domingo, 8 de março de 2020

Al Alvarez, o suicida longevo

Al Alvarez (1929-2019): “A morte é simplesmente um fim, um beco sem saída, nem mais, nem menos”


Al Alvarez foi um poeta, romancista, jornalista e crítico literário inglês que dizia ser londrino em todos os cantos da alma, mas não se sentia inglês de fato. É autor de vários livros, entre eles, NoiteO Deus Selvagem – um estudo do suicídio e A voz do escritor, publicados no Brasil.

Era judeu, descendente de uma família que se viu obrigada durante séculos a escamotear sua origem numa Inglaterra antissemita, que aceitava, por exemplo, que judeus fossem físicos ou filósofos, como Michael Kosterlitz (1943-) e Isaiah Berlin (1909-1997), mas não um crítico literário, um representante da nação em sua cozinha intelectual, segundo John Sutherland, no The Guardian.

Al Alvarez não tem o reconhecimento de Raymond Williams (1921-1988), Terry Eagleton (1943-), James Wood (1965-), enfim. Sua obra não possui a consistência desses caras citados, mas ele era um escritor brilhante. 

Um de seus livros mais conhecidos é a ensaística O Deus Selvagem, tendo como objeto principal a morte de Sylvia Plath (1932-1963) na análise das possíveis razões pelas quais as pessoas se matam, fazendo observações sobre os escritores e artistas suicidas.

Nesse livro, ele cita muitos casos curiosos e faz observações interessantes. Inicia sua narrativa abrindo o primeiro parágrafo do prefácio com uma cena magistral e sombria:

“Quando estava na escola, eu tinha um professor de física muito desorganizado e de temperamento amável que vivia falando, em tom de brincadeira, sobre suicídio. Era um homem pequeno com uma enorme cara vermelha, uma enorme cabeça coberta de grossos cachos grisalhos e um sorriso permanentemente preocupado. Diziam que ele tinha se formado com distinção em Cambridge, ao contrário da maior parte de seus colegas. Um dia, ao final de uma aula, ele comentou em tom ligeiro que uma pessoa que estivesse planejando cortar a garganta deveria sempre ter o cuidado de, antes, enfiar a cabeça dentro da uma sacola, caso contrário ela faria uma sujeira terrível. Todo mundo riu. Logo depois, o sinal da uma da tarde tocou e os meninos todos saíram porta afora para almoçar. O professor de física voltou direto para casa em sua bicicleta, enfiou a cabeça numa sacola e cortou a garganta. Não fez muita sujeira. Eu fiquei profundamente impressionado.”

Depois disso, Alvarez desenvolve a primeira parte do livro sobre Sylvia Plath, a segunda parte sobre o histórico do suicídio, a terceira parte sobre a dificuldade de as pessoas entenderem o suicida, bem como as falácias sobre o suicídio, as teorias, os sentimentos, e por fim, a quarta parte traçando uma vasta linha de comentários sobre suicídio e literatura.

Ao longo do livro, além das profundas considerações na tentativa de compreender o extremado gesto, ele faz uma série de observações interessantes. Diz, por exemplo: “Acredita-se que Zenão, o fundador do estoicismo, teria se enforcado por pura distração quando deu um tropeção e torceu o dedo.”

“A depressão suicida é uma espécie de inverno espiritual, gelado, estéril, imóvel.”

“O suicídio, como o sexo, é uma característica humana que nem mesmo a mais perfeita sociedade pode eliminar.”

“Os psicanalistas já sugeriram que uma pessoa pode se destruir não porque queira morrer, mas porque não consegue suportar um certo aspecto de si mesma.” 

“Atingindo um certo grau de desespero, uma pessoa pode se matar apenas para provar que está falando sério.”

No final, confessa: “Depois de tudo isso, tenho de admitir que sou um suicida malsucedido”. Em 1961, aos 32 anos, tomou 45 comprimidos para dormir, trancado no banheiro, e acordou três dias depois num hospital, vendo sua mulher chorar. 

Ao falhar com seu método, aprendeu a lição. Não tentou se matar de novo. Mas certamente conviveu ao longo de décadas com o sentimento de suicida, como um soldado enfrenta o inimigo na névoa da guerra, sem vê-lo. 

“Parece tão ridículo agora ter aprendido uma coisa tão óbvia de forma tão árdua, ter tido que percorrer quase o caminho inteiro até a morte só para crescer. Um lado meu ainda se sente ludibriado e lesado, e também envergonhado da minha própria estupidez. No entanto, no final das contas, até o esquecimento foi uma espécie de experiência. Por certo, nada nunca mais foi o mesmo desde que descobri por mim mesmo, no meu próprio corpo e nos meus próprios nervos, que a morte é simplesmente um fim, um beco sem saída, nem mais, nem menos.”


Ele escreveu O Deus selvagem para tentar compreender por que essas coisas acontecem, por que as pessoas se matam. Fez esse estudo em 1971, dez anos depois de sua própria tentativa de suicídio. Morreu em setembro do ano passado, aos 90 anos, vítima de uma pneumonia, em Hampstead, Norte de Londres.

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quarta-feira, 4 de março de 2020

Um homem que vivia ativamente: There was a man a man indeed

                                                                                                Foto: Gilberto G. Pereira


Dentro do livro O Deus Selvagem, de Al Alvarez, há uma epígrafe com o poema infantil inglês Um homem que vivia ativamente, na tradução de Sonia Moreira. Achei o poema curioso, bem sombriamente pitoresco, com uma mensagem sobre algo inexorável que ocorrerá a todos nós, a morte.

Por outro lado, e com outras palavras, ele lembra um pouco nossa parlenda “Hoje é domingo, pede cachimbo”, que também nos joga luz sobre a finitude das coisas e dos seres.

Um homem que vivia ativamente

“Um dia um homem que vivia ativamente
Cobriu o seu jardim de muita semente.
Quando a semente começou a dar rama
Era como um jardim cheio de grama.
Quando a grama começou a esparramar
Era como um barco lá no alto-mar.
Quando o barco começou a içar vela
Era como uma ave a fugir da panela.
Quando a ave começou a voar pro alto
Era como uma águia no céu cobalto.
Quando o céu começou a lançar trovão
Era como um leão atrás do portão.
Quando o portão começou a ser desfeito
Era como uma estaca a furar meu peito.
Quando o meu peito começou a tremer de aflição
Era como um punhal a rasgar meu coração.
Quando o meu coração começou a sangrar em jato
Era a morte e a morte e a morte de fato.”
(Tradução: Sonia Moreira) 


There was a man a man indeed
(Poema popular infantil inglês)

“There was a man, a man indeed
Who sowed his garden full of seed.
When the seed began to grow,
`Twas like a garden full of snow.
When the snow began to fall,
Like birds it was upon the wall
When the birds began to fly,
`Twas like a shipwreck in the sky
When the sky began to crack,
`Twas like a stick upon my back 
When my back began to smart,
`Twas like a penknife in my heart
When my heart began to bleed,
Then I was dead and dead indeed.”

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sábado, 29 de fevereiro de 2020

Café da manhã com os russos - Café 3 - Nikolai Gógol


Todo mundo sabe que o grande conto de Nikolai Gógol (1809-1852) é O Capote, cuja leitura faz muito brasileiro gaguejar na hora de repetir, aliás, toda hora, o nome do protagonista, Akaki Akakiévitch. 

