sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Café da manhã com os russos - Café 2 - Aleksandr Púchkin


Tblisi, capital da Geórgia: já era famosa pelos banhos termais na época de Pushkin, que ressalta essa qualidade em seu conto

Aleksandr Púchkin (1799-1837) tem uma semelhança com Machado de Assis, dizem os críticos. A primeira leva de sua obra seguiu as linhas gerais da narrativa tradicional russa, mas, na segunda, mudou completamente o próprio estilo e o de seus sucessores.

Mas não é só isso que Púchkin tem de semelhante com Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho era mulato. Púchkin também. Ele era bisneto de Abraão Aníbal (1670-1762), nascido na Eritreia, escravo negro de Pedro, o Grande. Veja que esse negócio de imperador chamado Pedro nos persegue a nós negros. 

Há um conto famoso de Púchkin, intitulado O negro de Pedro, o Grande, com muitas edições no Brasil (na verdade, é um romance inacabado). Mas o conto em questão neste café da manhã é Viagem a Arzrum, publicado pela Editora 34 (tradução de Cecília Rosas).

A tradutora bancou a grafia Arzrum, em vez de Erzrum, provavelmente porque assim está no alfabeto cirílico russo. O próprio narrador do conto chama a atenção para a grafia adotada: “Arzrum (incorretamente grafada de Arzerum, Erzrum, Erzron) foi fundada por volta de 415, no tempo de Teodósio II, e chamada de Teodosópolis.”

Como a observação está entre parênteses, vá saber se não é coisa da própria tradutora. Dúvida eterna. Só o que se sabe é que nos mapas modernos a grafia é Erzurum – veja Google Maps). 

Publicado em 1836, o conto já mostra na introdução uma característica da prosa moderna, que é mistura de nomes e dados factuais do autor com a trama fictícia, enfatizando elementos de ironia (não ainda uma autoficção, mas seu germe, tendo o narrador, inclusive, o nome de Pouchkine).

Há um momento em que o narrador cita um poema de Aleksandr PúchkinO Prisioneio do Cáucaso e diz “a obra é toda fraca, juvenil, incompleta; mas há muito ali fielmente intuído e expressado." E há um conde Pushkin que viaja no mesmo grupo e um soldado chamado Mikhail Puschin. 

O conto é um relato de viagem que o poeta russo Pouchkine fez à Turquia, para cobrir a guerra russa-turca, em Arzrum. Nessa jornada, ele atravessa o sudeste do país, e algumas fronteiras, até chegar ao seu destino e se encontrar com o comandante das tropas russas, o conde Paskévitch. 

Ele sai, então de Moscou e passa por Kaluga, Beliov, Oriol (cidade de Ivan Turguêniev), Kursk, Karkhov, Voronej, Stavropo, atravessa o rio Podkumok (com os recursos do Google Street, você olha o rio e vê que Púchkin imortalizou um rio da envergadura do Tamanduateí, ou João Leite, para quem é de Goiânia).

Alcança Vladikavkaz, atravessa o rio Terek, chega a Lars, passa pela cadeia de montanhas Darial, já na Geórgia, observa o monte Kazbek, por onde ele diz ter passado com indiferença porque queria chegar logo a Tbilisi, ou seja, atravessa toda a região do Cáucaso, espremida entre o Mar Negro e o Mar Cáspio.

Atravessou o rio Kura, que banha Tbilisi, a capital de Geórgia (“Tbilis-kalak, em georgiano significa cidade quente”, diz o narrador, que chama a cidade de Tiflis, tal como se diz em russo), e passou por Guiumri (Armênia), Kars (Turquia), avistando, dos vastos campos abertos, o monte Ararate, a mais de 100 quilômetros de distância.

Esse passeio saindo do Sudoeste da Rússia rumo à Ásia Menor, às terras da Turquia, forma uma cartografia interessante. É uma narrativa aos moldes das crônicas de viagem, com riqueza de detalhes. As impressões de lugares e costumes que ele fixa no texto ressaltam seu estilo de prosador e sua fantástica capacidade de pintar a natureza.

É um texto que deveria ser lido por todo jornalista interessado em escrever reportagens de fôlego. A viagem não é toda fictícia, porque Pushkin de fato fez um trajeto semelhante em 1829. 

As gentes descritas são reais, as magníficas paisagens com seus rios, montanhas, desfiladeiros e céu azul, neve e chuva são reais, a comida, os banhos termais em Tbilisi são reais.

Acompanhe a leitura que você faz usando o Google como ferramenta de apoio. Você verá uma magnitude que os leitores do século 19 não puderam ver, só puderam sentir o impacto das palavras de Púchkin, que não é pouco. 

Os personagens históricos não são inventados, como Alexandr Griboiedov, poeta e diplomata, que sofreu uma morte horrível em Teerã por fanáticos persas, cuja citação no segundo capítulo do conto é de uma beleza ímpar, pela comoção do narrador e pela descrição da personalidade do poeta morto.

“Suas capacidades como homem de estado ficavam sem uso; seu talento de poeta não era reconhecido; até sua coragem fria e brilhante esteve algum tempo sob suspeita. Alguns amigos sabiam de seu valor e viam surgir um sorriso incrédulo, esse sorriso tolo e insuportável, quando por acaso falavam sobre ele como uma pessoa extraordinária.”

O narrador passa de Kars e chega ao acampamento das tropas russas, na guerra contra os turcos, num avanço imperialista de Moscou. Essa narrativa não deixa de ser exaltação aos valores da Rússia, às suas forças armadas, sua inteligência, sua capacidade de territorialização. É a exaltação de um pensamento imperialista. 

Mas, apesar desse realismo político, trata-se de uma bela peça literária pelo tratamento dado, pelos procedimentos estéticos entre o realismo e o romantismo. O que fica como memória do conto, como elemento nutritivo, é a exuberância dessa paisagem exterior da Rússia, complexa em sua formação cultural e geográfica.

A coloração social mostra uma diversidade de povos impressionante (tártaros, calmucos, nogais, circassianos, ossetas, cossacos, e mais adiante armênios, persas), por meio dos quais o narrador desfila, em sua jornada rumo a Erzurum. 

Os conflitos naturais e sua beleza, no entanto, não acarretam transformações marcantes na alma do narrador, nem em subjetividade alguma. Neste sentido, pelo menos neste conto, presente no livro Nova antologia do conto russo (Ed. 34), talvez o último que ele tenha escrito, Púchkin está distante de Machado de Assis (além da distância geográfica e temporal, pois este só viria bem depois).

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Café da manhã com os russos - Café 1 - Nikolai Karamzin


Pobre Liza é um conto russo de Nikolai Karamzin (1766-1826) publicado em 1792. A história se passa nos arredores de Moscou, na zona rural, perto das torres góticas e sombrias do mosteiro de Simonov, instalada sobre uma colina de cujo cume dava pra ver toda Moscou. Isso no século 18, porque hoje a capital russa tem quase 12 milhões de habitantes e já tomou tudo aquilo. Mas o mosteiro, erguido em 1370 (pesquisei), continua de pé. 

Próximo do mosteiro, passa o Rio Moscou. Próximo do rio, num pequeno bosque, havia uma cabana onde 30 anos antes (1762) morava uma moça chamada Liza, “a bela e doce Liza”, com sua velha mãe, que ao ficar viúva (quando Liza tinha 15 anos) empobreceu. 

Por causa dessa orfandade e uma mãe sem forças, Liza começou a trabalhar. Ia a Moscou vender coisas do campo. Sua mãe era grata por isso, e dizia que Liza era “graça divina, arrimo de família, deleite de sua velhice, e pedia a Deus que a recompensasse por tudo o que fazia pela mãe."

Um dia, dois anos depois da morte do pai, vendendo lírios em Moscou, Liza conheceu um sujeito chamado Erast, muito simpático e generoso com mãe e filha. Os dois se apaixonaram. Como ele era nobre, e ela, camponesa, o amor permaneceu clandestino. Até que surgiu um boato de que os camponeses haviam arranjado um noivo pra Liza. Eis a a encruzilhada do destino.

Por causa disso, Liza decidiu se entregar ao doce Erast. Fizeram muito sexo por muito tempo, até que Erast disse que tinha de partir para a guerra porque morrer pela pátria era nobre. Amava-a, mas tinha de cumprir seu dever de cidadão e coisa e tal. Foi para a guerra. Liza não se casou, não tinha noivo nenhum, e sofreu pelo amor de Erast. 

