quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

DICIONÁRIO LITERÁRIO AFRO-BRASILEIRO: a reunião de assuntos afros


Você já ouviu falar em Fernando Conceição, Rogério Andrade Barbosa, Sonia Rosa? Você que gosta de literatura que trata das questões do negro brasileiro conhece a obra de Trajano Galvão, Paulo Gonçalves, Lino Guedes?

É pouco provável, a menos que seja especialista em literatura dessa temática. Pois eles existem. O primeiro time existe como escritores que estão produzindo atualmente e cujos livros podem ser encontrados nas grandes livrarias. O segundo, são autores que já morreram, mas que deveriam fazer parte da história da literatura brasileira. Na fila de um e de outro grupo há vários.

O Dicionário literário afro-brasileiro (Pallas, 2007), de Nei Lopes, nos dá a oportunidade de saber desses nomes pouco lembrados, ou nunca, nos cadernos de cultura. Mais do que isso, o dicionário traz verbetes com nomes mais conhecidos como Ferrez, Marilene Felinto, Elisa Lucinda, Kabengele Munanga, e bem conhecidos como Gilberto Gil, Martinho da Vila e Muniz Sodré.

Também cita estudos e ficção de escritores que, não sendo negros, escreveram ou escrevem sobre essa temática, como Alberto Mussa, Antonio Olinto e Marcelino Freire, entre vários outros.

Além de escritores, o Dicionário literário afro-brasileiro abrange verbetes sobre personagens, títulos de livros, novelas e seriados de TV, situações raciais, conceitos e outros assuntos. É uma ótima dica para quem quer começar a estudar a literatura negra, ou de temática negra, no Brasil, e para quem já estuda.

Muitos escritores negros brasileiros, com verbetes aqui, têm seus livros nas mãos de grandes distribuidoras. Mas outros, não. É o caso de Maria de Lourdes Teodoro, Jônatas Conceição da Silva, que estão vivos, possuem vários livros publicados, mas que não são encontrados nas grandes livrarias. Nas pequenas, então, seria um milagre. A saída pode ser o site Estante Virtual. Muitas vezes, lá, é possível encontrar esses autores.

Por causa da aura embranquecedora que existe até hoje nas rodas culturais brasileiras, há uma particularidade no levantamento de autores afro-descendentes. Muitas vezes, Lopes tem de recorrer à citação de outros pesquisadores, porque a identidade negra do escritor fica meio camuflada.

Ao falar de Jorge de Lima, por exemplo, Lopes diz: “Autor de alentada obra poética, na qual se incluem diversos poemas de inspiração afro-brasileira, como o famoso ESSA NEGA FULÔ, é descrito como ‘mulato’ por Artur Ramos em O negro na civilização brasileira (1956, p. 165).”

Poderia, simplesmente, dizer que Jorge de Lima era um poeta de descendência negra, ou mulato, ou afrodescendente, para usar o termo atual. Sobre a escritora de novelas já falecida, Ivani Ribeiro, ocorre algo parecido. “Sua aparência física, em fotografias de várias épocas, faz crer tratar-se de uma afrodescendente”, diz Lopes.

O Dicionário literário afro-brasileiro tem 167 páginas. Mas é um grande compêndio. A partir dele, muita coisa pode ser destrinchada.

Trecho da introdução do autor

“Focalizamos nesta obra tanto escritores negros quanto negros escritores, ou seja: os que construíram ou constroem obra literária reconhecida mas divorciada de suas origens ancestrais; aqueles cujas referências às origens se escondem nos símbolos ou no eruditismo que utilizam; aqueles que usaram ou usam sua africanidade para com ela fazer Literatura simpática e pitoresca; e, finalmente, aqueles que (mesmo, porque alijados do mercado, editando por conta própria ou reunidos em cooperativas ou pequenas editoras ‘étnicas’) utilizaram e utilizam a Literatura como arma ou instrumento na luta contra o racismo e a exclusão. Escritores cujo discurso, no dizer de Conceição Evaristo, ‘fratura o sistema literário nacional em seu conjunto’, ou penetra nas brechas e fissuras desse sistema, como quer o nunca assaz citado Joel Rufino dos Santos.”

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

LITERATURA INDIANA: o perfil de Arundhati Roy

Roy: escreveu um só romance,
o bastante para ganhar o Booker

Ela publicou seu primeiro romance, O Deus das pequenas coisas, aos 36 anos de idade. Também foi com essa idade que recebeu, com esse romance, um dos mais importantes prêmios da literatura mundial, cobiçado por escritores que já escreveram obras-primas, o Booker Prize, em 1997.

Como a de muitos outros escritores indianos de sucesso, a vida de Arundhati Roy foi construída numa sucessão de deslocamento vertiginosa, que a levou para diversos lugares, geográfica e intelectualmente. Nasceu em 1961, em Hassam, Índia. Seus pais se divorciaram quando ela ainda era bem pequena, de modo que foi criada pela mãe, só até os 16 anos, porque, com essa idade, saiu de casa e foi para Délhi estudar arquitetura.

Em Délhi, casou-se com um colega de faculdade, que se chamava Gerard da Cunha. Os dois foram morar no Estado de Goa, colonizado pelos portugueses, onde passaram um tempo vivendo de vender bolos, porque, embora formados, não queriam trabalhar com arquitetura. Mais tarde, Da Cunha se tornaria um arquiteto renomado em Goa.

O casamento, no entanto, não durou para sempre, e cinco anos depois Roy estava de volta a Délhi, onde começou a trabalhar como atriz. Depois se casou com um de seus diretores, Pradeep Krishen. Anos mais tarde, começou a escrever roteiros de seriados e de filmes para TV.

Depois de todas essas aventuras e já conhecida em seu país, Arundhati Roy se recolheu da vida de celebridade e foi escrever O Deus das pequenas coisas, seu único romance até agora, carregado de tintas autobiográficas. Hoje é uma notável ativista social e escreve sobre política e cultura.

Serviço

O livro de Arundhati pode ser comprado na Livraria Cultura, clique no título.

