terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O prazer da carne




O novo romance de Rubem Fonseca, O seminarista (Agir, 2009, 184 páginas), não traz nenhuma proposta inovadora em termos de linguagem. Mas o ritmo da narrativa do autor de A grande arte ainda é capaz de deixar um rastro que demora a apagar na memória do leitor. Para quem desconhece sua literatura, o título oferece a primeira pista falsa desta história policial narrada em primeira pessoa e lotada de caminhos que não vão a lugar nenhum, como é de praxe no gênero.

José é um ex-seminarista que deixou a vida monástica por ser exageradamente libidinoso e não conseguir viver sem sexo. Depois disso, poderia ser muitas coisas, segundo ele mesmo, mas decidiu ser assassino profissional. Por alguma razão não explicitada, talvez por puro exercício da escrita, como quem usa a pena para matar o tempo, ele quer contar a história de como ficou sua situação ao tentar deixar o crime.

Logo após decidir se aposentar da vida de pistolagem, José se vê às voltas de criminosos querendo assassiná-lo. Para não morrer, passa a matar de novo. Nesse ínterim conhece uma mulher chamada Kirsten, uma alemã que se diz tradutora e que está vertendo para sua língua O triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. É dentro desse esquema de conspiração, amor, sexo e morte, que a história de José se constrói.

“Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns de meus serviços.” É assim que abre o primeiro parágrafo, demonstrando que não há espaço para a reflexão.

Na verdade, o narrador é direto, objetivo, embora sugira o contrário, fazendo parecer que está a fim de enrolar um pouco. À medida que avança, o leitor se envolve nos desenhos precisos das cenas de ação. De vez em quando, a tensão traz à tona sutis pinceladas de inflexões emotivas ou críticas. É a cartada do mestre Fonseca, cuja habilidade para construir uma narrativa que respira o real é admirável.

José sabe escrever e, mesmo não sendo um escritor profissional, narra com facilidade. Apesar de ser um metido a culto, que passa o tempo todo citando frases em latim, vício do seminário, sua narração é límpida, clara, sem embustes. Neste quesito, este é semelhante a todos os outros romances de Fonseca. A diferença vem na maneira como o autor faz a fusão entre literatura, gastronomia, sexo e violência. Talvez esteja aí a razão de José narrar seus feitos. Talvez ele queira comparar o prazer de matar ao de fazer sexo, ler, comer e se exibir, fazendo do leitor um voyeur.

Duas cenas descritas em momentos diferentes lapidam a junção do prazer gastronômico e o de matar. No primeiro caso, José leva seu amigo D.S. para almoçar num restaurante português, e o resultado disso é uma receita inteira impressa no romance, estendendo o prazer da leitura ao prazer da comida.

‘O que temos hoje em matéria de bacalhau, seu João?’

‘Temos bacalhau à Gomes de Sá, bacalhau à Zé do Pipo e bacalhau à João do Buraco. O senhor sabe que há mais de cem maneiras de fazer bacalhau?’

‘Sei, seu João, sei. O que o senhor nos aconselha?’

‘Estão todos muito bons’, disse o seu João com um forte sotaque, ‘mas o bacalhau à Gomes de Sá eu mesmo preparei, comecei ontem, pu-lo de molho numa bacia de água, trocando a água seis vezes, depois escorri o bacalhau, retirei-lhe as peles e as espinhas e desfi-lo em pequenas lascas que coloquei numa panela funda, cobri-a com leite bem quente e deixei ficar em infusão por três horas. Enquanto isso, cortei as cebolas em rodelas e o dente de alho e levei a alourar ligeiramente numa frigideira de ferro com um trisco de azeite até que ficassem translúcidas e levemente amarronzadas, em seguida juntei batatas, que haviam sido cozidas com a pele e depois peladas e cortadas também em rodelas, e juntei o bacalhau escorrido, mexi tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar, temperei com sal e pimenta, coloquei num tabuleiro de barro e levei-o a um forno bem quente durante quinze minutos, o Joaquim deixa ficar vinte, mas eu prefiro quinze minutos, com o forno a duzentos graus. Depois que tiro do forno deito-lhe salsa picada e enfeito-o com rodelas de ovo cozido e azeitonas pretas. É somente para oito pessoas. Não gosto de fazer em grande quantidade.’

Na outra cena, o leitor se espanta enquanto o narrador se delicia, mesmo não demonstrando.

Quebrei outro dedo e ele sorriu para mim, um sorriso de desprezo. Já tive um dedo quebrado, doeu para caralho, até hoje é uma parte morta do meu corpo, parece um arame retorcido. Mas eu também aguentei a barra. Igual aquele cara. Ele não ia abrir o bico nunca, conheço as pessoas. Além do mais, e principalmente, eu estava me sentindo mal em torturar aquele cara, odeio fazer os outros sofrerem, é por isso que sempre dei um tiro na cabeça dos meus fregueses, li em um livro de medicina que a morte é instantânea e sem dor. Coloquei o silenciador na Glock. Dei um tiro na sua testa, com o cano afastado, não queria abrir uma cratera no seu rosto. Confesso que lamentei ter que matar o cara, ele tinha caráter.

E assim segue a narração de O seminarista, cumprindo o sacerdócio que ele mesmo escolheu. Entre um assassinato e outro, José leva seus pares para almoçar ou é convidado por eles a um jantar, um café. Foi numa delicatéssen, quando tomava café, que ele conheceu Kirsten. Ela havia derrubado acidentalmente um expresso no braço dele, e aí a conversa foi inevitável. Para um leitor de romance policial, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma cilada. Quando se sabe que ela é tradutora, outra associação se junta à primeira: tradutora/traidora. Esse jogo de tensão entre leitor e narrador é um procedimento típico do gênero que Fonseca sabe criar com precisão.

Outra característica de sua obra é que os narradores adotam sempre um ponto de vista da classe média. São intelectualizados, sempre citando algum livro que leram e forjando estereótipos sobre as classes menos favorecidas, socioeconômica ou intelectualmente. José segue a regra. A certa altura da narração, ele diz: “A choldra agora era assim, falante, devia ser influência da televisão, bigbrothers, filmes de sacanagem, essa merda.” Ou: “Todo pé-rapado que ascende socialmente acaba aprendendo a jogar golfe, a andar a cavalo e a escolher vinhos finos.”

O esnobismo e o pernosticismo (não da escrita, mas do personagem) são características muito presentes na literatura de Fonseca, aparecendo ali como crítica social. A ironia, o sarcasmo, o humor negro também surgem, muitas vezes, diluídos na narrativa. Dessa maneira, a caracterização dos personagens principais é muitas vezes um sarcasmo dentro do cenário criado. Eles vêm de uma situação de minoria ou de marginalização. O narrador de Bufo & Spallanzani, por exemplo, é negro e gordo. José é magro, feio e assassino.