Dois meses depois, Liza indo a Moscou vender suas coisas, ela se depara com Erast, vivo e são, sem o menor sinal de que estivera em algum front. Ele diz a ela pra esquecê-lo porque agora estava casado.

Não. Ele foi pra guerra, sim, hypocrite lecteur. Mas, lá, não lutou contra ninguém, nem contra seu vício em jogo. Jogou apostado até perder toda a fortuna, e teve de se casar com uma viúva rica. Alas me, oh my God! 

Mas não teve tempo de explicar nada à jovem amante. Liza se jogou nas águas do Rio Moscou e morreu afogada. Agora, me diga, com um título desses, numa história contada em 1792, ou era isso ou a solução romântica dos franceses. Mas os russos são os russos. Liza fora enterrada no cemitério do mosteiro, que o narrador contempla ao contar essa história.

Esteticamente, o conto narra uma história da miséria humana, contrapondo a beleza da natureza e sua paisagem exterior irretocável ao roto tecido da pobreza envolvendo a paisagem interior de Liza. 

O que fica como memória do conto, como elemento nutritivo é a imagem do infortúnio de Liza, que parece ter sido o mote para um personagem de Dostoievski em Crime e castigo, de 1866. Em Gente pobre, de 1846, Dostoievski já havia colocado um dos personagens das trocas de cartas para citar esse conto.

Em português, o conto está presente no livro homônimo de Nikolai Karamzin (tradução de Natalia Marcelli de Carvalho e Fatima Bianchi) e na coletânea Nova antologia do conto russo (vários tradutores; sendo Pobre Liza a mesma tradução da publicação citada acima; Org. de Bruno Barretto Gomide), ambos publicados pela Editora 34.

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Grimm, uma fabulosa fauna de presas e predadores: metáfora do que somos

“Eu não acredito em monstros, a não ser que sejam pessoas.” Sean Renard, capitão da polícia de Portland, chefe de Nick Burckhardt

“Os hospitais psiquiátricos estão cheios de pessoas tentando explicar as coisas que viram e não conseguem explicar.” Monroe, relojoeiro, blutbad e amigo de Nick Burckhardt

“Tem coisas que a gente não entende nesse mundo, o que não quer dizer que não existem.” Hank, parceiro de Nick Burckhardt na polícia de Portland, depois de se iniciar no mundo Wesen

 “A realidade está aberta a interpretações.” Héctor, um chefe indígena

 
Grimm, série produzida pela NBC entre 2011 e 2017: em cartaz no SyFy, da Globosat (TV paga), de segunda à sexta, às 12:35 e às 22 horas

A série Grimm se despediu do público periódico em 2017, na sexta temporada. Mas no dia 6 deste mês fez outra despedida, saiu da grade da Netflix, e vai deixar muita gente com saudade. (O texto a seguir contém spoilers e um monte de nomes e cenas).

Grimm é uma fabulosa fauna de presas e predadores metamorfoseados de gente, o que no fundo, sabemos, é uma metáfora do que somos. Pedófilos, como o lobo mau do primeiro episódio, estupradores, assassinos, exploradores inescrupulosos e seres indefesos, eternas vítimas, desfilam na trama dessa série espetacular.

O interessante disso é que, à luz de Darwin, nós humanos somos os seres mais complexos da evolução, estamos no topo, e tudo que está para trás é um tipo de rastro que deixamos. Daí fazer muito sentido a metáfora da vida pelo viés da nossa monstruosidade escondida.

O protagonista é Nick Burckhardt (David Giuntoli), investigador da polícia e Grimm, cujos ancestrais caçavam Wesen, seres de aparência humana, mas de essência animal, de diversas espécies: leão, águia, lobo, cobra, vermes, minhocas etc. 

Só os Grimms veem essa essência, quando algum Wesen voga (aparece como é), em estado de medo ou sob forte emoção (vogam também pra todo mundo ver, mas é raro). “Um Grimm é uma pessoa que consegue ver através das trevas, alguém que vê coisas que as outras pessoas não entendem”, diz Monroe, amigo de Nick.

E se forem reais?

Produzida pela TV americana NBC, de 2011 a 2017, Grimm foi estruturada dentro dos gêneros de fantasia, policial e ação. No Brasil, a série teve o título de Grimm: contos de terror, exibida na Record, no Universal Channel e na Netflix. Saiu da grade desses canais, mas está em cartaz no SyFy, da Globosat (TV paga), de segunda à sexta, às 12:35 e às 22 horas.

O nome, obviamente, vem dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), dois linguistas, poetas e escritores alemães que coletaram e organizaram vários contos de fadas na Prússia (atual Alemanha) e se imortalizaram por isso. Eles são citados na série como os primeiros ancestrais de Nick e dos raros Grimms que ainda andam por aí caçando “monstros”.

Essa origem justifica o fato de os nomes que envolvem os animais e teorias no mundo da série serem quase todos em alemão. Wesen, por exemplo, quer dizer ‘criatura’, ‘essência’, ‘natureza’, ‘caráter’, segundo o Pequeno Dicionário Michaelis Alemão-Português/Português-Alemão.

A ambientação é na cidade de Portland, no Estado de Oregon, EUA. O tempo é a contemporaneidade, começando em 2011, que é o ano de estreia da produção criada por Stephen Carpenter, Jim Kouf e David Greenwalt.

Embora os Grimm sejam impiedosos caçadores de Wesen, Nick é diferente. Ele segue a lei dos humanos (kehrseite). Prefere prender quem comete crimes, “tem distintivo e consciência”, não sente vontade de matar Wesen a torto e a direito. Quer dizer, mata muitos, mas apenas quando estes são assassinos brutais e não há o que fazer para pará-los.

A premissa que justifica a trama é colocada na boca de um dos personagens no Episódio 21 da primeira temporada: “E se todas as histórias que ouvimos não forem só histórias? E se forem reais?” Pois é. Eis a questão.

O lobo bom e a bela raposa

O personagem mais interessante da série é Monroe. Ele aparece nas primeiras cenas do primeiro episódio, e se torna um grande parceiro não oficial de Nick Burckhardt. Monroe é relojoeiro, além de Wesen. É um blutbad (piscina de sangue, em alemão), essência do lobo, mas é vegetariano, justamente porque abandonou a vida louca dos carnívoros.

Ele é engraçado, companheiro, tem um senso de humor refinado, é culto e adora música. Toca violoncelo. Seu repertório é sofisticado. Aprecia Mozart, Bach, Brahms, Rimsky-Korsakov. Lê livros, fala alemão, e anda num fusca bege com o para-choque traseiro esquerdo cinza. 

Uma vez, conversando com Rosalee, sua mulher, sobre a velhice e a solidão na morte, Monroe diz que os dois envelheceriam juntos e morreriam juntos, e então citou o trecho de um poema de W. B. Yeats: “But one man loved the pilgrim soul in you,/ and loved the sorrows of your changing face.”

Os versos são do poema “When you are old” (“Quando você estiver velha”, em tradução livre), do livro Early Poems II: The Rose, que pode ser traduzido assim (sem métrica): “Mas um homem amou a alma peregrina em você,/ e amou os sofrimentos de seu rosto mudado.” É um romântico.

Rosalee é uma fuchsbau (raposa) incrível, que sabe tudo de ervas. Mudou-se para Portland para resolver questões da morte do irmão e conheceu Monroe. Ela então decidiu continuar lá, vendendo produtos naturais para fazer todo tipo de poção mágica e unguentos.

Os dois personagens são muito bem construídos, e contam com boas atuações. Silas Weir Mitchell (Monroe) e Bree Turner (Rosalee) têm uma química que deu muito certo ao longo de todas as temporadas. Eles são um dos casais mais cativantes já vistos numa obra de ficção.

Além de Nick, que vê coisas que os outros não veem, Juliette, que é veterinária e talvez fosse ter um papel diferente na série, mas acabou se desenvolvendo de um jeito menos hortodoxo, Rosalee e Monroe, os outros coadjuvantes são Hank Griffin, policial parceiro de Nick, Wu, outro parceiro de Nick, e Trubel, uma bela e jovem Grimm que entra na trama mais tarde (Ep 19, Temp 3).  