Título: O Deus das pequenas coisas – edição de bolso
Autor: Arundhati Roy
Editora: Companhia das Letras, 1998, 360 páginas
Gênero: RomancePreço: R$ 23,50

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

LITERATURA INDIANA: o perfil de Anita Desai

Muito conceituada na Índia e na Europa,
Anita Desai só tem um livro publicado no Brasil

Dificilmente no Brasil teremos um escritor indiano que não seja, antes, lido na Inglaterra e nos Estados Unidos, no mínimo. Nestes, porque os indianos que querem ser notados fora de seu país geralmente escrevem em inglês, são anglófonos. E o mercado editorial brasileiro segue o interesse ocidental, como se fosse o termômetro das letras indianas. Se o autor está bem em Londres ou em Nova York, cá também estará.

Por aqui, não foge às regras Anita Desai, que só tem um livro publicado no Brasil, Sob custódia, cuja edição está esgotada (mas é possível encontrá-la em sebos). Ela agora tem mais um papel a desempenhar, o de mãe de um talento recém-badalado, a premiadíssima Kiran Desai.

Voltando à Anita, ela nasceu na cidade indiana de Mussoorie, em 1937. Segundo os compêndios estrangeiros de literatura, sua obra atual explora principalmente as tensões da alma familiar e a alienação das mulheres da classe média indiana.

No entanto, quando começou a escrever, em 1963, sua literatura abordava temas que iam do anti-semitismo alemão, passando pela perda da tradição, à visão estereotipada do Ocidente sobre a Índia.

domingo, 28 de dezembro de 2008

SOBRE POESIA: um texto de Vinicius de Moraes

O texto aqui não está completo. É só uma mostra de como Vinicius de Moraes via a poesia. É para quem se interessa pela obra poética do autor de Soneto de fidelidade e quer entender melhor seus versos. O texto completo pode ser encontrado no livro Para viver um grande amor, ou em Poesia Completa e prosa. Tomei a liberdade de quebrar os parágrafos para a leitura ficar mais ágil.

Sobre poesia

“Não têm sido poucas as tentativas de definir o que é poesia. Desde Platão e Aristóteles até os semânticos e concretistas modernos, insistem filósofos, críticos e mesmo os próprios poetas em dar uma definição da arte de se exprimir em versos, velha como a humanidade.

Eu mesmo, em artigos e críticas que já vão longe, não me pude furtar à vaidade de fazer os meus mots de finesse em causa própria – coisa que hoje me parece senão irresponsável, pelo menos bastante literária.

Um operário parte de um monte de tijolos sem significado especial senão serem tijolos para – sob a orientação de um construtor que por sua vez segue os cálculos de um engenheiro obediente ao projeto de um arquiteto – levantar uma casa.

Um monte de tijolos é um monte de tijolos. Não existe nele beleza específica. Mas uma casa pode ser bela, se o projeto de um bom arquiteto tiver a estruturá-lo os cálculos de um bom engenheiro e a vigilância de um bom construtor no sentido do bom acabamento, por um bom operário, do trabalho em execução.

Troquem-se os tijolos por palavras, ponha-se o poeta, subjetivamente, na quádrupla função de arquiteto, engenheiro, construtor e operário, e aí tendes o que é a poesia. A comparação pode parecer orgulhosa, do ponto de vista do poeta, mas, muito pelo contrário, ela me parece colocar a poesia em sua real posição diante das outras artes: a de verdadeira humildade.

O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimento e pressentimentos dos outros com relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação.

Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos.”

sábado, 27 de dezembro de 2008

LITERATURA INDIANA: o perfil de Aravind Adiga

Adiga quer ‘civilizar’
a sociedade indiana

Aravind Adiga é um jovem escritor indiano. Com seu romance de estréia, O tigre branco, publicado no Brasil pela Nova Fronteira, foi o ganhador do Booker Prize 2008, repetindo a façanha de sua compatriota Arundhati Roy, que venceu o mesmo prêmio em 1997 com seu primeiro livro, O Deus das pequenas coisas.

Apressado, Adiga já lançou o segundo romance, Between the Assassinations, que saiu na Índia agora no final do ano. Filho de família rica, nasceu em Madras, em 1974. Morou em Sidney, Austrália, com os pais, e depois foi para Nova York, onde estudou literatura inglesa, na Columbia University.

Apesar de ter estudado literatura, começou a carreira como jornalista financeiro, passando pelos jornais Financial Times, Wall Street Journal e, mais tarde, pela revista Time, da qual foi correspondente na Ásia, durante três anos.

Depois disso, se tornou jornalista freelancer. Foi nesse período, com toda a experiência que adquiriu no mercado financeiro, que escreveu O tigre branco, cuja temática é o contraste entre riqueza e pobreza na Índia moderna.

Por ocasião da entrega do Booker Prize, Adiga explica o papel de sua literatura. “Num tempo em que a Índia sofre grandes mudanças e – como a China – provavelmente vai herdar do Ocidente o domínio do mundo, é importante que escritores como eu tentem mostrar as injustiças brutais de nossa sociedade. É o que tento fazer. Não se trata de ataque contra o país. Trata-se de um processo mais amplo de auto-crítica.”

Segundo ele, os países europeus fizeram o mesmo. A literatura dos grandes autores do século XIX, como Gustave Flaubert, Honoré de Balzac e Charles Dickens criticava seus respectivos países e isso foi fundamental para que tivessem uma sociedade melhor. Atualmente, Adiga mora em Bombaim (Mumbai), na Índia.

Avaliação

No Brasil, O tigre branco teve boa aceitação da crítica. Um dos textos mais interessantes sobre o romance foi publicado na Folha de S. Paulo pelo professor e crítico literário Alcir Pécora, no dia 10 de novembro de 2008, sob o título “Autor de talento, Adiga faz ‘cria monstruosa’”.

Pécora começa o texto assim:

“Imagine um país onde os ricos dirijam bêbados pelas avenidas da capital. Imagine que quando aconteça de atropelarem as crianças que vivem de esmolas nas ruas, os pais nem pensem em denunciar o crime, pois sabem que a polícia prefere queimar o arquivo vivo a prender o assassino. Ou imagine que a denúncia seja feita afinal, e que o rico acusado imediatamente obrigue um empregado - o motorista, por exemplo-, a assumir o crime e a cumprir a pena em seu lugar. Imagine que o motorista que resistir à imputação tenha a família massacrada. Imagine que o motorista se sinta grato pela chance de fazer bem ao patrão.