Já a crítica social se estende ao desvario estético da contemporaneidade. Neste sentido, há uma cena de ironia com destino certo, que é quando José tem de falar de si para Kirsten e, sem poder dizer a ela o que faz, inventa uma profissão:

‘O que você faz?’

‘Sou artista plástico.’ (Quando usava terno e gravata e sapatos finos eu dizia que era consultor financeiro.)

‘Pinta?’

‘Não. Crio instalações.’

‘Instalações?’

‘Uma forma de recriar um ambiente. Pintura, escultura, essas coisas acabaram no século XXI.’

‘Lamentável. Quer dizer que se eu tiver um Picasso devo jogá-lo no lixo?’

Percebi a ironia na sua voz, mas não passei recibo.

‘Não, de jeito nenhum. Tem muito burguês rico e ignorante que continua comprando esse tipo de arte, influenciado pelos marchands. Eu se tivesse um Picasso passava ele nos cobres.’

A estética que resulta da narrativa de O seminarista é profundamente sensual, ligada aos sentidos da maneira mais capital possível. Ou seja, é uma estética do corpo e da alma do homem caído, do mundo decadente. A velha fórmula dentro da qual todos os narradores do autor se movem é compensada aqui pela alta voltagem de sensações lançadas a cada frase.

O autor

Rubem Fonseca é uma personalidade, faz parte da paisagem artística carioca, mas não gosta de se expor à mídia. Não gosta de dar entrevistas, nega a si mesmo diante das pessoas que o reconhecem. Mesmo assim não é raro encontrá-lo na praia, e quando isso acontece alguém diz a ele “você parece o Rubem Fonseca”, e ele sempre responde: “É. Já me disseram isso.”

Nascido em 1925, em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, mudou-se para o Rio de Janeiro com a família aos oito anos de idade. Antes de se tornar escritor perambulou por outras áreas, trabalhando como office boy, escriturário, nadador, ajudante de mágico, revisor de jornal, comissário de polícia, até se formar em direito e se tornar professor da Fundação Getúlio Vargas e depois executivo da Light, companhia de energia elétrica carioca.

Só foi publicar o primeiro livro próximo dos 40 anos, em 1963. Era uma coletânea de contos, Os prisioneiros, gênero que elevou seu nome internacionalmente. O gênero policial dentro do qual figura sua obra não engessou a criatividade do autor, que soube elaborar uma estética própria, uma atmosfera singular a seus livros, que entre os mais conhecidos estão Lúcia McCartney, Feliz ano novo, A grande arte e Agosto. Este último conta os dias finais de Getúlio Vargas e virou minissérie da TV Globo.

Os revisores levam tão a sério as pistas falsas do romance de Fonseca que resolveram fazer o mesmo com o perfil do autor, publicado no final do livro. Ali diz que ele já publicou 11 coletâneas de contos, sete romances e três novelas. Mas na orelha, a informação é outra. Seriam 11 romances publicados, 13 livros de contos e uma seleção de crônicas. (Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto)


Serviço

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: O seminarista
Autor: Rubem Fonseca
Editora: Agir, 2009, 184 páginas
Gênero: Romance
Preço: R$ 39,90

O elogio da escrita



A história nasceu com a escrita. A história da escrita, portanto, é ao mesmo tempo relato e explicação de si mesma, ou seja, metalinguagem. Esse desdobramento da memória foi objeto de pesquisa do escritor goiano Adovaldo Fernandes Sampaio. Seu livro Letras e memória: uma breve história da escrita (Ateliê Editorial, 2009, 304 páginas) é uma rajada de luz sobre 50 séculos de códigos pictográficos, ideográficos, silábicos e fonéticos. É uma viagem histórica e etnolinguística indispensável a quem quer olhar de perto as ferramentas que propiciaram a evolução do pensamento e das civilizações.

O livro conta e encanta. O que há em sua proposta final é a paixão pelas aventuras das letras, que transparece pela escritura do autor. Às vezes a pena corre como quem faz versos livres. Às vezes quer refletir sobre o tempo da palavra escrita, como bem diz o subtítulo. Outras vezes o que surge é uma paisagem de campo aberto, sobre a qual o leitor corre os olhos e se delicia com essa espécie de arqueologia da representação.

O rico acervo de ilustrações ajuda o leitor a mergulhar nesse universo fascinante em que há todos os sistemas de escrita, desde as pictográficas, como os hieróglifos, até os alfabetos mais conhecidos e usados hoje, como o latino e o árabe, além de desenhos e fotografias. Ao longo do percurso, encontramos línguas e escritas exóticas e esquecidas, que ressoam apenas na cabeça dos estudiosos do assunto ou de parcos falantes, restritos ao seu local de origem.

É assim que podemos ler sobre a escrita vatteluttu, que dá suporte ao tâmil, “a mais antiga das línguas dravídicas”, falada em lugares como o Sri Lanka e Ilhas Fiji. Já o sistema mkhedruli, segundo Sampaio, é um alfabeto composto de 28 consoantes e cinco vogais, usado pelo Azerbaijão e pela República da Geórgia desde o século X. Essas informações teriam baixo grau de interesse do leitor não fosse a malha de letras e textos que vêm junto para ilustrar. É aí que está o encanto do livro. Tudo foi feito dentro da declarada intenção do autor de criar um longo poema visual, além da informação e da análise, que também fazem parte de sua proposta.

Na abertura do livro, Sampaio faz um aquecimento, um tipo de ginástica da erudição, citando frases da literatura brasileira e provérbios de várias culturas, para designar vocábulos diretamente ligados ao ato da escrita, como a frase de Aldo Moreni: “Escrevi seu nome na areia das praias de muitos mares. Um dia vou esquecê-lo, mas restarão as árvores, com suas cicatrizes, para mo lembrar.”

Ou a de Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos.” Também aproveitou a lateral de uma página para, sob figuras representativas, escrever um provérbio latino, “verba volant, scripta manent”, e na folha seguinte registrar a tradução sem que o leitor menos atento desse conta: “As palavras voam, os escritos ficam.”

O verbo do princípio

Esse exercício de conhecimento livresco e, sobretudo, de consciência da escrita, apoiado por um valoroso trabalho de pesquisa, culmina com a citação de livros raros, traçados em línguas cujas palavras voaram das bocas humanas faz muito tempo. Um desses é o Popol Vuh, O livro dos mortos, escrito pelos maias em hieróglifos, na língua chol, livro “que traz a origem do fogo, a explicação das características físicas de certos animais, a origem do sacrifício humano por extração do coração, o castigo pela soberba, o nascimento milagroso dos heróis culturais” etc.

Os hieróglifos criados pelos maias registraram também dados sobre astronomia e matemática, em livros ou textos que foram quase totalmente queimados pelos espanhóis, que, numa visível intenção de dizimar qualquer vestígio da cultura maia, os consideravam carregados de “falsidades do demônio”.

