enquanto vai curtindo as vozes originais dos astros e das grandes divas do jazz desde a década de 1920. 

Uma das primeiras estrelas do gênero é Bessie Smith, que o autor definiu como “mulher grande, bela, rouca, bêbada e infinitamente triste.” Hobsbawm também cita um guitarrista que trabalhou com Bessie, que disse: 

“Você nem mexia a cabeça enquanto ela estivesse se apresentando. Ficava só olhando para Bessie. Não se liam jornais em nightclub onde ela se apresentasse. Ela só deixava você triste.”

Comoventes, deliciosos ou interessantes

A lista de grandes artistas do jazz é imensa, e uma das características do livro é justamente “guiar o leitor através do labirinto de estilos orquestrais e instrumentais de jazz”, seguindo o curso desse rio caudaloso de nomes como Lester Young, Ethel Waters, Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Sara Vaughan, Duke Ellington (1899-1974, “o talento mais importante produzido pelo jazz até hoje”).

São muitos nomes. Entre os talentos mais admirados do jazz, há também Charlie Parker (1920-1955), “o Rimbaud do jazz moderno”, Count Baise (1904-1984), Chico Hamilton, Thelonius Monk, Oscar Peterson e Miles Davis. 

Para quem está começando a apreciar o jazz, este livro é ainda mais precioso, porque seu objetivo, segundo o autor, é esse mesmo: “Ajudar o principiante a se localizar, mencionando alguns discos mais característicos, vistos pelos entusiastas de um ou outro estilo como comoventes, deliciosos ou interessantes.” Neste caso, é só seguir as dicas, jogar no Youtube e ir ouvindo os caras. 

O jazz são tantas coisas. No fluxo das palavras que desenham a inventividade vocal e instrumental do jazz, há também espaço para sua base, o blues. “O blues não é um estilo ou uma fase do jazz, mas um substrato permanente de todos os estilos”, observa o autor. 

E aí, ele cria uma analogia perfeita para falar dessa base. “O blues está para o jazz como a terra estava para Anteu, do mito grego.” Anteu é um personagem mitológico grego, filho de Geia, um gigante que bastava entrar em contato com a mãe terra para recuperar suas forças. O jazz, de igual modo, quando está definhando, volta ao blues e suga novas energias.

Linhas de influência

Apesar dessa relação íntima e dependente com o blues, a construção estética do jazz não é feita apenas da música negra. Com data de surgimento fixada em 1900, o jazz tem várias outras tradições inseridas no bojo de sua criação. Uma espécie de protojazz, por exemplo, já era ouvida nas últimas décadas do século XIX, o ragtime, tocado por solistas de piano, ainda num estilo musical europeu.

“O jazz surgiu no ponto de intersecção de três tradições culturais europeias: a espanhola, a francesa e a anglo-saxã. Cada uma delas produziu um tipo de fusão musical afro-americana característica: a latino-americana, a caribenha e a francesa (como a da Martinica), e várias formas de música afro-anglo-saxã, das quais, para as nossas finalidades, as mais importantes são as canções gospel e os country blues”, diz Hobsbawm.

Um entendimento dessa fusão se faz melhor quando olhamos para New Orleans como o berço das bandas de jazz, justamente a cidade americana que possui a maior tradição de carnaval, festa móvel do calendário cristão europeu, todos atolados na areia movediça do blues. 

E assim, o autor vai descrevendo as linhas de influência do jazz, chegando inclusive ao rock, como influenciador, a partir da década de 1960. Segundo Hobsbawm, “por três motivos, o rock iria influenciar o jazz.” O primeiro é o ambiente, a atitude do estilo que nascia também a partir do blues. 

O segundo motivo era o fato de o rock não se importar em aprender fazendo. A partir disso, os jazzistas, que também eram autodidatas, foram mergulhando na música e nas fusões com mais liberdade. A terceira razão era o fator da inovação, que no rock era patente. 

Na questão das bandas, por exemplo, os roqueiros podiam criar sons, experimentar batidas com os vários instrumentos, e o jazz foi emulando isso, a ponto de sua identidade se tornar exatamente essa capacidade de improvisar.

Com o exercício da improvisação, os jazzistas mudaram o rumo da música. Para se diferenciarem do jeito de tocar dos brancos, aprenderam a “tocar trompete com a fluidez de um saxofone, um trombone com o esplendor e a rapidez de um trompete, fazer a bateria ‘tocar música’ além de acompanhar o ritmo.”