Suas novelas e romances, como A briga dos dois Ivans e Almas mortas, também são clássicos da literatura russa, mas na sua obra há um conto chamado A carruagem, publicado em 1836 (quando Gógol tinha 27 anos), que, segundo os críticos, caiu no gosto de muitos autores que se tornariam clássicos mais tarde, de igual modo. É sobre ele este café.

A história se passa numa cidadezinha sem graça e feia, em algum lugar no Sul da Rússia. Antes, a cidade era monótona. Ninguém nas ruas, só bichos. Mas tudo muda quando se aquartela um regimento de cavalaria, mudando a rotina e o ânimo do lugar. Agora, carruagens e transeuntes. Nas cercas das casas, bonés de soldados dependurados, floreando a idílica paisagem.

Quando o general transferiu seu QG para lá, os proprietários de terras começaram a frequentar a cidade. A carruagem é o tipo de conto que assalta o leitor com um “vai vendo”. “Como acontece” é o grande lance, porque no fundo “o que acontece” na superfície é pífio.

Num magnífico dia de verão, a cidade está no auge de sua agitação, e o general decide oferecer um jantar. Tudo se volta para esse evento. 

Tchertokútski, o homem mais rico do lugar, vai ao jantar, bebe, joga cartas, conversa com o general e o convida para um almoço no dia seguinte. O general aceita ir com seus oficiais, e combina-se o encontro.

Mas, na noite do jantar, Tchertokútski bebe demais, e só chega em casa às 4 da manhã. Dorme até meio-dia. É acordado pela mulher dizendo que o general e seus oficiais estão chegando. Sem saber o que fazer, ele se esconde na estrebaria, e lá é descoberto. É uma peça cômica, muito bem engendrada. 

O que fica como memória do conto, como elemento nutritivo são a polifonia de figuras e vozes no espaço público da cidade, a convergência de movimentos pelas ruas e nas casas, de gentes e bichos, e objetos, tudo meio que dançando na narrativa, como carruagens e carroças, gente fumando, bebendo, almoçando, conversando. 

O mesmo acontece no interior dos personagens. Seus pensamentos, seus desejos e motivações aparecem. A cidade, antes praticamente morta, transforma-se num palco de vida. 

As pessoas em cujas vidas nada acontecia se animam, mudam suas perspectivas. É o que ocorre com Tchertokútski, que vê tudo se iluminar dentro de si, como fogos de artifícios que riscam a noite. Num átimo, a escuridão monótona da alma deixa a festa da existência acontecer, mesmo que a banalidade do cotidiano e o despreparo para os grandes feitos atropelem, depois, suas intenções.

No Brasil, A carruagem (tradução de Arlete Cavaliere) pode ser lido no livro Nova ontologia do conto russo (Ed. 34).

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Café da manhã com os russos - Café 2 - Aleksandr Púchkin


Tblisi, capital da Geórgia: já era famosa pelos banhos termais na época de Pushkin, que ressalta essa qualidade em seu conto

Aleksandr Púchkin (1799-1837) tem uma semelhança com Machado de Assis, dizem os críticos. A primeira leva de sua obra seguiu as linhas gerais da narrativa tradicional russa, mas, na segunda, mudou completamente o próprio estilo e o de seus sucessores.

Mas não é só isso que Púchkin tem de semelhante com Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho era mulato. Púchkin também. Ele era bisneto de Abraão Aníbal (1670-1762), nascido na Eritreia, escravo negro de Pedro, o Grande. Veja que esse negócio de imperador chamado Pedro nos persegue a nós negros. 

Há um conto famoso de Púchkin, intitulado O negro de Pedro, o Grande, com muitas edições no Brasil (na verdade, é um romance inacabado). Mas o conto em questão neste café da manhã é Viagem a Arzrum, publicado pela Editora 34 (tradução de Cecília Rosas).

A tradutora bancou a grafia Arzrum, em vez de Erzrum, provavelmente porque assim está no alfabeto cirílico russo. O próprio narrador do conto chama a atenção para a grafia adotada: “Arzrum (incorretamente grafada de Arzerum, Erzrum, Erzron) foi fundada por volta de 415, no tempo de Teodósio II, e chamada de Teodosópolis.”

Como a observação está entre parênteses, vá saber se não é coisa da própria tradutora. Dúvida eterna. Só o que se sabe é que nos mapas modernos a grafia é Erzurum – veja Google Maps). 

Publicado em 1836, o conto já mostra na introdução uma característica da prosa moderna, que é mistura de nomes e dados factuais do autor com a trama fictícia, enfatizando elementos de ironia (não ainda uma autoficção, mas seu germe, tendo o narrador, inclusive, o nome de Pouchkine).

Há um momento em que o narrador cita um poema de Aleksandr PúchkinO Prisioneio do Cáucaso e diz “a obra é toda fraca, juvenil, incompleta; mas há muito ali fielmente intuído e expressado." E há um conde Pushkin que viaja no mesmo grupo e um soldado chamado Mikhail Puschin. 

O conto é um relato de viagem que o poeta russo Pouchkine fez à Turquia, para cobrir a guerra russa-turca, em Arzrum. Nessa jornada, ele atravessa o sudeste do país, e algumas fronteiras, até chegar ao seu destino e se encontrar com o comandante das tropas russas, o conde Paskévitch. 

Ele sai, então de Moscou e passa por Kaluga, Beliov, Oriol (cidade de Ivan Turguêniev), Kursk, Karkhov, Voronej, Stavropo, atravessa o rio Podkumok (com os recursos do Google Street, você olha o rio e vê que Púchkin imortalizou um rio da envergadura do Tamanduateí, ou João Leite, para quem é de Goiânia).

Alcança Vladikavkaz, atravessa o rio Terek, chega a Lars, passa pela cadeia de montanhas Darial, já na Geórgia, observa o monte Kazbek, por onde ele diz ter passado com indiferença porque queria chegar logo a Tbilisi, ou seja, atravessa toda a região do Cáucaso, espremida entre o Mar Negro e o Mar Cáspio.

Atravessou o rio Kura, que banha Tbilisi, a capital de Geórgia (“Tbilis-kalak, em georgiano significa cidade quente”, diz o narrador, que chama a cidade de Tiflis, tal como se diz em russo), e passou por Guiumri (Armênia), Kars (Turquia), avistando, dos vastos campos abertos, o monte Ararate, a mais de 100 quilômetros de distância.

Esse passeio saindo do Sudoeste da Rússia rumo à Ásia Menor, às terras da Turquia, forma uma cartografia interessante. É uma narrativa aos moldes das crônicas de viagem, com riqueza de detalhes. As impressões de lugares e costumes que ele fixa no texto ressaltam seu estilo de prosador e sua fantástica capacidade de pintar a natureza.

É um texto que deveria ser lido por todo jornalista interessado em escrever reportagens de fôlego. A viagem não é toda fictícia, porque Pushkin de fato fez um trajeto semelhante em 1829. 

As gentes descritas são reais, as magníficas paisagens com seus rios, montanhas, desfiladeiros e céu azul, neve e chuva são reais, a comida, os banhos termais em Tbilisi são reais.

Acompanhe a leitura que você faz usando o Google como ferramenta de apoio. Você verá uma magnitude que os leitores do século 19 não puderam ver, só puderam sentir o impacto das palavras de Púchkin, que não é pouco. 