O que Sampaio traz de mais curioso da civilização maia, no entanto, em termos de registro gráfico, é o sistema numérico. Trata-se de uma sequência de sinais binários, um ponto e um travessão (chamado de barra, por Sampaio), em que o primeiro vale 1 e o segundo, 5. Para grafar 9, por exemplo, usam-se quatro pontos sobre um travessão. Para registrar 10, basta riscar dois travessões sobrepostos, e assim sucessivamente.

O pensamento organizado em torno da escrita inventada e praticada pelos maias, visto em conjunto com aquilo que outras sociedades ao longo da história também desenvolveram, mostra uma grande sincronia evolutiva das línguas. No começo do capítulo que trata das diferentes formas de escrita e de línguas, Sampaio diz o que muitos etnólogos também afirmam:

“O ser humano, em qualquer tempo e em qualquer lugar, é sempre o mesmo. Falando diferentes línguas e valendo-se de diferentes tipos de escritas, pensa e diz as mesmas coisas, ainda que as expresse de maneiras diferentes, numa unidade na diversidade, ou numa diversidade na unidade, que faz a diferença e o encanto de sua trajetória, de seu inter-relacionamento.”

O poder escrito

No rastro da escrita, a produção e a conservação do pensamento trazem consigo outro fenômeno importante ao longo da história da humanidade: o poder. O autor sabe e diz que o sistema de escrita gera dentro de si uma força capaz de obliterar uma cultura inteira, trazendo à tona outra sociedade, que por sua vez será ultrapassada, ou dizimada a partir da maneira de se organizar o pensamento por meio do registro da língua.

Não foi por outra razão que os espanhóis queimaram os textos maias no século XVI. Nem foi diferente o objetivo do imperador Huang Ti, ao mandar queimar todos os livros do grande império chinês, só deixando incólume o I-Ching, pela verdade espiritual que o livro trazia. Argumento semelhante foi usado pelos árabes muçulmanos quando começavam a criar seu império e dominaram a cidade de Alexandria, em 642. A primeira ordem foi a de queimar totalmente a biblioteca, que já havia sido incendiada pelos romanos (Júlio César) em 47 a.C. e pelos cristãos (Teodósio I), em 391.

Na ocasião da primeira grande queima dos livros da Biblioteca de Alexandria ordenada pelo califa Omar ibn al-Khatab, em 642, sua justificativa foi simples e direta: “Se são de acordo com o Alcorão, são inúteis; se são contrários ao Alcorão, são perniciosos.” Segundo Sampaio, a biblioteca fora fundada em 304 a.C. pelos egípcios, no reinado de Ptolomeu I Sóter, e chegou a ter entre 550 mil a 700 mil rolos de papiro, dando um total de 30 mil livros completos.

Há quem diga, no entanto, que esse negócio de dizer que os muçulmanos foram os responsáveis pela perda do patrimônio cultural da humanidade, contido na Biblioteca de Alexandria, é uma acusação infundada. Isto é, quando a biblioteca foi atacada pelo império islâmico em formação, que dominaria o Egito até os dias de hoje (o Egito contemporâneo é um país árabe, na língua, e islâmico na religião), já não tinha muita coisa.

Segundo Wilson Martins, em seu A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca, citando o historiador Albert Cim, “parece tratar, no caso, de uma amabilidade inventada por cristãos contra os muçulmanos, para lhes atribuir a responsabilidade de um crime por eles mesmos cometidos.” É claro que Sampaio não entra na questão histórica da política (conquista, manutenção e expansão do poder).

O autor de Letras e memória se concentra mais no seu objeto de estudo, que é a história da escrita ao longo dos séculos. O fato é que imaginar a perda de conhecimento valoroso em matemática e filosofia, e o que isso teria representado para a evolução do pensamento, é um exercício complicado até hoje.

Mesmo com essa perda incomensurável, o Egito antigo deixou uma contribuição valiosíssima à cultura ocidental. Uma sabedoria que chegou até nós de várias maneiras, tanto pelo trabalho de historiadores modernos quanto pela influência do pensamento egípcio na filosofia grega. Para se ter uma ideia do valor dessa contribuição, o primeiro livro a ser escrito na história da humanidade, segundo Sampaio, foi A saída para a luz dos dias, também conhecido como O livro dos mortos do antigo Egito.

Uma cópia desse livro, “um papiro de uns vinte metros, coberto de hieróglifos dispostos verticalmente”, foi encontrado pelo francês Jean-François Champollion, o mesmo que havia decifrado a pedra da rosetta, em 1822, que trazia uma inscrição em duas línguas (grego e egípcio) e em três escritas (alfabeto grego, hieróglifo egípcio e demótico).

Os franceses têm tradição nos estudos da história da escrita e da leitura. Mas no Brasil, um livro como o de Sampaio é uma obra rara, que merece ser adquirida pelas bibliotecas públicas e consultada sempre, não só por interessados em história das civilizações ou estudantes de literatura. O livro serve até mesmo a tatuadores que apreciam os tribais ou algo parecido, pela carga simbólica e a beleza de formas que as escritas trazem.

Sampaio nasceu em Pires do Rio, interior de Goiás. Já publicou livros de crônicas, Seu nome agora é saudade, e de contos, O sol na rede, além de ter organizado uma coletânea de contos tchecos, intitulada Tchecoslováquia blues e publicado os ensaios Voces femininas de la poesía brasileña e Línguas e dialetos românicos. Com Letras e memória, o autor também nos leva à reflexão sobre a bifurcação da língua escrita, que agora, como ele bem observa, se fixa no papel e se multiplica continuamente nas telas do computador. “O manuscrito, o texto real, cede lugar ao texto virtual, que pode ser alterado ad nauseam, ad infinitum”, finaliza. (Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto)

Serviço

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: Letras e memória: uma breve história da escrita
Autor: Adovaldo Fernandes Sampaio
Editora: Ateliê Editorial, 2009, 304 páginas
Gênero: Línguística
Preço: R$ 65,00

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Demjanjuk: este nome te lembra alguma coisa?

Demjanjuk: operador da câmara de gás, ajudou a matar 27,9 mil judeus

Um nome ligado ao Nazismo voltou à tona esta semana. É o de John Ivan Demjanjuk, ex-guarda de um campo de extermínio nazista que só agora, aos 89 anos, está sendo julgado pelo crime de “colaborar na morte de 27.900 judeus que foram enviados à câmara de gás durante a Segunda Guerra Mundial”, podendo pegar até 15 anos de cadeia se for condenado.

A notícia completa está no portal UOL (leia aqui). Ao ler o nome eu me lembrei de quem se tratava, não porque sou versado na história da Segunda Guerra, mas porque Demjanjuk é citado no livro de Philip Roth, Operação Shylock (leia aqui).

A literatura me fez conhecer um caso real, que se tornaria parte da ficção, cuja história se desdobraria até agora, num desfecho demorado. A existência e a história são mesmo duas coisas sem o menor critério.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Paul Auster na New Yorker

The New Yorker

Roger Phaedo não conversou com ninguém durante dez anos. Ele ficou confinado em seu apartamento no Brooklyn, traduzindo e retraduzindo obsessivamente a mesma passagem das ‘Confissões’ de Rousseau. Uma década antes, um gângster chamado Charlie Dark havia atacado Phaedo e a esposa. Phaedo apanhou tanto que sua vida ficou por um fio. Mary foi queimada, e só conseguiu sobreviver depois de passar cinco dias na UTI.