Imagine um país onde os professores não apenas não ensinem seus alunos, mas ainda roubem as suas merendas, por jamais receber o salário. Um país onde os proprietários estuprem as filhas dos miseráveis que vivem em suas terras e ainda carreguem seus filhos para trabalhar de graça em seus negócios. Onde nenhuma doença de pobre tenha cura, pois não há médicos ou equipamentos nos hospitais públicos, embora haja médicos recebendo pelo trabalho não realizado. Imagine tuberculosos cuspindo sangue até morrer em corredores cobertos de jornais e de estrumes de animais. Imagine lavar o chão salpicado com o sangue do pai morto, sem atendimento, num desses hospitais.”


O crítico continua a saraivada de situações a serem imaginadas, para concluir:

“Imagine, entretanto, uma narrativa no qual o leitor se visse rindo a contragosto, e até gargalhando, página após página, enquanto as cenas de um país exatamente assim se descobrissem nas suas páginas. (...) O talentoso pai dessa cria monstruosa intitulada ‘O Tigre Branco’ responde pelo nome de Aravind Adiga. Que seja autor indiano, esteja por volta dos 35 anos, viva em Bombaim e tenha vencido o Booker Prize de 2008 são informações pelas quais não ponho a mão no fogo.”

Com o texto estupendo de Pécora, cujo final lança dúvida sobre a identidade do escritor, aceitamos a pulga, mas também não podemos descartar a veracidade, e mais, deixamos outra especulação: será que o comportamento dos ricos descrito no romance é também comportamento dos ricos pais de Adiga?

Leia o texto completo de Alcir Pécora na Folha de S. Paulo.

Serviço

O livro de Adiga pode ser comprado na Livraria Cultura, clique no título.

Título: O tigre branco
Autor: Aravind Adiga
Editora: Nova Fronteira, 2008, páginas
Gênero: RomancePreço: R$ 34,90

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

RIMBAUD: o grosseirão insolente

No site da revista The New Yorker (edição de 8 de dezembro), a seção de resenhas traz um texto sobre a biografia de Rimbaud (Rimbaud: the double life of a rebel, 256 páginas, 2008) escrita por Edmund White.

Diz o texto:

“Yeats disse uma vez que o escritor tem de escolher entre a vida ou a obra, mas Arthur Rimbaud – garoto prodígio, arquétipo da rebeldia, aventureiro da África – escolheu ambas.

Embora White observe que ‘a única tarefa de um biógrafo de Rimbaud é preencher suas páginas com as idas e vindas do poeta’, a biografia que escreveu mescla inteligentemente ação e análise.

White declara sua admiração pessoal – chegando a sugerir que o affair que teve com um professor, quando era ‘um adolescente infeliz’, pode ter sido inspirado no exemplo de Rimbaud –, mas é consciente dos defeitos de seu ídolo.

O desprezo de Rimbaud pela vida burguesa fez dele uma visita impossível. Se não estivesse vendendo a mobília da sala, estava usando como papel higiênico a revista em que tinha sido publicada a poesia do anfitrião. No fim das contas, White chega a concordar com aqueles que tinham relação com Rimbaud, que o viam não ‘como um anjo ou um demônio, mas como um grosseirão insolente.”


O gênio sem verniz

Como se sabe, Rimbaud influenciou o mundo da literatura, da música e do cinema com sua poesia, feita entre os 16 e os 19 anos de idade. Depois disso, se tornou traficante de armas e explorador do mercado de escravos e de bebidas na África, até morrer, aos 37 anos, com uma granguena na perna, em 1891.

A razão de ser chamado de ‘grosseirão insolente’ é o fato de ter saído do interior da França, de família pobre, para Paris, e não ter o menor senso de boas maneiras, não ter o verniz da ‘civilização francesa da corte’, sendo um gênio indomável, encrenqueiro e apaixonante, que muito tempo depois de sua morte deu base para as criações de poetas, romancistas e de gente como Jim Morrison, Miguel Ângelo Antonioni e Peter Greenway.

Para finalizar

Dois poemas traduzidos por Ivo Barroso, no livro Poesia Completa (que de completa não tem nada), edição bilíngüe.


Lágrima

Longe de pássaros, pastores e aldeãs,
Eu bebia, de cócoras, nalgum ermo
Rodeado de suaves bosques de avelãs,
Na cerração de uma tarde morna e verde.

Que havia de beber desse jovem Oise,
Olmos sem voz, relvas sem flor, céu sem ar.
Que tirava à cabaça de colocásia?
Algum licor de ouro, insulso, que faz suar.

Terei sido, assim, má insígnia de albergue.
Depois o temporal mudou os céus e aos poucos
Fizeram-se em regiões negras, lagos, perchas,
Colunadas sob a noite azul, em docas.

Perdiam-se as águas em virgens recôncavos.
E flocos no charco o vento fez descer ...
Ora! Como um pescador de ouro ou de conchas,
Dizer que não tive anseio de beber!



Babaquices

I

Casquete
De fera,
Cacete
Que encera,

Pivete
Godera
Bufete
Na espera

E mete
Porrete
Na pêra,

Derrete
Croquete:
Pudera!

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

UMA BREVE HISTÓRIA DO MUNDO: leitura para os últimos dias do ano


Como um pintor capaz de reproduzir a vida inteira numa tela, o historiador australiano Geoffrey Blainey conseguiu a proeza de descrever, em palavras certeiras, as mais belas imagens de diáspora e de reagrupamento da humanidade ao longo de milhões de anos.

Nas 342 páginas de Uma breve história do mundo o que vemos é um impressionante poder de concisão para narrar a maravilhosa saga humana que se fez desde os primeiros nômades, passando pelo nascimento das religiões, surgimento e morte dos grandes impérios, a felicidade mais comezinha, o mais terrível sofrimento de guerras e epidemias, as descobertas geniais, até chegar à nossa pós-modernidade.

Serviço

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: Uma breve história do mundo
Autor: Geoffrey Blainey
Editora: Fundamento, 2007, 342 páginas
Gênero: História
Preço: R$ 39,40

A VIDA NA RESERVA DO XINGU

A revista norte-americana Vanity Fair foi ao Mato Grosso visitar a tribo dos índios caiapó, que vivem na reserva Xingu, próximo ao local do acidente envolvendo o avião da Gol e um jatinho particular, em setembro de 2006. A equipe da Vanity Fair conversou com os índios e os fotografou.

O repórter William Langewiesche escreveu uma matéria intitulada Dois mundos colididos, que sairá na edição de janeiro de 2009. Segundo o site da revista, após a tragédia, os índios desceram o rio Xingu e acamparam próximo ao local do acidente para tentar, a seu modo, proteger os mortos.