Os personagens históricos não são inventados, como Alexandr Griboiedov, poeta e diplomata, que sofreu uma morte horrível em Teerã por fanáticos persas, cuja citação no segundo capítulo do conto é de uma beleza ímpar, pela comoção do narrador e pela descrição da personalidade do poeta morto.

“Suas capacidades como homem de estado ficavam sem uso; seu talento de poeta não era reconhecido; até sua coragem fria e brilhante esteve algum tempo sob suspeita. Alguns amigos sabiam de seu valor e viam surgir um sorriso incrédulo, esse sorriso tolo e insuportável, quando por acaso falavam sobre ele como uma pessoa extraordinária.”

O narrador passa de Kars e chega ao acampamento das tropas russas, na guerra contra os turcos, num avanço imperialista de Moscou. Essa narrativa não deixa de ser exaltação aos valores da Rússia, às suas forças armadas, sua inteligência, sua capacidade de territorialização. É a exaltação de um pensamento imperialista. 

Mas, apesar desse realismo político, trata-se de uma bela peça literária pelo tratamento dado, pelos procedimentos estéticos entre o realismo e o romantismo. O que fica como memória do conto, como elemento nutritivo, é a exuberância dessa paisagem exterior da Rússia, complexa em sua formação cultural e geográfica.

A coloração social mostra uma diversidade de povos impressionante (tártaros, calmucos, nogais, circassianos, ossetas, cossacos, e mais adiante armênios, persas), por meio dos quais o narrador desfila, em sua jornada rumo a Erzurum. 

Os conflitos naturais e sua beleza, no entanto, não acarretam transformações marcantes na alma do narrador, nem em subjetividade alguma. Neste sentido, pelo menos neste conto, presente no livro Nova antologia do conto russo (Ed. 34), talvez o último que ele tenha escrito, Púchkin está distante de Machado de Assis (além da distância geográfica e temporal, pois este só viria bem depois).

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Café da manhã com os russos - Café 1 - Nikolai Karamzin


Pobre Liza é um conto russo de Nikolai Karamzin (1766-1826) publicado em 1792. A história se passa nos arredores de Moscou, na zona rural, perto das torres góticas e sombrias do mosteiro de Simonov, instalada sobre uma colina de cujo cume dava pra ver toda Moscou. Isso no século 18, porque hoje a capital russa tem quase 12 milhões de habitantes e já tomou tudo aquilo. Mas o mosteiro, erguido em 1370 (pesquisei), continua de pé. 

Próximo do mosteiro, passa o Rio Moscou. Próximo do rio, num pequeno bosque, havia uma cabana onde 30 anos antes (1762) morava uma moça chamada Liza, “a bela e doce Liza”, com sua velha mãe, que ao ficar viúva (quando Liza tinha 15 anos) empobreceu. 

Por causa dessa orfandade e uma mãe sem forças, Liza começou a trabalhar. Ia a Moscou vender coisas do campo. Sua mãe era grata por isso, e dizia que Liza era “graça divina, arrimo de família, deleite de sua velhice, e pedia a Deus que a recompensasse por tudo o que fazia pela mãe."

Um dia, dois anos depois da morte do pai, vendendo lírios em Moscou, Liza conheceu um sujeito chamado Erast, muito simpático e generoso com mãe e filha. Os dois se apaixonaram. Como ele era nobre, e ela, camponesa, o amor permaneceu clandestino. Até que surgiu um boato de que os camponeses haviam arranjado um noivo pra Liza. Eis a a encruzilhada do destino.

Por causa disso, Liza decidiu se entregar ao doce Erast. Fizeram muito sexo por muito tempo, até que Erast disse que tinha de partir para a guerra porque morrer pela pátria era nobre. Amava-a, mas tinha de cumprir seu dever de cidadão e coisa e tal. Foi para a guerra. Liza não se casou, não tinha noivo nenhum, e sofreu pelo amor de Erast. 

Dois meses depois, Liza indo a Moscou vender suas coisas, ela se depara com Erast, vivo e são, sem o menor sinal de que estivera em algum front. Ele diz a ela pra esquecê-lo porque agora estava casado.

Não. Ele foi pra guerra, sim, hypocrite lecteur. Mas, lá, não lutou contra ninguém, nem contra seu vício em jogo. Jogou apostado até perder toda a fortuna, e teve de se casar com uma viúva rica. Alas me, oh my God! 

Mas não teve tempo de explicar nada à jovem amante. Liza se jogou nas águas do Rio Moscou e morreu afogada. Agora, me diga, com um título desses, numa história contada em 1792, ou era isso ou a solução romântica dos franceses. Mas os russos são os russos. Liza fora enterrada no cemitério do mosteiro, que o narrador contempla ao contar essa história.

Esteticamente, o conto narra uma história da miséria humana, contrapondo a beleza da natureza e sua paisagem exterior irretocável ao roto tecido da pobreza envolvendo a paisagem interior de Liza. 

O que fica como memória do conto, como elemento nutritivo é a imagem do infortúnio de Liza, que parece ter sido o mote para um personagem de Dostoievski em Crime e castigo, de 1866. Em Gente pobre, de 1846, Dostoievski já havia colocado um dos personagens das trocas de cartas para citar esse conto.

Em português, o conto está presente no livro homônimo de Nikolai Karamzin (tradução de Natalia Marcelli de Carvalho e Fatima Bianchi) e na coletânea Nova antologia do conto russo (vários tradutores; sendo Pobre Liza a mesma tradução da publicação citada acima; Org. de Bruno Barretto Gomide), ambos publicados pela Editora 34.

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Grimm, uma fabulosa fauna de presas e predadores: metáfora do que somos

“Eu não acredito em monstros, a não ser que sejam pessoas.” Sean Renard, capitão da polícia de Portland, chefe de Nick Burckhardt

“Os hospitais psiquiátricos estão cheios de pessoas tentando explicar as coisas que viram e não conseguem explicar.” Monroe, relojoeiro, blutbad e amigo de Nick Burckhardt

“Tem coisas que a gente não entende nesse mundo, o que não quer dizer que não existem.” Hank, parceiro de Nick Burckhardt na polícia de Portland, depois de se iniciar no mundo Wesen

 “A realidade está aberta a interpretações.” Héctor, um chefe indígena

 
Grimm, série produzida pela NBC entre 2011 e 2017: em cartaz no SyFy, da Globosat (TV paga), de segunda à sexta, às 12:35 e às 22 horas

A série Grimm se despediu do público periódico em 2017, na sexta temporada. Mas no dia 6 deste mês fez outra despedida, saiu da grade da Netflix, e vai deixar muita gente com saudade. (O texto a seguir contém spoilers e um monte de nomes e cenas).

Grimm é uma fabulosa fauna de presas e predadores metamorfoseados de gente, o que no fundo, sabemos, é uma metáfora do que somos. Pedófilos, como o lobo mau do primeiro episódio, estupradores, assassinos, exploradores inescrupulosos e seres indefesos, eternas vítimas, desfilam na trama dessa série espetacular.

O interessante disso é que, à luz de Darwin, nós humanos somos os seres mais complexos da evolução, estamos no topo, e tudo que está para trás é um tipo de rastro que deixamos. Daí fazer muito sentido a metáfora da vida pelo viés da nossa monstruosidade escondida.

O protagonista é Nick Burckhardt (David Giuntoli), investigador da polícia e Grimm, cujos ancestrais caçavam Wesen, seres de aparência humana, mas de essência animal, de diversas espécies: leão, águia, lobo, cobra, vermes, minhocas etc. 