O elenco principal ainda tem Bud Wurstner, um eisbiber (castor) amigo de Nick, medroso que só ele, mas muito família, Adalind Schade – hexenbiest (bruxa) de personalidade inconsequente, que está sempre fazendo o mal e ferrando os outros e a si mesma – e Sean Renard, chefe de Nick e um zauber-biest (bruxo) que oscila entre o bem e o mal (algo que parece ser da natureza dos bruxos).

No mundo da série

O fulcro da trama são os crimes cabeludos do ponto de vista das pessoas normais, ou seja, kehrseite (se sabem sobre os wesen, são kehrseite-Schlich-Kennen; se não sabem, são kehrseite-genträger).

Em um dos episódios, Nick investiga o tráfico de órgãos feito por Geiers (urubus), incluindo vesícula biliar humana seca, que os Wesen usam para tomar com chá branco. 

“Os Geiers praticam medicina alternativa, usando partes de animais exóticos como vesícula de urso, chifres de rinocerontes, e órgãos humanos para aprimorar criaturas. Isso funciona bem. Nossos animais exóticos são vocês” diz Monroe a Hank. 

Em outro episódio, Nick salva uma seltenvogel (pássaro raro, em alemão), quase extinto, que geralmente é mantido aprisionado como concubina ou periquito, por klaustreiches (um tipo de gato). Os klaustreiches seduzem as seltenvögel, aprisiona-as e as exploram.

O roteiro opera no registro de estereótipos. O castor é encanador, e não advogado. Hexenbiests e zauber-biests (bruxas e bruxos) é que lidam com a lei. Urubus procuram a morte, leões estão no topo. 

Mas também explora o avesso dos arquétipos, mudando o significado fabular. Logo, há o porquinho que mata lobos, a Cinderela que persegue e mata as meias-irmãs. Há o lobo bom (Monroe). 

A versão da bela adormecida também está modificada. Vem como registro de ironia à contemporaneidade, com Juliette entrando em coma por causa de um feitiço de Adalind, e Renard (que além de zauber-biest é um príncipe bastardo) tendo de se purificar para dar um beijo (puro e verdadeiro) na Juliette, despertando-a, à revelia do conhecimento de Nick.

“É um processo de purificação. A pessoa que acordá-la tem de ser puro de coração. É impossível achar alguém assim hoje em dia, então fazemos isso quimicamente”, diz a mãe de Adalind, expert na alta bruxaria.

Outra coisa importante no centro da série é o trailer herdado por Nick da sua tia Marie. É pleno de armas medievais (Besta, Kanabo, Balestra, Rifle de ogros) e de livros em vários idiomas, como árabe, japonês, alemão, espanhol, italiano, latim, descrevendo as características dos Wesen e como matá-los. 

“Este lugar é tipo o Arquivo Nacional, ou uma espécie de Smithsonian de Grimmnologia. Só o valor histórico de tudo aqui é...”, diz Monroe, devorador de cultura, completamente apaixonado pela riqueza do acervo. 

O trailer tem uma biblioteca com as crônicas dos Grimm, e agora, Nick está escrevendo as suas também. “Tem cada coisa espetacular nesse trailer”, diz Monroe (Ep 20, Temp 1). "Acho que nunca vou me cansar daqui. Eu poderia passar dias aqui”, diz Wu (Ep14, Temp4), quando se inicia no mundo especial. 

Escuridão infinita

Se por um lado, um Grimm tem o poder de ver os Wesen ao vogarem, nesse momento, eles também o reconhecem, e geralmente entram em pânico ou fúria, pois ao longo de séculos os Grimm caçavam e matavam Wesen. Agora, são raros. Para muitos, não passam de uma lenda.

“Os Grimm não tinham compaixão ou consciência. Matavam homens, mulheres, crianças, animais. Eles tinham um esquadrão da morte, e vagavam pelo interior do país cortando cabeças, arrancando olhos, braços, pernas, testículos”, diz Monroe (Ep 10, Temp 2). 

Quando um Wesen voga diante de um Grimm, vê nos olhos deste “uma escuridão infinita, e, refletida nela, vê também sua verdadeira natureza Wesen”, diz Monroe. Ou seja, vê sua própria animalidade.

Onça pintada

A série explora as diversas fábulas e todos os cantos do imaginário humano, indo da psicodelia às sondagens do inconsciente. Deve ser um prato cheio para estudiosos da psicanálise que seguem a linha de Bruno Bettelheim. Lendas de todos os continentes são abordadas.

Do Brasil, há inclusive uma que inspirara João Guimarães Rosa para um conto muito famoso, “Meu tio o Iauaretê”, que consta no livro Estas estórias, de 1968. Na série, o animal aparece como yaguareté (onça pintada, no Brasil), uma lenda guarani cujo relato diz que o yaguareté é uma pessoa encantada.

Várias outras lendas da Amazônia são narradas em Grimm, mas se fôssemos exigir precisão, queríamos a presença pelo menos do Saci Pererê, Mula Sem-Cabeça e da Iara. Sua prima, a sereia, foi lembrada.

Apesar de se intitular Grimm: contos de terror, em português, e de fato haver uma estética de fantasia com violência e certo grau de macabro, geralmente as tramas não assustam. Mas são definitivamente um thriller bem contado.

Susto e perplexidade

Como espectador, a história que mais mexeu comigo, talvez entre aí algum componente do inconsciente, foi o episódio “A Chorona”, fantasma de mulher que chora e rouba crianças (Ep 9, Temp 2). A mãe afogou os três filhos por vingança porque o marido a trocara por uma mulher mais jovem. (Quase Medeia). Como consequência, ela se matou e virou esse fantasma assustador.

Assusta-me, talvez porque seja uma história de almas. Não acredito em fantasmas, mas eles não dependem de minha crença, ou da falta dela, para existirem. Nick solucionou o caso, mas não venceu o espírito transtornado, que não era exatamente um Wesen.

Se umas histórias até assustam, outras causam perplexidade, qualidade característica do terror, como o episódio 18 da 5ª temporada, sobre uma família de barbatus ossifrage (um tipo de abutre – como o real Gypaetus barbatus), que quebram ossos para comer a medula (tutano).

Os pais são dois velhinhos que moram num trailer às margens do rio. O filho espreita vítimas à noite num dos parques da cidade, sentindo um tipo de aroma da morte. Ele as atropela várias vezes, quebra bem seus ossos e então usa sua técnica de Wesen para sugar pela boca da vítima a papa de carne e osso dissolvidos no corpo, ficando só a estrutura física de couro e pele.

O filho vai até os pais que estão de bico aberto esperando a refeição. Ele regurgita tudo no bico dos progenitores. Os pais fazem chantagem moral para cobrar comida do filho. “Você é um bom menino”, diz o pai. “O que nós faríamos sem ele?”, pergunta a velha mãe. “Passaríamos fome”, responde o velho e cansado pai.

Quando está caçando, arrastando as vítimas, o filho protesta em voz alta: “Só reclamam. Egoístas! E a minha vida? Espero que morram!” Nick e Hank descobrem quem é o sugador de tutano, e o perseguem. Ele é atropelado e morre. Os pais, velhinhos, vão reconhecer o corpo do filho todo amassado no necrotério.

“Esse é o nosso Charles”, diz o pai. “Era um menino tão bom”, diz a mãe. Quando os investigadores saem, os velhinhos olham um para o outro, ainda chorando, e a mãe diz: “Ele não pode ser desperdiçado assim.” E o velhinho: “Tem razão. Vai você primeiro.” E sugam pela boca os ossos triturados do filho.

A trama virou outra

Grimm foi espetacular até o último episódio da quarta temporada. Depois disso – salvo raras exceções, como o episódio dos barbatus ossifrage e um na sexta temporada sobre uma cigarra que hiberna enterrada no chão, junto com um corpo para se alimentar por sete anos, voltando ao mundo dos vivos por 24 horas para buscar mais um corpo –,  tornou-se apenas o resíduo de uma usina criativa e original. 

O roteiro tomou outro rumo, começou a misturar lenda com mitologia e acabou desembocando na exploração de arquétipos religiosos e premissa de física quântica. 

Os produtores gostam de saturar uma boa ideia. Uma série é uma criaturinha que vamos alimentando, e quem vê vai gostando, mas que se tornará fatalmente um monstro incontrolável.