Para quem se interessa por antropologia e vida no interior do Brasil. O jornalismo brasileiro parece que não muito.

Veja algumas belas fotos feitas pela equipe da revista:

Balsa para atravessar o rio Xingu, cuja travessia na região é controlada pelos índios


Uma das aldeias dos caiapó


BR 080, que corta o Mato Grosso em direção ao Pará


Mãe caiapó e sua prole


Menino caiapó


A placidez do rio Xingu, cujas águas são profundas e assustadoras, se vistas de perto

domingo, 21 de dezembro de 2008

A VIRGEM QUE NÃO CONHECIA PICASSO: o erotismo deflorado


Em matéria de ambigüidade, a primeira frase do primeiro conto do livro A virgem que não conhecia Picasso, de Rodrigo Rosp (Não Editora, 2007), não deve nada a ninguém: “Eu tinha um Picasso pendurado.” É engraçada e provocativa pelo que há de ambíguo, cuja sugestão profana só será desfeita no parágrafo seguinte. Mas é aí também que começam a aparecer os defeitos.

O livro traz 15 contos eróticos. Em quase todas as histórias há certo exagero verbal e um humor involuntário, além do intencional, como se o narrador fosse um adolescente mentiroso, recém-descabaçado, mas com uma imaginação altíssima e a libido a ponto de bala.

Embora as histórias sejam independentes, presumindo-se um narrador diferente para cada uma delas, não é exatamente o que acontece. A impressão é que temos a mesma pessoa narrando e, por isso mesmo, mentindo descaradamente.

No primeiro conto, que empresta o título ao livro, um professor universitário de trinta e poucos anos leva ao seu apartamento as aluninhas para ver o quadro de Picasso, falsificado. Todas elas ficam alucinadas e excitadas com a beleza da obra, e aí tudo se encaminha para o sexo sem freio.

O 171 erótico, no entanto, não funciona com uma das alunas, que era virgem e queria ser deflorada pelo professor canalha. Mas com ela, se revelou enjoativamente romântico, causando a frustração do desejo de ambos.

Essa frustração, ora do ato sexual, ora da tentativa e do próprio sentimento investido, permeia todas as histórias. A decepção doce, uma espécie de laranja chupada pela metade antes de cair na lama, é o fulcro de todos os contos. Uma bela premissa, mas que aqui falhou, como quem brocha.

A verdade, ou a verossimilhança da literatura, é comprometida nesses contos. O que permanece é o excesso da palavra, o exagero que desenha a caricatura do sexo. “Ao entrar no apartamento, a pequena Suzy deu um gemido agudo”, diz o narrador do primeiro conto. “Saboreava e consumia aquela salsicha”, diz outro narrador no conto Em tempos de guerra.

Em Algemas e promessas, o narrador é um abstêmio sexual, porque sua namorada está viajando. Ele então resolve ir à Sex Shop comprar uns aparatos para quando ela voltar.

Na loja, a moça é bonita e gostosa. Depois da compra, lemos o curto diálogo: “Não vai querer mais alguma coisa?”, pergunta a vendedora. “Não entre as que estão à venda”, responde ele, para depois continuar a narração: “Estiquei a mão e toquei-lhe a face de leve. O sorriso abriu-se. Tenho certeza de que se lhe encharcaram as entranhas.”

Uma ressalva

Apesar das falhas, os contos trazem uma qualidade inegável: o humor intencional, que corre sempre junto ao riso involuntário. Humor demais em contos eróticos pode resultar em pornô chanchada. Mesmo assim, esta é a razão de o livro, apesar dos percalços, valer a pena. Em Uma puta chamada esperança, temos essa mistura. O conto começa assim:

“― Tira a máscara, quero ver teu rosto.”
“― Só depois da meia-noite.”

A história gira em torno do sujeito que tenta transar com uma mulher num baile de máscaras, mas ela só deixa dar uns amassos. “Nossos corpos grudados, eu ofegava inquieto. Ela colocou a mão sobre a minha calça. Segurou meu pau duro, esfregou com vontade. Dei um urro excitado. Em um segundo, ela me afastou. Nossos corpos separados, fiquei surpreso.”

Ele sai frustrado e excitado da festa e vai para um prostíbulo para aliviar a libido, mas lá também não consegue nada, por falta de grana. Só tinha cinco reais e a prostituta queria dez.

Em função disso, acaba se masturbando na nota de cinco e jogando-a na rua, numa espécie de desaforo do coito solitário contra o capitalismo sujo. Não podemos negar o humor violento e a imaginação criativa.

Esse conto não esconde a cara adolescente e inepta do narrador. No caso do livro, seu autor tem 33 anos, e é uma promessa, mas a narrativa ainda sugere espinhas no rosto.


Trechos:

Predestinada

“Não acredito no destino das pessoas ou das nações. Pressentimentos, premonições, profecias: não passam de bobagens. A única forma de destino em que deposito confiança é o dos rabos.

Há um tipo de mulher, queira ou não, que está fadada a ser puta. Está no corpo, se incorpora à alma. Elas possuem aquela bunda grande, mais que isso, desproporcional, que se intercala no caminhar, balanço oblíquo e provocativo. A típica retaguarda protuberante determina o comportamento sexual: mulheres ariscas, esquivas. Não se deixam possuir a alma, mas entregam para a possessão do corpo.”


As cores de Carla

“A mulher virou-se de costas e começou a abaixar a calcinha. A pequena peça vermelha deslizou com calma, realçando ainda mais as belas nádegas, agora libertadas. Carla desceu até o chão, ergueu um pé e depois o outro para ver-se livre do derradeiro pano. Permaneceu abaixada, sentindo a força dos olhares tocando seu corpo. Deleitava-se com o desejo dos rostos febris que observavam os pêlos escuros e os lábios lilases que apareciam de leve.

Carla virou-se de frente, já trêmula de prazer. Jogou-se no chão e abriu as pernas para que todos pudessem ver com clareza os detalhes de sua intimidade. Atirou a cabeça para trás e gemeu forte. Contraía os músculos enquanto atingia o orgasmo defronte à multidão.”


Serviços
Título: A virgem que não conhecia Picasso
Autor: Rodrigo Rosp
Editora: Não-EditoraPreço: R$ 18,00 (compre)

Leia também:

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

HOMEM DE ÚTERO: como a palavra se revela


Sabemos que a consciência se traduz com a linguagem, e esta não existe sem a permeabilidade da palavra, o verbo, o vocábulo preciso na hora de narrar ou pensar com mais rigor para argumentar e persuadir.