Só os Grimms veem essa essência, quando algum Wesen voga (aparece como é), em estado de medo ou sob forte emoção (vogam também pra todo mundo ver, mas é raro). “Um Grimm é uma pessoa que consegue ver através das trevas, alguém que vê coisas que as outras pessoas não entendem”, diz Monroe, amigo de Nick.

E se forem reais?

Produzida pela TV americana NBC, de 2011 a 2017, Grimm foi estruturada dentro dos gêneros de fantasia, policial e ação. No Brasil, a série teve o título de Grimm: contos de terror, exibida na Record, no Universal Channel e na Netflix. Saiu da grade desses canais, mas está em cartaz no SyFy, da Globosat (TV paga), de segunda à sexta, às 12:35 e às 22 horas.

O nome, obviamente, vem dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), dois linguistas, poetas e escritores alemães que coletaram e organizaram vários contos de fadas na Prússia (atual Alemanha) e se imortalizaram por isso. Eles são citados na série como os primeiros ancestrais de Nick e dos raros Grimms que ainda andam por aí caçando “monstros”.

Essa origem justifica o fato de os nomes que envolvem os animais e teorias no mundo da série serem quase todos em alemão. Wesen, por exemplo, quer dizer ‘criatura’, ‘essência’, ‘natureza’, ‘caráter’, segundo o Pequeno Dicionário Michaelis Alemão-Português/Português-Alemão.

A ambientação é na cidade de Portland, no Estado de Oregon, EUA. O tempo é a contemporaneidade, começando em 2011, que é o ano de estreia da produção criada por Stephen Carpenter, Jim Kouf e David Greenwalt.

Embora os Grimm sejam impiedosos caçadores de Wesen, Nick é diferente. Ele segue a lei dos humanos (kehrseite). Prefere prender quem comete crimes, “tem distintivo e consciência”, não sente vontade de matar Wesen a torto e a direito. Quer dizer, mata muitos, mas apenas quando estes são assassinos brutais e não há o que fazer para pará-los.

A premissa que justifica a trama é colocada na boca de um dos personagens no Episódio 21 da primeira temporada: “E se todas as histórias que ouvimos não forem só histórias? E se forem reais?” Pois é. Eis a questão.

O lobo bom e a bela raposa

O personagem mais interessante da série é Monroe. Ele aparece nas primeiras cenas do primeiro episódio, e se torna um grande parceiro não oficial de Nick Burckhardt. Monroe é relojoeiro, além de Wesen. É um blutbad (piscina de sangue, em alemão), essência do lobo, mas é vegetariano, justamente porque abandonou a vida louca dos carnívoros.

Ele é engraçado, companheiro, tem um senso de humor refinado, é culto e adora música. Toca violoncelo. Seu repertório é sofisticado. Aprecia Mozart, Bach, Brahms, Rimsky-Korsakov. Lê livros, fala alemão, e anda num fusca bege com o para-choque traseiro esquerdo cinza. 

Uma vez, conversando com Rosalee, sua mulher, sobre a velhice e a solidão na morte, Monroe diz que os dois envelheceriam juntos e morreriam juntos, e então citou o trecho de um poema de W. B. Yeats: “But one man loved the pilgrim soul in you,/ and loved the sorrows of your changing face.”

Os versos são do poema “When you are old” (“Quando você estiver velha”, em tradução livre), do livro Early Poems II: The Rose, que pode ser traduzido assim (sem métrica): “Mas um homem amou a alma peregrina em você,/ e amou os sofrimentos de seu rosto mudado.” É um romântico.

Rosalee é uma fuchsbau (raposa) incrível, que sabe tudo de ervas. Mudou-se para Portland para resolver questões da morte do irmão e conheceu Monroe. Ela então decidiu continuar lá, vendendo produtos naturais para fazer todo tipo de poção mágica e unguentos.

Os dois personagens são muito bem construídos, e contam com boas atuações. Silas Weir Mitchell (Monroe) e Bree Turner (Rosalee) têm uma química que deu muito certo ao longo de todas as temporadas. Eles são um dos casais mais cativantes já vistos numa obra de ficção.

Além de Nick, que vê coisas que os outros não veem, Juliette, que é veterinária e talvez fosse ter um papel diferente na série, mas acabou se desenvolvendo de um jeito menos hortodoxo, Rosalee e Monroe, os outros coadjuvantes são Hank Griffin, policial parceiro de Nick, Wu, outro parceiro de Nick, e Trubel, uma bela e jovem Grimm que entra na trama mais tarde (Ep 19, Temp 3).  

O elenco principal ainda tem Bud Wurstner, um eisbiber (castor) amigo de Nick, medroso que só ele, mas muito família, Adalind Schade – hexenbiest (bruxa) de personalidade inconsequente, que está sempre fazendo o mal e ferrando os outros e a si mesma – e Sean Renard, chefe de Nick e um zauber-biest (bruxo) que oscila entre o bem e o mal (algo que parece ser da natureza dos bruxos).

No mundo da série

O fulcro da trama são os crimes cabeludos do ponto de vista das pessoas normais, ou seja, kehrseite (se sabem sobre os wesen, são kehrseite-Schlich-Kennen; se não sabem, são kehrseite-genträger).

Em um dos episódios, Nick investiga o tráfico de órgãos feito por Geiers (urubus), incluindo vesícula biliar humana seca, que os Wesen usam para tomar com chá branco. 

“Os Geiers praticam medicina alternativa, usando partes de animais exóticos como vesícula de urso, chifres de rinocerontes, e órgãos humanos para aprimorar criaturas. Isso funciona bem. Nossos animais exóticos são vocês” diz Monroe a Hank. 

Em outro episódio, Nick salva uma seltenvogel (pássaro raro, em alemão), quase extinto, que geralmente é mantido aprisionado como concubina ou periquito, por klaustreiches (um tipo de gato). Os klaustreiches seduzem as seltenvögel, aprisiona-as e as exploram.

O roteiro opera no registro de estereótipos. O castor é encanador, e não advogado. Hexenbiests e zauber-biests (bruxas e bruxos) é que lidam com a lei. Urubus procuram a morte, leões estão no topo. 

Mas também explora o avesso dos arquétipos, mudando o significado fabular. Logo, há o porquinho que mata lobos, a Cinderela que persegue e mata as meias-irmãs. Há o lobo bom (Monroe). 

A versão da bela adormecida também está modificada. Vem como registro de ironia à contemporaneidade, com Juliette entrando em coma por causa de um feitiço de Adalind, e Renard (que além de zauber-biest é um príncipe bastardo) tendo de se purificar para dar um beijo (puro e verdadeiro) na Juliette, despertando-a, à revelia do conhecimento de Nick.

“É um processo de purificação. A pessoa que acordá-la tem de ser puro de coração. É impossível achar alguém assim hoje em dia, então fazemos isso quimicamente”, diz a mãe de Adalind, expert na alta bruxaria.

Outra coisa importante no centro da série é o trailer herdado por Nick da sua tia Marie. É pleno de armas medievais (Besta, Kanabo, Balestra, Rifle de ogros) e de livros em vários idiomas, como árabe, japonês, alemão, espanhol, italiano, latim, descrevendo as características dos Wesen e como matá-los. 

