domingo, 19 de abril de 2009

BIOGRAFIA MÍNIMA: Nietzsche e o pôr-do-sol ao meio-dia

“Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo – de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, requerido. Eu não sou um homem, sou dinamite.”
Nietzsche, em Ecce Homo

Deus morreu. Assinado: Nietzsche.
Nietzsche morreu. Assinado: Deus.
Estampa frente e verso de camiseta

Nietzsche, em cujo pensamento há "a vontade da interminável aventura do pensar"

Nenhum homem, por mais autoconsciente que seja, é capaz de viver toda sua vida sem direcionar o espírito a alguma coisa. O espírito é como as raízes. É ele que mantém o corpo equilibrado. Nenhum homem está isento disso, nem mesmo Nietzsche.

O espírito é sempre direcionado a uma ideia de força capaz de salvá-lo do caos, da inexplicabilidade da existência, do absurdo da vida. Todo homem elege um deus: seja o Todo Poderoso, a Natureza, a Razão, Totens, a própria humanidade (Humanismo). Nietzsche não fez nada disso.

Elegeu a si mesmo como força absoluta (“um deus dança dentro de mim”). E se deu mal. “Do mesmo modo como os filósofos sistemáticos generalizaram seus próprios conceitos em leis universais, Nietzsche generaliza sua alma em uma alma universal”, diz Lou Andreas-Salomé, com muita propriedade, no livro Nietzsche em suas obras.

Ele morreu aos 54 anos, em 1900, depois de passar uma década completamente alienado, em função de um colapso mental irreversível, agindo como se fosse o próprio deus do êxtase e do entusiasmo, Dioniso. Sua vida produtiva, excetuando aqui as elaborações da adolescência, foi dos 27 (quando escreveu O nascimento da tragédia) aos 44 anos.

Estava em pleno vigor mental, quando sua doença, caracterizada por fortes dores de cabeça, tirou suas forças. Perdeu o tino com o sol a pino, no meio-dia da vida.

Seu pai, Karl Ludwig, morreu (aos 36 anos) quando ele tinha 5 anos de idade, com causa mortis diagnosticada apenas como ‘amolecimento do cérebro’. Nietzsche achava que esse seria o seu destino. E foi. Além disso, em 1850, seu irmão Ludwig Joseph, de dois anos, também morreu, quando Nietzsche tinha apenas seis.

Para alguém que disse “absurdamente cedo, aos sete anos, já sabia que nenhuma palavra humana jamais me alcançaria” deve ter sido impactante, pela sensibilidade profunda envolvida, absorver essas mortes na alma e ter de seguir a vida, dizer sim a ela.

Pântanos e montanhas do saber

O biógrafo Rüdiger Safranski, que escreveu Nietzsche – biografia de uma tragédia, diz que o autor de Humano, demasiado humano foi um laboratório do pensamento, que “não cessou de interpretar a si mesmo.”

Não é difícil imaginarmos essa inteligência profunda absorvendo todo o saber do mundo, da Grécia antiga a toda a cultura francesa, passando pela sabedoria oriental, incluindo o pensamento religioso, e depois tendo de dar conta disso segundo sua própria verdade, segundo uma interpretação nova.

O pai de Nietzsche era pastor protestante, e sua família esperava que o filósofo seguisse o mesmo caminho. Havia um contraste no espírito do menino Nietzsche, uma incrível tendência em obedecer cegamente às regras burguesas, protestantes, dentro das quais foi educado, e uma revolta contra tudo isso.

Chamado de Fritz quando garoto, entre os seis e sete anos também era conhecido como “o pastorzinho” pelos colegas, porque já sabia “recitar trechos da Bíblia e cantos religiosos” na escola, conforme comenta Safranski.

Um exemplo dessa tendência de seguir as regras é relatado por sua irmã, Elizabeth Nietzsche, publicado no livro de Safranski:

Uma vez, bem na hora de terminarem as aulas, caiu uma tromba d’água fortíssima; olhávamos pela Pristergasse procurando nosso Fritz. Todos os meninos corriam para casa como um bando de selvagens; finalmente aparece também o pequeno Fritz, boné escondido debaixo da lousa, seu lencinho por cima (...). Como nossa mãe o repreendesse por ter chegado totalmente molhado, ele disse bem sério: ‘Mas, mãe, as regras do colégio dizem: Ao sair da escola os meninos não devem saltar nem correr, mas ir para casa calmos e comportados.’