Durante o dia, Phaedo traduzia. À noite, ele trabalhava num romance sobre Charlie Dark, que nunca foi preso. Phaedo passou a beber incondicionalmente o seu uísque. Ele bebia para afogar as mágoas, para adormecer as lembranças, para esquecer de si mesmo. O telefone tocava, mas ele nunca atendia.

Às vezes, a vizinha Holly Steiner, uma mulher atraente, silenciosamente entrava no quarto dele e habilmente o tirava daquele estupor. Outras vezes, ele usava os serviços de uma prostituta local chamada Aleesha.

Os olhos de Aleesha eram duros demais, cínicos demais, e traziam o olhar de alguém que já tinha visto muita coisa na vida. Apesar disso, Aleesha tinha uma estranha semelhança com Holly, como se fosse um duplo de Holly. E foi justamente Aleesha que trouxe Phaedo de volta à escuridão.

Uma tarde, andando nua pelo apartamento de Phaedo, ela se deparou com dois grandes manuscritos, um em cima do outro. Um deles era a tradução de Rousseau, todas as páginas traziam as mesmas palavras. O outro era o romance sobre Charlie Dark. Ela começou a folhear o romance. ‘Charlie Dark!’, exclamou.

‘Conheci Charlie Dark! Ele era osso duro de roer. Aquele filho da mãe fazia parte da gangue de Paul Auster. Adoraria ler este livro, meu querido, mas sempre tenho preguiça de ler livros grossos. Por que você não lê pra mim?’

Foi assim que os dez anos de silêncio foram quebrados. Phaedo decidiu agradar Aleesha. Ele se sentou e começou a ler o parágrafo deste romance, o romance que você acabou de ler.

É com esse trecho, parodiando a ficção de Paul Auster, que o escritor James Wood abre a longa crítica, na revista The New Yorker, sobre o autor de Homem no escuro.

Tive o trabalho de fazer a parca tradução só para mostrar o quanto é agradável ler os textos da revista novaiorquina. Wood faz uma leitura exemplar da literatura de Auster, analisando ponto por ponto o estilo, as fontes e a metacrítica dos romances dele.

A ironia, a influência ao mesmo tempo de Cervantes e Borges, que por sua vez também admirava o espanhol, tendo inclusive escrito o conto Pierre Menard, o autor de Dom Quixote. É claro que no centro da intenção de Wood está o lançamento do mais recente romance de Auster, Invisible. Para quem gosta desse autor cheio de angústia e de repetições milimetricamente pensadas, eis uma expectativa. Logo, logo chegará ao Brasil, sem dúvida.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pelo prisma da adaptação


O cinema, arte de narrar por meio da imagem, tem uma dívida impagável com a escrita. Raros são os filmes que não nascem de um roteiro prévio, escrito, que coloca os atores no universo do que será filmado, que os prepara para as contracenas, um roteiro que vai mudando ao longo das filmagens, é verdade, mas que é também a linha mestra do diretor. Além disso, o cinema tem uma dívida com a própria literatura, e ao mesmo tempo um conflito permanente com ela.

Para mostrar como o universo literário foi usado pelo cinema e de que forma ainda hoje contribui para o enriquecimento da linguagem cinematográfica, o professor de literatura comparada da Universidade de Nova York, Robert Stam, publicou um livro interessante, intitulado A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação (UFMG, 2008, 512 páginas).

São sete capítulos em que o autor mergulha, com sinceridade e conhecimento, no mundo das adaptações literárias para o cinema e as recriações de textos (hibridismo, intertextualidade), indo desde Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, até Macunaíma, de Mário de Andrade, livro este que, sem pestanejar, Stam afirma ser a “mãe ignorada de todos os romances do realismo mágico”, embora, por isso mesmo, quem fique com os louros da influência seja a obra do colombiano Gabriel García Márquez.

E o autor não fala isso gratuitamente. Ele faz questão de dizer que lê em português, que conhece bem nossa literatura, além de ter o Brasil como uma “segunda pátria”. Ou seja, é uma espécie de brasilianista dos estudos literários. “O Brasil sempre esteve presente em minha trajetória intelectual nesses últimos trinta e cinco anos. A tal ponto que tenho sempre em mente meus interlocutores brasileiros mesmo quando escrevo em inglês”, afirma o autor, no prefácio direcionado a seu público tupiniquim.

Cruzando estilos

O grande valor de leitura deste livro é a maneira como Stam vê a história do romance e a influência do gênero tanto em novas criações literárias quanto nas produções fílmicas. No escopo de sua argumentação, o autor aponta duas principais tradições de romances que chegam aos dias de hoje como as linhas básicas dessas releituras e adaptações: Dom Quixote e Robinson Crusoé.

Para ele, o livro de Cervantes é o modelo da paródia, da intertextualidade e até do realismo mágico, cujos artifícios e técnicas criativas são encontrados dentro da própria linguagem, influenciando outros clássicos como Tristram Shandy, de Laurence Sterne, e Tom Jones, de Henry Fielding. Neste caso, não sobra mais nada de original para a literatura seguinte, tanto é que o próprio Stam chega a dizer que “toda a história da literatura moderna pode ser vista como uma nota de rodapé de Dom Quixote.”

Mas, em último caso, havendo outra vertente, Robinson Crusoé, do inglês Daniel Defoe, é o texto-fonte das criações miméticas, aquelas que querem “gerar uma forte impressão da realidade factual”, ou seja, os romances realistas, conceito que não se refere apenas à escola do Realismo Naturalismo.

Para não terminar a discussão e mostrar as filigranas da criação textual, entre esses dois gigantes, outros clássicos germinam novas tendências literárias que também deram ao cinema uma força de expressão muito em voga até hoje, renovando-se em releituras, muitas delas buscando um sentido inverso, uma espécie de contra-leitura.

Esses outros cinco estilos fundamentais são a própria narrativa de Fielding, a perspectiva de Gustav Flaubert criada em Madame Bovary, a polifonia de Dostoievski, em Notas do subterrâneo (que recentemente teve uma edição em português com o título de Memórias do Subsolo), o experimentalismo da nouvelle vague francesa – que parte do processo inverso, criando uma estética cinematográfica que influencia a literatura – e o realismo mágico de Márquez.

Notas do subterrâneo é um romance dialógico, polifônico (dotado da capacidade de auto-articulação e de cruzamento de vozes na consciência do personagem, segundo o teórico do formalismo russo Mikhail Bakhtin) que apresenta um narrador atormentado, neurótico, mas confessional, engraçado, autoconsciente.