“Este lugar é tipo o Arquivo Nacional, ou uma espécie de Smithsonian de Grimmnologia. Só o valor histórico de tudo aqui é...”, diz Monroe, devorador de cultura, completamente apaixonado pela riqueza do acervo. 

O trailer tem uma biblioteca com as crônicas dos Grimm, e agora, Nick está escrevendo as suas também. “Tem cada coisa espetacular nesse trailer”, diz Monroe (Ep 20, Temp 1). "Acho que nunca vou me cansar daqui. Eu poderia passar dias aqui”, diz Wu (Ep14, Temp4), quando se inicia no mundo especial. 

Escuridão infinita

Se por um lado, um Grimm tem o poder de ver os Wesen ao vogarem, nesse momento, eles também o reconhecem, e geralmente entram em pânico ou fúria, pois ao longo de séculos os Grimm caçavam e matavam Wesen. Agora, são raros. Para muitos, não passam de uma lenda.

“Os Grimm não tinham compaixão ou consciência. Matavam homens, mulheres, crianças, animais. Eles tinham um esquadrão da morte, e vagavam pelo interior do país cortando cabeças, arrancando olhos, braços, pernas, testículos”, diz Monroe (Ep 10, Temp 2). 

Quando um Wesen voga diante de um Grimm, vê nos olhos deste “uma escuridão infinita, e, refletida nela, vê também sua verdadeira natureza Wesen”, diz Monroe. Ou seja, vê sua própria animalidade.

Onça pintada

A série explora as diversas fábulas e todos os cantos do imaginário humano, indo da psicodelia às sondagens do inconsciente. Deve ser um prato cheio para estudiosos da psicanálise que seguem a linha de Bruno Bettelheim. Lendas de todos os continentes são abordadas.

Do Brasil, há inclusive uma que inspirara João Guimarães Rosa para um conto muito famoso, “Meu tio o Iauaretê”, que consta no livro Estas estórias, de 1968. Na série, o animal aparece como yaguareté (onça pintada, no Brasil), uma lenda guarani cujo relato diz que o yaguareté é uma pessoa encantada.

Várias outras lendas da Amazônia são narradas em Grimm, mas se fôssemos exigir precisão, queríamos a presença pelo menos do Saci Pererê, Mula Sem-Cabeça e da Iara. Sua prima, a sereia, foi lembrada.

Apesar de se intitular Grimm: contos de terror, em português, e de fato haver uma estética de fantasia com violência e certo grau de macabro, geralmente as tramas não assustam. Mas são definitivamente um thriller bem contado.

Susto e perplexidade

Como espectador, a história que mais mexeu comigo, talvez entre aí algum componente do inconsciente, foi o episódio “A Chorona”, fantasma de mulher que chora e rouba crianças (Ep 9, Temp 2). A mãe afogou os três filhos por vingança porque o marido a trocara por uma mulher mais jovem. (Quase Medeia). Como consequência, ela se matou e virou esse fantasma assustador.

Assusta-me, talvez porque seja uma história de almas. Não acredito em fantasmas, mas eles não dependem de minha crença, ou da falta dela, para existirem. Nick solucionou o caso, mas não venceu o espírito transtornado, que não era exatamente um Wesen.

Se umas histórias até assustam, outras causam perplexidade, qualidade característica do terror, como o episódio 18 da 5ª temporada, sobre uma família de barbatus ossifrage (um tipo de abutre – como o real Gypaetus barbatus), que quebram ossos para comer a medula (tutano).

Os pais são dois velhinhos que moram num trailer às margens do rio. O filho espreita vítimas à noite num dos parques da cidade, sentindo um tipo de aroma da morte. Ele as atropela várias vezes, quebra bem seus ossos e então usa sua técnica de Wesen para sugar pela boca da vítima a papa de carne e osso dissolvidos no corpo, ficando só a estrutura física de couro e pele.

O filho vai até os pais que estão de bico aberto esperando a refeição. Ele regurgita tudo no bico dos progenitores. Os pais fazem chantagem moral para cobrar comida do filho. “Você é um bom menino”, diz o pai. “O que nós faríamos sem ele?”, pergunta a velha mãe. “Passaríamos fome”, responde o velho e cansado pai.

Quando está caçando, arrastando as vítimas, o filho protesta em voz alta: “Só reclamam. Egoístas! E a minha vida? Espero que morram!” Nick e Hank descobrem quem é o sugador de tutano, e o perseguem. Ele é atropelado e morre. Os pais, velhinhos, vão reconhecer o corpo do filho todo amassado no necrotério.

“Esse é o nosso Charles”, diz o pai. “Era um menino tão bom”, diz a mãe. Quando os investigadores saem, os velhinhos olham um para o outro, ainda chorando, e a mãe diz: “Ele não pode ser desperdiçado assim.” E o velhinho: “Tem razão. Vai você primeiro.” E sugam pela boca os ossos triturados do filho.

A trama virou outra

Grimm foi espetacular até o último episódio da quarta temporada. Depois disso – salvo raras exceções, como o episódio dos barbatus ossifrage e um na sexta temporada sobre uma cigarra que hiberna enterrada no chão, junto com um corpo para se alimentar por sete anos, voltando ao mundo dos vivos por 24 horas para buscar mais um corpo –,  tornou-se apenas o resíduo de uma usina criativa e original. 

O roteiro tomou outro rumo, começou a misturar lenda com mitologia e acabou desembocando na exploração de arquétipos religiosos e premissa de física quântica. 

Os produtores gostam de saturar uma boa ideia. Uma série é uma criaturinha que vamos alimentando, e quem vê vai gostando, mas que se tornará fatalmente um monstro incontrolável.

O ideal seria parar antes, no momento exato, e não matar o monstro. Seria melhor liberar a criatura e deixá-la partir para a selva enquanto temos dela os melhores sentimentos. É raro isso acontecer. 

Geralmente, os roteiristas exploram até a última hora de criatividade e não percebem que já passaram do ponto, que a premissa original já foi pro espaço e a trama virou outra.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O Irlandês é um filme imenso

De Niro não foi indicado ao Oscar (Joe Pesci e Al Pacino, sim, como coadjuvantes), mas sua atuação é digna do grande filme que é O Irlandês, e ele conduz a trama inteira 

A primeira vez que tentei ver O Irlandês, não consegui. Parei nos 30 minutos (das 3 horas e meia de filme). Achei o filme lento demais. Ainda assim, nessa primeira meia hora, fiquei impressionado com a atuação de Joe Pesci, contida, sustentando um tom dramático absoluto, sem resvalar na comédia, justo ele que sempre foi engraçado. 

Todo mundo já dizia que o filme seria indicado ao Oscar, como foi em 10 categorias. Ontem decidi ver o filme do começo ao enfim. Entre um bocejo e outro, comecei a prestar atenção nos detalhes das cenas, passei a seguir as indicações do roteiro. Terminei de ver, e fui ver de novo para apreciar o fio da narrativa.

O Irlandês é um filme imenso, e me sinto envergonhado de dizer isso só depois de estar legitimado pela crítica e pela Academia de Hollywood. Mas é uma aula de direção. Há momentos em que a cena é sustentada pelo silêncio, e a câmera capta nos gestos de Robert De Niro toda a tragédia que se anuncia, todo o drama de chegar até ali matando pessoas.