As palavras têm alma, na qual se encerra o significado primeiro dos fios que tecem qualquer texto. Este, aliás, é um vocábulo que vem do latim (textus) e quer dizer ‘tecido’. A palavra, por sua vez, tece os fios do espírito e traz consigo toda a intencionalidade do discurso.

Quando se quer penetrar num texto e retirar dele sua essência, é preciso acessar essa alma, buscar na etimologia a primeira intenção. Nenhum escritor de textos literários, jornalísticos ou científicos que se preze ignora isso. Nenhum leitor, de igual modo, deve fazê-lo. É por isso que a filosofia se preocupa com sua terminologia, e ainda assim, deixa abertas, muitas vezes sem querer, certas frechas para a ambigüidade.

Para o leitor que não está nem aí com o rigor filosófico e só quer se divertir na leitura, o legal de acessar a alma da palavra é perceber como sua trajetória pode ser tortuosa e quão sedimentada está no espírito humano, fazendo com que o passado dela se enterre, para nunca mais voltar à tona.

Num átimo de observação, podemos ver que o verbo ‘namorar’, por exemplo, vem de uma junção muito feliz entre ‘amor’, a preposição ‘em’ (servindo como prefixo) e a desinência ‘ar’. Estes dois afixos, aliás, são usados para formar diversos verbos na língua portuguesa, a partir de substantivos e adjetivos, tais como beleza (embelezar) e vadio (vadiar).

O interessante do verbo ‘namorar’ é sua proximidade com o termo ‘apaixonado’ em inglês. Uma ex-colega de faculdade já havia citado o significado de ‘apaixonado’ num texto sobre o amor.

Em inglês, ‘apaixonar’ é ‘estar em amor’ (to be in love). ‘Namorar’ certamente nasceu assim: ‘em amor’, depois ‘em + amor + ar’, logo ‘enamorar’, e aí ‘namorar’. Em espanhol, ‘enamorado’ ainda é o termo que se usa para designar quem está apaixonado.

A relação que se pode fazer entre a etimologia de um determinado vocábulo e seu sentido atual fica dentro apenas da língua analisada. Ou seja, não se podem atrelar sentidos de uma mesma palavra em línguas diferentes. A menos que sua raiz seja a mesma, como ‘humilhar’, em português, e ‘humiliate’, em inglês. Ambas vêm do latim ‘humus’ (barro, base, chão, o mais baixo degrau).

Em nossa língua, isso é até mais profundo, porque ‘homem’ também vem de ‘humus’, o que casa com a lógica bíblica, segundo a qual, o homem foi feito do barro, e com a científica; afinal somos componentes orgânicos que se encontram no humo. E a poesia faz síntese de tudo isso, ao dizer que somos uma “realidade geográfica”, uma “excrescência de terra singular”, nas palavras de Augusto dos Anjos.

Já na língua de Shakespeare, ‘homem’ (man), vem do indo-germânico, a mesma base do alemão. O mais intrigante disso é perceber um machismo escabroso na formação da palavra ‘mulher’, em inglês, ‘woman’ (pronuncia-se /úm∂n/). Isso porque, provavelmente, ‘woman’ vem das junções de ‘womb’ (pronuncia-se /úm/), que significa ‘útero’, e ‘man’ (homem), ou seja, ‘womb man’ (homem de útero).

Esta etimologia é apenas uma suposição. Mas se for verdade, cá entre nós, é bem esdrúxula, com toda a carga etimológica que o adjetivo ‘esdrúxulo’ possa ter.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

ESCRAVOCRATAS: um soneto de Cruz e Sousa


Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta.

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!


O poeta e a lâmina

Acho este soneto muito emblemático daquilo que era Cruz e Sousa. Não tenho a pretensão de dizer muita coisa. Quero apenas chamar a atenção para a impressionante força melódica jorrada com furor na cara dos senhores brancos escravocratas do século XIX.

É o próprio Cruz e Sousa que está ali, gritando sem subterfúgio, lançando a ira dos poetas de face exposta, fazendo da poesia uma arma cortante.

A única interjeição de clamor, no primeiro verso, sustenta a indignação até o fim, com a evocação da lâmina poética que castraria e faria urrar os algozes do negro. O poema escrito, provavelmente, no final da vida de Cruz e Sousa, só foi publicado em O livro derradeiro, em 1945, quase 50 anos após sua morte.

Ainda no primeiro verso, os senhores são considerados cristãos malsucedidos, “trânsfugas do bem”. Cruz e Sousa foi criado em ambiente cristão por uma família branca, cuja senhora era uma pessoa boa que lhe dera toda a educação que podia.

Para o poeta, os princípios cristãos, vistos do ponto de vista dessa família, que alforriara seus pais, não compatibilizava com as atrocidades cometidas contra os escravos. Nesse sentido, os escravocratas eram homens desviados da fé. A figura deles é ridicularizada no poema, num riso nervoso, cuja musicalidade é vertiginosa, dionisíaca.

Na última estrofe, o poeta se agiganta após exigir o “grande basta”. Ele quer estar à altura de Camões, quer ser o próprio Adamastor dos versos, quer as tormentas para devolver as mil e uma chibatadas aos escravocratas. Evoca a erudição de Gôngora, quer mostrar que é um grande poeta, que está à altura de qualquer senhor escravocrata e reivindica o direito comum.

“Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas/ ardentes do olhar.” Ele ri como um deus que já não suporta mais a presença do escravagista e quer castrá-lo para ouvir um grito de dor, dor que o próprio poeta havia sofrido e cantado tantas vezes.

O riso é muito presente nos poemas de Cruz e Sousa, assim como o grito, o clamor. No entanto, muitas vezes o que se ouve como gargalhada é sarcasmo, claro. Não há felicidade possível nos versos do poeta negro catarinense.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CAPITU ESTRÉIA NA GLOBO

Maria Fernanda Cândido e seus olhos de ressaca como Capitu

Machado de Assis nunca esteve tão na mídia. Em comemoração aos 100 anos de sua morte, 2008 foi um palco iluminado de homenagens e exaltação da obra do grande mestre da literatura brasileira. Vários livros sobre o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas foram lançados, além de palestras, exposições etc.