Mas assimilavam tudo. Até Os Beatles, cujos integrantes eram fãs de blues, foram inspiração para os jazzistas, diz Hobsbawm. “Arranjos sofisticados de rock, como Sergeant Pepper, álbum dos Beatles de 1967, que foi rotulado – não sem razão – de ‘rock sinfônico’, não podiam deixar de dar aos músicos de jazz algumas ideias.”

E por aí, vai. Mas, afinal, o que é o jazz? “Não existe uma definição precisa ou adequada de jazz, a não ser em termos muito genéricos ou não musicais”, diz o autor. Bem sabemos que hoje, em tantos festivais de jazz pelo mundo, há uma profusão de estilos e linguagens musicais que se encaixam perfeitamente nesse gênero. Ou seja, é uma espécie de caos organizado, de festa, de originalidade e improvisação.

Linhas gerais

Por outro lado, há sempre um modo de descrevê-lo. Há linhas gerais que nos colocam no cerne do gênero, que nos fazem sentir se é jazz ou não, toda vez que ouvimos uma música. Se não há “linhas divisórias precisas”, diz Hobsbawm, o jazz ao menos pode nos dizer o que é em cinco características:

-1 “Uso de escalas originárias da África Ocidental (influência do blues), não comumente usada na música erudita europeia”, mas com peculiaridades decorrentes também “da mistura de escalas ditas europeias e africanas”. 

Em todo caso, é a escala blue (terceira e sétima abemoladas) a expressão mais conhecida do jazz. Falar mais que isso é entrar em linguagem técnica demais.

-2 “O jazz se apoia grandemente, e talvez de maneira fundamental, em outro elemento africano: o ritmo. (...) O ritmo é essencial para o jazz: é o elemento da organização da música”, diz Hobsbawm. Neste sentido, o gênero se aproxima da poesia, cujo elemento dominante é o ritmo.

-3 “O jazz emprega cores instrumentais e vocais próprias. Essas cores derivam, em parte, do uso de instrumentos incomuns em música erudita”, observa o autor.

-4 “As duas formas principais usadas pelo jazz são o blues e a balada, a música popular típica, adaptada da música comercial comum.”

-5 E por fim, diz Hobsbawm, “o jazz é uma música de executantes. Tudo nele está subordinado à individualidade dos músicos.” Daí, a incrível capacidade de improviso, os movimentos desconcertantes que surgem da bateria, dos instrumentos de sopro ou do piano. 

Quando ouvimos John Coltrane, por exemplo, em Blue train, sentimos um balanço que vai se aproximando com certa quentura, e eis que de repente, as notas vão se multiplicando e variando no espaço. E tudo é festa. 

“O efeito mais poderoso do jazz”, argumenta o autor, “está na comunicação da emoção humana de forma intensificada.” Por isso, músicos o adoram, porque fomenta em suas almas uma vontade de fazer música, e assim sentem vontade de instigar na alma dos outros uma emoção semelhante, mesmo que em outro estilo, em outro ritmo. 

História social do jazzé mais que um tratado musical, é um farol que ilumina a cultura. A parte social dessa história é interessante porque vemos o jazz nascer nas camadas mais pobres e menos erudita da sociedade. E por isso sofreu preconceito, como sofreu o samba, no Brasil, como sofre o funk, no Brasil. 

Traço inferior do gosto humano

Quando o jazz começou a tomar forma e a encantar as pessoas nas cidades americanas, era tido como ritmo da indecência, da imoralidade. “Os moralistas, é claro, declararam-lhe guerra imediatamente.” Hobsbawm cita o trecho de um editorial venenoso contra o jazz do jornal Times-Picayune, de New Orleans, publicado em 1918, que começa assim:

“Por que então a música de jass e a banda de jass? Pergunte-se, igualmente, o porquê da novela barata ou do doughnut engordurado. São todas manifestações de um traço inferior do gosto humano, que ainda não foi consertado pelo processo civilizatório.”

A palavra jazz passou a se referir como gênero musical justamente por causa do preconceito, do racismo. Guardadas as devidas proporções, de etimologia e de semântica, ocorreu mais ou menos como ocorre, até hoje, com a palavra gafieira (termo usado para um tipo de forró que se dança com o par agarradinho, roçando as pernas um no outro, nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil).

Jazz (jass, ou jaz), portanto, segundo Hobsbawm, “era um termo de gíria africana para a relação sexual”, que “passou a ser usado como um rótulo genérico para a nova música de dança.” O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa também registra esta mesma acepção. 

