domingo, 29 de março de 2009

CAMUS SEGUNDO SARTRE E BEAUVOIR

Jean-Paul Sartre (1905 - 1980) e Albert Camus (1913 - 1960)

O trecho dessa entrevista foi retirado do livro A cerimônia do adeus, que Simone de Beauvoir (1908 – 1985) escreveu em homenagem ao filósofo Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), seu companheiro de toda a vida.

O post é dedicado, principalmente, aos que começam a se interessar por esses nomes. O interessante desse trecho, além de lermos a opinião de Sartre sobre o escritor, ator e dramaturgo franco-argelino Albert Camus (1913 - 1960), é vermos as interferências de Beauvoir, ora abrandando a imagem de Camus, ora atacando-o fortemente, e a maneira como funcionam decisões editoriais.

Jean-Paul Sartre: Conheci Camus em 1943, e com ele estive na pré-estreia de As moscas, quando ele veio ter comigo: sou Camus.

Simone de Beauvoir: Sim, você escrevera um artigo crítico, mas muito caloroso, sobre O estrangeiro.

J-PS: Isso pressupunha, evidentemente, que atribuía importância a esse livro.

SB: Pode falar de suas relações com Camus? Seu início, sua continuação?

J-PS: Seu início, mas sua continuação, após a guerra, isso seria muito complicado... Tínhamos relações originais que, creio, não se encaixavam inteiramente com o gênero de relacionamento que ele desejava manter com as pessoas, da mesma maneira que nós não tínhamos com ele as relações que gostávamos de ter com as pessoas.

SB: Não no início; eu gostava muito do relacionamento que mantínhamos com Camus.

J-PS: Não no início; durante um ano ou dois tudo transcorreu bastante bem. Ele era engraçado, extremamente grosseiro, mas muitas vezes muito engraçado; estava muito engajado na resistência e depois dirigiu Combat. O que nos atraía nele era seu caráter argelino; tinha uma pronúncia que se assemelhava à pronúncia do Midi, tinha amizades espanholas que eram amizades cuja origem eram suas relações com os argelinos e os espanhóis...

SB: Sobretudo, nossas relações não eram afetadas, sérias, intelectuais: comíamos, bebíamos...

J-PS: De certa maneira, careciam de intimidade; ela estava presente na conversa, mas não era profunda; sentia-se que havia coisas que nos fariam entrar em choque, se as abordássemos, e não as abordávamos. Tínhamos muita simpatia por Camus, mas sabíamos que não se devia avançar muito.

SB: Era com ele que mais nos divertíamos, a convivência com ele era agradável, víamo-nos com muita freqüência, contávamo-nos quantidades de histórias.

J-PS: Sim, havia uma amizade verdadeira, mas uma amizade superficial. As pessoas pensavam agradar-nos chamando-nos, aos três, de existencialistas, e isso deixava Camus furioso. De fato, ele não tinha nada em comum com o existencialismo.

SB: Então, como evoluíram suas relações com ele? Ele tinha pensado em encenar Entre quatro paredes e representar o papel de Garcin, portanto, vocês estavam muito próximos em 1943.

J-PS: Em 1944, também; entrei para o seu grupo de resistência pouco antes da Libertação; encontrei pessoas que não conhecia, que se reuniam com Camus para considerar o que poderia fazer a resistência nesse último período da guerra; muitos deles foram presos na semana seguinte, notadamente uma moça, Jacqueline Bernard.

SB: Depois, Camus lhe pediu que fizesse uma reportagem sobre a libertação de Paris, e, também, foi em grande parte por Combat que você esteve na América.

J-PS: Foi Camus que me inscreveu como repórter na América para Combat.

SB: E quando foi que tudo isso começou a se deteriorar? Lembro-me da grande cena que ele fez com Merleau-Ponty.

J-PS: Sim, isso nos indispôs um pouco. Ele foi à casa de Boris Vian [jovem escritor francês, que morreu aos 39 anos, em 1959] uma noite, em 1946. Acabava de passar alguns dias com uma mulher encantadora que depois morreu, e, em consequência dessa história amorosa, dessa separação, estava muito fechado, lúgubre; cumprimentou todo mundo e de repente atacou Merleau-Ponty, que estava presente, a propósito de seu artigo sobre [o escritor húngaro Arthur] Koestler e o bolchevismo.

SB: Porque, naquele momento, Merleau-Ponty se inclinava bastante para o comunismo.

J-PS: O artigo incriminado tinha sido publicado em minha revista Les Temps Modernes, portanto eu estava contra Camus. Na ocasião, Camus não tinha, certamente, nada contra mim, mas não suportava Merleau-Ponty. Também não concordava com a tese de Koestler, mas estava enfurecido; tinha razões pessoais para ser favorável a Koestler.

SB: Aliás, ele tinha relações estranhas com você; dizia frequentemente que, quando o via, só sentia simpatia por você, mas que, de longe, havia em você uma porção de coisas que censurava; tinha feito uma viagem pela América, na qual se referira a você de uma maneira bastante desagradável.

J-PS: Sim, tinha uma atitude ambivalente.

SB: Não aceitou colaborar conosco na revista e creio que ficava muito irritado porque, sendo você mais conhecido e ele muito jovem [Camus tinha nessa época 33, 34 anos, enquanto Sartre já estava com 40 anos e era consagrado], tomavam-no mais ou menos como discípulo seu; Le era muito desconfiado, não gostava muito disso. E como foi que as coisas pioraram até haver a ruptura?