O ideal seria parar antes, no momento exato, e não matar o monstro. Seria melhor liberar a criatura e deixá-la partir para a selva enquanto temos dela os melhores sentimentos. É raro isso acontecer. 

Geralmente, os roteiristas exploram até a última hora de criatividade e não percebem que já passaram do ponto, que a premissa original já foi pro espaço e a trama virou outra.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O Irlandês é um filme imenso

De Niro não foi indicado ao Oscar (Joe Pesci e Al Pacino, sim, como coadjuvantes), mas sua atuação é digna do grande filme que é O Irlandês, e ele conduz a trama inteira 

A primeira vez que tentei ver O Irlandês, não consegui. Parei nos 30 minutos (das 3 horas e meia de filme). Achei o filme lento demais. Ainda assim, nessa primeira meia hora, fiquei impressionado com a atuação de Joe Pesci, contida, sustentando um tom dramático absoluto, sem resvalar na comédia, justo ele que sempre foi engraçado. 

Todo mundo já dizia que o filme seria indicado ao Oscar, como foi em 10 categorias. Ontem decidi ver o filme do começo ao enfim. Entre um bocejo e outro, comecei a prestar atenção nos detalhes das cenas, passei a seguir as indicações do roteiro. Terminei de ver, e fui ver de novo para apreciar o fio da narrativa.

O Irlandês é um filme imenso, e me sinto envergonhado de dizer isso só depois de estar legitimado pela crítica e pela Academia de Hollywood. Mas é uma aula de direção. Há momentos em que a cena é sustentada pelo silêncio, e a câmera capta nos gestos de Robert De Niro toda a tragédia que se anuncia, todo o drama de chegar até ali matando pessoas.

A história da máfia, com suas famílias cheias de vida e de amor, e de empreendedorismo, e de traição, e a morte como a moeda mais corrente, está encerrada nesse filme de modo magistral. Existe uma dor que atravessa a narrativa, e uma consciência de que não há esperança nenhuma que também é muito cortante.

De Niro não foi indicado ao Oscar (Joe Pesci e Al Pacino, sim, como coadjuvantes), mas sua atuação é digna do grande filme que é O Irlandês, e é ele quem conduz a trama inteira, fazendo dois papéis ao mesmo tempo. 

Faz um papel visível, que é o de um assassino profissional que serve a dois senhores, matando gente (enquanto lida com o drama doméstico de não saber como amar as filhas e a mulher, sendo um assassino).

O outro papel é quase imperceptível. É o de um velho largado num asilo falando sozinho (sutilmente sugerido), narrando a história da máfia que ele mesmo ajudou construir e que sobreviveu a ela, guardando um segredo que jamais contou para as autoridades (quem matou Jimmy Hoffa).

Martin Scorsese concorre ao Oscar de Melhor Diretor, mas concorre com Quentin Tarantino, cujo filme Era uma vez em... Hollywood pode levar o prêmio este ano.

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Por onde anda Wania Capelli

Branca como uma italiana, de uma brancura que aceita o sangue vir à pele em momentos de rubor ou raiva. Plena de entusiasmo (um deus dança dentro dela), cheia de vigor para falar. O primeiro contato que tive com ela foi pela voz ao telefone, em dezembro de 2000, me comunicando a aprovação no Curso Abril de Jornalismo em Revista, em São Paulo.

A pobreza em que eu vivia em Goiânia saltava aos olhos de qualquer um. Quando passei no vestibular de Jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) para o ano de 1997, eu já sabia do novo ambiente que encontraria. 

Eu era uma espécie de Colombo do Cerrado descobrindo o Novo Mundo de gente branca e burguesa dos bancos de faculdade. Eu era agora preto e pobre entre meninos e meninas de pele clara.

No primeiro dia de aula, uma colega pediu que escrevêssemos nossos respectivos endereços num caderninho para contato. Escrevi Rua Palmito, Chácara 4, Vila Yate, e a colega riu, perguntando se eu estava brincando. Para quem morava no Setor Bueno, Marista, Setor Oeste ou adjacências, eu só podia estar de sacanagem. 

Mas deu tudo certo. Quando passei no Curso Abril, quatro anos depois, uma dessas plumas diáfanas da burguesia goianiense me disse “parabéns, este era o único curso (estágio) que me interessava fazer.” Ouvir aquilo foi como uma vitória pessoal. 

Cheguei a São Paulo trazendo na mochila a mesma expectativa e a mesma pobreza. Wania Capelli foi quem nos recebeu. Ela era subordinada de Eugênio Bucci, na Secretaria Editorial, responsável pelo Curso Abril na ocasião. Ela tinha 38 anos.

Quando cheguei, Wania já era uma lenda ali. Fora secretária direta de Victor Civita, o fundador do Grupo Abril, e quando este morreu, ela foi realocada para a Secretaria Editorial e acompanhou de perto o desabrochar de muitos jornalistas da casa.

Eu ainda estava em Goiânia quando ela me perguntou onde eu ficaria. Na Zona Leste, eu disse. O Grupo Abril fica na Zona Oeste, em Pinheiros, tocando para o Sul. Não tínhamos direito a hospedagem, só alimentação. Cada um que se virasse com lugar de dormir. 

Mas Wania arranjou um jeito de pagar um hotelzinho em Santa Cecília pra eu e um colega ficarmos, um colega tão pobre quanto eu, vindo do Rio Grande do Norte, o Francisco. O restante da turma era de classe média, um tipo de mundo muito agradável, no geral, mais pela logística do que pela fauna encontrada (salvo raras exceções, das quais me lembro muito bem).

Ficamos bem instalados naquele espaço simples, onde uma vez, conversando em inglês, ouvi um nigeriano dizer “eu negocio raw leather (couro cru)”. Mas depois soube que seu trabalho era mesmo com white dust. Traficava cocaína. 

Nesse mesmo hotel, havia uma garota – com quem meu colega e eu fizemos amizade – que dizia em toda conversa entre nós que gostava de p**a. Ela era bonita, uma catarinense de sotaque carregado e corpo photoshópico. E eu, inocente, impuro e besta, não reagia à fala dela (pensando falo ou não falo) senão com sorrisos, entre um gole e outro de cerveja.

Eu sabia que aquilo de que ela gostava tinha de vir enrolado em notas de cem, e eu não tinha sequer uma camisa nova. Mas fiquei nesse hotel, e de lá pegava o Pinheiros 308, se não me engano, até o NEA (Novo Edifício Abril), na Avenida das Nações Unidas, ao lado da Marginal Pinheiros.

Do começo ao fim dessas aventuras em SP, a presença de Wania era um galardão pra mim. Era um fluxo de afeto que me impulsionava na difícil empreitada de encarar São Paulo. Eu tinha dois irmãos que moravam lá havia décadas, mas moravam, advinha, na Zona Leste, e por isso, estar num hotelzinho em Santa Cecília era a grande jogada, me facilitava a vida, e Wania sabia disso.

Sua generosidade tinha de ser contada em livro. Wania entrou presencialmente na minha vida em janeiro de 2001. De lá para cá, de novo talento da Editora Abril, passei por todas as fases do fracasso em cada redação que trabalhei, em São Paulo, Curitiba e Goiânia. 

Escrevi para a Superinteressante, para a Época, para o Diário do Comércio, para sites e portais, trabalhei na Editora Ática, em assessorias de imprensa como W&NP e FSB, em São Paulo, nas revistas Clube Curitibano e Clube Santa Mônica (Curitiba), nos jornais Tribuna do Planalto, O Popular e Opção (Goiânia).

Em todos esses lugares mencionados, soube usar com maestria a ferramenta da autossabotagem. Fui responsável por cada um de meus desligamentos dessas empresas. Mas não desliguei Wania da chama de minhas lembranças. Ela permanecerá para sempre num lugar especial de minha memória poética.

Sempre que eu olhar para minha história pregressa, verei Wania me arranjando o hotel em Santa Cecília, querendo meu sucesso, me apoiando nas horas mais difíceis, como quando um de meus irmãos foi assassinado em São Paulo e ela foi ao enterro, no Cemitério da Vila Formosa, para me abraçar e me consolar da dor de perder um irmão. Ninguém faz isso na cidade do escárnio se não for por legítima afeição.