No romance Jazz, de Toni Morrison, a descrição do gênero é de uma música e uma dança sensuais demais, subversivas ao extremo que faziam as pessoas temerem e amarem sua verve, ao mesmo tempo. 

No romance, a narradora vai descrevendo o caráter mágico e atraente do jazz, que faz as mulheres se sentirem hipnotizadas na dança com seus pares, e diz: “Elas acham que eles sabem antes da música o que suas mãos e pés têm de fazer, mas essa ilusão é o impulso secreto da música.”

Apesar de ter conquistado ambientes diversos e sofisticados, o jazz é arte popular. E, como diz Hobsbawm, “a arte popular é mito e sonho, mas também é protesto, pois o comum das pessoas tem sempre alguma razão para protestar.” 

Talvez por isso “o mundo do jazz era, e ainda é, até certo ponto uma rebelião contra os valores da cultura de minoria.” Esta observação foi feita, obviamente, entre 1959 e 1961, mas, de certo modo, ainda vale para hoje, embora o ritmo genuíno de protesto hoje seja o rap. Talvez o jazz seja ouvido como guia revolucionário da subjetividade, algo como modificador da alma.

Vida cheia de livros e de música

Segundo Hobsbawn, o jazz passou por uma série de evoluções, e de modo muito veloz. Em questão de décadas, ele saiu do gosto médio de um grupo social marginalizado, como os negros americanos, para uma seara de elite intelectual em todo o mundo, o jazz moderno. 

Apesar dessas mudanças, algo na essência do jazz permaneceu como característica ímpar, que é sua verve de protesto, seu ânimo de inquietação. “O jazz moderno não é tocado apenas por divertimento, por dinheiro, ou por requinte técnico: também é tocado como um manifesto – seja de revolta contra o capitalismo e a cultura comercial, seja de igualdade do negro ou qualquer outra coisa”, diz Hobsbawm.

História social do jazznos dá a oportunidade de refletir e de aprender sobre os cruzamentos de culturas. Muito mais coisas são faladas neste livro, como a relação do jazz com as outras artes (a literatura e o cinema, por exemplo), ou a indústria do jazz, a formação do público, o uso dos instrumentos, e o surgimento dos grandes nomes. É um deleite para quem se encontra no torvelinho da vida cheia de livros e de música.

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domingo, 2 de junho de 2019

Sem imaginação, não se pode transformar o mundo

                                                                                                                              Foto: abcsofliteracy.com
Ler ficção é importante porque nos dá a oportunidade de conhecermos outras maneiras de organizar o mundo

Por que lemos? Porque sentimos a necessidade de entrar em contato com as palavras de quem pode nos ensinar alguma coisa, tanto para nos dizer algo novo como para confirmar códigos com os quais nos identificamos, reforçando o que há de comum.

Ler é colher palavras e escolher significados (interpretar), porque as palavras são polissêmicas e estão sempre grávidas de sentido.

Aprender a ler é aprender também a compreender melhor o mundo que nos cerca. A leitura nos dá a consciência de que estamos no espaço e no tempo (físico e mental), sendo empurrados por um, enquanto modificamos o outro. Até quando morremos (nosso último ato), modificamos o espaço. O exercício da leitura nos dá essa consciência.

Há diversos tipos de leitura, que vão desde a mais simples, como ler uma placa na rua, sinalizando uma direção, ou ler um bilhete da mãe, do filho, da professora, do colega, passando por uma complexidade mediana que é ler relatórios técnicos (jornais e livros de divulgação científica), até a complexidade cada vez maior, como a leitura de ensaios filosóficos e de ficção (alta literatura). 

O interessante da boa ficção é que ela permeia os elementos da simplicidade e da complexidade, porque trabalha os graus de sentido, de modo que cada leitor chegue aonde pode. Literatura é isso, é “linguagem carregada de significado em seu grau máximo”, como diz Ezra Pound, em ABC da Literatura.

Por que ler ficção é importante? Porque nos dá a oportunidade de conhecermos outras maneiras de organizar o mundo, ou de descobrirmos que é possível viver de modo diferente, que é possível criar novas maneiras de viver, de pensar, de sentir e até de inventar novos mundos. 

O universo ficcional nos oferece a oportunidade de acompanharmos uma vida inteira pelo ponto de vista que não é o nosso, que é de fora de nosso mundo, de nossas perspectivas; oferece-nos, portanto, outros ângulos de visão sobre o humanamente possível. Isso só se faz dentro da leitura, com o exercício da imaginação.

