segunda-feira, 11 de agosto de 2008

CONTOS ERÓTICOS: a literatura se despe aos poucos


O grande contista mineiro, Luiz Vilela, lançou agora em 2008 um extraordinário livro de contos eróticos. O autor sempre trabalhou a temática do erotismo em sua obra, mas em Contos Eróticos (Editora Leitura, 143 p., compre aqui) concentram-se 20 histórias de puro deleite, elogiando Eros.

Na literatura, a forma de narrar ou expor um conteúdo também se coloca como erotismo. O texto literário é uma insinuação, cujo corpo se apresenta na obliqüidade e na ambigüidade. E neste caso, por se tratar de contos eróticos, eles vêm como strippers.

A maestria de Vilela em contar um conto, já conhecida de todos, autor premiado, está presente neste segmento, que é visto sempre de esguelha, justamente por ser difícil tratá-lo sem cair na vulgaridade.

Mas aqui, o que se vê é uma literatura de fino trato, cuja prosa se revela aos poucos, se insinuando, até que se mostra por completo, pondo-se nua diante do leitor, sem ser explícita, sem ser vulgar, repito. No despir do texto, há sempre uma surpresa, um espanto.

Os contos desnudam vários aspectos da sexualidade, como o desejo, o íntimo da personagem numa sondagem libidinosa. Às vezes, a narrativa revela situações de sensualidade. Às vezes, é o diálogo que cria uma tensão voluptuosa.

Chamo a atenção para duas variações e uma fixação. A ambientação dos contos varia, situando-se em escolas (a maioria deles), seio familiar, bar, igreja, entre outros espaços. Essas explorações trazem à tona justamente os lugares usuais de onde os desejos são despertados.

Outra variação é a da temática: o homoerotismo, feminino e masculino, a puberdade, o desejo reprimido, a brutalidade do desejo, a morte, o voyeurismo e os delicados desvios de conduta, como a zoofilia erótica, praticada por adolescentes masculinos em sua iniciação sexual, comportamento típico dos garotos da zona rural (tema tratado em apenas um conto, que prima pela comicidade do desfecho).

Já a fixação é absolutamente certeira do ponto de vista conceitual. Trata-se da presença da criança e do adolescente na maioria dos contos.

É bom lembrar que o autor não explora a pornografia, nem advoga pela pedofilia. O fato é que o despertar do desejo, a curiosidade – a introdução à sexualidade – está nessa fase da vida, o que, muitas vezes, desperta o desejo em si e nos outros, tanto no que diz respeito aos desvios quanto no tocante ao processo de amadurecimento.

O erotismo provoca o desejo, trabalha o desejo, evoca o desejo. A palavra vem de Eros, o deus do amor, um deus-menino que traz em sua aljava um turbilhão de flechas que ele usa em suas peraltices para acertar mortais e fazê-los sofrer a febre do amor.

O conceito do amor em Eros é marcado pela irresponsabilidade e também pela jovialidade, pela imaturidade, portanto. É onde o desejo pulula e a sensualidade está sempre à flor da pele.

Em Contos Eróticos, Luiz Vilela soube trabalhar bem tanto as sensações táteis do desejo quanto suas insinuações, o desejo reprimido pelas convenções sociais, que, diga-se de passagem, são necessárias, para que não mergulhemos, nem afoguemos os outros, na animalidade egoísta do sexo absoluto.

Trechos:

Triste

“Aconteceu num segundo: ela debruçou-se sobre a carteira, ele olhou para trás – e então passou a mão nos seios dela, que recuou bruscamente, gritando ‘descarado! descarado!’

Não sabia direito o que acontecera depois; sentira o rosto pegando fogo, como no dia em que bebera escondido a pinga do avô, tudo foi ficando cinzento e sumindo: a voz de Dona Yara sumiu, a carteira sumiu, a classe sumiu.”


...

A moça

“Desceu o zíper atrás, puxou as mangas do vestido e observou-o deslizar suavemente por sobre os seios; depois acabou de empurrá-lo até o chão. Observou-se ainda um instante, as tetas aparecendo fora do minúsculo soutien. Tirou-o, e o seios ficaram livres e soltos, em toda a sua exuberância e beleza. Com mais um gesto, ela acabou de ficar nua.

E então, no espelho, naquele corpo de mulher, jovem e belo, duas mãos pousaram sobre os seios, envolvendo-os acariciantes – mas não eram as suas mãos, eram as mãos de outra mulher, mãos macias e quentes e que sabiam acariciar como nenhumas outras. E agora desciam pelas suas ancas, rodeavam as coxas e iam lentamente subindo até a carne ardente e úmida. E já não eram somente as mãos, era também a boca maravilhosa, que percorria todo o seu corpo numa alucinante viagem.

O marido saiu do banheiro. Ela estava de penhoar, debruçada à janela, olhando a cidade iluminada, e então voltou-se:

― Bem, eu estive pensando ... Vamos ficar no Rio mesmo.”

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Título: Contos eróticos
Autor: Luiz Vilela
Editora: Leitura
Preço: R$ 24,90 (compre)

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5 comentários:

superlativa disse...

achei que você estava em algum país na áfrica

Gilberto G. Pereira disse...

Você sempre enigmática, nénão, Laura (rs).

superlativa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
superlativa disse...

nada disso, pensei que tinha sumido. e a literatura pornográfica do kafka, já encomendou? beijos

Gilberto G. Pereira disse...

Eu li no caderno Mais sobre a coleção de revistas de safadeza dele (rs). Bem que eu reparava algumas insinuações salaud em O Processo (rs).