Para fechar o ano com ar de apoteose, a Globo estréia nesta terça-feira a minissérie de cinco capítulos, Capitu, baseada no romance Dom Casmurro. O diretor é Luiz Fernando Carvalho, cuja sensibilidade pôde ser comprovada na adaptação de Lavoura Arcaica, romance de Raduan Nassar, para o cinema, em 2001, em novelas e em outras minisséries, como Hoje é Dia de Maria e A Pedra do Reino (esta, baseada na obra de Ariano Suassuna), que fazem parte do mesmo projeto de Capitu.

A grande estrela da minissérie é Maria Fernanda Cândido, que fará Capitu pela segunda vez (na fase adulta, pois quem faz a Capitu adolescente de 14 anos é Letícia Persiles (25), atriz e vocalista da banda de folk rock Manacá). Maria Fernanda já fez a personagem no cinema, no filme Dom, de Moacyr Góes. Ao longo de cinco dias, o telespectador da Globo que não conhece a obra de Machado de Assis vai ter a oportunidade de entrar no universo de intrigas, amor e ciúme de Dom Casmurro.

O telespectador não perderá nada se estiver, é claro, à altura da beleza da narrativa de Machado e do recorte estético de Carvalho, que é finíssimo, poético sempre. Para quem já conhece ambos, será um deleite ver Bentinho rememorando seu tempo de amor e desgraça.

Em Dom Casmurro, a narrativa é em primeira pessoa, o tom é confessional. Logo, Bentinho reconstruiu Capitu. Se o fez com fidelidade ou não, é uma discussão ad eternum, que mudará sempre de leitor para leitor.

O que sabemos é que ele escreve suas reminiscências de um estranho amor já velho, com o capricho de detalhes, apoiando-se numa memória que, ele mesmo confessa, não é tão clara assim.

Clique aqui para acessar o site da minissérie.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

BIBLIOTECA PÚBLICA MÁRIO DE ANDRADE – SEÇÃO CIRCULANTE MUDA DE ENDEREÇO

Nós, os usuários da Seção Circulante da Biblioteca Mário de Andrade (BMA), vamos ter aí uns quatro meses de férias de leitura. A Biblioteca, que até o dia 5 de dezembro ficava na rua da Consolação, 1.204, está transferindo seu acervo para a rua da Consolação, 94, na praça Dom José Gaspar, no Prédio Principal BMA, onde fica a Seção de Obras Raras.

Em função disso, a Seção Circulante vai ficar fechada até março de 2009. Ou seja, tudo estará fechado, porque a BMA Principal já não abre há quase um ano e só estará pronta para o público em agosto de 2009, por causa da reforma.

Nesse período, sem dúvida, ler vai ficar mais caro. A Seção Circulante da BMA não é um primor de atualidade, mas podemos encontrar livros de literatura e outras áreas bem atuais, publicações de 2007 e 2008, como Milton Hatoum, Daniel Galera, por exemplo.

Quando voltar, ao seu acervo de 30 mil volumes vão se juntar mais 30 mil livros, duplicatas de exemplares da BMA Principal. Para quem mora na região central de São Paulo e é leitor, os serviços da BMA são indispensáveis. A mudança será para melhor, certamente. O problema é que demora muito.

Para mais informações, o telefone da BMA Seção Circulante é (11) 3257-8787.

Todo o acervo do complexo de bibliotecas da Prefeitura de São Paulo está disponível online para consulta de catálogo. Clique aqui para acessá-lo.

Leia aqui novas informações sobre esta novela.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

GEORG TRAKL: o poeta da noite

Trakl, marco essencial da poesia alemã do século XX, ao lado de Hölderlin

O poeta austríaco Georg Trakl foi uma grande influência da poesia na primeira metade do século XX. O que há de profundo e desconsertante em seus poemas são as metáforas e superposições de frases que lembram as montagens cinematográficas. Isso numa época que o cinema apenas engatinhava, um pouco antes, inclusive, de o cineasta russo Eisenstein escrever sua famosa teoria de montagem.

A maior parte da poesia de Trakl fala da noite, da escuridão e de toda sorte de imagens que se podem encontrar no espaço lúgubre das trevas, da meia luz, como o que acontece na madrugada silenciosa e fria de uma rua aparentemente deserta:

"A lua resplandece no quintal.
Das telhas caem sombras soberanas.
Janelas de silêncio glacial;
Afloram quietamente as ratazanas."


Eis um exemplo de clareza nas imagens, ficando por conta da montagem a narração e a dinâmica dos movimentos. O poema todo (traduzido por Marco Lucchesi) fala de certa noite enluarada, verão, calor e abafamento, em que os ratos surgem do fedor do esgoto, do ambiente putrefato da privada iluminada pela luz da lua, invadindo a casa.

Esses versos, por exemplo, são ilustrativos, fotográficos, videoclipe puro, cuja primeira tomada pega o alto do firmamento, depois desce para o telhado da casa, em seguida mostra as laterais, para fechar a estrofe com uma última frase retratando o chão de onde vêm à superfície os ratos, silenciosamente, como silenciosa é a noite, e certamente o era a vida do poeta.

Em outro poema, Romança à noite (tradução de Marco Lucchesi), a mesma frialdade, a inegável solidão:

"O solitário passa pela rua:
é meia-noite e brilha o firmamento.
Levanta-se o menino sonolento,
seu vulto pardo se desfaz co’a lua."


George Trakl nasceu em Salzburg, Áustria, no dia 3 de fevereiro de 1887. Filho da burguesia austríaca, ainda garoto vê sua família perder tudo o que tem, e ele então não consegue se firmar, pobre, no mundo burguês. Na escola, tinha dificuldade até de ir adiante. Foi reprovado nos exames finais do curso secundário e só entrou na universidade como ouvinte, onde estudou farmácia.

Usava drogas e bebia muito, desde moleque. Completamente desestruturado familiarmente, chegou a praticar incesto com sua irmã, Gretl, a única mulher que ele disse ter amado, e que acabou se suicidando, como também se suicidou Trakl, em 3 de novembro de 1914, na Cracóvia.