Neste caso, a imaginação é fundamental. A leitura nos permite exercitar a imaginação. Sem imaginação, não se pode transformar o mundo.

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sábado, 25 de maio de 2019

A Virada - o nascimento do mundo moderno, um livro brilhante de Stephen Greenblatt


O melhor de A virada - o nascimento do mundo moderno (Companhia das Letras, 2012, tradução de Caetano Waldrigues Galindo), do crítico americano Stephen Greenblatt, é a mistura do estilo delicioso do autor com a luminosa história sobre como um homem do século XV, obstinado pela cultura grega antiga, conseguiu recolocar na roda de leituras um dos livros mais importantes para o renascimento das artes, das ciências e da filosofia modernas.

O livro em questão é Da natureza (De Rerum Natura, Da natureza das coisas, em tradução literal), poema de Lucrécio (94 a.C. – 55 a.C.). O homem em sua caça é o italiano Poggio Bracciolini (1380-1459).

Ao contar a história de como Poggio reencontrou um livro que já se tinha por extinto, Greenblatt conta a história de como nasceu a modernidade, após domínio do pensamento cristão sobre as esferas de poder do Ocidente, relegando aos porões dos templos e abadias os demais modos de pensar e sentir do mundo antigo por mil anos. 

Esses mil anos coincidem com o que se chama de Idade Média. Os grandes pensadores produzidos nesse período eram cristãos, como Santo Agostinho, na alta Idade Média, e Tomás de Aquino, na Baixa. Quando o imperador Constantino I decretou o cristianismo como religião oficial do Impero Romano, no século IV, todo o poder de esmagar o outro foi legitimado.

Os cristãos, que por três séculos foram oprimidos, humilhados, perseguidos e mortos, passaram a fazer o mesmo contra o pensamento pagão, ou seja, contra as correntes poéticas e filosóficas que se identificavam com outros modos de ver o mundo.

O epicurismo passou a representar o mundo pagão. À medida que o cristianismo ia ganhando espaço, o epicurismo ia sendo perseguido como coisa do demônio e, por conseguinte, sendo varrido do mapa.

Corrente estético-filosófica da Grécia Antiga, contemporânea de Platão, criada por Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), o epicurismo pregava a transitoriedade do mundo e dos seres e a mortalidade da alma, uma vez que esta era composta da mesma matéria do corpo, os átomos, ideia criada por Leucipo e Demócrito (ambos, circa 460 a.C. – 370 a.C.). 

O núcleo do epicurismo tem a seguinte mensagem, nas palavras de Greenblatt: “Tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas. Os gregos tinham uma palavra para essas partículas invisíveis, coisas que, como eles as concebiam, não podiam ser divididas em elementos menores: átomos”

“Os corpos celestes não são seres divinos que definem nosso destino para o bem ou para o mal”, segue Greenblatt em sua explicação sobre o epicurismo, “e também não se movem pelo vazio guiados pelos deuses: eles simplesmente fazem parte da ordem natural, são imensas estruturas de átomos sujeitas aos mesmos princípios de criação e destruição que governam tudo que existe.”

Ou seja, havia “uma explicação natural oculta para tudo aquilo que causa assombro ou perplexidade.” E mais: “Você não vai mais temer a ira de Júpiter quando ouvir o som do trovão, ou suspeitar que alguém ofendeu Apolo sempre que houver um surto de gripe.”

Como se vê, tudo era contrário ao cristianismo. Além disso, a mensagem do poema de Lucrécio pegava o epicurismo e o potencializava de modo revolucionário, porque mais bem organizado, porque mais bonito, por que mais profundo, mais poético, mais filosófico, mais a cara do que viria a ser a ciência moderna. Mas demoraria.

Ódio a Hipátia

Quando os cristãos descobriram como atacar o pensamento pagão, os grandes intelectuais dessa linhagem foram caçados e perseguidos até que os mais corajosos estivessem mortos, na Europa, no Oriente Médio e na África, como na cidade de Alexandria com sua esplêndida biblioteca. Os outros se esconderam ou escamotearam suas ideias. 

Entre as perdas no século V, está a morte horrorosa de Hipátia, intelectual egípcia das mais brilhantes de sua época. “Era filha de um matemático, um dos famosos estudiosos residentes do Museu. Lendariamente linda quando jovem, havia ficado famosa por suas realizações em astronomia, música, matemática e filosofia”, diz Greenblatt. 