É claro que ao crescer, Nietzsche impõe ao seu espírito outras normas, mais grandiosas, em que o que não falta são voos e corridas largas, alcançado os espaços mais longínquos da mente.

Sua filosofia, para filósofos ou não filósofos, é impossível de ser estudada segundo critérios metodológicos convencionais, como o de observar temas, teses e objetos de discussão retilineamente.

Como fazer isso em Aurora ou Humano, demasiado humano, cujo pensamento é apresentado em pequenos blocos de aforismos, cheio de relevos e temas variados? O que parece ser fácil de entender acaba sendo o mais difícil. O que dizer de Assim falou Zaratustra? Como entender um pensamento que, em vez da clareza, procura a obscuridade, que, junto da retórica formal, usa também a gramática da música e da poesia?

Em certa parte de Zaratustra, quando este desce das montanhas após dez anos de solidão e contemplação para alcançar a sabedoria, ele começa a pregar suas verdades, mas ninguém dá a mínima para o que diz.

Zaratustra então lamenta não ser boca para aqueles ouvidos e pergunta: “Acreditarão somente nos que gaguejam?”

É uma referência a Moisés, que era gago, e de quebra à Bíblia, ao Cristianismo e seus princípios morais (já havia anunciado a morte de Deus, em A gaia ciência, e ratificado em Zaratustra). Eis apenas um átomo introdutório. Ainda assim, como sabê-lo, se não por meio de uma erudição exigente!

Nietzsche sabia que seu modo de pensar e ver o mundo tinha de ser relativizado e que cada um deveria seguir seu caminho, que cada um deveria saber que tipo de verdade era capaz de suportar.

No final de seu livro, Safranski diz: “Com o pensamento de Nietzsche não chegamos a parte alguma, não há resultante, não há resultado. Nele existe apenas a vontade da interminável aventura do pensar.”

É mesmo uma aventura, dentro da qual é muito fácil se perder. Mas a filosofia de Nietzsche ecoa na contemporaneidade em variados matizes, como em Heidegger, Sartre, Camus e em tudo quanto é pensamento ateu, para o bem e para mal. Em Assim falou Zaratustra, o subtítulo é “um livro para todos e para ninguém”. Isso deve dizer alguma coisa. O pensamento deve ser livre. Muitos leem Nietzsche apenas como literatura, como poesia, e da mais profícua.

Eis o homem!

No fim de sua fase lúcida, o filósofo alemão escreveu Ecce homo, livro de uma beleza estranhíssima, porque revela a fronteira entre razão e loucura, em meio à extrema inteligência do autor.

Em Ecce homo, Nietzsche diz coisas que soam engraçadas, e coloca títulos hilários nos capítulos, porque são verdadeiros, mas também pretensiosos, arrogantes, cheios de marra. Os textos desses capítulos revelam muito de seu modo de pensar.

Em um capítulo lemos o título, ‘Por que sou tão sábio’; em outro, ‘Por que sou tão inteligente’; depois, ‘Por que escrevo tão bons livros’; e após resenhar suas próprias obras, no final, escreve: ‘Por que sou um destino’.

Sobre isso, vale a pena nos determos num trecho do posfácio de Ecce Homo, escrito por Paulo César de Souza, tradutor deste e de vários outros livros de Nietzsche.

Em 1908, numa das reuniões semanais da pequena Sociedade psicanalista de Viena, na casa do dr. Sigmund Freud, o tema proposto para a discussão foi Ecce Homo. Durante a reunião – que tratou sobretudo do ‘caso’ Nietzsche, não de suas ideias – Freud fez três observações de interesse. Disse que o livro não podia ser desconsiderado como produto de insânia, porque nele se preservava o domínio da forma. Disse que ninguém havia antes alcançado, e dificilmente alguém tornaria a alcançar, o grau de introspecção alcançado por Nietzsche. E disse que nunca havia estudado Nietzsche, devido à semelhança entre as percepções do filósofo e as investigações da psicanálise (evitava-o para preservar a independência de espírito), e devido à riqueza de ideias daquelas obras, que o impedia de ler mais que metade de uma página (!).

