sábado, 25 de maio de 2019

A Virada - o nascimento do mundo moderno, um livro brilhante de Stephen Greenblatt


O melhor de A virada - o nascimento do mundo moderno (Companhia das Letras, 2012, tradução de Caetano Waldrigues Galindo), do crítico americano Stephen Greenblatt, é a mistura do estilo delicioso do autor com a luminosa história sobre como um homem do século XV, obstinado pela cultura grega antiga, conseguiu recolocar na roda de leituras um dos livros mais importantes para o renascimento das artes, das ciências e da filosofia modernas.

O livro em questão é Da natureza (De Rerum Natura, Da natureza das coisas, em tradução literal), poema de Lucrécio (94 a.C. – 55 a.C.). O homem em sua caça é o italiano Poggio Bracciolini (1380-1459).

Ao contar a história de como Poggio reencontrou um livro que já se tinha por extinto, Greenblatt conta a história de como nasceu a modernidade, após domínio do pensamento cristão sobre as esferas de poder do Ocidente, relegando aos porões dos templos e abadias os demais modos de pensar e sentir do mundo antigo por mil anos. 

Esses mil anos coincidem com o que se chama de Idade Média. Os grandes pensadores produzidos nesse período eram cristãos, como Santo Agostinho, na alta Idade Média, e Tomás de Aquino, na Baixa. Quando o imperador Constantino I decretou o cristianismo como religião oficial do Impero Romano, no século IV, todo o poder de esmagar o outro foi legitimado.

Os cristãos, que por três séculos foram oprimidos, humilhados, perseguidos e mortos, passaram a fazer o mesmo contra o pensamento pagão, ou seja, contra as correntes poéticas e filosóficas que se identificavam com outros modos de ver o mundo.

O epicurismo passou a representar o mundo pagão. À medida que o cristianismo ia ganhando espaço, o epicurismo ia sendo perseguido como coisa do demônio e, por conseguinte, sendo varrido do mapa.

Corrente estético-filosófica da Grécia Antiga, contemporânea de Platão, criada por Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), o epicurismo pregava a transitoriedade do mundo e dos seres e a mortalidade da alma, uma vez que esta era composta da mesma matéria do corpo, os átomos, ideia criada por Leucipo e Demócrito (ambos, circa 460 a.C. – 370 a.C.). 

O núcleo do epicurismo tem a seguinte mensagem, nas palavras de Greenblatt: “Tudo que já existiu e tudo que ainda existirá é montado a partir de partículas indestrutíveis de dimensões diminutas, mas inimaginavelmente numerosas. Os gregos tinham uma palavra para essas partículas invisíveis, coisas que, como eles as concebiam, não podiam ser divididas em elementos menores: átomos”

“Os corpos celestes não são seres divinos que definem nosso destino para o bem ou para o mal”, segue Greenblatt em sua explicação sobre o epicurismo, “e também não se movem pelo vazio guiados pelos deuses: eles simplesmente fazem parte da ordem natural, são imensas estruturas de átomos sujeitas aos mesmos princípios de criação e destruição que governam tudo que existe.”

Ou seja, havia “uma explicação natural oculta para tudo aquilo que causa assombro ou perplexidade.” E mais: “Você não vai mais temer a ira de Júpiter quando ouvir o som do trovão, ou suspeitar que alguém ofendeu Apolo sempre que houver um surto de gripe.”

Como se vê, tudo era contrário ao cristianismo. Além disso, a mensagem do poema de Lucrécio pegava o epicurismo e o potencializava de modo revolucionário, porque mais bem organizado, porque mais bonito, por que mais profundo, mais poético, mais filosófico, mais a cara do que viria a ser a ciência moderna. Mas demoraria.

Ódio a Hipátia

Quando os cristãos descobriram como atacar o pensamento pagão, os grandes intelectuais dessa linhagem foram caçados e perseguidos até que os mais corajosos estivessem mortos, na Europa, no Oriente Médio e na África, como na cidade de Alexandria com sua esplêndida biblioteca. Os outros se esconderam ou escamotearam suas ideias. 

Entre as perdas no século V, está a morte horrorosa de Hipátia, intelectual egípcia das mais brilhantes de sua época. “Era filha de um matemático, um dos famosos estudiosos residentes do Museu. Lendariamente linda quando jovem, havia ficado famosa por suas realizações em astronomia, música, matemática e filosofia”, diz Greenblatt. 