Alexandria era governada por um cristão moderado, Orestes, que aceitava a diversidade social. Mas os cristãos radicais, liderados por Cirilo, começaram a assumir os postos de comando e a controlar a opinião pública em toda a cidade, passando a exigir a expulsão dos judeus. 

Orestes não aceitou a exigência. A elite intelectual pagã o apoiou, e o cerco se fechou contra os pagãos, principalmente contra Hipátia, que era a mais influente do grupo. O que aconteceu em seguida é uma história que os cristãos estavam se acostumando a fazer, e que se repetiria em muitas ocasiões, inclusive nas Cruzadas e nos processos de Inquisição, séculos depois.

“Em março de 415”, narra Greenblatt, “a multidão, motivada por um dos capangas de Cirilo, entrou em erupção. Na volta para casa, Hipátia foi arrancada de sua carruagem e levada a uma igreja que antes tinha sido um templo ao imperador. (O cenário não foi acidental: ele representava a transformação do paganismo na única e verdadeira fé.) Ali, depois de ter as roupas rasgadas, sua pele foi arrancada com cacos de cerâmica. A turba então arrastou seu cadáver para fora dos muros da cidade e o queimou. Seu herói, Cirilo, acabou canonizado.”

Por essa ocasião, a Igreja Católica já havia arranjado um modo de combater o paganismo por intermédio do combate ao epicurismo: mentindo. Epicuro pregava o prazer como libertação do mundo supersticioso. Mas dizia: “Não nos referimos aos prazeres da prodigalidade ou aos prazeres da sensualidade, uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e festejos, amor sexual, consumo de peixe e outras iguarias de uma mesa requintada.” 

A paz de espírito é a chave do prazer duradouro, dizia Epicuro, mas para alcançar isso é necessário levar uma vida regada. “Em seu jardim fechado em Atenas, o verdadeiro Epicuro, ceando queijo, pão e água, levou uma vida tranquila”, diz Greenblatt.

Um de seus discípulos, Filodemo, no livro Sobre escolhas e recusas, escreveu: “É impossível viver de maneira prazerosa, sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico.” Greenblatt então comenta: “Essa é a voz de um autêntico seguidor de Epicuro.”

Mas, o que fez a Igreja Católica? Fez o que se chama hoje de destruição de reputação. Pegou a ideia de prazer de Epicuro e a distorceu. Fizeram “o que parecia simplesmente sensato e natural – os impulsos comuns de criaturas sensíveis – parecer inimigo da verdade.” Ou seja, “numa das grandes transformações culturais da história do Ocidente, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.”

Os cristãos não inventaram a dor como elemento importante da vida sociopolítica. Os romanos eram mestres nessa prática, que ia além da estética, estava incrustada em seu exercício de poder. Mataram Cristo e muitos outros pregados numa cruz. Mas os cristãos, à medida que iam se empoderando, iam transformando a dor em princípio vital de fé e de purificação. Não matavam em cruz, que se tornou seu símbolo máximo. Queimavam, esfolavam.

Princípio da dor

Segue abaixo um longo trecho esclarecedor de Greenblatt sobre essa dicotomia que mostrava bem a separação entre o ideal de vida do pensamento pagão epicurista e do pensamento romano/cristão:

“Infligir dor era um fato que estava longe de ser algo desconhecido no mundo de Lucrécio [o que revolucionou as ideias de Epicuro]. Nisso os romanos eram especialistas, e dedicavam somas imensas e arenas gigantescas a espetáculos públicos de violência. 

“E não era só no Coliseu que os romanos podiam se refestelar com ferimentos, dor e morte. Peças e poemas, baseados em mitos antigos, muitas vezes eram sangrentos, assim como as pinturas e esculturas. A violência era parte do tecido da vida cotidiana.

“Esperava-se que mestres-escolas e donos de escravos açoitassem suas vítimas, e o chicote era um prelúdio frequente às execuções romanas. É por isso que no relato do evangelho, antes de sua execução, Jesus foi amarrado a uma coluna e fustigado.

“Para os pagãos, na grande maioria desses casos, a dor não era entendida como um valor positivo, um passo na direção da salvação, como era por devotos cristãos que se fustigavam sozinhos, mas como um mal, algo destinado a quem infringia as regras, criminosos, cativos, vagabundos infelizes e — a única categoria dotada de dignidade – militares.

