sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

GEORG TRAKL: o poeta da noite

Trakl, marco essencial da poesia alemã do século XX, ao lado de Hölderlin

O poeta austríaco Georg Trakl foi uma grande influência da poesia na primeira metade do século XX. O que há de profundo e desconsertante em seus poemas são as metáforas e superposições de frases que lembram as montagens cinematográficas. Isso numa época que o cinema apenas engatinhava, um pouco antes, inclusive, de o cineasta russo Eisenstein escrever sua famosa teoria de montagem.

A maior parte da poesia de Trakl fala da noite, da escuridão e de toda sorte de imagens que se podem encontrar no espaço lúgubre das trevas, da meia luz, como o que acontece na madrugada silenciosa e fria de uma rua aparentemente deserta:

"A lua resplandece no quintal.
Das telhas caem sombras soberanas.
Janelas de silêncio glacial;
Afloram quietamente as ratazanas."


Eis um exemplo de clareza nas imagens, ficando por conta da montagem a narração e a dinâmica dos movimentos. O poema todo (traduzido por Marco Lucchesi) fala de certa noite enluarada, verão, calor e abafamento, em que os ratos surgem do fedor do esgoto, do ambiente putrefato da privada iluminada pela luz da lua, invadindo a casa.

Esses versos, por exemplo, são ilustrativos, fotográficos, videoclipe puro, cuja primeira tomada pega o alto do firmamento, depois desce para o telhado da casa, em seguida mostra as laterais, para fechar a estrofe com uma última frase retratando o chão de onde vêm à superfície os ratos, silenciosamente, como silenciosa é a noite, e certamente o era a vida do poeta.

Em outro poema, Romança à noite (tradução de Marco Lucchesi), a mesma frialdade, a inegável solidão:

"O solitário passa pela rua:
é meia-noite e brilha o firmamento.
Levanta-se o menino sonolento,
seu vulto pardo se desfaz co’a lua."


George Trakl nasceu em Salzburg, Áustria, no dia 3 de fevereiro de 1887. Filho da burguesia austríaca, ainda garoto vê sua família perder tudo o que tem, e ele então não consegue se firmar, pobre, no mundo burguês. Na escola, tinha dificuldade até de ir adiante. Foi reprovado nos exames finais do curso secundário e só entrou na universidade como ouvinte, onde estudou farmácia.

Usava drogas e bebia muito, desde moleque. Completamente desestruturado familiarmente, chegou a praticar incesto com sua irmã, Gretl, a única mulher que ele disse ter amado, e que acabou se suicidando, como também se suicidou Trakl, em 3 de novembro de 1914, na Cracóvia.

Nessa época, a Primeira Guerra Mundial já estava em curso, e ele era soldado-farmacêutico, encarregado de assistir feridos e mutilados de guerra, sem nenhum recurso disponível. Um de seus últimos poemas, Lamento (tradução de Claudia Cavalcanti), reflete seu estado de espírito, poema em que ele sintetiza sua angústia em meio a mortos, feridos e seu amor incestuoso:

"Sono e morte, as tenebrosas águias
Rodeiam a noite inteira essa cabeça:
A imagem dourada do Homem
Engolida pela onda fria
Da eternidade. Em medonhos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz escura lamenta
Sobre o mar.
Irmã de tempestuosa melancolia
Vê, um barco aflito afunda
Sob estrelas,
Sob o rosto calado da noite."


Trakl, que também escreveu peças de teatro, morreu. Mas sua poesia, que fora publicada em vida apenas em suplementos literários e numa pequena edição de 1913, não morria ali. Pelo contrário, tomou fôlego depois da década de 1940. Antes disso, porém, Heidegger (1913) já colocava Trakl ao lado de Holderlin, como marcos essenciais da poesia alemã do século XX. E em 1915, o não menos brilhante Rainer Maria Rilke também sentia a força e a complexidade dos versos traklianos.

Se por um lado, a poesia de Trakl é complexa, forçando leitor a ler e reler, por outro, sua musicalidade, o ritmo que nela contém, nos envolve de tal maneira que é quase impossível não se buscar sentido no que ela diz.

"Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede."


Neste poema, tudo caminha rumo à escuridão, ao ocaso. Na imersão no abismo da noite há sempre uma esperança, a escuridão sempre se ameniza com a luz da lua, como se a força da vida que ainda resta entre o gelo da existência conseguisse pescar um fiapo de calor para um tênue aquecimento. O que no fim das contas não é o suficiente para aplacar a solidão e a morte.

No poema supracitado, Calma e silêncio, o poeta cria imagens complexas, como “vôo negro dos pássaros”, “o silêncio próximo pensa no esquecido”, e “anjos apagados”.

A célebre frase do lingüista Noam Chomsky, “colorless green ideas sleep furiously” (idéias verdes sem cores dormem furiosamente), lembra esse tipo de composição simbolista. A poesia trakliana está cheia dessas armadilhas sinestésicas, com frases que só podem ser compreendidas nos planos simbólico e metafórico, uma vez que entre os seus componentes não há uma coerência sintática.