Para se ter uma ideia de como esses fios de linguagem se entrelaçam na tese de Stam, Notas teria sido a influência direta de livros como A náusea, de Sartre, Lolita, de Nabokov, e até A hora da estrela, de Clarice Lispector, além de filmes de Woody Allen e mesmo as esquetes dos comediantes atuais da stand-up comedy.

O autor cita uma lista das várias adaptações de Crusoé para o cinema, começando com filmes de 1916, como o Robinson Crusoé americano, passando por produções francesas e holandesas, a versão de Luís Buñuel, de 1954, o brasileiro As aventuras de Robinson Crusoé, com Costinha e Grande Otelo, de 1978, até chegar a Lagoa Azul, de 1980, e O náufrago, com Tom Hanks, de 2000. A disseminação dos exemplares do romance de Defoe pelo mundo todo, diz Stam, citando um estudioso do autor inglês, foi como “sementes espalhadas pelo vento, gerando novas obras onde quer que caíssem.”

Nesse sentido, continua ele, filmes como Máquina mortífera, MIB – homens de preto, Grand Canyon – ansiedade de uma geração, Jerry Mcguire – a grande virada, todos eles se basearam na amizade birracial, presente em Crusoé (na relação deste com o negro Sexta-Feira) para criarem seus personagens.

Capacidade de leitura

No seio das argumentações de Stam, ao abordar o problema da adaptação, está a vontade de pôr a baixo a velha ideia de que o cinema presta um desserviço à literatura. Ele avança nessa discussão ao mostrar o quanto as técnicas de narração do cinema têm das técnicas literárias, mas que isso não quer dizer, de forma alguma, que a arte cinematográfica precise ser fiel.

O que diferencia uma arte da outra é justamente a linguagem, e eis aqui mais um avanço nessa discussão, porque refuta a ideia de que o livro é sempre melhor que o filme, só porque é a matriz, quando na verdade são dois produtos diferentes. Stam encaixa aqui a tese de Bakhtin, segundo a qual toda expressão artística é uma construção híbrida, “que mistura a palavra de uma pessoa com a de outra”, principalmente quando se trata de cinema, que envolve uma série de colaborações.

A capacidade de leitura do roteirista é o grande diferencial, neste caso. Segundo Stam, embora a mediocridade exista na passagem de uma linguagem para a outra, endossar a fidelidade como um princípio metodológico só mataria o valor da expressão artística. No caso das adaptações de romances brasileiros, ele explica metodicamente como Memórias póstumas de Brás Cubas, de André Klotzel, é um filme muito bom, que conseguiu captar as veias reflexivas do livro-fonte, sem deixar de ser cinema, sem ser ‘traição’, ‘profanação’, ‘deformação’, palavras que a crítica gosta de usar ao falar de adaptações ou releituras.

“Klotzel vê o romance por aquilo que ele é – um artefato linguístico/estilístico autoconsciente.” É por isso que não importa a fidelidade e, desse modo, mesmo Memórias póstumas sendo um romance fin de siécle, publicado em 1881, Klotzel acerta ao usar comerciais de TV para anunciar a invenção de Brás, o cataplasma. Por causa de procedimentos assim, que recaem sobre a reflexividade da técnica machadiana, a adaptação foi considerada “bastante inteligente e cuidadosamente reflexiva de um clássico brilhante.”

A ousadia de Klotzel seria vista mais tarde na adaptação de outro romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, feita pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, a ótima minissérie Capitu (TV Globo). Aqui também há trechos de filmes e imagens do Rio de Janeiro produzidos ao longo do século XX e um jogo de espelhos em que o velho Dom se vê ainda jovem às voltas de uma Capitu estonteantemente bela e cheia de vida.

Nas pegadas da leitura de Stam sobre a literatura brasileira e suas apropriações fílmicas, há muito o que aproveitar. O livro foi escrito para os leitores norte-americanos, mas, mesmo assim, traz um ponto de vista extremamente interessante para quem estuda literatura no Brasil, para quem gosta de cinema e quer até mesmo investir na arte da adaptação.

No contrapé da adaptação de Klotzel, há a de Suzana Amaral em cima do romance de Clarice Lispector, A hora da estrela. Neste caso, a cineasta conscientemente muda o foco da narrativa de Clarice, que é introspectiva, que “funciona através do desdobramento da vida interior”, com um narrador sarcástico e burguês, para o realismo e a exterioridade. Segundo Stam, Amaral queria justamente tirar o reflexo do universo burguês, ou a crítica dele, para mostrar apenas o drama da mulher trabalhadora de classe inferior.

Estéticas

O livro de Stam tem uma abordagem ampla, cercando-se de um vasto acervo teórico, cujo cerne são o dialogismo de Bakhtin e o hibridismo de Julia Kristeva. Embora faça uma revisão dos questionamentos políticos e sociais na produção artística, sua preocupação maior neste livro é com a abordagem estética.

Em função dessas considerações, outro texto fundamental dentro do livro, que aborda a literatura e o cinema brasileiros, é aquele sobre Macunaíma. Stam faz uma análise detalhada do romance e do filme. Um banquete para os leitores. Sobre o filme, de Joaquim Pedro de Andrade, diz que é “um exercício absolutamente genial de atualização política e estética de uma fonte romanesca.”,

Sobre o romance, dá uma dica valiosa de como os novatos podem ler e buscar a compreensão desse texto fundador de nosso modernismo. “Macunaíma apresenta quase todos os temas e recursos bakhtinianos – inversões carnavalescas, discurso paródico de dupla voz, heterologia social e artística, polifonia cultural e textual – a ponto de o romance parecer ter sido escrito expressamente para trazer à luz uma exegese bakhtiniana.” É só ler. (Texto publicado originalmente no jornal Tribuna do Planalto).

Serviço

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação
Autor: Robert Stam
Editora: UFMG, 2008, 512 páginas
Gênero: Literatura e Cinema/Interpretação
Preço: R$ 79,00

terça-feira, 17 de novembro de 2009

ENCONTROS E DES-ENCONTROS: a dignidade da literatura



Há alguns dias recebi o livro Encontros e des-encontros (Ateliê Editorial, 2005, 112 páginas), de Maria Teresa Hellmeister Fornaciari. Embora o título esteja no esteio comum, representa bem aquilo que a autora quer dizer nos textos. Gostei do que li, principalmente pela preocupação com a linguagem, que no fim das contas é o que dá o efeito estético em qualquer literatura.

Toda vez que vamos ler o livro de um autor desconhecido para nós, do qual nunca ouvimos falar, de quem nenhum crítico que conhecemos escreveu ou, se escreveu, não lemos, procuramos as falhas, em vez da delícia dos acertos. Se vamos ler Ian Mcewan, por exemplo, já queremos ver aquilo que se falou dele, a profunda reflexão das ideias, a grande capacidade de concisão etc.

Mas sobre um autor que não faz parte do ciclo da crítica, é preciso esforço para compreender se há algo de valor ou não em seu texto. E aí, fica mais fácil apontarmos os defeitos, porque, geralmente, são os mesmos que teríamos se fôssemos escrever.