Alexandria era governada por um cristão moderado, Orestes, que aceitava a diversidade social. Mas os cristãos radicais, liderados por Cirilo, começaram a assumir os postos de comando e a controlar a opinião pública em toda a cidade, passando a exigir a expulsão dos judeus. 

Orestes não aceitou a exigência. A elite intelectual pagã o apoiou, e o cerco se fechou contra os pagãos, principalmente contra Hipátia, que era a mais influente do grupo. O que aconteceu em seguida é uma história que os cristãos estavam se acostumando a fazer, e que se repetiria em muitas ocasiões, inclusive nas Cruzadas e nos processos de Inquisição, séculos depois.

“Em março de 415”, narra Greenblatt, “a multidão, motivada por um dos capangas de Cirilo, entrou em erupção. Na volta para casa, Hipátia foi arrancada de sua carruagem e levada a uma igreja que antes tinha sido um templo ao imperador. (O cenário não foi acidental: ele representava a transformação do paganismo na única e verdadeira fé.) Ali, depois de ter as roupas rasgadas, sua pele foi arrancada com cacos de cerâmica. A turba então arrastou seu cadáver para fora dos muros da cidade e o queimou. Seu herói, Cirilo, acabou canonizado.”

Por essa ocasião, a Igreja Católica já havia arranjado um modo de combater o paganismo por intermédio do combate ao epicurismo: mentindo. Epicuro pregava o prazer como libertação do mundo supersticioso. Mas dizia: “Não nos referimos aos prazeres da prodigalidade ou aos prazeres da sensualidade, uma sucessão ininterrupta de bebedeiras e festejos, amor sexual, consumo de peixe e outras iguarias de uma mesa requintada.” 

A paz de espírito é a chave do prazer duradouro, dizia Epicuro, mas para alcançar isso é necessário levar uma vida regada. “Em seu jardim fechado em Atenas, o verdadeiro Epicuro, ceando queijo, pão e água, levou uma vida tranquila”, diz Greenblatt.

Um de seus discípulos, Filodemo, no livro Sobre escolhas e recusas, escreveu: “É impossível viver de maneira prazerosa, sem viver de maneira prudente e honrada e justa, e também sem viver de maneira corajosa, temperada e magnânima, e sem fazer amigos, e sem ser filantrópico.” Greenblatt então comenta: “Essa é a voz de um autêntico seguidor de Epicuro.”

Mas, o que fez a Igreja Católica? Fez o que se chama hoje de destruição de reputação. Pegou a ideia de prazer de Epicuro e a distorceu. Fizeram “o que parecia simplesmente sensato e natural – os impulsos comuns de criaturas sensíveis – parecer inimigo da verdade.” Ou seja, “numa das grandes transformações culturais da história do Ocidente, a busca da dor triunfou sobre a busca do prazer.”

Os cristãos não inventaram a dor como elemento importante da vida sociopolítica. Os romanos eram mestres nessa prática, que ia além da estética, estava incrustada em seu exercício de poder. Mataram Cristo e muitos outros pregados numa cruz. Mas os cristãos, à medida que iam se empoderando, iam transformando a dor em princípio vital de fé e de purificação. Não matavam em cruz, que se tornou seu símbolo máximo. Queimavam, esfolavam.

Princípio da dor

Segue abaixo um longo trecho esclarecedor de Greenblatt sobre essa dicotomia que mostrava bem a separação entre o ideal de vida do pensamento pagão epicurista e do pensamento romano/cristão:

“Infligir dor era um fato que estava longe de ser algo desconhecido no mundo de Lucrécio [o que revolucionou as ideias de Epicuro]. Nisso os romanos eram especialistas, e dedicavam somas imensas e arenas gigantescas a espetáculos públicos de violência. 

“E não era só no Coliseu que os romanos podiam se refestelar com ferimentos, dor e morte. Peças e poemas, baseados em mitos antigos, muitas vezes eram sangrentos, assim como as pinturas e esculturas. A violência era parte do tecido da vida cotidiana.

“Esperava-se que mestres-escolas e donos de escravos açoitassem suas vítimas, e o chicote era um prelúdio frequente às execuções romanas. É por isso que no relato do evangelho, antes de sua execução, Jesus foi amarrado a uma coluna e fustigado.

“Para os pagãos, na grande maioria desses casos, a dor não era entendida como um valor positivo, um passo na direção da salvação, como era por devotos cristãos que se fustigavam sozinhos, mas como um mal, algo destinado a quem infringia as regras, criminosos, cativos, vagabundos infelizes e — a única categoria dotada de dignidade – militares.