Georg Trakl é mesmo um poeta da noite. Sua poesia é uma alimentadora de tormentas, de tempestades da alma. Mas, ao mesmo tempo que a solidão e o abismo estão ali, presentes, há também um clarão, um resplandecer, tal como um relâmpago, a vigiar, debalde, o desfile dos versos rumo à escuridão e ao silêncio.

A poesia tem dessas coisas. Aliás, a arte tem dessas coisas, nos trazendo o belo no sofrimento dos outros. Em todo caso, é uma beleza dada, e não roubada. Belezas metafóricas como no poema a seguir:

A tempestade
(tradução de Modesto Carone Netto)

"Vós, montanhas selvagens, das águias
Sublime luto. Nuvens douradas
Fumegam sobre pétreo ermo.
Paciente quietude respiram os pinheiros,
As negras ovelhas junto ao abismo,
Onde súbito o azul
Estranhamente emudece,
O brando zumbido dos zangões.
Ó flor verde
Ó silêncio.

Como em sonho estremecem da torrente selvagem
Escuros espíritos o coração,
Trevas,
Que sobre as gargantas irrompem!
Brancas vozes
Errantes pelos átrios lúgubres,
Terraços destroçados,
Dos pais poderoso rancor, o lamento
Das mães,
Do menino o áureo grito de guerra
E o não-nascido
Gemendo de olhos cegos.

Ó dor, flamejante visão
Da grande alma!
Já estremece na negra confusão
De corcéis e carruagens
Um raio róseo pavoroso
No pinheiro ressoante.
Frescor magnético
Envolve esta cabeça orgulhosa,
Incandescente melancolia
De um deus irado.

Medo, tu ó serpente venenosa,
Negra, morra nas pedras!
Precipitam-se das lágrimas
As correntezas bravias,
Tempestade-misericórdia,
Ecoam em trovões ameaçadores
Os nevados cumes em volta.
Fogo
Purifica noite destroçada.
"

Segundo Carone Netto, e seu livro Metáfora e montagem, citando um dos estudiosos de Trakl, Clemens Heselhaus, este poema é uma metáfora do estado de ânimo ou da paixão da alma. Os elementos da natureza aqui ‘“são signos de realidades psíquicas e espirituais’”.

Já em De Profundis, poema de 1912 (tradução de Claudia Cavalcanti), o poeta parece ter mesmo se encontrado com a morte. Ou pelo menos, a turbulência de seu ser avançou a noite, embora de novo, apareça o clarão da vida, o prenúncio de um amanhecer:

"Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom, ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terna órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos."


E por fim, um belo poema que revela a montagem em seu esplendor, a intercalação de “dentro” e “fora”, “longe” e “perto”, uma dança de figuras plásticas em versos razoavelmente otimistas.

A bela cidade
(tradução de Modesto Carone Netto)

"Velhas praças silenciam ensolaradas.
Profundamente enredadas em azul e ouro
Suaves freiras sonhadoramente se apressam
Sob o silêncio de faias sufocantes.

Das igrejas pardamente iluminadas
Olham as puras imagens da morte,
Belos brasões de grandes príncipes.
Coroas cintilam nas igrejas.

Corcéis emergem da fonte.
Garras de botões ameaçam das árvores.
Meninos, confusos de sonhos, brincam
Silenciosos, ao anoitecer, junto à fonte.

Moças estão em pé junto aos portões,
Olham tímidas para a vida colorida.
Seus lábios úmidos tremem
E elas aguardam junto aos portões.

Sons de sino esvoaçam trêmulos,
Ressoam o compasso de marcha e os brados da guarda.
Estranhos escutam sobre os degraus.
Altos no azul há sons de órgão.

Claros instrumentos cantam.
Pela moldura de folhas dos jardins
Vibra o riso de belas senhoras.
Jovens mães cantam baixinho.

Furtivamente bafeja junto às janelas floridas
Perfume de incenso, alcatrão e lilás.
Argênteas tremem pálpebras cansadas
Através das flores junto às janelas."


Bibliografia:

Metáfora e montagem, de Modesto Carone Netto
De profundis, de Georg Trakl (tradução de Claudia Cavalcanti)
Poemas à noite – seleção de poemas de Georg Trakl e Rainer Maria Rilke (tradução de Marco Lucchesi)

2 comentários:

Istmo do Sol disse...

Parabéns pelo blog. Neste tópico, seria bom apenas rever as menções a Holderlin como poeta do século XX. Heidegger interpretou um poema de Trakl - em A Caminho da Linguagem.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado pelo comentário, Istmo! Vou procurar ler o livro de Heidegger, A caminho da Linguagem. É uma boa sugestão. E procurar ler mais sobre Holderlin, na verdade, mais sobre a poesia alemã como um todo. Valeu!