Encontros e des-encontros tem defeitos, mas quero falar aqui do que tem de bom. Trata da casualidade da vida, girando em torno de expectativas, desilusões e momentos de êxito, sob o reflexo específico de um comportamento urbano, com algumas lembranças do mundo rural.

É como se a autora revisitasse sua história, a memória de sua família, e ao mesmo tempo fizesse um retrato da cidade de São Paulo, onde nasceu. É como se houvesse ali uma busca de identidade, um exercício de autoconhecimento.

Nesse sentido, desenha bem o sentimento de quem mora nas metrópoles brasileiras, especialmente a capital paulista. Todo mundo é meio perdido ali, e os encontros (poucos) e desencontros (tantos) abarrotam a vida dos paulistanos (nascidos ou vindos).

Há inclusive um texto intitulado “Identidade”, que diz: “O tempo passa deixando rastros e marcas.” Nesse trecho o leitor sente o peso das palavras e o quanto o próprio tempo pesa sobre a vida.

Mais adiante, uma narradora se coloca como alguém que estranha a chegada da maturidade, que procura no espelho a juventude e não encontra, e começa a puxar a memória para se redescobrir: “Procurei sempre ser tão carinhosa, gostei tanto de que minha dedicação proporcionasse momentos felizes, fiz tantas comidas que deram água na boca e ainda sei tantos poemas de cor ...”

Uma das definições da crônica diz que ela é a mais literária das linguagens jornalísticas e a mais jornalística das linguagens literárias. Os textos de Maria Teresa estão entre o conto e a crônica. Embora catalogados como crônicas, não têm a marca da publicação em jornal, mesmo retratando o cotidiano, e assim criam uma atmosfera de narrativa interessante. É um livro que alcança a dignidade do literário.

Os primeiros textos se assemelham a aquarelas, pinturas configurando o cenário do dia a dia, fixo. Como se o leitor estivesse de frente a uma tela, lendo a narração da imagem pintada. Aliás, em matéria de pintura, a autora conhece bem, porque também é pintora e poeta, o que pode até reivindicar, num nível mais modesto, é claro, o velho mote de Horácio ut pictura poesis (poesia é como pintura). No caso dela, a literatura inteira é como pintura, talvez impressionista.

Pincelando o drama

Depois das aquarelas, a autora escolhe narradores diversos que também pintam histórias do cotidiano, porém, mais dramáticas. Tristes, às vezes. Em tom confessional, outras tantas. E aí, entre encontros e desencontros, os textos vão tecendo o caráter literário do livro. Nenhum deles nomeia os personagens. Ficam sem nomes como num quadro, sendo descritos pelo que sentem, veem, vivem, enfim.

Dois textos trazem uma carga de emoção bem acentuada: “Tempo de Quaresma” e “Tentação”. No primeiro, um casal experimenta a passagem do tempo e o efeito que isso causa no relacionamento amoroso. Já não havia mais diálogo, mais sexo, mais afabilidades, embora houvesse a intenção, o afeto escondido na espessa camada do tempo.

Pelo silêncio dos dois na sala, numa Quarta-Feira de Cinzas, o leitor acompanha os pensamentos de ambos. Mas na mesa, “o que se ouvia, naquele fim de quarta-feira, era apenas o barulho de duas pessoas mastigando, sentadas frente a frente, além do latido do cachorrinho.”

Em “Tentação”, uma menina de nove anos vive a solidão da escolha que fez pelo mundo das palavras. O pequeno drama poético se passa numa feira de livros. A garota se afasta do grupo e se perde no rumor das letras até se achar na palavra ‘quimera’.

Esse conto, esse pequeno memorial, recria uma atmosfera bem na linha de Clarice Lispector, a claricinha ainda menina no Recife, que ficou dias namorando o livro da amiga até consegui-lo emprestado e não devolver mais. Há inclusive uma epígrafe com texto de Lispector.

Trilha sonora particular

A nota dos textos é triste, quase sempre. O timbre é do violino, que substituiu o tambor dos verdes anos. Esta é a impressão maior do ritmo. Ao longo do livro há sempre uma nota musical, uma citação que inclui a história num ambiente de música. Uma trilha sonora bem particular, que está no íntimo de cada personagem.

Dessa leitura, muitas frases cintilam na malha textual de Maria Teresa, apontando sua capacidade de ler o cotidiano, como ao dizer: “Por que as pessoas teimavam em reivindicar a mesma violência e o mesmo tédio de suas rotinas em seus momentos de lazer?”.

Mas há também frases que demonstram o rigor do trato com a linguagem e o talento da autora. Frases de efeito: “Tão racional e habilidoso, sabia subtrair-se com esmero quando se tratava de não se fazer compreendido.” Perspicácia e sensibilidade: “Como somos incapazes de ver o avesso das coisas.”

Tino poético: “Neste momento de tantas perdas, tenho medo de que também o amor escape feito lágrima.” Bem antes, em outro texto, já havia escrito: “Duas lágrimas emergiram e suicidaram-se”. Machadiana: “A vida pareceu-me abrir parênteses, sem ao menos preocupar-se com alguma explicação.”

Maria Teresa Hellmeister Fornaciari é professora de literatura, graduada em Letras, com mestrado em Língua Portuguesa pela PUC de São Paulo. É editora do blog Ouvindo Meus Botões e autora também do livro de poesia Tambores e Violinos.
Serviço

Este livro pode ser comprado no site da Livraria Cultura.

Título: Encontros e des-encontros
Autora: Maria Teresa Hellmeister Fornaciari
Editora: Ateliê Editorial, 2005, 112 páginas
Gênero: Crônicas/Contos
Preço: R$ 23,00

Clarice Lispector em The New York Times

Na segunda-feira passada (16/11), o Portal UOL traduziu um texto muito bom de Tomás Eloy Martinez, publicado em The New York Times, falando da descoberta de Clarice Lispector pelo primeiro mundo. É um texto entusiasmado, segundo o qual a nova onda de Lispector nos Estados Unidos é tão frenética quanto aquela que se fez em torno do chileno Roberto Bolaño.

Mas antes de falar de Clarice, Martinez tece os elogios de praxe ao Olimpo de nossa literatura.

Em meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo o de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que escreveu uma sucessão de obras mestras mediante o simples recurso de observar atentamente a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para contá-los de uma maneira incomum, inesperada. Um de seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona mais do que tudo por seu virtuosismo verbal e pelo ouvido finíssimo com que capta a música das vozes do sertão, no nordeste profundo de seu gigantesco país.

Entretanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a difundir-se nos Estados Unidos com tanto ímpeto quanto a de Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado pela revista The New Yorker, e o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Lispector com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

(...)

Depois faz o perfil imaginativo de Clarice:

Dar uma ideia de sua imaginação só é possível através de algumas citações. O começo do romance ‘Uma Aprendizagem...’ (1969) é uma frase que vem do nada. A porta de entrada desse livro é uma vírgula: ‘, estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos...’.

