terça-feira, 14 de abril de 2009

MEDEIA: um arquétipo da condição humana

“No tema do conflito entre razão e paixão, dificilmente encontraríamos um poeta grego mais representativo que Eurípedes.”
Sergio Paulo Rouanet

“Sei que crimes vou cometer, mas a cólera é mais forte que minha vontade.”
Medeia

“O coração tem razões que a própria razão desconhece.”
Blaise Pascal

Foto: Daniel Sorrentino / Divulgação
O coro em desespero: cena de Medeia na Fringe do Festival de Teatro de Curitiba 2009

Uma vez, o ator, diretor, homem culto e provocador Antonio Abujamra disse que aceitou dar aulas a uma turma de pós-graduação de certa universidade conhecida. Acho que era a PUC. Na primeira aula, ele quis estabelecer um diálogo com os alunos e perguntou se já haviam lido Eurípedes. Ninguém sabia quem era Eurípedes.

O dramaturgo grego, que viveu no século V a.C., pode ser conhecido por meio da leitura de seus textos, como As bacantes e Medeia, comprados em qualquer livraria, em várias traduções, como a de Mário da Gama Kury, da Editora Vozes.

Há, no entanto, outra maneira – mais orgânica, mais viva – de se estabelecer contato com essa rica herança da cultura mediterrânea: o teatro. O Grupo Ethos, por exemplo, que trabalha com teatro experimental, de pesquisa e montagem, vai ficar em cartaz com a peça Medeia até 31 de maio, aos sábados (21 horas) e domingos (19 horas), no Teatro Commune (veja serviço).

É uma ótima chance de se mergulhar num dos mais fascinantes e terríveis arquétipos da condição humana, de amor e ódio, do momento em que se vê a razão ceder espaço à paixão mórbida, sem freios, num delicado abismo em que nem por isso a razão sai de cena, criando um embate entre aquilo que manteria a unidade do ser e o que poderia levar à desintegração total. A última proposição, neste caso, é a medida do trágico.

O mito

Mas antes de falar da peça, sigamos as pegadas do mito. Segundo a mitologia grega, Medeia mata os próprios filhos para se vingar do marido, Jasão, que a trocara por outra mais jovem. A história dos dois começa em Cólquida, reino do pai de Medeia, Eetes, para onde Jasão viaja como chefe dos argonautas. A missão dele era resgatar um velocino (pelo de carneiro) de ouro a pedido de seu tio, Pélias, que o queria ver longe do trono de Iolco.

Medeia se apaixona por Jasão e o ajuda a pegar o velocino, traindo a confiança de toda a família, inclusive matando o irmão Absirto. Ela então foge para Iolco com Jasão, que descobre que seu pai, Éson, fora morto por Pélias.

Medeia, conhecedora de magia e protegida da deusa Hécate, mata Pélias a pedido de Jasão, e os dois fogem para Corinto, onde são acolhidos pelo rei Creonte. Em Corinto, eles se casam e têm filhos. Mas quando ela começa a envelhecer e perder a beleza, Jasão, oportunamente, se apaixona pela filha de Creonte, Glauce, a herdeira do trono.

Após colecionar tantos assassinatos em nome do amor que sentia por Jasão e se ver assim, usada, Medeia se vinga, matando a nova mulher de Jasão. No pacote, mata também Creonte. Já enlouquecida pelo veneno do sentimento de vingança, acha pouca a dor do ex-marido, mata os próprios filhos e foge, deixando Jasão prostrado no mais dilacerante dos sofrimentos até cometer suicídio.

A razão enlouquecida

A peça de Eurípedes começa no momento em que Jasão troca Medeia pela filha de Creonte, e a esposa renegada, ameaçada de ser expulsa da cidade, se prepara para realizar sua vingança. É aí que se constrói a personalidade vacilante de Medeia. Ela sabia que, ao deixar a família para acompanhar um estrangeiro, estava fazendo uma besteira. Mas o amor lhe falou mais alto.

Medeia era inteligente, dotada de bom senso, absolutamente consciente de seus atos, mas ainda assim, incapaz de domar a ferocidade da sua paixão. Ao ser trocada por outra, depois de tudo, aparece com força aquilo que já existia dentro dela, o sentimento oposto ao do amor.