Esta última afirmação deve interessar aos estudiosos da relação entre Freud e Nietzsche. As duas primeiras interessam ao leitor de Ecce Homo.

A profundidade da introspecção é algo que nos assombra já nas primeiras páginas. Suas análises da doença, do ressentimento, das relações entre as instâncias da psique, são de um grande psicólogo – algo de que ele se gabava. Por isso seus intérpretes mais certeiros foram aqueles que demonstraram compreensão e simpatia pelo modo de abordagem da psicanálise, e a isto se deve também sua incompreensão pela filosofia acadêmica: professores de filosofia raramente são bons psicólogos.

Quanto à loucura, ela se manifestaria nos ‘excessos’: na desinibição e na imodéstia sem freios, observadas já nos títulos dos capítulos. O tom exaltado se explica, em parte, pelas circunstâncias em que o livro foi escrito, e pelas intenções do autor.


Outros conflitos da alma

Nietzsche morreu solteiro, nunca teve envolvimento amoroso com nenhuma mulher, a não ser o caso nebuloso com Lou Andreas-Salomé, à qual chegou a pedir em casamento duas vezes e por duas vezes foi rejeitado, após ter recebido um ‘não’ também de outra mulher, chamada Mathilde Trampedach, seis anos antes.

Além disso, existe um livro apócrifo intitulado Minha irmã e eu, em que o filósofo de A genealogia da moral supostamente relata seu caso incestuoso com a irmã Elizabeth, entre outros conflitos da relação familiar.

Mas aí já tangencia a esfera da literatura, em que ele inspira a criação alheia, como o livro de Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche chorou, ou, para a uma referência mais estética, Doutor Fausto, romance de Thomas Mann, cujo protagonista Adrian Leverkühn foi baseado em Nietzsche e no compositor erudito Arnold Schoenberg.

Biografia mínima

Para situarmos o nosso filósofo no tempo e no espaço, segue abaixo um resumo feito por Lou Andreas-Salomé, no livro Nietzsche em suas obras.

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, único filho de um pastor, em Röcken, perto de Lützen, de onde mais tarde seu pai foi transferido para Naumburg. Recebeu sua instrução escolar na vizinha Escola de Pforta e foi então, como estudante de filologia clássica, para a Universidade de Bonn, onde na época era professor o afamado Ritschl.

Estudou quase exclusivamente com Ritschl e com ele também teve um relacionamento pessoal intenso, seguindo-o no outono de 1865 para Leipzig. Em seu período de estudos em Leipzig ocorreu o primeiro contato pessoal com Wagner, que veio a conhecer na casa da irmã deste, a esposa do professor Brockhauss, depois de já se ter familiarizado previamente com suas obras.

Antes ainda de sua licenciatura, em 1869, a Universidade de Basileia convidou Nietzsche, com 24 anos, para a cátedra do filósofo Kiessling, que de lá partiu para o Johanneum em Hamburgo. Nietzsche recebeu primeiro o cargo de professor adjunto, mas logo depois o de titular de filologia clássica, e a Universidade de Leipzig conferiu-lhe o doutorado sem a prévia licenciatura.

Junto ao corpo docente universitário, Nietzsche assumiu o curso de grego na terceira (e mais elevada) série da Paedagogium de Basileia – um instituto intermediário entre o secundário e a universidade –, onde ensinavam outros professores universitários, como o historiador da cultura Jacob Burckhardt e o filólogo Mähly.

Nietzsche conquistou aí grande influência sobre seus alunos; seu raro talento de cativar jovens espíritos e de agir sobre eles, desenvolvendo-os e estimulando-os, desabrochou totalmente. Burckhardt pertencia ao círculo de amigos mais íntimos de Nietzsche, que contava ainda com o historiador eclesiástico Franz Overbeck e com o filósofo kantiano Heinrich Romundt.