A história da máfia, com suas famílias cheias de vida e de amor, e de empreendedorismo, e de traição, e a morte como a moeda mais corrente, está encerrada nesse filme de modo magistral. Existe uma dor que atravessa a narrativa, e uma consciência de que não há esperança nenhuma que também é muito cortante.

De Niro não foi indicado ao Oscar (Joe Pesci e Al Pacino, sim, como coadjuvantes), mas sua atuação é digna do grande filme que é O Irlandês, e é ele quem conduz a trama inteira, fazendo dois papéis ao mesmo tempo. 

Faz um papel visível, que é o de um assassino profissional que serve a dois senhores, matando gente (enquanto lida com o drama doméstico de não saber como amar as filhas e a mulher, sendo um assassino).

O outro papel é quase imperceptível. É o de um velho largado num asilo falando sozinho (sutilmente sugerido), narrando a história da máfia que ele mesmo ajudou construir e que sobreviveu a ela, guardando um segredo que jamais contou para as autoridades (quem matou Jimmy Hoffa).

Martin Scorsese concorre ao Oscar de Melhor Diretor, mas concorre com Quentin Tarantino, cujo filme Era uma vez em... Hollywood pode levar o prêmio este ano.

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Por onde anda Wania Capelli

Branca como uma italiana, de uma brancura que aceita o sangue vir à pele em momentos de rubor ou raiva. Plena de entusiasmo (um deus dança dentro dela), cheia de vigor para falar. O primeiro contato que tive com ela foi pela voz ao telefone, em dezembro de 2000, me comunicando a aprovação no Curso Abril de Jornalismo em Revista, em São Paulo.

A pobreza em que eu vivia em Goiânia saltava aos olhos de qualquer um. Quando passei no vestibular de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) para o ano de 1997, eu já sabia do novo ambiente que encontraria. 

Eu era uma espécie de Colombo do Cerrado descobrindo o Novo Mundo de gente branca e burguesa dos bancos de faculdade. Eu era agora preto e pobre entre meninos e meninas de pele clara.

No primeiro dia de aula, uma colega pediu que escrevêssemos nossos respectivos endereços num caderninho para contato. Escrevi Rua Palmito, Chácara 4, Vila Yate, e a colega riu, perguntando se eu estava brincando. Para quem morava no Setor Bueno, Marista, Setor Oeste ou adjacências, eu só podia estar de sacanagem. 

Mas deu tudo certo. Quando passei no Curso Abril, quatro anos depois, uma dessas plumas diáfanas da burguesia goianiense me disse “parabéns, este era o único curso (estágio) que me interessava fazer.” Ouvir aquilo foi como uma vitória pessoal. 

Cheguei a São Paulo trazendo na mochila a mesma expectativa e a mesma pobreza. Wania Capelli foi quem nos recebeu. Ela era subordinada de Eugênio Bucci, na Secretaria Editorial, responsável pelo Curso Abril na ocasião. Ela tinha 38 anos.

Quando cheguei, Wania já era uma lenda ali. Fora secretária direta de Victor Civita, o fundador do Grupo Abril, e quando este morreu, ela foi realocada para a Secretaria Editorial e acompanhou de perto o desabrochar de muitos jornalistas da casa.

Eu ainda estava em Goiânia quando ela me perguntou onde eu ficaria. Na Zona Leste, eu disse. O Grupo Abril fica na Zona Oeste, em Pinheiros, tocando para o Sul. Não tínhamos direito a hospedagem, só alimentação. Cada um que se virasse com lugar de dormir. 

Mas Wania arranjou um jeito de pagar um hotelzinho em Santa Cecília pra eu e um colega ficarmos, um colega tão pobre quanto eu, vindo do Rio Grande do Norte, o Francisco. O restante da turma era de classe média, um tipo de mundo muito agradável, no geral, mais pela logística do que pela fauna encontrada (salvo raras exceções, das quais me lembro muito bem).

Ficamos bem instalados naquele espaço simples, onde uma vez, conversando em inglês, ouvi um nigeriano dizer “eu negocio raw leather (couro cru)”. Mas depois soube que seu trabalho era mesmo com white dust. Traficava cocaína. 

Nesse mesmo hotel, havia uma garota – com quem meu colega e eu fizemos amizade – que dizia em toda conversa entre nós que gostava de p**a. Ela era bonita, uma catarinense de sotaque carregado e corpo photoshópico. E eu, inocente, impuro e besta, não reagia à fala dela (pensando falo ou não falo) senão com sorrisos, entre um gole e outro de cerveja.

Eu sabia que aquilo de que ela gostava tinha de vir enrolado em notas de cem, e eu não tinha sequer uma camisa nova. Mas fiquei nesse hotel, e de lá pegava o Pinheiros 308, se não me engano, até o NEA (Novo Edifício Abril), na Avenida das Nações Unidas, ao lado da Marginal Pinheiros.

Do começo ao fim dessas aventuras em SP, a presença de Wania era um galardão pra mim. Era um fluxo de afeto que me impulsionava na difícil empreitada de encarar São Paulo. Eu tinha dois irmãos que moravam lá havia décadas, mas moravam, advinha, na Zona Leste, e por isso, estar num hotelzinho em Santa Cecília era a grande jogada, me facilitava a vida, e Wania sabia disso.

Sua generosidade tinha de ser contada em livro. Wania entrou presencialmente na minha vida em janeiro de 2001. De lá para cá, de novo talento da Editora Abril, passei por todas as fases do fracasso em cada redação que trabalhei, em São Paulo, Curitiba e Goiânia. 

Escrevi para a Superinteressante, para a Época, para o Diário do Comércio, para sites e portais, trabalhei na Editora Ática, em assessorias de imprensa como W&NP e FSB, em São Paulo, nas revistas Clube Curitibano e Clube Santa Mônica (Curitiba), nos jornais Tribuna do Planalto, O Popular e Opção (Goiânia).

Em todos esses lugares mencionados, soube usar com maestria a ferramenta da autossabotagem. Fui responsável por cada um de meus desligamentos dessas empresas. Mas não desliguei Wania da chama de minhas lembranças. Ela permanecerá para sempre num lugar especial de minha memória poética.

Sempre que eu olhar para minha história pregressa, verei Wania me arranjando o hotel em Santa Cecília, querendo meu sucesso, me apoiando nas horas mais difíceis, como quando um de meus irmãos foi assassinado em São Paulo e ela foi ao enterro, no Cemitério da Vila Formosa, para me abraçar e me consolar da dor de perder um irmão. Ninguém faz isso na cidade do escárnio se não for por legítima afeição.

Sempre que eu acender minha memória, na primeira luz estará Wania, dançando comigo na festa de encerramento do Curso Abril, me abraçando, conversando comigo, convidando-me para jantar no apartamento dela, onde morava com o marido e o filho, onde degustei um delicioso foundi acompanhado de um inesquecível Beaujolais, num dia frio em Higienópolis.

Wania sempre estará em minha memória em registros afetuosos, como quando esteve presente no Chá de Bebê de minha filha, em 2007, e quando foi ao apartamento onde eu morava, em 2008, para presentear – com uma manta que ela mesma bordou – minha filhinha nascida havia poucos meses.

Junto com essa memória, carregada de lembranças de uma mulher incrível, bonita, inteligente, com grande senso de justiça, há também uma fina névoa de cinza. Quando voltei para Goiânia, o impasse dos anos e a distância afastaram-me de Wania Capelli. E me entristeço. 