“Os romanos honravam a aceitação voluntária da dor por um bravo soldado, mas essa aceitação era muito diferente do ritual extático celebrado em centenas de conventos e mosteiros. Os heróis das histórias romanas enfrentavam de bom grado o que não podiam em sã consciência evitar, ou o que sentiam ser necessário aguentar para provar a seus inimigos sua intrépida coragem.

“Fora da esfera da obrigação heroica, ficava a disciplina filosófica especial que permitia ao sábio dos tempos clássicos considerar a dor inescapável – a dos cálculos renais, por exemplo – com equanimidade. E para todos, do mais exaltado filósofo ao mais humilde artesão, havia a busca natural do prazer.

Na Roma pagã, a versão mais extravagante dessa busca do prazer vinha junto com as mais extravagantes imposição e resistência à dor, na arena gladiatória. Se Lucrécio oferecia uma versão moralizada e purificada do princípio romano do prazer, o cristianismo oferecia uma versão moralizada e purificada do princípio romano da dor.”

Combatendo a ideia de prazer como luxúria e atrelando-a ao mundo pagão, os cristãos foram apagando do cenário social tudo e todos que não refletiam seus valores, ao menos à luz do dia, ao largo das ruas em pleno sol. “O ódio pela busca do prazer e uma visão da ira providencial de Deus: foram esses os pregos no caixão do epicurismo”, diz Greenblatt.

Poggio e seu achado

Toda essa história, obviamente, coincide com a queda do Império Romano e o domínio dos germanos, que a essa altura já eram cristãos. As bibliotecas públicas foram aniquiladas. Por isso, os únicos manuscritos que restavam estavam guardados nos porões das bibliotecas dos mosteiros, por mais contraditório que isso possa parecer. 

Da natureza é um poema épico-filosófico que recupera o pensamento de Epicuro. Coma perseguição aos epicuristas, o poema foi relegado ao esquecimento por mil anos, até que surge no palco das buscas pelo pensamento da Grécia e da Roma antigas, Poggio Bracciolini.

O caçador de livros antigos nunca tinha lido o poema de Lucrécio. A maioria dos literatos já dava o livro como apagado da história. As informações que Poggio tinha vinham de leituras de outros autores, como Quintiliano e, principalmente, Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.), que no seu poema Amoresdizia “hão de perecer os versos do sublime Lucrécio, mas só/ quando um só dia trouxer à terra a destruição.”

Poggio era um típico intelectual a serviço do poder. Tinha uma caligrafia impecável que se tornaria modelo para o desenvolvimento da tipografia na imprensa de Gutemberg. Antes de começar a caçar livros, trabalhava como secretário da cúria romana. 

Chegou a alcançar o grau máximo de sua carreira como secretário papal. Quando foi servir ao papa João XXIII, ou Baldassare Cosso, caiu em desgraça junto com o pontífice, que em 1415 foi preso e deposto do caro, tornando-se, portanto, um antipapa.

Desempregado, Poggio decidiu se dedicar ao que já vinha fazendo como hobby, se enfiar nos mosteiros à procura de tesouros bibliográficos, sem saber como ganharia o pão de cada dia. 

Antes, fazia isso com o distintivo de quem servia à autoridade papal, Agora, era só com a cara, a coragem e as habilidades intelectuais afinadas durante anos de secretariado. 

Caçar livros da antiguidade grega e romana era uma obsessão coletiva que havia atingido o auge com o poeta Petrarca (1304-1374), mas muitos literatos embarcaram nessa aventura. 

Em janeiro de 1417, Poggio descobriu na biblioteca monástica de Fulda uma cópia de Da natureza (7.400 versos), “poema de uma beleza impressionante e sedutora”, que nos anos subsequentes seria uma peça-chave no fulgor da modernidade, ajudando a “desestabilizar e a transformar o mundo.”

A incrível experiência do humanismo árabe em Alexandria, como a de Avicena e afins, também é parte da história que possibilitou a Renascença. Mas o caso narrado por Greenblatt tem seus méritos. Méritos de excelência narrativa, de desenterrar uma aventura incrível de Poggio e de encadear fatos e personagens históricos. Como reconhecimento por sua minuciosa pesquisa, o autor ganhou o Pulitzer, em 2012.

No caso de Poggio, a grande recompensa de sua aventura foi a heroica recuperação de um livro seminal para a cultura que se criaria num período imediatamente posterior que se lograria a chamar de Renascimento. 