“Os romanos honravam a aceitação voluntária da dor por um bravo soldado, mas essa aceitação era muito diferente do ritual extático celebrado em centenas de conventos e mosteiros. Os heróis das histórias romanas enfrentavam de bom grado o que não podiam em sã consciência evitar, ou o que sentiam ser necessário aguentar para provar a seus inimigos sua intrépida coragem.

“Fora da esfera da obrigação heroica, ficava a disciplina filosófica especial que permitia ao sábio dos tempos clássicos considerar a dor inescapável – a dos cálculos renais, por exemplo – com equanimidade. E para todos, do mais exaltado filósofo ao mais humilde artesão, havia a busca natural do prazer.

Na Roma pagã, a versão mais extravagante dessa busca do prazer vinha junto com as mais extravagantes imposição e resistência à dor, na arena gladiatória. Se Lucrécio oferecia uma versão moralizada e purificada do princípio romano do prazer, o cristianismo oferecia uma versão moralizada e purificada do princípio romano da dor.”

Combatendo a ideia de prazer como luxúria e atrelando-a ao mundo pagão, os cristãos foram apagando do cenário social tudo e todos que não refletiam seus valores, ao menos à luz do dia, ao largo das ruas em pleno sol. “O ódio pela busca do prazer e uma visão da ira providencial de Deus: foram esses os pregos no caixão do epicurismo”, diz Greenblatt.

Poggio e seu achado

Toda essa história, obviamente, coincide com a queda do Império Romano e o domínio dos germanos, que a essa altura já eram cristãos. As bibliotecas públicas foram aniquiladas. Por isso, os únicos manuscritos que restavam estavam guardados nos porões das bibliotecas dos mosteiros, por mais contraditório que isso possa parecer. 

Da natureza é um poema épico-filosófico que recupera o pensamento de Epicuro. Coma perseguição aos epicuristas, o poema foi relegado ao esquecimento por mil anos, até que surge no palco das buscas pelo pensamento da Grécia e da Roma antigas, Poggio Bracciolini.

O caçador de livros antigos nunca tinha lido o poema de Lucrécio. A maioria dos literatos já dava o livro como apagado da história. As informações que Poggio tinha vinham de leituras de outros autores, como Quintiliano e, principalmente, Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.), que no seu poema Amoresdizia “hão de perecer os versos do sublime Lucrécio, mas só/ quando um só dia trouxer à terra a destruição.”

Poggio era um típico intelectual a serviço do poder. Tinha uma caligrafia impecável que se tornaria modelo para o desenvolvimento da tipografia na imprensa de Gutemberg. Antes de começar a caçar livros, trabalhava como secretário da cúria romana. 

Chegou a alcançar o grau máximo de sua carreira como secretário papal. Quando foi servir ao papa João XXIII, ou Baldassare Cosso, caiu em desgraça junto com o pontífice, que em 1415 foi preso e deposto do caro, tornando-se, portanto, um antipapa.

Desempregado, Poggio decidiu se dedicar ao que já vinha fazendo como hobby, se enfiar nos mosteiros à procura de tesouros bibliográficos, sem saber como ganharia o pão de cada dia. 

Antes, fazia isso com o distintivo de quem servia à autoridade papal, Agora, era só com a cara, a coragem e as habilidades intelectuais afinadas durante anos de secretariado. 

Caçar livros da antiguidade grega e romana era uma obsessão coletiva que havia atingido o auge com o poeta Petrarca (1304-1374), mas muitos literatos embarcaram nessa aventura. 

Em janeiro de 1417, Poggio descobriu na biblioteca monástica de Fulda uma cópia de Da natureza (7.400 versos), “poema de uma beleza impressionante e sedutora”, que nos anos subsequentes seria uma peça-chave no fulgor da modernidade, ajudando a “desestabilizar e a transformar o mundo.”

A incrível experiência do humanismo árabe em Alexandria, como a de Avicena e afins, também é parte da história que possibilitou a Renascença. Mas o caso narrado por Greenblatt tem seus méritos. Méritos de excelência narrativa, de desenterrar uma aventura incrível de Poggio e de encadear fatos e personagens históricos. Como reconhecimento por sua minuciosa pesquisa, o autor ganhou o Pulitzer, em 2012.

No caso de Poggio, a grande recompensa de sua aventura foi a heroica recuperação de um livro seminal para a cultura que se criaria num período imediatamente posterior que se lograria a chamar de Renascimento. 