Sempre que eu acender minha memória, na primeira luz estará Wania, dançando comigo na festa de encerramento do Curso Abril, me abraçando, conversando comigo, convidando-me para jantar no apartamento dela, onde morava com o marido e o filho, onde degustei um delicioso foundi acompanhado de um inesquecível Beaujolais, num dia frio em Higienópolis.

Wania sempre estará em minha memória em registros afetuosos, como quando esteve presente no Chá de Bebê de minha filha, em 2007, e quando foi ao apartamento onde eu morava, em 2008, para presentear – com uma manta que ela mesma bordou – minha filhinha nascida havia poucos meses.

Junto com essa memória, carregada de lembranças de uma mulher incrível, bonita, inteligente, com grande senso de justiça, há também uma fina névoa de cinza. Quando voltei para Goiânia, o impasse dos anos e a distância afastaram-me de Wania Capelli. E me entristeço. 

Enquanto estava em São Paulo, deixei passar as oportunidades de dizer o quanto a amei por tudo isso, como quem ama a uma mãe. Agradecer não era suficiente. Seria preciso dizer “eu te amo”, e isso eu não fiz.

Não tive fartura de gestos para mostrar a ela minha gratidão. Não a abracei suficientemente, não lhe mandei flores, não telefonei pra ela o bastante pra dizer coisas simples, ou simplesmente para ouvir sua voz de sotaque da Bela Vista criticando as ordinarices do mundo, para ouvi-la, para vê-la.

Wania foi meu primeiro sorriso paulistano. Seguramente, por este sorriso ter sido na chegada, foi quem me fez acreditar que naquele imenso geral de prédios e barulho havia uma distinção feita de afeto.

Ela me protegeu, me salvou, me acolheu, me apoiou, encheu meu mundo de lembranças positivas, de exemplo de afeto desinteressado, de amor mesmo, um tipo de amor raro sempre, o amor da amizade, porque foi uma amizade dada ao primeiro encontro, e amizade dada – como diz Riobaldo, de Grande sertão: veredas –, amizade dada é amor.

Todas as fotos que tirei com Wania Capelli foram acidentalmente apagadas por minha filha, ainda pequenininha, do meu computador. As imagens das fotos foram deletadas, mas não as imagens registradas em minha memória. 

O mais importante é que elas não são estáticas. Estão em movimento, com o volume da voz, com a dinâmica dos gestos elegantes, da postura ereta, do olhar, do jeito de andar, da mão segurando o cartão para passar na catraca da Editoria Abril e ir almoçar no restaurante do NEA.

Wania merece todas as palavras benditas, todos os verbos perfumados e afetivos e alegres e cheios de vida apenas para completar a vida imensa e enérgica que sempre teve. 

Flutuei pelas águas da cidade que é dela. Sei tanto quanto ela do nível de surfe que se pode ter em meio às ondas de dificuldade e do número de caminhos que se bifurcam em tão pouco tempo na Pauliceia. São tantos que nos fazem até perder a direção, mas também nos ensinam que a vida é esse emaranhado de fios e cores em meio ao cinza que tisne o redor.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

The Witcher – entre Game of Thrones e o fracasso

Yennefer de Vengerberg, Geralt de Rívia e Cirilla, a trindade heroica da série, cada um com seu conjunto de atributos conflitantes, que na segunda temporada deve mostrar mais a que veio, caso contrário, a série não decolará

Se a Netflix apostou nos Fandoms dos livros e do game The witcher – criação literária do polonês Andrzej Sapkowski – para o sucesso da série homônima lançada no final de 2019, pode ser que dê certo. São milhões de apreciadores da narrativa que conta a saga do renegado bruxo mercenário Geralt de Rívia rumo ao seu destino, a saber, proteger uma princesa (que tem poderes ocultos) de 12 anos.

Mas cada formato tem suas peculiaridades. Todo mundo sabe disso. Não há ninguém bobo numa produção de US$ 80 milhões. The witcher chegou ao serviço de streaming com grande expectativa, com muita jogada de marketing, alguns jornalistas dizendo inclusive que veio para ocupar o lugar de Game of thrones, mas a realidade é mais complicada. 

Não é a primeira vez que a Netflix inventa de concorrer com o megablockbuster da HBO, cuja última temporada foi ao ar em 2019. Em dezembro de 2014, com Game of thrones no auge de sua performance, a Netflix lançara Marco Polo, com esse mesmo intuito, fazer frente à poderosa intriga de Westeros. Marco Polo, também superprodução, tinha um roteiro mais bem trabalhado que The witcher, e só durou duas temporadas. 

Os realizadores da nova série querem fazê-la durar até a oitava temporada. Sei não. Muitos elementos contribuem para um possível fracasso. Além de problemas no roteiro (coisa que pode ser consertada a partir do segundo ano), os atores são fracos e os personagens são mal desenvolvidos, principalmente Geralt de Rívia (Henry Cavill). 

A direção não joga com a empatia do público, a fotografia é um permanente déjà vu, e as estratégias de narrativa enrolaram mais a cabeça do espectador do que ajudaram a acompanhar a introdução e o desenvolvimento dos arcos dramáticos.

Para se ter ideia, a confusão do roteiro fez a jornalista do portal UOL Beatriz Amendola, em reportagem esclarecedora em muitos aspectos (22/12/2019), dizer que “a jornada de Geralt de Rívia desenrola-se em paralelo a um grande confronto entre os reinos de Nilfgaard e Cintra”.

Não é bem isso que acontece. Para ser paralelo, deveriam ser duas narrativas. No caso da trama de The witcher, há apenas uma narrativa. O que causa o estranhamento é um imenso flashback que dá início à história, com Geralt de Rívia matando uma quiquimora (com garras de rapina, cabeça meio humana e corpo de aranha), muitos anos antes do nascimento da princesa Cirilla (Freya Allan), o seu destino.

O espectador acompanha Geralt (lê-se Guéralt) em sua sanha de caça ao monstro, matando um aqui outro acolá, inclusive uma princesa amaldiçoada (salvando outra lá na frente, mas tudo antes do nascimento de Cirilla) até o minuto 12 do primeiro episódio, quando entra em cena o tempo presente da narrativa, com Cirilla aos 12 anos, jogando bugalha com seus jovens súditos.

A ruína de Cintra

Este jogo entre presente e passado da narrativa não são eventos paralelos, são eventos de um mesmo tempo, de uma mesma história, que se intercalam para exibir uma trama que não é contada de modo linear.

A primeira sequência do tempo presente mostra o reino de Cintra e sua rainha, Calanthe, arrogante e violenta, avó de Cirilla, e o avanço do reino de Nilfgaard que toma Cintra e mata todo mundo no castelo real, sobrando apenas Cirilla, que foge. Calanthe se mata, mas antes pede para a neta procurar Geralt de Rívia, que é seu destino.

Não há spoiler aqui. O que há, isso, sim, é uma dica para se seguirem as pegadas de um longo flashback com suas reviravoltas. O flashback dura os sete primeiros episódios de uma série de oito, intercalando com o tênue fio do presente. 

Quando se entende isso, segue-se a marcha de Cirilla com clareza. A intercalação do flashback acompanha não só Geralt, mas todos os outros personagens, incluindo uma terceira muito importante na série, a bela Yennefer.

A primeira confusão do roteiro (tentativa de inovação?) se dá justamente com esta sequência da tomada de Cintra, a morte de Calanthe e a fuga de Cirilla, porque faz o espectador achar que este é o Incidente Incitante da série, ou seja, aquele momento em que o herói aceita ir à luta para salvar o mundo.

Mas, neste caso, Cirilla é quem ouve da avó “procura Geralt”, o herói de fato. E ela é a protagonista, não a heroína. O herói é Geralt, que muito antes de Cirilla nascer ouvira de Renfri, a princesa amaldiçoada que ele matou (ou pelo menos cremos assim), a seguinte profecia: “A garota da floresta sempre estará com você. Ela é seu destino.”

O Incidente Incitante, portanto, não é a destruição de Cintra. O espectador vai descobrir mais tarde qual é a importância dessa sequência. Revelar a função desta cena seria, aí, sim, um spoiler imperdoável. 

O Incidente Incitante, na verdade, está escondido no flashback, e aparece no episódio 4, um erro de estratégia narrativa, ao meu ver. Pode dar certo para um romance literário, não para uma série.