Intensa beleza lírica

“Dividido em seis livros sem títulos”, diz Greenblatt, o poema de Lucrécio “funde momentos de intensa beleza lírica, meditações filosóficas sobre a religião, o prazer e a morte e complexas teorias do mundo físico, da evolução das sociedades humanas, dos perigos e das alegrias do sexo e da natureza da doença”

Segundo Greenblatt, “muitos dos argumentos centrais da obra estão entre as fundações sobre as quais se ergueu a vida moderna.” O autor resume Da natureza a partir do artifício da lista, criando uma sequência afirmativa do discurso poético de Lucrécio, como se segue:

-1 “As partículas elementares são de número infinito, mas limitadas em forma e
tamanho.”

-2 “Todas as partículas estão em movimento num vazio infinito.”

-3 “O universo não tem um criador ou um projetista.”

-4 “Tudo vem a ser por resultado de uma virada.” Um ínfimo movimento que resulta numa “cadeia incessante de colisões. Tudo que existe no universo existe em função dessas colisões fortuitas de partículas minúsculas. As infinitas combinações e recombinações que resultam das colisões ao longo de um intervalo de tempo ilimitado são o motivo por que ‘os rios saciam o ávido mar com suas grandes águas, que a Terra, aquecida pelo vapor do Sol, renova as suas produções, e florescem todas as raças de seres vivos, se sustentam os fogos errantes pelo céu’.”

-5 “A virada é a fonte do livre-arbítrio.”

-6 “A natureza experimenta incessantemente.” (...) “Todos os seres vivos, das plantas aos insetos até os mamíferos mais elevados e o homem, evoluíram através de um longo e complexo processo de tentativa e erro.” 

-7 “O universo não foi criado para os ou em torno dos humanos. A Terra — com seus mares e desertos, seu clima hostil, animais selvagens, doenças — obviamente não foi construída com o propósito de fazer nossa espécie se sentir em casa. Ao contrário de muitos outros animais, que recebem ao nascer tudo de que necessitam para sobreviver, as crianças humanas são quase completamente vulneráveis: considere, escreveu Lucrécio num trecho famoso, como um bebê, igual a um marujo naufragado, arremessado na areia por ondas violentas, 

‘jaz nu sobre o solo, sem falar, sem nenhum auxílio para a vida, logo que natureza o lança num esforço, do ventre da mãe às praias da luz.’ (5.223-25)

-8 “A sociedade humana começou não com uma era dourada de tranquilidade e abundância, mas com uma batalha primitiva pela sobrevivência.”

-9 “A alma morre.”

-10 “Não há vida após a morte.”

-11 “A morte não é nada para nós.” Ou seja, é só para os que morrem, como diria Riobaldo, de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, que certamente bebeu nesta fonte, como em tontas outras.

-12 “Todas as religiões organizadas são ilusões supersticiosas. As religiões sempre prometem esperança e amor, mas sua estrutura profunda, fundamental, é a crueldade”
-13 “Não existem anjos, demônios nem fantasmas.”

-14 “O objetivo mais elevado da vida humana é a ampliação do prazer e a redução da dor.”

-15 “O maior obstáculo ao prazer não é a dor; é a ilusão. Os principais inimigos da felicidade humana são o desejo desproporcionado — a fantasia de obter algo que excede o que o finito mundo mortal permite — e o medo constante.”

Greenblatt segue adiante no argumento. “A fantasia da dor infinita ajuda a explicar sua tendência à religião: na crença equivocada de que suas almas são imortais, e portanto potencialmente sujeitas a uma eternidade de sofrimento, os humanos imaginam que podem de alguma maneira negociar com os deuses uma solução melhor, uma eternidade de prazer no paraíso.”

-16 “Compreender a natureza das coisas gera um profundo embevecimento. A percepção de que o universo consiste de átomos e vazio e nada mais, de que o mundo não foi feito para nós por um criador providencial, de que não somos o centro do universo, de que nossas vidas emocionais não se distinguem das de todas as outras criaturas, assim como nossas vidas físicas, de que nossa alma é tão material e tão mortal quanto nosso corpo — tudo isso não é motivo de desespero. Pelo contrário, compreender como as coisas são é o passo crucial para a possibilidade da felicidade. A insignificância humana — o fato de que tudo não gira em torno de nós e de nosso destino — é, insistia Lucrécio, a boa nova.”

