sexta-feira, 10 de abril de 2009

AS VOZES DE HILDA

Hilda "Quando era jovem, e vivia cercada de homens bem-sucedidos,
ninguém levava a sério o que escrevia, porque textos tão densos não
podiam vir de uma mulher tão desejada; e deviam ser tomados como
uma brincadeira inofensiva, ou uma fraude." (Inventário das sombas)

Hilda Hilst (1930 – 2004) foi uma grande escritora que viveu bom tempo refém da própria beleza, que escamoteava sua literatura. Para muitos críticos, durante muito tempo, ela era apenas o rostinho lindo que escrevia umas coisinhas.

Sua obra, com mais de 40 livros, entre poesia, contos, romances e teatro, vem sendo republicada pela Editora Globo desde 2001. Mas não parece ser o bastante. Continua obnubilada.

Hilda sofreu preconceitos por ter sido bela, mas o olhar de cigana dissimulada dos críticos à obra dela também se deve a outro comportamento. Ela ouvia vozes do além, e acreditava piamente em suas alucinações auditivas.

Essa história é bem conhecida, inclusive, contada no livro de José Castello, Inventário das sombras, de 1999. A escritora montou em sua casa “um equipamento de radiofonia destinado a captar, através das ondas de rádio, mensagens emitidas por extraterrestres e falecidos, experiência que se iniciou ainda nos anos 70, inspirada nos experimentos do músico suíço Friedrich Jungersson.”

Hilda chegou a gravar alguns trechos dessa paranormalidade. E mais. O caso foi parar no Fantástico do dia 18 de março de 1979.

Navegando pelos registros de vídeo da Globo.com, cujo acesso, em sua maioria, é gratuito, encontrei o vídeo (veja), que a Globo deve ter usado na comemoração dos 30 anos do Fantástico. Não sei até quando vai ficar disponível.

Em certa passagem dos dez minutos de reportagem, Hilda diz o seguinte:

“Era mais ou menos 11 horas da noite, estava tocando uma música e de repente aparece o meu nome nessa fita. A cantora, em vez de dizer o que teria eventualmente de dizer, diz: ‘Hilda, tu es après du mois.’ [Hilda,você está perto de mim]”

Ela acreditava que tinha gravado a voz da própria mãe, já falecida. A razão de a voz surgir em francês, e não em português, nem sei eu.

Na reportagem, um psicólogo disse que se trata de um fenômeno psíquico, em que Hilda grava a própria voz, sem perceber.

OBS: Quando tentei linkar diretamente o vídeo, a janela do post se multiplicou rapidamente em mais de 50 vezes. Desliguei o computador imediatamente e desisti. Não acredito em bruxas, mas elas devem existir.

4 comentários:

james p. disse...

Caro Giba,gosto muito da Hilda Hilst.E a relação dela com o Caio Fernando Abreu é muito interessante.O Caio escreveu carlas belíssimas para ela(Estão no livro Cartas de Caio Fernando Abreu da editora Aeroplano-uma leitura imperdível).Foi no sítio de Hilda perto de Campinas que Caio se escondeceu no final dos anos 60,escondendo-se do Dops.Assim vão se formando esses círculos concêntricos da literatura.
Abração.amigo.

Gilberto G. Pereira disse...

James, demorei para acessar meu próprio blog. Estive sem conexão.
Eu também gosto de Hilda, na veradde de seus poemas. A prosa ainda não tive oportunidade de ler, só As Bufólicas, hilários textos eróticos.
O sítio dela perto de Campinas era chamado de Casa do Sol, né, já com a proposta de ser um lugar propíco à recepção de extraterrestres, né, à lá Friedrich Jungersson.
Abç!

Luciana Feijó disse...

Quando li a primeira vez, fiquei em estado de choque, era muito nova, mas hoje reconheço esse grande talento brasileiríssimo!

Gilberto G. Pereira disse...

É mesmo um escândalo, Luciana, num bom sentido, como toda a literatura deve ser. O escândalo vale como um estranhamento. É claro que Bataille e Machado de Assis, por exemplo, não têm muito a ver um com o outro, mas ambos também nos causam escândalo, de certa forma, como a Hilda, de outra maneira.
Obrigado pelo comentário.