Apesar da loucura, contraditoriamente, ela não perde a razão, o que torna tudo ainda mais terrível. Tinha consciência de cada passo que tomava, e por isso sabia que “o destino do homem nasce do demônio que habita em seu peito”, conforme observa Junito de Souza Brandão, o maior estudioso de mitologia grega – aliado à teoria junguiana – que esse país já teve.

Aliás, o Grupo Ethos Teatral, criado em julho de 2006, tem forte influência dessa linha de pesquisa, em que os mitos são analisados para se retirarem deles os arquétipos da condição humana. Paralelamente, o grupo desenvolve um estudo sobre a cultura oriental, em que trabalha com várias obras, entre as quais está O herói de mil faces, livro de Joseph Campbbel, segundo o qual, todos os mitos de todas as culturas se beijam, têm algo em comum, em relação à estrutura conceitual de seus heróis e deuses.

Pode-se ver o livro de Campbbel na encenação de Medeia por meio dos mil símbolos presentes no palco. O que a diretora Lúcia de Léllis procura mostrar nesta peça é a verdade e a força do arquétipo do mito de Medeia. Para isso, o que ela traz de diferente, dentro da proposta experimental de seu teatro, é um conjunto sincrético de outras vozes que dialogam com esse mito, sem perder o texto original e sem deixar cair na banalidade venal de nossos dias. É pura arte.

Segundo a diretora, a arte é uma jornada da alma, na qual o que se procura explorar é o sentido da existência, utilizando-se de um fio que percorre o dentro e o fora da vida. “Meu pretensioso trabalho como diretora de teatro, que jamais terá todas as respostas, tem por princípio a transformação do ser, como o casulo que abriga a crisálida e desenvolve as asas dessas almas.”

Símbolos

É assim que, na arte de Lúcia de Lellis, vemos elementos das culturas africana, clássica, árabe e judaica, todos envoltos em raízes mediterrâneas, diga-se de passagem. Uma das referências mais sutis e significativas desse trabalho é a pequena fala que ecoa Grande sertão: veredas.

Quando Medeia fica sabendo dos planos de Jasão, que vai abandoná-la, a voz do coro, que ressoa a totalidade do texto, inclusive a consciência da própria Medeia, já prevê a desgraça. Já sabe que a mulher de Jasão se valerá dos artifícios da magia para matar seus inimigos e até seus filhos.

Ao ser perguntado sobre o que sabe do futuro de Medeia, alguém do coro diz: “Não, nada.” ‘Não, nada’ é igual a ‘nonada’, a primeira palavra de Grande sertão: veredas, a ponta do fio que destrincha toda uma epopéia do espírito, da relação do homem com a natureza, da negação e da afirmação da vida no sertão, mas também na alma.

Riobaldo não quer dizer, mas diz. Quer não-dizer dizendo, sobre seu amor, seu medo, sua coragem, sobre a tragédia no sertão (na alma) que aconteceu e acontecerá sempre.

Talvez Riobaldo, e seu pacto com o diabo (cujo epíteto é Lúcifer, “o que leva a luz celeste”), não se assemelhe a Medeia, em termos de destino, mas o sertão de Rosa, que também é um personagem naquela história, representa um viés mítico da mensagem, o fio de mistério que liga real e irreal.

Os elementos sincréticos levantados por Lúcia de Léllis chegam sutilmente ao livro de Guimarães Rosa, é verdade, mas, sem dúvida, refletem parte de sua essência. Mais direta é a ligação com Ogum, cujo nome foi pronunciado junto com a evocação à deusa Hécate. Ambos podem ser aproximados à medida que o pedido de Medeia tem a ver com o domínio da natureza e sua força selvagem e violenta.

Hécate era uma deusa do campo e, ao mesmo tempo, ligada às forças ocultas das trevas, da morte, mas que também possuía um epíteto semelhante ao de Lúcifer (Phosphóros, “a que transporta a luz”). Na encenação, o coro se veste semelhante aos fantasmas, refletindo esse destino funesto da anti-heroína.

Muitos outros símbolos perpassam a encenação. Jasão surge com chifres de bode nas costas de Creonte, prenunciando o trágico (bode em grego é tragos + oidé, canto = tragédia), acentuando o transe entre sanidade e loucura, evocando Dioniso, o pai do teatro, o deus do êxtase e do entusiasmo.