Intensa beleza lírica

“Dividido em seis livros sem títulos”, diz Greenblatt, o poema de Lucrécio “funde momentos de intensa beleza lírica, meditações filosóficas sobre a religião, o prazer e a morte e complexas teorias do mundo físico, da evolução das sociedades humanas, dos perigos e das alegrias do sexo e da natureza da doença”

Segundo Greenblatt, “muitos dos argumentos centrais da obra estão entre as fundações sobre as quais se ergueu a vida moderna.” O autor resume Da natureza a partir do artifício da lista, criando uma sequência afirmativa do discurso poético de Lucrécio, como se segue:

-1 “As partículas elementares são de número infinito, mas limitadas em forma e
tamanho.”

-2 “Todas as partículas estão em movimento num vazio infinito.”

-3 “O universo não tem um criador ou um projetista.”

-4 “Tudo vem a ser por resultado de uma virada.” Um ínfimo movimento que resulta numa “cadeia incessante de colisões. Tudo que existe no universo existe em função dessas colisões fortuitas de partículas minúsculas. As infinitas combinações e recombinações que resultam das colisões ao longo de um intervalo de tempo ilimitado são o motivo por que ‘os rios saciam o ávido mar com suas grandes águas, que a Terra, aquecida pelo vapor do Sol, renova as suas produções, e florescem todas as raças de seres vivos, se sustentam os fogos errantes pelo céu’.”

-5 “A virada é a fonte do livre-arbítrio.”

-6 “A natureza experimenta incessantemente.” (...) “Todos os seres vivos, das plantas aos insetos até os mamíferos mais elevados e o homem, evoluíram através de um longo e complexo processo de tentativa e erro.” 

-7 “O universo não foi criado para os ou em torno dos humanos. A Terra — com seus mares e desertos, seu clima hostil, animais selvagens, doenças — obviamente não foi construída com o propósito de fazer nossa espécie se sentir em casa. Ao contrário de muitos outros animais, que recebem ao nascer tudo de que necessitam para sobreviver, as crianças humanas são quase completamente vulneráveis: considere, escreveu Lucrécio num trecho famoso, como um bebê, igual a um marujo naufragado, arremessado na areia por ondas violentas, 

‘jaz nu sobre o solo, sem falar, sem nenhum auxílio para a vida, logo que natureza o lança num esforço, do ventre da mãe às praias da luz.’ (5.223-25)

-8 “A sociedade humana começou não com uma era dourada de tranquilidade e abundância, mas com uma batalha primitiva pela sobrevivência.”

-9 “A alma morre.”

-10 “Não há vida após a morte.”

-11 “A morte não é nada para nós.” Ou seja, é só para os que morrem, como diria Riobaldo, de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, que certamente bebeu nesta fonte, como em tontas outras.

-12 “Todas as religiões organizadas são ilusões supersticiosas. As religiões sempre prometem esperança e amor, mas sua estrutura profunda, fundamental, é a crueldade”
-13 “Não existem anjos, demônios nem fantasmas.”

-14 “O objetivo mais elevado da vida humana é a ampliação do prazer e a redução da dor.”

-15 “O maior obstáculo ao prazer não é a dor; é a ilusão. Os principais inimigos da felicidade humana são o desejo desproporcionado — a fantasia de obter algo que excede o que o finito mundo mortal permite — e o medo constante.”

Greenblatt segue adiante no argumento. “A fantasia da dor infinita ajuda a explicar sua tendência à religião: na crença equivocada de que suas almas são imortais, e portanto potencialmente sujeitas a uma eternidade de sofrimento, os humanos imaginam que podem de alguma maneira negociar com os deuses uma solução melhor, uma eternidade de prazer no paraíso.”

-16 “Compreender a natureza das coisas gera um profundo embevecimento. A percepção de que o universo consiste de átomos e vazio e nada mais, de que o mundo não foi feito para nós por um criador providencial, de que não somos o centro do universo, de que nossas vidas emocionais não se distinguem das de todas as outras criaturas, assim como nossas vidas físicas, de que nossa alma é tão material e tão mortal quanto nosso corpo — tudo isso não é motivo de desespero. Pelo contrário, compreender como as coisas são é o passo crucial para a possibilidade da felicidade. A insignificância humana — o fato de que tudo não gira em torno de nós e de nosso destino — é, insistia Lucrécio, a boa nova.”

Missão cumprida

Poggio Bracciolini nasceu em Terranuova, conforme já foi dito, em 1380. Seu sobrenome rebatizou sua cidade natal, que passou a se chamar Terranuova Bracciolini, na região da Toscana. Mas a homenagem foi feita a um de seus filhos, segundo Greenblatt. A Wikipédia em italiano, no entanto, diz que o nome da cidade foi rebatizado em 1862 para homenagear o o “célebre humanista Poggio Bracciolini.”