Nessa época, a Primeira Guerra Mundial já estava em curso, e ele era soldado-farmacêutico, encarregado de assistir feridos e mutilados de guerra, sem nenhum recurso disponível. Um de seus últimos poemas, Lamento (tradução de Claudia Cavalcanti), reflete seu estado de espírito, poema em que ele sintetiza sua angústia em meio a mortos, feridos e seu amor incestuoso:

"Sono e morte, as tenebrosas águias
Rodeiam a noite inteira essa cabeça:
A imagem dourada do Homem
Engolida pela onda fria
Da eternidade. Em medonhos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz escura lamenta
Sobre o mar.
Irmã de tempestuosa melancolia
Vê, um barco aflito afunda
Sob estrelas,
Sob o rosto calado da noite."


Trakl, que também escreveu peças de teatro, morreu. Mas sua poesia, que fora publicada em vida apenas em suplementos literários e numa pequena edição de 1913, não morria ali. Pelo contrário, tomou fôlego depois da década de 1940. Antes disso, porém, Heidegger (1913) já colocava Trakl ao lado de Holderlin, como marcos essenciais da poesia alemã do século XX. E em 1915, o não menos brilhante Rainer Maria Rilke também sentia a força e a complexidade dos versos traklianos.

Se por um lado, a poesia de Trakl é complexa, forçando leitor a ler e reler, por outro, sua musicalidade, o ritmo que nela contém, nos envolve de tal maneira que é quase impossível não se buscar sentido no que ela diz.

"Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede."


Neste poema, tudo caminha rumo à escuridão, ao ocaso. Na imersão no abismo da noite há sempre uma esperança, a escuridão sempre se ameniza com a luz da lua, como se a força da vida que ainda resta entre o gelo da existência conseguisse pescar um fiapo de calor para um tênue aquecimento. O que no fim das contas não é o suficiente para aplacar a solidão e a morte.

No poema supracitado, Calma e silêncio, o poeta cria imagens complexas, como “vôo negro dos pássaros”, “o silêncio próximo pensa no esquecido”, e “anjos apagados”.

A célebre frase do lingüista Noam Chomsky, “colorless green ideas sleep furiously” (idéias verdes sem cores dormem furiosamente), lembra esse tipo de composição simbolista. A poesia trakliana está cheia dessas armadilhas sinestésicas, com frases que só podem ser compreendidas nos planos simbólico e metafórico, uma vez que entre os seus componentes não há uma coerência sintática.

Georg Trakl é mesmo um poeta da noite. Sua poesia é uma alimentadora de tormentas, de tempestades da alma. Mas, ao mesmo tempo que a solidão e o abismo estão ali, presentes, há também um clarão, um resplandecer, tal como um relâmpago, a vigiar, debalde, o desfile dos versos rumo à escuridão e ao silêncio.

A poesia tem dessas coisas. Aliás, a arte tem dessas coisas, nos trazendo o belo no sofrimento dos outros. Em todo caso, é uma beleza dada, e não roubada. Belezas metafóricas como no poema a seguir:

A tempestade
(tradução de Modesto Carone Netto)

"Vós, montanhas selvagens, das águias
Sublime luto. Nuvens douradas
Fumegam sobre pétreo ermo.
Paciente quietude respiram os pinheiros,
As negras ovelhas junto ao abismo,
Onde súbito o azul
Estranhamente emudece,
O brando zumbido dos zangões.
Ó flor verde
Ó silêncio.

Como em sonho estremecem da torrente selvagem
Escuros espíritos o coração,
Trevas,
Que sobre as gargantas irrompem!
Brancas vozes
Errantes pelos átrios lúgubres,
Terraços destroçados,
Dos pais poderoso rancor, o lamento
Das mães,
Do menino o áureo grito de guerra
E o não-nascido
Gemendo de olhos cegos.

Ó dor, flamejante visão
Da grande alma!
Já estremece na negra confusão
De corcéis e carruagens
Um raio róseo pavoroso
No pinheiro ressoante.
Frescor magnético
Envolve esta cabeça orgulhosa,
Incandescente melancolia
De um deus irado.

Medo, tu ó serpente venenosa,
Negra, morra nas pedras!
Precipitam-se das lágrimas
As correntezas bravias,
Tempestade-misericórdia,
Ecoam em trovões ameaçadores
Os nevados cumes em volta.
Fogo
Purifica noite destroçada.
"

Segundo Carone Netto, e seu livro Metáfora e montagem, citando um dos estudiosos de Trakl, Clemens Heselhaus, este poema é uma metáfora do estado de ânimo ou da paixão da alma. Os elementos da natureza aqui ‘“são signos de realidades psíquicas e espirituais’”.

Já em De Profundis, poema de 1912 (tradução de Claudia Cavalcanti), o poeta parece ter mesmo se encontrado com a morte. Ou pelo menos, a turbulência de seu ser avançou a noite, embora de novo, apareça o clarão da vida, o prenúncio de um amanhecer:

"Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom, ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos."


E por fim, um belo poema que revela a montagem em seu esplendor, a intercalação de “dentro” e “fora”, “longe” e “perto”, uma dança de figuras plásticas em versos razoavelmente otimistas.

A bela cidade
(tradução de Modesto Carone Netto)

"Velhas praças silenciam ensolaradas.
Profundamente enredadas em azul e ouro
Suaves freiras sonhadoramente se apressam
Sob o silêncio de faias sufocantes.

Das igrejas pardamente iluminadas
Olham as puras imagens da morte,
Belos brasões de grandes príncipes.
Coroas cintilam nas igrejas.

Corcéis emergem da fonte.
Garras de botões ameaçam das árvores.
Meninos, confusos de sonhos, brincam
Silenciosos, ao anoitecer, junto à fonte.

Moças estão em pé junto aos portões,
Olham tímidas para a vida colorida.
Seus lábios úmidos tremem
E elas aguardam junto aos portões.

Sons de sino esvoaçam trêmulos,
Ressoam o compasso de marcha e os brados da guarda.
Estranhos escutam sobre os degraus.
Altos no azul há sons de órgão.

Claros instrumentos cantam.
Pela moldura de folhas dos jardins
Vibra o riso de belas senhoras.
Jovens mães cantam baixinho.

Furtivamente bafeja junto às janelas floridas
Perfume de incenso, alcatrão e lilás.
Argênteas tremem pálpebras cansadas
Através das flores junto às janelas."


Bibliografia:

Metáfora e montagem, de Modesto Carone Netto
De profundis, de Georg Trakl (tradução de Claudia Cavalcanti)
Poemas à noite – seleção de poemas de Georg Trakl e Rainer Maria Rilke (tradução de Marco Lucchesi)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

CAPITU SOU EU: o estranhamento no olhar de Dom Casmurro

Ao Rei Sol, Louis XIV, que comandou a França entre os séculos XVII e XVIII, é atribuída a frase “L'État c'est moi”, “o Estado sou”, referindo-se ao seu absolutismo diante do trono francês.