Missão cumprida

Poggio Bracciolini nasceu em Terranuova, conforme já foi dito, em 1380. Seu sobrenome rebatizou sua cidade natal, que passou a se chamar Terranuova Bracciolini, na região da Toscana. Mas a homenagem foi feita a um de seus filhos, segundo Greenblatt. A Wikipédia em italiano, no entanto, diz que o nome da cidade foi rebatizado em 1862 para homenagear o o “célebre humanista Poggio Bracciolini.”

Ele serviu a oito papas. Foi também chanceler de Florença no fim da vida, dos 73 aos 78 anos. Testemunhou a queda de Constantinopla pelos turcos. Deixou vários livros escritos e traduções, como a do grego para o latim de O asno de ouro, de Luciano de Samósata. Em Florença, foi amigo ou contemporâneo de nomes importantes da Renascença como Donatello, Fra Angelico, Paolo Ucello, Leon Battista Alberti, etc.

Os grandes pensadores, da Renascença para cá, só puderem mergulhar na cultura e nas letras do mundo antigo graças à dedicação de caçadores de livros como Poggio e seus colegas humanistas contemporâneos, que desenterram esses tesouros. 

Depois de ser trazido de volta das profundezas seculares do esquecimento, as palavras de Da Natureza “começaram a ressoar vigorosamente nas obras de escritores e artistas do Renascimento, muitos dos quais se consideravam cristãos devotos.” 

Isso ocorreu primeiro nas pinturas e nos romances épicos (Botticelli, Piero di Cosimo, Rafael, Leonardo da Vinci, Boiardo, Ariosto, Tasso, Erasmo de Roterdã, Thomas More, Shakespeare, Edmund Spenser, John Donne, Francis Bacon, Montaigne, Galileu Galilei), ou seja, nas artes.

Depois, essa influência se estendeu às ciências e à filosofia. Em seguida, “o materialismo de Lucrécio ajudou a gerar e apoiar o ceticismo de gente como Dryden e Voltaire e a descrença programática e devastadora manifestada por Diderot, Hume e muitas outras figuras do Iluminismo.”

Darwin na lista de herdeiros

Em seu capítulo de conclusão, Greenblatt escreve: “Quando, no século XIX, Charles Darwin se pôs a resolver o mistério da origem da espécie humana, ele não tinha de se servir da visão de Lucrécio de um processo natural e não planejado de criação e destruição, infinitamente renovado pela reprodução sexuada. Essa visão havia influenciado as teorias evolucionistas do avô de Darwin, Erasmus Darwin, mas Charles podia basear seus argumentos em seu próprio trabalho nas ilhas Galápagos e em outros lugares.”

Não me parece inteiramente acertada esta observação de Greenblatt. Ele mesmo faz uma referência do poema de Lucrécio que mostra o contrário, para quem conhece o trabalho teórico de Darwin. A referência é a seguinte: 

“A ideia de que a linguagem foi de alguma maneira dada aos humanos, como uma invenção miraculosa, é absurda. Em vez disso, Lucrécio escreveu, os humanos, que como outros animais usavam gritos não articulados e gestos em varias situações, aos poucos chegaram a sons compartilhados para designar as mesmas coisas. 

E assim também, muito antes de serem capazes de se juntar para cantar canções melodiosas, os humanos imitavam o trilo dos pássaros e o doce som de uma brisa suave sobre os juncos, e assim gradualmente desenvolveram a capacidade de fazer música.”

O fato é que na época da publicação e divulgação de sua obra mais famosa, A origem das espécies, Darwin foi questionado de diversas formas sobre todos os processos de evolução, e um desses questionamentos foi sobre como o homem começou a falar.

Esse problema da fala não estava evidenciado em A origem das espécies, pelo fato sabido que era difícil encaixar na teoria darwinista uma explicação sobre órgãos, que se adaptam para continuar valendo na natureza, para algo como a fala, que não é órgão algum. 

Mas, em 1871, Darwin aparentemente resolveu o problema, que não é aceito por muitos pesquisadores antievolucionistas até hoje. Em A descendência do homem, ele diz que a linguagem humana teve origem “nos cantos dos pássaros durante a temporada de acasalamento. O homem começara a imitar os pássaros, a capella. Pouco a pouco, ele havia começado a repetir certos sons dos cantos, com tanta frequência que seus sons passaram a representar certas coisas na natureza. Tornaram-se embriões de palavras, e o homem começou a criar uma ‘protolinguagem musical.’”

Ou seja, olhando pelo retrovisor da história, não parece ser coincidência, parece ser uma cópia mesmo, uma cópia de algo genialmente pensado, saído da mente de alguém com uma capacidade incrível de observar a natureza e o homem, Lucrécio.

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