Antes desse comentário doméstico e trivial, Lispector surpreendeu o leitor com uma advertência que é também uma afirmação de seu ser:

‘Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte que eu. C.L.’

E no final de ‘Água Viva’, ergue a voz: ‘Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto’.

Seu desmedido desafio à morte impregna muitas das crônicas reunidas em ‘Revelación del Mundo’, que incluem todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no ano que vem em espanhol sob o título de ‘Descubrimientos’.

Lispector continua sendo um enigma velado que assombra em cada frase, em cada desvio da vida. Morreu aos 57 anos de um câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão de sua casa do Leme, perto das areias de Copacabana.

Seu autorretrato cabe em uma frase: ‘Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa’.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A escritura do mestre

“Quem for fazer o ‘exercício’ de olhar o livro de Tanussi, acaba dando com isto e, se não tiver preguiça, acaba lendo; e, se ler, acaba divergindo; se divergir, tanto melhor, algumas coisas ficarão mais claras.” ‘Isto’, a que o texto se refere, é o prefácio do livro de poemas do carioca Tanussi Cardoso, Exercício do olhar, de 2006. O autor do prefácio é o goiano Gilberto Mendonça Teles, também poeta, crítico, ensaísta e professor de literatura.

A observação acaba expondo todo o espírito do seu próprio livro, Contramargem II: Estudos de Literatura (UGC/Kelps, 2009, 532 páginas), em que Teles reúne – junto ao texto citado – uma série de resenhas, prefácios discursos, homenagens, artigos e ensaios sobre tempos e autores distintos, como Camões, Cervantes, Eça de Queirós, Mário Quintana, Machado de Assis, Alberto da Costa e Silva, Lêdo Ivo, entre outros.

O melhor de Contramargem é justamente esse cruzamento de textos que apontam perspectivas e fomentam o debate em torno do cânone, da teoria literária e da produção atual. Sobre Álvares de Azevedo, por exemplo, Teles quer acreditar que o poeta romântico tinha uma alegria definidora de sua poesia, ou seja, que o pessimismo, a tristeza e a falta de esperança são elementos presentes, mas que não configuram sua obra. Esta característica negativista, portanto, ficaria à margem daquilo que de fato é a poesia de Azevedo.

Vale lembrar que Antônio Cândido, em A formação da literatura brasileira, de 1957, embora ponha na conta do autor de Lira dos 20 anos toda a pulsão de morte e pessimismo, também chama a atenção para o lado contente de Azevedo. Segundo Cândido, os poemas da série “Spleen e Charutos” dão esse tom, de “alegria saudável, graciosa, a dosagem exata do humor.” Mas em seguida argumenta que nada é mais forte que o poeta “entregue a si mesmo”, em cujos versos se encontram a melancolia e o desencanto.

O fato é que na obra de Azevedo a tônica dominante pouca importa. O equilíbrio se faz pela essência da poesia dele. Neste caso, em seus melhores poemas, junto com a prosa de Noites na Taverna, reúnem as duas características. É só conferir. Ao fazê-lo, o leitor estará realizando a intenção de Contramargem, que é ler, divergir e se esclarecer.

Contramargem II é quase a reedição do livro publicado em 2002, com o acréscimo de 15 textos escritos a partir de 2003, além de uma entrevista. Fica, portanto, entre um segundo volume e uma segunda edição encorpada. Aos 77 anos, Gilberto Mendonça Teles já conquistou seus méritos no Brasil e no exterior, de modo que não precisa comprovar, nem provar, nada a mais ninguém. Nesse sentido, Contramargem é um deleite, ao mesmo tempo em que é oferecido ao público como diálogo, espaço de debate e aula prazerosa.

No campo do verso, vemos uma definição do poético que pode ser levada para as leituras seguintes, dando-nos uma chave para a sondagem da própria poesia de Teles e de outros: “O poema provém de um ritmo que passa pelo mais íntimo do poeta, repercute no cosmo cultural e toca, em última instância, no Logos do Criador (Deus e Homem).”

Em outra passagem, o autor lembra que os jovens poetas de hoje parecem ter perdido essa capacidade de criar o ritmo poético sem perder de vista as iluminações da linguagem, dentro das quais está o “segredo retórico do poema”, e não na obscuridade das palavras.

Sobre autobiografias, gênero que voltou a ser objeto de interesse literário do público mais amplo, Teles dá outra aula: “A narrativa autobiográfica sofre os efeitos da pátina do tempo, e o que se conta como realidade recebe a sua dose de ficção, de maneira que a realidade empírica, ao se submeter à escrita, se transforma em realidade histórica e, noutra direção, se metamorfoseia na realidade literária.” (Leia o texto completo na Tribuna do Planalto)

O que é consciência negra?

“Um negro orgulhoso de sua identidade étnica é para eles uma afronta intolerável, e o negro desejar resgatar sua história e seus valores culturais, é puro racismo às avessas.” Desde que Abdias Nascimento, combatendo a falácia racista brasileira, fez esta observação, em 1982, na segunda edição de seu livro O negro revoltado, muitas palavras voaram no horizonte do debate racial.

A população negra hoje está mais consciente de sua força e de seu valor, mas o racismo, cínico e quase sempre silencioso, ainda corrói as relações interraciais no Brasil, como uma espécie de inimigo invisível, porque não é institucionalizado, como foi na África do Sul, nem declarado como nos Estados Unidos.

Se por um lado não aparece o conflito direto, que causaria maiores danos à sociedade de modo geral, por outro, a reparação de mais de 300 anos de exploração sobre o corpo, a alma, a força de trabalho e o destino do negro (escravidão) é mais lenta. E os danos que existem em função desse racismo que perdura há cinco séculos só recaem, todos, na conta do negro.

Para combater as injustiças e desigualdades raciais foi necessário criar o que se chama de consciência negra, fazendo surgir movimentos que demonstravam a importância da luta ideológica, da construção de heróis negros e instituição de datas comemorativas. Foi a partir daí que se criou no Brasil o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrada em 20 de novembro, dia da morte do mais representativo herói negro brasileiro, Zumbi dos Palmares, morto em 1695, após anos de resistência contra a escravidão.

Mas o que de fato caracteriza a consciência negra? Que elementos devem perpassar a consciência individual e a coletiva que confirmam essa nova postura? De acordo com o antropólogo e ativista negro, Alex Ratts, professor do Instituto de Estudos Sócio-Ambientais da Universidade Federal de Goiás, a consciência negra é o despertar do negro no reconhecimento de sua identidade étnica, sua origem e seus valores que o faz se autoafirmar positivamente e reagir contra manifestações racistas.

Segundo Ratts, a ideia de consciência negra, como os movimentos contemporâneos definem, nasceu nos anos de 1970, tanto na África do sul quanto no Brasil e nos Estados Unidos. O termo foi criado por Steve Biko, pensador sul-africano que foi assassinado pela polícia política do Apartheid, em 1977, por enfrentar o regime racista e mostrar o exato valor da origem e da cultura do povo nativo.