Quiromancia, tripas e ritmo

Entre os muitos recursos cênicos da série toda, esse flashback extraordinário que toma sete episódios, intercalando com o presente de Cirilla, há um flashforward dentro do flashback, que ficou esteticamente muito bem feito, uma cena de necromancia. 

Nesse flashforward (um pequeno spoiler, mas que segue a linha de esclarecer o confuso curso da trama), o corpo da rainha Calanthe é encontrado pelos Nilfgaardenses, e um homem corta um pedaço do braço da rainha morta e come. 

Em seguida, Fringilla, feiticeira oficial de Nilfgaard, enfia um punhal no ventre do homem que comeu a carne da rainha e lhe estripa. As vísceras caem para frente e o corpo para trás. Fringilla então lê nas tripas do antropófago o paradeiro da princesa Cirilla: “Está na Floresta Brokilon.” 

Esta cena é um acerto narrativo, e há muitas neste sentido. Em alguns momentos, a condução da narrativa segue um ritmo incrível, como uma dança, com cenas, cenário e atuações okay. Mas os erros de estratégia são marcantes porque tiram a paciência do espectador e complicam o sucesso da série. 

Eu nem precisaria dizer, mas devo dizer, que esta é apenas uma leitura, uma análise que pode se mostrar equivocada. Logo, The witcher pode se tornar um sucesso. Mas, se continuar nessa toada, não será, não.

Elementos

Tendo como fulcro a jornada de Geralt e o drama de Cirilla, a trama ocorre num espaço geral chamado Continente, com muitos reinos. Há um embate ideológico, uma polarização entre Norte e Sul. O Sul está sendo dominado por Nilfgaard, que representa um novo tipo de poder. Sua empreitada começa tomando justamente Cintra, que poderia ter tido o auxílio dos magos de Aretusa, mas estes lavaram as mãos.

Quem poderá deter Nilfgaard? Os poderes de Cirilla com a ajuda de Geralt e a feiticeira Yennefer (dissidente da escola de Aretusa, mas que volta para ajudá-los a conter o avanço de Nilfgaard rumo ao Norte)? 

O personagem de Cirilla se desenvolverá (e precisa) muito na segunda temporada, porque na primeira é só uma menina assustada, à deriva, em meio à violência de todo lado.

Geralt é um bruxo mercenário que sai por aí matando monstros por encomenda. Tem uma égua chamada Plotka, com quem conversa. É sério, anda calmamente, fala calmamente. Tem longos cabelos embranquecidos. 

Ele usa uma vestimenta preta, com uma fina armadura de cavaleiro também preta, um colar, com um medalhão, e duas espadas numa aljava. Em seu código de honra, não mata humanos nem dragões, e sabe-se lá mais o que vai dizer que não está disposto a matar. 

Esteticamente, o problema de Geralt é duplo: a atuação de Henry Cavill, que não consegue marcar seus gestos com expressões que gerem empatia (embora diga que bruxos não têm sentimentos), e a própria construção do personagem. 

Por exemplo, há duas informações que deveriam vir no começo, mas só aparecem no último episódio. Quem se encheu da trama antes, nem viu. A primeira é o fato de Geralt ter sido abandonado pela mãe quando criança para ser criado por um bruxo. É um órfão, portanto, que passou poucas e boas (e ali, ele demonstrou que tinha sentimentos).

A segunda é o que sua própria mãe o ensinou, um código de ética cuja máxima é “devemos viver e deixar viver”, aliada a outra, "devemos acreditar em alguma coisa, senão, o caos toma conta do mundo".  O espectador merecia acompanhar Geralt com essas informações desde o primeiro episódio.

Além disso, não rolou química na relação entre Geralt e Yennefer. A parte da fantasia funciona mansamente, com muita citação de monstros e pouca aparição deles. A parte da ação se isola em cenas divididas entre o flashback e o tempo presente, a fuga de Cirilla. 

A parte do drama é quase nula. Não ha eficiência dramática, porque é preciso bons atores diante de uma boa direção. As atrizes que fazem Calanthe (Jodhi May) e Yennefer (Anya Chalotra) são os destaques, e das duas, Jodhi May tem a melhor atuação.

A bela bruxa

Yennefer, ainda como garota da roça, rejeitada pelo pai, corcunda, torta, fazendo sexo com o aprendiz de feiticeiro Istredd, com uma plateia que no final aplaude e desaparece (fenômeno que certamente saiu da cabeça de Istredd – só um homem para ter uma ideia espetaculosa dessas)


Anya Chalotra, porém, se destaca pelo conjunto da obra. É uma belíssima e competente atriz, que até quando está corcunda, com o queixo apontando para uma direção e o pescoço entortado para a outra, é linda, com olhos expressivos, um olhar triste e pungente, uma postura cautelosa de gato escaldado. 

Quando garota, feia, pobre, corcunda, rejeitada pelo pai, Yennefer é comprada por uma ninharia por Tissaia de Vries, reitora de Aretusa. Há uma cena em que ela, ainda toda torta, faz sexo com Istredd, um dos jovens aprendizes, com um monte de gente assistindo. Seu corpo, mesmo giboso, é de tirar o fôlego. Quando eles gozam, todos aplaudem e desaparecem.

Mais tarde, ela se tornará a toda poderosa Yennefer de Vengerberg, senhora do caos, possuidora de uma força absoluta e devastadora. Mas na maior parte da trama ela esteve solitária, mesmo nos momentos compartilhados com Geralt.

Outro ponto defeituoso da trama são os diversos arcos abertos demorando a se fechar, muitas histórias fracamente se interligando, demorando demais para seus fios se cruzarem. Como se voluntariamente misturassem mundo comum e mundo especial nas diversas subtramas para soar novo, e com isso não alcançando nada além de confusão dramática.

Apesar de muito se falar no bestiário e pouco se mostrar, o espaço do realismo fantástico está bem povoado. Há quiquimora (o primeiro monstro a aparecer, e a ser morto por Geralt, na trama), graveir, súcubos, estrige (que se alimenta de fígado e coração humanos).

Há ainda lobisomem, dermoptera, vukodlak, dragões, selkiemore, manticora, djinn (gênio da lâmpada), hirikka (bicho bípede, peludo, de orelhas grandes e pontudas) e criaturas fantásticas como elfos, dríades, feiticeiros druidas e magos.

Lilith retornará?

Outra coisa que soa inépcia, embora possam ser estratégias de arcos abertos para serem explorados nas próximas temporadas, são os tropos, os espaços e personagens que aparecem uma vez e desaparecem sem explicação.

Entre os exemplos desse procedimento está a curta aparição e o desaparecimento da vila de Blaviken e a menina Marilka, o possível retorno de Lilith (deusa demoníaca da noite, enviada para exterminar a raça humana) e o destino da família real de Teméria (após Geralt desencantar a filha, fruto de incesto do rei Foltest com a irmã Adda, que havia nascido monstro – uma estrige).

Obviamente, o show runner da série (roteirista chefe), Lauren Schmidt Hissrich, e a equipe de produção e direção ajustarão os elementos e as estratégias. E aí, o espectador poderá dar uma segunda chance. 

Mesmo porque, para além das questões de narrativa, há um teor filosófico muito forte na série, baseado na sabedoria antiga, principalmente na grega, sobre destino, lugar natural, ética e poder, que merece ser considerado e apreciado pelo espectador.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Não houve tempo para ler tudo - a morte de Harold Bloom

                                                                                 Foto: Getty Images
Harold Bloom (1930-2019): “Se você não lê profundamente, e não lê de fato o que há de melhor na
literatura, então você jamais aprenderá a pensar, e se você não sabe pensar, você obtém Donald Trump”

Harold Bloom morreu aos 89 anos no dia 14 de outubro de 2019, num hospital de New Haven, Connecticut, EUA. Aquele cérebro de sinapses velozes – capaz de ler 500 páginas por hora, e que dizia que líamos para encontrar cérebros mais inteligentes do que o nosso – não existe mais.

Leitor poderoso, criador de sulcos insuperáveis na consciência crítica, Bloom deixou um legado enriquecedor. Cada livro seu é um curso completo de algum tema literário. Depois de Shakespeare: a invenção do humano, por exemplo, o leitor nunca mais lerá o bardo inglês do mesmo jeito.