Não nos estendendo diante das inúmeras chaves, vemos também a diadema de ouro, presenteada a Glauce por Medeia, se transformar numa coroa de espinhos semelhante à de Cristo. Por fim, os filhos sacrificados por Medeia aparecem na encenação como o globo, a terra e seus dois hemisférios, a terra como vítima da fúria humana.

Montagem e atuação

A adaptação de Medeia com elementos diferentes não é novidade. Em 1975, Chico Buarque escreveu A gota d’água, musical que teve Bibi Ferreira interpretando a filha de Eetes e cantando a canção do título, com diálogos e trejeitos marcados pela linguagem da época.

E é justamente essa música, Gota d’água que, na voz de Cida Moreira, percorre toda a encenação de Léllis. Mas sua adaptação vai além disso. Em termos de música, detalhe muito importante para a montagem, o sincretismo acolhe uma polifonia que vai de sons afros, árabes, passando pela música clássica e a MPB.

Não sou Bárbara Heliodora, longe disso, em todos os quesitos. Mas não é preciso ser expert para saber que Medeia não é uma peça fácil de se representar. Neste caso, o peso dramático parece inibir os atores principais.

Os personagens trazem uma carga densa de sentimentos complexos, conflituosos, principalmente em Medeia, mãe, mulher apaixonada, traída, enlouquecida pelo ódio em meio ao amor que ainda sente por Jasão.

Um dos recursos cênicos criados pela diretora foi a divisão do personagem de Medeia, que no palco é representada por duas atrizes (Ana Maria Ribeiro e Karina Bastos). É uma proposta interessante, que permite um eco e um jogo de espelhos que só podem ser concebidos no plano da consciência.

Mas faltou certo vigor na representação das duas atrizes. É claro que a encenação vigorosa, exigida pela complexidade de Medeia, pode incorrer no risco do dramalhão mexicano. Por outro lado, havia também o momento em que era preciso fazer a serenidade sustentar a loucura. Nesse quesito, as atrizes não ficaram distante do êxito.

Todavia, em termos de atuação individual, o destaque vai para a participação de Fernanda Brandão, atriz que faz a Ama. Ao todo, o palco é dividido por 18 atores, muitos dos quais compõem apenas o coro, o personagem mais perfeito da peça.

O coro em Medeia é importante sempre, como o era em todo o teatro grego. Mas, no caso de Eurípedes, o coro não só sustenta a ressonância dramática da peça, como também interpreta situações mínimas que saem do embate entre razão e loucura.

Uma das cenas mais comoventes é quando o coro chora a morte das crianças e se vê incrédulo diante da loucura de Medeia. Esta é chamada de desditada, mas Jasão (Alessandro Marba), embora cínico e frio, também o é. Ambos são jogados na teia nefasta do destino humano, em que a morte feliz não tem vez e a vida é um barco veloz que engole a todos.

Medeia permanece há séculos no seio da cultura ocidental, com uma atualidade impressionante, não porque faz cócegas na sensibilidade do espectador ou porque se mostra adocicada no paladar de quem aprecia teatro, mas, isso, sim, pela força dramática de seu texto, pela carga representativa do íntimo da condição humana, da violência que trazemos escondida e não revelamos a ninguém, nem a nós mesmos.

Diante dessa terrível trama do destino, o que nos salva? Nonada. Talvez a arte.


Serviço:

Título: Medeia
Autor: Eurípedes
Adaptação: Grupo Ethos Teatral
Direção: Lúcia de Lellis
Local: Teatro Commune – 83 lugares (Tel. 3476-0792)
Horário: Sábado (21 horas) e Domingo (19 horas)
Endereço: Rua da Consolação, 1218 (entre a Universidade Mackenzie e o Tribunal Regional do Trabalho)
Preço: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
Temporada: Até 31 de maio

OBS: Estacionamento; acesso para cadeirantes.

2 comentários:

Fernanda Brandão disse...

Oi, Giba! Parabéns pelo texto, pela pesquisa e pelo seu conhecimento na área.
Fiquei muito feliz com o elogio ao meu trabalho. Muito obrigada! É absurdamehnte gratificante ver nosso trabalho, nosso suor e, nesse caso, "minha vida" ser bem reconhecido.
Obrigada mais uma vez!
E INDIQUE NOSSA PEÇA!!! rsrs
bjus!

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Fernanda! E parabéns mais uma vez! O elogio foi verdadeiro, e sei que você tem uma longa jornada de trabalhos e reconhecimento pela frente. Você e seu grupo, claro.
Grande abraço!