Enquanto estava em São Paulo, deixei passar as oportunidades de dizer o quanto a amei por tudo isso, como quem ama a uma mãe. Agradecer não era suficiente. Seria preciso dizer “eu te amo”, e isso eu não fiz.

Não tive fartura de gestos para mostrar a ela minha gratidão. Não a abracei suficientemente, não lhe mandei flores, não telefonei pra ela o bastante pra dizer coisas simples, ou simplesmente para ouvir sua voz de sotaque da Bela Vista criticando as ordinarices do mundo, para ouvi-la, para vê-la.

Wania foi meu primeiro sorriso paulistano. Seguramente, por este sorriso ter sido na chegada, foi quem me fez acreditar que naquele imenso geral de prédios e barulho havia uma distinção feita de afeto.

Ela me protegeu, me salvou, me acolheu, me apoiou, encheu meu mundo de lembranças positivas, de exemplo de afeto desinteressado, de amor mesmo, um tipo de amor raro sempre, o amor da amizade, porque foi uma amizade dada ao primeiro encontro, e amizade dada – como diz Riobaldo, de Grande sertão: veredas –, amizade dada é amor.

Todas as fotos que tirei com Wania Capelli foram acidentalmente apagadas por minha filha, ainda pequenininha, do meu computador. As imagens das fotos foram deletadas, mas não as imagens registradas em minha memória. 

O mais importante é que elas não são estáticas. Estão em movimento, com o volume da voz, com a dinâmica dos gestos elegantes, da postura ereta, do olhar, do jeito de andar, da mão segurando o cartão para passar na catraca da Editoria Abril e ir almoçar no restaurante do NEA.

Wania merece todas as palavras benditas, todos os verbos perfumados e afetivos e alegres e cheios de vida apenas para completar a vida imensa e enérgica que sempre teve. 

Flutuei pelas águas da cidade que é dela. Sei tanto quanto ela do nível de surfe que se pode ter em meio às ondas de dificuldade e do número de caminhos que se bifurcam em tão pouco tempo na Pauliceia. São tantos que nos fazem até perder a direção, mas também nos ensinam que a vida é esse emaranhado de fios e cores em meio ao cinza que tisne o redor.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

The Witcher – entre Game of Thrones e o fracasso

Yennefer de Vengerberg, Geralt de Rívia e Cirilla, a trindade heroica da série, cada um com seu conjunto de atributos conflitantes, que na segunda temporada deve mostrar mais a que veio, caso contrário, a série não decolará

Se a Netflix apostou nos Fandoms dos livros e do game The witcher – criação literária do polonês Andrzej Sapkowski – para o sucesso da série homônima lançada no final de 2019, pode ser que dê certo. São milhões de apreciadores da narrativa que conta a saga do renegado bruxo mercenário Geralt de Rívia rumo ao seu destino, a saber, proteger uma princesa (que tem poderes ocultos) de 12 anos.

Mas cada formato tem suas peculiaridades. Todo mundo sabe disso. Não há ninguém bobo numa produção de US$ 80 milhões. The witcher chegou ao serviço de streaming com grande expectativa, com muita jogada de marketing, alguns jornalistas dizendo inclusive que veio para ocupar o lugar de Game of thrones, mas a realidade é mais complicada. 

Não é a primeira vez que a Netflix inventa de concorrer com o megablockbuster da HBO, cuja última temporada foi ao ar em 2019. Em dezembro de 2014, com Game of thrones no auge de sua performance, a Netflix lançara Marco Polo, com esse mesmo intuito, fazer frente à poderosa intriga de Westeros. Marco Polo, também superprodução, tinha um roteiro mais bem trabalhado que The witcher, e só durou duas temporadas. 

Os realizadores da nova série querem fazê-la durar até a oitava temporada. Sei não. Muitos elementos contribuem para um possível fracasso. Além de problemas no roteiro (coisa que pode ser consertada a partir do segundo ano), os atores são fracos e os personagens são mal desenvolvidos, principalmente Geralt de Rívia (Henry Cavill). 

A direção não joga com a empatia do público, a fotografia é um permanente déjà vu, e as estratégias de narrativa enrolaram mais a cabeça do espectador do que ajudaram a acompanhar a introdução e o desenvolvimento dos arcos dramáticos.

Para se ter ideia, a confusão do roteiro fez a jornalista do portal UOL Beatriz Amendola, em reportagem esclarecedora em muitos aspectos (22/12/2019), dizer que “a jornada de Geralt de Rívia desenrola-se em paralelo a um grande confronto entre os reinos de Nilfgaard e Cintra”.

Não é bem isso que acontece. Para ser paralelo, deveriam ser duas narrativas. No caso da trama de The witcher, há apenas uma narrativa. O que causa o estranhamento é um imenso flashback que dá início à história, com Geralt de Rívia matando uma quiquimora (com garras de rapina, cabeça meio humana e corpo de aranha), muitos anos antes do nascimento da princesa Cirilla (Freya Allan), o seu destino.

O espectador acompanha Geralt (lê-se Guéralt) em sua sanha de caça ao monstro, matando um aqui outro acolá, inclusive uma princesa amaldiçoada (salvando outra lá na frente, mas tudo antes do nascimento de Cirilla) até o minuto 12 do primeiro episódio, quando entra em cena o tempo presente da narrativa, com Cirilla aos 12 anos, jogando bugalha com seus jovens súditos.

A ruína de Cintra

Este jogo entre presente e passado da narrativa não são eventos paralelos, são eventos de um mesmo tempo, de uma mesma história, que se intercalam para exibir uma trama que não é contada de modo linear.

A primeira sequência do tempo presente mostra o reino de Cintra e sua rainha, Calanthe, arrogante e violenta, avó de Cirilla, e o avanço do reino de Nilfgaard que toma Cintra e mata todo mundo no castelo real, sobrando apenas Cirilla, que foge. Calanthe se mata, mas antes pede para a neta procurar Geralt de Rívia, que é seu destino.

Não há spoiler aqui. O que há, isso, sim, é uma dica para se seguirem as pegadas de um longo flashback com suas reviravoltas. O flashback dura os sete primeiros episódios de uma série de oito, intercalando com o tênue fio do presente. 

Quando se entende isso, segue-se a marcha de Cirilla com clareza. A intercalação do flashback acompanha não só Geralt, mas todos os outros personagens, incluindo uma terceira muito importante na série, a bela Yennefer.

A primeira confusão do roteiro (tentativa de inovação?) se dá justamente com esta sequência da tomada de Cintra, a morte de Calanthe e a fuga de Cirilla, porque faz o espectador achar que este é o Incidente Incitante da série, ou seja, aquele momento em que o herói aceita ir à luta para salvar o mundo.

Mas, neste caso, Cirilla é quem ouve da avó “procura Geralt”, o herói de fato. E ela é a protagonista, não a heroína. O herói é Geralt, que muito antes de Cirilla nascer ouvira de Renfri, a princesa amaldiçoada que ele matou (ou pelo menos cremos assim), a seguinte profecia: “A garota da floresta sempre estará com você. Ela é seu destino.”

O Incidente Incitante, portanto, não é a destruição de Cintra. O espectador vai descobrir mais tarde qual é a importância dessa sequência. Revelar a função desta cena seria, aí, sim, um spoiler imperdoável. 

O Incidente Incitante, na verdade, está escondido no flashback, e aparece no episódio 4, um erro de estratégia narrativa, ao meu ver. Pode dar certo para um romance literário, não para uma série.