Gustave Flaubert, imperador das letras no século XIX, foi acusado de corromper a moral dos franceses com seu livro Madame Bovary, em razão de o personagem principal, que dá nome ao título, ser uma adúltera.

Diziam que Flaubert tripudiava sobre a decência das mulheres francesas, todas santas e abnegadas. O romancista não pensou duas vezes e disse no tribunal: “Madame Bovary sou eu”; para que ninguém se sentisse atingido, nem com chifres nem com pudores, e o processo se enterrasse.

A mesma declaração teria feito Bento Santiago, se fosse encostado na parede quando ainda vivo, na cabeça dos leitores contemporâneos de Machado de Assis, autor de Dom Casmurro: “Capitu sou eu.” Mas quem o fez foi Dalton Trevisan, num livro de contos de 2003, que nada tem a ver com o presente texto. Aliás, a aproximação da frase com o conteúdo do livro é apenas de cunho confessional.

“Capitu sou eu”, teria dito Bentinho para explicar sua severa acusação, velada, enviesada, dissimulada, tramada com urdidura de velhaco, contra sua amada Capitu.

O leitor de hoje já sabe que o valioso nesse romance singular de Machado de Assis está na habilidade da narrativa, na tergiversação da trama, e não no fato, porque não há fatos. O que há são indícios subjetivados pela forte impressão de Bentinho junto às coisas não vistas.

Olhando bem para Bentinho, não deixando escapar as nuanças da sua fala, vemos que na composição de sua alma e sua maneira de olhar o mundo há um estranhamento. No plano psicológico, Bentinho não enxerga outra coisa, nem ninguém, a não ser a si mesmo. E é aí que reside a força da trama.

O ouvido e o olho dos outros

No primeiro capítulo lemos atentamente a explicação de Bentinho de como passou a ser chamado de Dom Casmurro por algumas pessoas. Recebera o apelido por não ter prestado atenção na leitura de poemas que um conhecido lhe fazia. O próprio Bentinho explica o significado da alcunha:

“Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.” Ou seja, casmurro, nesse sentido, é ensimesmado, aquele que tem o olhar para dentro de si mesmo e não vê o outro.

Tudo que Bentinho vê do mundo exterior de certa forma passa pelo crivo do olhar do outro. Ele, por ter os olhos voltados para a alma, só sabe de si.

O romance Dom Casmurro, publicado em 1900, conta a história de Bento Santiago (Dom Casmurro ou Bentinho), que se vê às voltas de uma suspeita de adultério de sua mulher, Capitolina, ou Capitu, com o melhor amigo dele, Escobar.

Bentinho e Capitu se conheciam desde criança. E quando começa a escrever suas memórias, concentradas nas lembranças de sua amada, é desde a infância de ambos que ele busca os traços que revelariam a construção do universo íntimo de Capitu.

É dessa suspeita que ele se alimenta, juntando pedaços de indícios contra ela, palavras sopradas por todos, inclusive pela própria Capitu.

Uma das primeiras recordações dá o tom da memória enviesada. Bentinho fica sabendo que vai para um seminário, não porque a mãe lhe diz, diretamente, mas porque ele ouve, atrás da porta, uma conversa entre sua mãe e o senhor José Dias sobre o assunto.

O papel de José Dias nessa história toda é revelador. Foi ele o primeiro a dizer para Bentinho que Capitu era uma menina pouco confiável. “Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada”, diz o homem que era agregado da família abastada de nosso narrador.

Ao longo da narrativa, José Dias está sempre por perto, incutindo idéias e opiniões na alma vacilante de Bentinho. A título de comparação, José Dias se aproxima de Iago, algoz de Otelo. Na peça de Shakespeare, Iago aproveita cada fato e insinuação para criar ciladas que incriminem Desdêmona como adúltera, colocando Otelo contra sua amada.

Deus e o diabo

Mas, Bentinho não tem perfil de Otelo, e José Dias, tampouco, não se sustenta como Iago por muito tempo. Não corre pelas suas veias o sangue ruim do antagonista shakespeariano. Com mais sutileza, vemos isso em Bentinho. Este age sutilmente para construir a imagem adúltera de Capitu. Ele manipula o leitor.

Ao mesmo tempo, Bentinho tem um passado religioso, foi seminarista, quase padre, temente a Deus. É um homem que demonstra atitudes de bondade para com seus escravos, e as pessoas de modo geral gostam dele, pelo menos é o que diz sua narração.

Essas características fazem de Bentinho um personagem complexo – principalmente por tornar complexo o comportamento de Capitu – e do livro de Machado de Assis uma obra densa, flexível e aberta.

O princípio dessa flexibilidade está no próprio nome do personagem: Bento Santiago. Ele é bento, é santo, e ao mesmo tempo é Iago. É santo e Iago numa só pessoa. É Deus e o diabo, as mesmas características que ele pretende que sejam de Capitu. “Capitu sou eu”, seria a máxima de Bentinho.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

CRISTOVÃO TEZZA É O GRANDE VENCEDOR DA LITERATURA EM 2008

Tezza, autor do romance mais badalado de 2008, O filho eterno

O Prêmio São Paulo de Literatura foi uma das melhores coisas que aconteceram para a literatura brasileira em 2008, em termos de incentivo à criação. Para o escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristóvão Tezza, foi a melhor coisa mesmo, uma vez que venceu a primeira edição do prêmio, realizada ontem (01/12) no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, pelo Governo do Estado.

Com o livro O filho eterno (Record, 2007), Tezza ganhou 200 mil reais, que vão se juntar aos outros valores ganhos este ano com os prêmios Jabuti (3 mil reais) e Portugal Telecom (100 mil reais).

Nada mal. Apesar de não ser exatamente o dinheiro que move o artista, não é salutar fazer arte sem apoio nenhum. O filho eterno também deu a Tezza o Prêmio Bravo! 2008 e o título de melhor romance de 2007 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

Na categoria Melhor Livro Estreante, o Prêmio São Paulo de Literatura foi para a jovem autora de 29 anos, Tatiana Salem Levy, com o romance A chave da casa (Record, 2007). Com a conquista, além de abrir muitas portas, a escritora também levou para casa 200 mil reais.