Ele serviu a oito papas. Foi também chanceler de Florença no fim da vida, dos 73 aos 78 anos. Testemunhou a queda de Constantinopla pelos turcos. Deixou vários livros escritos e traduções, como a do grego para o latim de O asno de ouro, de Luciano de Samósata. Em Florença, foi amigo ou contemporâneo de nomes importantes da Renascença como Donatello, Fra Angelico, Paolo Ucello, Leon Battista Alberti, etc.

Os grandes pensadores, da Renascença para cá, só puderem mergulhar na cultura e nas letras do mundo antigo graças à dedicação de caçadores de livros como Poggio e seus colegas humanistas contemporâneos, que desenterram esses tesouros. 

Depois de ser trazido de volta das profundezas seculares do esquecimento, as palavras de Da Natureza “começaram a ressoar vigorosamente nas obras de escritores e artistas do Renascimento, muitos dos quais se consideravam cristãos devotos.” 

Isso ocorreu primeiro nas pinturas e nos romances épicos (Botticelli, Piero di Cosimo, Rafael, Leonardo da Vinci, Boiardo, Ariosto, Tasso, Erasmo de Roterdã, Thomas More, Shakespeare, Edmund Spenser, John Donne, Francis Bacon, Montaigne, Galileu Galilei), ou seja, nas artes.

Depois, essa influência se estendeu às ciências e à filosofia. Em seguida, “o materialismo de Lucrécio ajudou a gerar e apoiar o ceticismo de gente como Dryden e Voltaire e a descrença programática e devastadora manifestada por Diderot, Hume e muitas outras figuras do Iluminismo.”

Darwin na lista de herdeiros

Em seu capítulo de conclusão, Greenblatt escreve: “Quando, no século XIX, Charles Darwin se pôs a resolver o mistério da origem da espécie humana, ele não tinha de se servir da visão de Lucrécio de um processo natural e não planejado de criação e destruição, infinitamente renovado pela reprodução sexuada. Essa visão havia influenciado as teorias evolucionistas do avô de Darwin, Erasmus Darwin, mas Charles podia basear seus argumentos em seu próprio trabalho nas ilhas Galápagos e em outros lugares.”

Não me parece inteiramente acertada esta observação de Greenblatt. Ele mesmo faz uma referência do poema de Lucrécio que mostra o contrário, para quem conhece o trabalho teórico de Darwin. A referência é a seguinte: 

“A ideia de que a linguagem foi de alguma maneira dada aos humanos, como uma invenção miraculosa, é absurda. Em vez disso, Lucrécio escreveu, os humanos, que como outros animais usavam gritos não articulados e gestos em varias situações, aos poucos chegaram a sons compartilhados para designar as mesmas coisas. 

E assim também, muito antes de serem capazes de se juntar para cantar canções melodiosas, os humanos imitavam o trilo dos pássaros e o doce som de uma brisa suave sobre os juncos, e assim gradualmente desenvolveram a capacidade de fazer música.”

O fato é que na época da publicação e divulgação de sua obra mais famosa, A origem das espécies, Darwin foi questionado de diversas formas sobre todos os processos de evolução, e um desses questionamentos foi sobre como o homem começou a falar.

Esse problema da fala não estava evidenciado em A origem das espécies, pelo fato sabido que era difícil encaixar na teoria darwinista uma explicação sobre órgãos, que se adaptam para continuar valendo na natureza, para algo como a fala, que não é órgão algum. 

Mas, em 1871, Darwin aparentemente resolveu o problema, que não é aceito por muitos pesquisadores antievolucionistas até hoje. Em A descendência do homem, ele diz que a linguagem humana teve origem “nos cantos dos pássaros durante a temporada de acasalamento. O homem começara a imitar os pássaros, a capella. Pouco a pouco, ele havia começado a repetir certos sons dos cantos, com tanta frequência que seus sons passaram a representar certas coisas na natureza. Tornaram-se embriões de palavras, e o homem começou a criar uma ‘protolinguagem musical.’”

Ou seja, olhando pelo retrovisor da história, não parece ser coincidência, parece ser uma cópia mesmo, uma cópia de algo genialmente pensado, saído da mente de alguém com uma capacidade incrível de observar a natureza e o homem, Lucrécio.

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