Quiromancia, tripas e ritmo

Entre os muitos recursos cênicos da série toda, esse flashback extraordinário que toma sete episódios, intercalando com o presente de Cirilla, há um flashforward dentro do flashback, que ficou esteticamente muito bem feito, uma cena de necromancia. 

Nesse flashforward (um pequeno spoiler, mas que segue a linha de esclarecer o confuso curso da trama), o corpo da rainha Calanthe é encontrado pelos Nilfgaardenses, e um homem corta um pedaço do braço da rainha morta e come. 

Em seguida, Fringilla, feiticeira oficial de Nilfgaard, enfia um punhal no ventre do homem que comeu a carne da rainha e lhe estripa. As vísceras caem para frente e o corpo para trás. Fringilla então lê nas tripas do antropófago o paradeiro da princesa Cirilla: “Está na Floresta Brokilon.” 

Esta cena é um acerto narrativo, e há muitas neste sentido. Em alguns momentos, a condução da narrativa segue um ritmo incrível, como uma dança, com cenas, cenário e atuações okay. Mas os erros de estratégia são marcantes porque tiram a paciência do espectador e complicam o sucesso da série. 

Eu nem precisaria dizer, mas devo dizer, que esta é apenas uma leitura, uma análise que pode se mostrar equivocada. Logo, The witcher pode se tornar um sucesso. Mas, se continuar nessa toada, não será, não.

Elementos

Tendo como fulcro a jornada de Geralt e o drama de Cirilla, a trama ocorre num espaço geral chamado Continente, com muitos reinos. Há um embate ideológico, uma polarização entre Norte e Sul. O Sul está sendo dominado por Nilfgaard, que representa um novo tipo de poder. Sua empreitada começa tomando justamente Cintra, que poderia ter tido o auxílio dos magos de Aretusa, mas estes lavaram as mãos.

Quem poderá deter Nilfgaard? Os poderes de Cirilla com a ajuda de Geralt e a feiticeira Yennefer (dissidente da escola de Aretusa, mas que volta para ajudá-los a conter o avanço de Nilfgaard rumo ao Norte)? 

O personagem de Cirilla se desenvolverá (e precisa) muito na segunda temporada, porque na primeira é só uma menina assustada, à deriva, em meio à violência de todo lado.

Geralt é um bruxo mercenário que sai por aí matando monstros por encomenda. Tem uma égua chamada Plotka, com quem conversa. É sério, anda calmamente, fala calmamente. Tem longos cabelos embranquecidos. 

Ele usa uma vestimenta preta, com uma fina armadura de cavaleiro também preta, um colar, com um medalhão, e duas espadas numa aljava. Em seu código de honra, não mata humanos nem dragões, e sabe-se lá mais o que vai dizer que não está disposto a matar. 

Esteticamente, o problema de Geralt é duplo: a atuação de Henry Cavill, que não consegue marcar seus gestos com expressões que gerem empatia (embora diga que bruxos não têm sentimentos), e a própria construção do personagem. 

Por exemplo, há duas informações que deveriam vir no começo, mas só aparecem no último episódio. Quem se encheu da trama antes, nem viu. A primeira é o fato de Geralt ter sido abandonado pela mãe quando criança para ser criado por um bruxo. É um órfão, portanto, que passou poucas e boas (e ali, ele demonstrou que tinha sentimentos).

A segunda é o que sua própria mãe o ensinou, um código de ética cuja máxima é “devemos viver e deixar viver”, aliada a outra, "devemos acreditar em alguma coisa, senão, o caos toma conta do mundo".  O espectador merecia acompanhar Geralt com essas informações desde o primeiro episódio.

Além disso, não rolou química na relação entre Geralt e Yennefer. A parte da fantasia funciona mansamente, com muita citação de monstros e pouca aparição deles. A parte da ação se isola em cenas divididas entre o flashback e o tempo presente, a fuga de Cirilla. 

A parte do drama é quase nula. Não ha eficiência dramática, porque é preciso bons atores diante de uma boa direção. As atrizes que fazem Calanthe (Jodhi May) e Yennefer (Anya Chalotra) são os destaques, e das duas, Jodhi May tem a melhor atuação.

A bela bruxa

Yennefer, ainda como garota da roça, rejeitada pelo pai, corcunda, torta, fazendo sexo com o aprendiz de feiticeiro Istredd, com uma plateia que no final aplaude e desaparece (fenômeno que certamente saiu da cabeça de Istredd – só um homem para ter uma ideia espetaculosa dessas)


Anya Chalotra, porém, se destaca pelo conjunto da obra. É uma belíssima e competente atriz, que até quando está corcunda, com o queixo apontando para uma direção e o pescoço entortado para a outra, é linda, com olhos expressivos, um olhar triste e pungente, uma postura cautelosa de gato escaldado. 

Quando garota, feia, pobre, corcunda, rejeitada pelo pai, Yennefer é comprada por uma ninharia por Tissaia de Vries, reitora de Aretusa. Há uma cena em que ela, ainda toda torta, faz sexo com Istredd, um dos jovens aprendizes, com um monte de gente assistindo. Seu corpo, mesmo giboso, é de tirar o fôlego. Quando eles gozam, todos aplaudem e desaparecem.

Mais tarde, ela se tornará a toda poderosa Yennefer de Vengerberg, senhora do caos, possuidora de uma força absoluta e devastadora. Mas na maior parte da trama ela esteve solitária, mesmo nos momentos compartilhados com Geralt.

Outro ponto defeituoso da trama são os diversos arcos abertos demorando a se fechar, muitas histórias fracamente se interligando, demorando demais para seus fios se cruzarem. Como se voluntariamente misturassem mundo comum e mundo especial nas diversas subtramas para soar novo, e com isso não alcançando nada além de confusão dramática.

Apesar de muito se falar no bestiário e pouco se mostrar, o espaço do realismo fantástico está bem povoado. Há quiquimora (o primeiro monstro a aparecer, e a ser morto por Geralt, na trama), graveir, súcubos, estrige (que se alimenta de fígado e coração humanos).

Há ainda lobisomem, dermoptera, vukodlak, dragões, selkiemore, manticora, djinn (gênio da lâmpada), hirikka (bicho bípede, peludo, de orelhas grandes e pontudas) e criaturas fantásticas como elfos, dríades, feiticeiros druidas e magos.

Lilith retornará?

Outra coisa que soa inépcia, embora possam ser estratégias de arcos abertos para serem explorados nas próximas temporadas, são os tropos, os espaços e personagens que aparecem uma vez e desaparecem sem explicação.

Entre os exemplos desse procedimento está a curta aparição e o desaparecimento da vila de Blaviken e a menina Marilka, o possível retorno de Lilith (deusa demoníaca da noite, enviada para exterminar a raça humana) e o destino da família real de Teméria (após Geralt desencantar a filha, fruto de incesto do rei Foltest com a irmã Adda, que havia nascido monstro – uma estrige).

Obviamente, o show runner da série (roteirista chefe), Lauren Schmidt Hissrich, e a equipe de produção e direção ajustarão os elementos e as estratégias. E aí, o espectador poderá dar uma segunda chance. 

Mesmo porque, para além das questões de narrativa, há um teor filosófico muito forte na série, baseado na sabedoria antiga, principalmente na grega, sobre destino, lugar natural, ética e poder, que merece ser considerado e apreciado pelo espectador.

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