É claro que esta consciência sempre existiu em muitos líderes negros, brasileiros e norte-americanos, bem antes da entrada de Biko no cenário da luta contra o racismo. No Brasil, Abdias Nascimento vinha travando esse combate desde os anos de 1940, quando criou o Teatro Experimental do Negro (TEN), atitude que ele mesmo chamava de consciência antirracista.

Nos Estados Unidos, antes de dois baluartes da luta contra o racismo, Martin Luther King e Malcolm X, havia nomes como o de Marcus Garvey, precursor dos movimentos negros que modificaram as relações raciais naquele país.

Mas foi Biko o responsável pela tomada de consciência de milhares de pessoas que se tornariam os líderes dos movimentos negros a partir daquela década. Muitos de seus escritos podem ser encontrados no livro Escrevo o que eu quero, publicado no Brasil em 1990, mas que atualmente está com edição esgotada.

De acordo com Ratts, sob influência das ideias de Biko, autores brasileiros como Hamilton Cardoso, Neusa Santos Souza e Beatriz Nascimento começaram a falar em consciência negra. A partir daí, grupos inteiros foram formados com essa expressão. “Eu, por exemplo, fiz parte do grupo União e Consciência Negra, fundado em 1982 em torno da ideia segundo a qual a negritude não é dada, é uma consciência que precisa ser construída”, diz.

No bojo dessa diretriz clara de que a consciência negra precisava ser formada, toda uma literatura passou a ser lida em português e inglês, colocando a ideia de que ser negro não era só se identificar com a cor de sua pele. Segundo Ratts, isso era fundamental, sem dúvida. “A cor da pele estava presente como identidade também. Mas não era suficiente.”

A construção dessa consciência, individual e coletivamente, onde a população negra estivesse, fosse na África ou na diáspora africana (Brasil, Estados Unidos, Jamaica), tinha de passar pelo reconhecimento de outros elementos. Entre eles o político e o histórico, duas características fundamentais na resistência contra o racismo. “Saber como o poder, na esfera das instituições políticas e econômicas, sempre influenciou a situação do negro é uma questão que está no centro dessa consciência”, diz Ratts.

Muitas pessoas argumentam que o racismo não existe no Brasil citando justamente as conquistas que os negros tiveram só depois de sua organização em torno de movimentos que reivindicam mais atenção do Estado. Entre essas conquistas está a criação da Fundação Palmares, instituída em 1989, ano em que também foi sancionada a Lei Nº 7.716, a Lei Caó, que tipificou o racismo como crime inafiançável, sendo modificada pela Lei Nº 9.459, de 1997.

Em 2003, foi criada a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), dentro da qual outras ações foram realizadas, como o apoio aos movimentos quilombolas no país todo e a criação da Lei Nº 10.639/2003, que institui a obrigatoriedade do ensino de história da África e da população negra brasileira nas escolas de Ensino Fundamental, Médio e Superior.

Segundo Ratts, embora haja dificuldades na aplicação desta lei, ela obriga a ter uma visão refeita sobre a África e sobre o negro no Brasil. Em todo caso, não deixa de ser uma conquista que está diretamente ligada a essa tomada de consciência negra. Uma das primeiras características dessa nova postura foi notada ainda na década de 1970, quando vários negros começaram a buscar nas universidades um meio de combater as desigualdades raciais e a difundir os elementos da consciência negra.

A entrada do negro nas instituições de ensino superior, a partir dessa época, foi uma ação consciente e fundamental para a constituição de grupos e núcleos de estudos afrobrasileiros. O trabalho acadêmico de Ratts é justamente sobre a trajetória dos intelectuais negros brasileiros, tendo inclusive publicado um livro, Eu sou Atlântica, sobre Beatriz Nascimento, sergipana que morou no Rio de Janeiro, de onde desenvolveu diversos estudos acerca dos problemas raciais no Brasil.

De acordo com Ratts, vários nomes despontaram nessa época, no Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Bahia, Rio Grande do Sul, todos utilizando o espaço acadêmico como espaço de ativismo para recolocar a questão do racismo e da categoria raça. “Esses intelectuais produziram estudos muito importantes, que depois dessa fase ficaram meio esquecidos. Mas agora estão sendo reabilitados”, diz.

O grande diferencial desse grupo, no que diz respeito aos movimentos de consciência negra no Brasil, é que eles souberam construir um espaço privilegiado dentro das universidades. Até eles chegarem, a presença do negro nas instituições de ensino superior era de forma muito isolada, com pessoas que não se interessavam em lutar pelas causas do negro ou não sabiam como fazer.

“Quem conseguia entrar para a universidade, cursava direito, medicina ou engenharia e depois ia cuidar de sua vida. Eventualmente alguém escolhia a área de humanidades, alguns artistas surgiam, mas não era nada de envolvimento coletivo, ninguém mergulhava nas ciências sociais, antropologia, ciência política, pensando no combate à desigualdade racial, sistematicamente”, avalia Ratts.

Atualmente, quase todas as universidades federais e estaduais, e algumas privadas, possuem núcleos de estudos afrobrasileiros. Para se ter uma ideia de como isso avançou no país nos últimos anos, em 2004 havia 15 núcleos no Brasil. Hoje são 70 núcleos, de acordo com a contagem de Ratts, que coordena o Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Descendentes (NEAAD/UFG). “Mesmo assim, depois de todas as conquistas, o número de alunos e professores negros nas universidade brasileiras ainda é irrisório” diz.

O que não é irrisória é a maneira como essa consciência se alastrou para além dos movimentos negros, alcançando a população negra de modo geral. Segundo Ratts, há pessoas que nunca passaram numa reunião de um movimento, mas que têm essa consciência. “Hoje esse discurso está em toda parte, não da mesma maneira, claro, mas é abrangente.”

Ratts diz que seu trabalho na antropologia segue a linha segundo a qual a cultura circula. Nesse sentido, diz ele, pode ser encontrada uma expressão cultural negra aqui no Brasil, no Uruguai e nos Estados Unidos (Nova Orleans), como a lembrança do Rei do Congo, por exemplo, que aqui é celebrada nas festas das congadas.

Segundo ele, tudo isso é fruto dos movimentos de consciência negra que leva em conta o sentimento da diáspora, aglutinando os valores do negro em torno de sua origem em comum. Outro exemplo citado é a cidade de Catalão, onde é forte a festa das congadas. “Lá não há um movimento negro, não há grupos políticos organizados em torno dessa questão, mas as pessoas combatem o racismo, elas têm esse discurso do movimento negro, sem ter entidades que se autointitulem como tais.”

A consciência negra, portanto, passa pela consciência do corpo, de repensar a construção da figura corporal, pela estética, o despertar do gosto pela arte que trata dos valores negros, e das consciências políticas. Os negros conscientes de sua origem repensam a escravidão, o racismo contemporâneo e sabem como reagir a isso. Reação esta que não é só individual, é também coletiva.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente na Tribuna do Planalto, 15/11/2009)