A luz que se apaga com a morte de Bloom escurece uma significativa extensão do território da crítica literária. Sua morte tira-nos um pouco o chão. Ainda bem que seus livros nos servirão de lastro. Ainda bem que suas palavras iluminarão as leituras que continuaremos a fazer dos grandes gênios da narrativa. 

O que Bloom fez, no fim das contas, foi defender o humano, tão escanteado a favor das máquinas e da inteligência artificial nos dias de hoje. Por sua capacidade de ler e trabalhar tantos dados ao mesmo tempo, constantemente, vinha-nos a pergunta: “como é que ele faz? Como consegue?”

Era um tipo raro de gênio, que, se não criava personagens, se não criava tramas (chegou a escrever um romance, em 1979, The Flight to Lucifer [O voo de Lúcifer], debalde), sabia analisar como ninguém os espaços inventados pelos outros gênios da linguagem. Como ninguém, era detentor de uma energia psíquica arrebatadora. 

Seu imenso talento permitia-o manipular a massa textual de toda a literatura ocidental como quem bate massa para um bolo. E ficava gostoso, além de substancial. Seu repertório crítico foi sem dúvida o mais largo e profundo entre os críticos que li.

Digo isso na comparação com nomes como Terry Eagleton, Northrop Frye, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, James Wood. Em matéria de domínio de massa textual, só Martin Seymour-Smith, dos que li, o alcança (e talvez o ultrapassasse). 

Diálogo

Seus livros me fizeram enxergar com outros olhos muita coisa dentro do campo literário, como a questão da crítica e da lança ideológica que persegue o texto, mas que não o alcança de todo. 

Foi por ele que fiquei sabendo de Zora Neale Hurston, autora de Seus olhos viam Deus, romance que Bloom colocou ao lado de Homem invisível, de Ralph Ellison. 

Também foi ele quem me disse que James Baldwin não é tão grande assim (“é apenas um documento de época”), fazendo-me perceber que não é preciso concordar com tudo que um grande espírito diz para considerá-lo, ainda assim, genialmente imenso.

Bloom não gostava de literatura engajada. Para ele, Baldwin era um escritor a serviço de uma causa política (uma causa justa, digna, necessária, mas, ainda assim, uma causa). Mas, para quem ama literatura e tem consciência negra, dá para, a um só tempo, apreciar a estética e a luta na obra de Baldwin, absorver a estética formal pura e entender Bloom. E amá-lo também, em sua larga perícia de leitura, de diluição e análise.

Origem, memória e crítica

Filho de um alfaiate e uma dona de casa (imigrantes judeus da Rússia), Bloom nasceu em 1930, no distrito do Bronx, em Nova York, em um bairro ocupado na ocasião basicamente por judeus pobres. Sua vizinhança toda só falava íidiche e hebraico.

Aos quatro anos, ele começou a frequentar a biblioteca local e a ler em inglês. Foi aprendendo a língua de Shakespeare intuitivamente, adivinhando a pronúncia e correlacionando as conexões sintáticas e semânticas. 

Numa grande reportagem produzida pelo jornalista Arthur Nestrovski, no Caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, em 1995, cujo texto de abertura se intitula Crítico reage contra a balcanização da cultura, há um trecho da fala de Bloom em que ele comenta: “Quem lê tem de escolher, pois não há, literalmente, tempo suficiente para ler tudo, mesmo que não se faça mais nada além disso.”

Em 1995, ele foi entrevistado por Eleanor Wachtel, do programa Writers & Company, da rádio canadense CBC (disponível no YouTube). Nesta entrevista, após Bloom dizer que tinha uma memória espantosa para leituras desde seus quatro anos e que conseguia ler numa velocidade ímpar, Eleanor comenta “li em algum lugar que você consegue ler 500 páginas por hora”, e ele diz “ainda consigo fazer isso, mas não gosto de fazê-lo” (minuto 5:55).

Para se ter ideia dessa façanha, e a título de comparação, Umberto Eco disse uma vez que lia 90 páginas por hora. Embora o feito de Bloom seja algo inacreditável, eu, pessoalmente, não tenho nenhuma razão de achar que ele estivesse mentindo.

Se você consultar o Google, vai ver uma série de textos conferindo a Bloom um poder ainda maior, dizendo, por exemplo, que ele era capaz de ler mil páginas por hora. Mas, cá para nós, 500 páginas por hora já são o cúmulo da energia psíquica. Uma massa encefálica capaz de tamanha proeza já basta.

Ou seja, Bloom era uma espécie de “monstro” da palavra, ávido devorador de mundos simbólicos. Era chamado pela imprensa americana de King Kong da crítica. Nesta mesma entrevista, a respeito de seu livro O cânone ocidental, Eleanor pergunta o que é o cânone, e Bloom diz que não há nenhum mistério nisso, é só uma lista de autores que devemos ler. E dispara:

“Devemos ler Shakespeare e estudá-lo, devemos estudar Dante, ler Chaucer, Cervantes, a Bíblia, pelo menos a Bíblia do Rei James, devemos ler Proust, Tolstói, Dickens, George Eliot ou Jane Austen, James Joyce, Samuel Beckett, porque são absolutamente cruciais.

Eles fornecem uma ideia intelectual, um valor espiritual, que não tem nada a ver com a religião organizada ou a fé institucional. Devemos lê-los porque eles nos ajudam a lembrar do que somos, nos dizem coisas que já esquecemos ou coisas que jamais poderíamos saber sem lê-los, porque fazem nossa mente mais forte, porque nos fazem sentir vivos.”

Na entrevista a Nestrovski, ele havia sido mais enfático. O cânone, dissera Bloom, é uma lista de autores que “não morrem nunca”, que se renovam a cada leitura. Ou seja, conferindo o mesmo sentido de clássico de Italo Calvino, segundo o qual, clássico é um livro que você pode ler várias vezes, mas que em cada vez que o ler, aprenderá alguma coisa.

Profissionais do ressentimento e a morte do autor

Publicado originalmente em 1995, O cânone ocidental, elege 26 autores como representantes do caldeirão forjador da cultura literária do Ocidente. Os críticos à sua lista, e ao próprio Bloom, desceram a lenha, e Bloom os chamou de profissionais do ressentimento. 

Escola do ressentimento, diz Bloom, é toda a crítica acadêmica que em vez de se ater à compreensão da forma e do conteúdo do texto, mete-se a fazer sociologia e a banhar de posicionamento ideológico, sexológico e raciológico toda a literatura. 

“O que ocorreu - e parece agora impossível de ser revertido - foi uma coalizão de, entre aspas, ‘feministas’, ‘marxistas’, ‘neo-historicistas’, ‘materialistas culturais’ e teóricos de inclinação francesa - Lacan, pseudo-Lacan, pseudo-Derrida, pseudo-Foucault.

Esta coalizão representa hoje cerca de 70% dos professores em meio de carreira, e mais da metade deles são cultuadores fanáticos da Escola do Ressentimento”, diz Bloom a Nestrovski, na entrevista à Folha de S. Paulo, de 1995.

Naquele ano, Bloom escrevia mensalmente para o Mais! Em um dos textos, intitulado A inevitável presença do autor, ele continua a bater em seus algozes, com uma verve violenta e arguta. Acusa a crítica francesa de transformar todo discurso sério em um blábláblá garboso e com sotaque. 

Diz que a morte do autor é só mais uma figura de linguagem. Atribui à Nietzsche – que proclamou a morte de Deus (na verdade, Schopenhauer, muito antes, já havia dado o primeiro chute) – a influência nefasta na crítica a ponto de ela começar a negar a importância da autoria, nas pessoas dos franceses, sobretudo Michel Foucault. 

“Seus discípulos franceses (de Nietzsche), Foucault acima de todos, desenvolveram esta proclamação nietzschiana até chegar ao dogma de que todos os autores (incluindo Deus) estão mortos”, diz o crítico. 

Sua capacidade analítica era refinada e inteligente: “A única morte do autor que difere da morte mesmo, e que tem importância, é o destino dos poetas fracos. O escritor forte que se integra ao cânone, não morre nunca, que é aliás o sentido real do cânone. Ser lido para sempre: é esta a vida do autor.”