Com os dois últimos Nietzsche morou em uma casa que, após a publicação de Considerações extemporâneas, recebeu na sociedade de Basileia o cognome de Gifthütte (choça venenosa). Ao fim de sua permanência em Basileia, Nietzsche viveu por algum tempo com sua única irmã, Elisabeth, que mais tarde se casou com Berhard Förster, amigo de juventude do irmão, indo o casal para o Paraguai.

Em 1870, Nietzsche participa da guerra franco-prussiana como enfermeiro voluntário; não muito tempo depois aparecem os primeiros sintomas ameaçadores de uma doença encefálica, que se manifesta em dores e náuseas violentas e periodicamente recorrentes.

Se dermos crédito às próprias declarações verbais de Nietzsche, esse mal seria de origem hereditária, e seu pai teria sucumbido a ele. No ano de 1876 já se sentia tão doente da cabeça e dos olhos que teve de se fazer substituir no Paedagogium, e a partir de então seu estado piorou de tal modo que várias vezes esteve perto da morte.


O ocaso

Quando Lou Salomé publicou seu livro, em 1894, Nietzsche já estava enfermo. Mas antes ele acompanhava de perto o trabalho da autora, e sabia do livro que ela estava escrevendo sobre ele. Os dois mantiveram uma intensa relação intelectual.

A nota biográfica de Lou Salomé esboça a história de Nietzsche só até antes de os dois se conhecerem. Depois disso, ele ainda sofreria muito com as dores de cabeça, até o colapso mental irreversível, em 1889, que o levaria a um estado vegetativo e à morte, em 1900.

Com o juízo comprometido pela enfermidade, em 1889, Nietzsche realizaria suas últimas façanhas, como a de dançar nu no quarto da pensão onde se hospedava, em Turim, na Itália, e abraçar, aos prontos, um cavalo na rua, que era chicoteado pelo dono.

Ao sentir que seu amigo precisava de ajuda, Jacob Burckhardt pediu a outro amigo em comum, Franz Overbeck, que fosse buscar Nietzsche em Turim. Em carta, Overbeck relata a forte impressão do que viu:

Enxerguei Nietzsche em um canto do sofá ... com aparência bastante arruinada; correu até mim e me abraçou fortemente ao me reconhecer.” (...) “Esse incomparável mestre da expressão não conseguiu nem expressar mesmo os arroubos de sua alegria, a não ser com as expressões mais triviais, ou dançando e saltitando ridiculamente.” Depois, “rompeu em lágrimas; então afundou no sofá em convulsões, e o choque também não me permitiu permanecer em pé.

2 comentários:

james p. disse...

Belo post,Giba.estou coincidentemente relendo'Além do bem e do mal'.Que inteligência e que erudição!Acho que realmente,poucos pagaram um preço tão alto pelo gênio,como disse dele Will Durant.Foucault e Barthes(que eu adoro) amavam Nietzche.
Grande abraço e boa semana.
p.s.-Você está usando Twitter?O que você acha?modismo ou necessidade?

Gilberto G. Pereira disse...

James, obrigado! É verdade, Foucault deve muito a Nietzsche, principalmente na corrente filosófica que ele, Foucault, seguiu, chamada de Arquegenealogia do saber, e foi assim que ele escreveu suas princiapis obras, né. Enfim, todo mundo bebeu em Nietzsche, de certa forma, né, já que a filosofia dele é um samba do criolo doido (rs).
Quanto ao twitter, eu até criei um, mas não gostei do meio. Acho que twitter é pra poeta, que sabe condensar as palavras sem perder o significado delas. Não sei se você tem twitter, mas penso que nós prosadores nos encaixamos bem no formato do blog.
Se o twitter for adiante, com a proposta que ele propaga, a memória corre perigo. Não sei com que tipo de pensamento sobreviveremos. Mas digo isso já assumindo o ficar-para-trás de meus 34 anos. Digo de mim. Tem gente de 60 anos superplugado nos novos meios.
Vamos ver no que vai dar. O twitter para mim, por enquanto, tem uma utilidade muito pequena, em termos de comunicação. Há tantos formatos que nem sei quais deles sobreviverão.
Grande abraço, James!