J-PS: Houve um episódio pessoal, que absolutamente não me indispôs com ele, mas que o incomodou muito.

SB: A história de uma mulher com a qual você tinha tido um caso?

J-PS: Isso foi um pouco constrangedor e, como essa mulher rompeu com ele por razões pessoais, ele também ficou com um pouco de raiva de mim; enfim, é uma história complicada. Ele próprio tivera um caso com Casarès, e brigara com ela. Rompera com ela e nos fizera confidências sobre essa ruptura; lembro-me de uma noite com ele num bar, na época íamos muito a bares, estava sozinho com ele e ele acabava de reconciliar-se com Casarès, e tinha cartas de Casarès na mão, velhas cartas que me mostrava dizendo: ‘Ah, isto! Quando as encontrei, quando pude revê-las...’ Mas a política nos separava.

SB: O que supunha uma certa intimidade no plano privado.

J-PS: Sim, ela sempre existiu, enquanto convivíamos mais de perto; até mesmo nossas diferenças políticas não nos incomodavam muito na conversa; por exemplo, ele estava com Casarès e foi vê-la ensaiar O diabo e o bom Deus, você se lembra?

SB: Sim, de fato. Quais eram essas diferenças políticas e como foi que isso acabou explodindo? Foi quando houve o R.D.R. [Reunião Democrática Revolucionária]?

J-PS: Não.

SB: E então, a briga definitiva?

J-PS: A briga definitiva foi quando ele publicou seu livro O homem revoltado. Procurei alguém que quisesse encarregar-se de fazer uma crítica em Les Temps Modernes, sem atacá-lo, e isso foi difícil. [Francis] Jeanson não estava lá, na ocasião, e entre os outros membros de Les Temps Modernes ninguém queria ocupar-se de falar a respeito, porque eu queria que houvesse uma certa discrição e todos detestavam o livro. De maneira que durante dois ou três meses Les Temps Modernes não falaram de O homem revoltado. Depois Jeanson voltou de viagem e me disse: ‘Eu quero fazê-lo.’ Aliás, a atitude de Jeanson era bastante complicada: ele procurava contatos com pessoas como Camus, para ver se poderia fundar, com ele, uma revista que seria a contrapartida de Les Temps Modernes, mas mais de esquerda, já que Les Temps Modernes era uma revista reformista enquanto que a outra revista seria revolucionária.

SB: Era estranho querer fazer isso com Camus, que nada tinha de revolucionário.

J-PS: Ele pedira isso a algumas pessoas; pedira a Camus, mas, evidentemente, isso não podia chegar a nada. Então, provavelmente para vingar-se de que Camus não tivesse querido trabalhar com ele, escreveu o artigo na linha que eu não desejava, isto é, violento, percuciente, e mostrando as falhas do livro, o que não era difícil.

SB: Ele mostrou sobretudo a pobreza filosófica do livro. Isso também não era difícil.

J-PS: Eu não estava presente, estava viajando, pela Itália, creio.

SB: De toda maneira, você não teria censurado um artigo de um colaborador.

J-PS: Não; mas Merleau-Ponty estava muito perturbado com esse artigo e achava – ele era o único responsável que estava em Paris – que não gostaria de que fosse publicado; queria que Jeanson mudasse de ideia, tiveram uma discussão violenta, e depois ele nada mais pôde fazer, a não ser deixar que o artigo fosse publicado, e o artigo foi publicado, mas em condições especiais: Jeanson concordara em mostrar seu artigo a Camus – foi a única restrição que aceitou – antes de que fosse publicado, perguntando-lhe se estava de acordo. Camus ficou furioso e redigiu um artigo onde me chamava: Senhor Diretor - que era cômico, porque não nos tuteávamos, mas nos falávamos bastante livremente, não havia Senhor entre nós. Então, fiz um artigo para responder às suas insinuações; Camus falava pouco de Jeanson em seu artigo, atribuía-me todas as ideias de Jeanson, como se tivesse sido eu que houvesse escrito seu artigo; respondi-lhe duramente e aí cessaram nossas relações; conservei simpatia por ele, embora sua política nada tivesse a ver comigo, entre outras coisas, sua atitude durante a guerra da Argélia.

SB: Isso foi depois. Ao mesmo tempo ele representava um papel, tornava-se importante, tornava-se muito diferente do jovem escritor muito alegre, muito agradável, a quem a glória subia um pouco à cabeça, mas de maneira ingênua. Bem. E então, Merleau-Ponty, Koestler, quais foram suas relações com eles?

3 comentários:

minha literatura agora disse...

Caro Gilberto,acabei de ler as Cartas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren(Um amor transatlântico) e fiquei surpreso,confesso.Sempre adorei Sartre-beauvoir,e essas cartas ainda acrescentaram mais dados aos à fascinante história do casal.Vou falar sore o livro no meu blog.Um abraço do James.

Luciana Feijó disse...

Oi, Gilberto!

Indiquei o seu blog para o prêmio dardos 2009, as instruções estão no meu último post!
Beijo

Gilberto G. Pereira disse...

James, obrigado! Deixei uma mensagem no seu blog também.
Abraço!

Luciana, obrigado pela indicação!
Um beijo!