No texto Os estratagemas dos ressentidos, publicado no Caderno Mais! (29/11/ 1998), Bloom cita uma epígrafe (“Eles têm grandes números. Nós temos as alturas”), e em seguida abre o texto assim: 

“Minha epígrafe vem de Tucídides: são palavras do comandante do exército espartano, na batalha das Termópilas. No que diz respeito à cultura, somos nós agora que estamos nas Termópilas: os multiculturalistas, as pseudofeministas, os milhões de modistas, afligidos por doenças francesas, os comissários de polícia, os fanáticos do politicamente correto, as hostes de novos historicistas e velhos materialistas - todos se postam lá embaixo. Na certa vão subir e talvez sejamos batidos; nossas universidades já não passam de uma encenação e nossos jornalistas são uma paródia dos professores de ‘estudos culturais’.”

Machado de Assis, o milagre

Obviamente, Bloom não se esgota tão fácil. Para falar à vera sobre sua essência de professor, crítico literário e autor de livros incríveis, um texto de blog não basta (aliás, o blog talvez seja o único lugar onde esse texto hipotético coubesse, fora do livro, mas seria igualmente do tamanho de um livro).

Aprofundar em qualquer direção seria empilhar átomos demais. Daí esta pincelada de superficialidades, só para registrar a significativa presença de Bloom na alma de um leitor.

A angústia da influência: uma teoria da poesia, de 1973, seu livro mais importante, em termos de novo direcionamento crítico para a época, merece ser estudado até hoje, porque mostra como não se consegue escapar das influências e como se luta para se fazer original nesse mundão véi de meus verbos. 

Citemos um autor que não entra no radar de Bloom, por exemplo, João Guimarães Rosa, e que sofreu a angústia da influência, embora não se trate de poesia. Em seu único romance, Grande sertão: veredas, há uma inevitável influência de Machado de Assis, intencionalmente “raspada”. E quando sabemos biograficamente que Rosa achava Machado um estúpido literário, é como dizer bingo!

Rosa não está no radar de Bloom por uma questão de inacessibilidade, segundo o próprio Bloom, que disse (ainda) a Nestrovski que não conseguia ler Rosa e acessar seu código literário porque lia mal português. 

Em português, Bloom só conseguia ler jornais, e lia Drummond com a ajuda de amigos. Disse ainda que a tradução de Rosa em inglês era uma bosta (disse isso com outras palavras, evidentemente).

Mas, Machado de Assis, não. Bloom conseguiu acessá-lo, não sem antes passar pelo mesmo problema da barreira das línguas. “O Brasil tem excelentes escritores. Machado de Assis não foi incluído em ‘O cânone ocidental’ em razão de uma tradução opaca que me caiu nas mãos”, diz o crítico americano, em uma entrevista concedida em 2003 a Sueli Cavendish, para a Folha de S. Paulo, intitulada Bloom o insaciável.

“Mas, quando li ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’ na tradução inspirada de Gregory Rabassa, percebi sua grandeza e o examino em ‘Gênio’”, continua Bloom. “Vejo nele uma ponta do ouvido trágico shakespeariano. ‘Dom Casmurro’, na igualmente inspirada tradução de John Gledson, revela a fina ironia desse autor.”

“Em ‘Brás Cubas’, vê-se que ele é possuído até as entranhas pelo Stern de ‘Tristram Shandy’, o que em nada diminui a sua originalidade, mas o liberta do jugo das pressões puramente nacionalistas”, observa Bloom, um tagarela contumaz (num bom sentido). 

Quem tem o desprendimento de ver suas entrevistas e palestras em vídeos disponíveis no YouTube sabe o quanto Bloom gosta de falar sobre literatura, e o quanto ele é envolvido por uma presença de espírito dotada de um tímido senso de humor e pela memória (era capaz de citar Paraíso Perdido inteiro, de cor, por exemplo).

“Fui definitivamente fisgado por Machado de Assis e leio cada uma das suas frases com júbilo. Considero-o um milagre, diante das circunstâncias em que viveu, neto de escravos num país em que a abolição só veio em 1888, uma prova da autodeterminação do gênio e da arte”, diz Bloom a Sueli Cavendish.

Em Gênio, de 2002, traduzido para o português justamente em 2003, Bloom analisa os cem maiores gênios da linguagem, e entre esses gênios, coloca três nomes de língua portuguesa, e entre esses três, além de Camões e Fernando Pessoa, está Machado de Assis.

Neste livro, Bloom diz que o Bruxo do Cosme Velho “é o maior literato negro surgido até o presente”. E olha que ele também incluiu Ralph Ellison na seleta lista de gênios. E profere a frase repetida na entrevista a Sueli Cavendish: “Machado de Assis é uma espécie de milagre.”

O título da entrevista, Bloom o insaciável, é apropriado para definir um homem que parece que não houve no mundo um livro importante que não tenha lido. Do Brasil, diz ainda que há grandes poetas também, citando Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto e Sebastião Uchoa Leite (opa! Como!). 

Combatente feroz 

Bloom publicou mais de 40 livros. Boa parte deles foram traduzidos no Brasil, como os já citados Shakespeare: a invenção do humanoO cânone ocidentalComo e por que lerGênioA angústia da influência, e seus similares, em que o autor elabora a ideia da influência (Um mapa da desleituraCabala e crítica e Poesia e repressão: o revisionismo de Blake a StevensA anatomia da influência), além de Abaixo as verdades sagradas.

Leitor exigente e apreciador de uma estética apurada, que não se encontra em qualquer texto, ele comprou uma briga (da qual não compartilho, porque não estou à altura) contra autores como a best-seller J. K. Rowling, autora da série Harry Potter.

Ele compara Rowling a Stephen King, e coloca os dois no abismo da desgraça estética: “J.K. Rowling e Stephen King são escritores igualmente ruins, titãs apropriados de nossa nova era das sombras dos teclados: computador, cinema, televisão”, diz ele num texto intitulado A criança no tempo, publicado no Caderno Mais!, da Folha de S. Paulo (03/04/2005).

Por isso mesmo, para combater esses inimigos do espírito, é que ele organizou a coletânea magistral Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades, em quatro volumes, um para cada estação do ano. Nesta coletânea, há contos, novelas e poemas de autores como Lewis Carroll, Rudyard Kipling, Oscar Wilde, Esopo e os irmãos Grimm.

Para pensar, é preciso ler

No ano passado, prestes a fazer 88 anos, Bloom recebeu um professor de literatura chamado John Bredin em sua casa, em New Haven. Bredin o entrevistou por 20 minutos em um vídeo disponível no YouTube intitulado Saving Literature with Harold Bloom.

Bloom está visivelmente debilitado, sentado numa poltrona com o corpo levemente encurvado e a voz fraca. Suas mãos tremem um pouco, mas seu raciocínio é límpido, reto, de quem continuava dando aulas. 

Bredin pergunta para ele sobre a importância da literatura e por que os estudos de humanidades, em particular, a literatura, importam? A resposta de Bloom é afiada: “Se você não lê profundamente, e não lê de fato o que há de melhor na literatura, então você jamais aprenderá a pensar, e se você não sabe pensar, você obtém Donald Trump. E não é uma piada. Nada sobre ele é engraçado”, diz Bloom.

Depois, ele fala de poetas de sua predileção e até recita dois poemas de Wallace Stevens. No final da entrevista, Bloom diz que “a literatura não vale mais que a justiça elementar”, e diz que se você ler muito profundamente “não vai se tornar um monstro de iniquidade” e ela, a literatura, “não te faz necessariamente uma pessoa melhor, mas também não te faz pior. ”

“Espero dar aulas até que venham buscar meu cadáver”

Formado pela Universidade Cornell (Nova York), deu aula em várias instituições, inclusive em Harvard, mas sua consagração acadêmica está ligada à Universidade Yale (New Haven, Connecticut), onde era Sterling Professor, “comenda mais alta que se confere, na Universidade Yale, a docentes de vários campos, ostentada no passado por Erich Auerbach e Paul de Man” (Sueli Cavendish).

Na entrevista concedida a Arthur Nestrovski, em 1995, Bloom havia dito: “Espero dar aulas até que venham buscar meu cadáver.” Quando morreu, em 14 de outubro, sua esposa Jeanne Bloom disse que ele havia dado a última aula quatro dias antes, numa quinta-feira, dia 8 de outubro. Foi quase perfeito.

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