quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

ESCRAVOCRATAS: um soneto de Cruz e Sousa

Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados – bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar – formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha – enquanto o grande basta.

O basta gigantesco, imenso, extraordinário –
da branca consciência – o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido – audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d’estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro – ouvindo-vos urrar!


O poeta e a lâmina

Acho este soneto muito emblemático daquilo que era Cruz e Sousa. Não tenho a pretensão de dizer muita coisa. Quero apenas chamar a atenção para a impressionante força melódica jorrada com furor na cara dos senhores brancos escravocratas do século XIX.

É o próprio Cruz e Sousa que está ali, gritando sem subterfúgio, lançando a ira dos poetas de face exposta, fazendo da poesia uma arma cortante.

A única interjeição de clamor, no primeiro verso, sustenta a indignação até o fim, com a evocação da lâmina poética que castraria e faria urrar os algozes do negro. O poema escrito, provavelmente, no final da vida de Cruz e Sousa, só foi publicado em O livro derradeiro, em 1945, quase 50 anos após sua morte.

Ainda no primeiro verso, os senhores são considerados cristãos malsucedidos, “trânsfugas do bem”. Cruz e Sousa foi criado em ambiente cristão por uma família branca, cuja senhora era uma pessoa boa que lhe dera toda a educação que podia.

Para o poeta, os princípios cristãos, vistos do ponto de vista dessa família, que alforriara seus pais, não compatibilizava com as atrocidades cometidas contra os escravos. Nesse sentido, os escravocratas eram homens desviados da fé. A figura deles é ridicularizada no poema, num riso nervoso, cuja musicalidade é vertiginosa, dionisíaca.

Na última estrofe, o poeta se agiganta após exigir o “grande basta”. Ele quer estar à altura de Camões, que ser o próprio Adamastor dos versos, quer as tormentas para devolver as mil e uma chibatadas aos escravocratas. Evoca a erudição de Gôngora, quer mostrar que é um grande poeta, que está à altura de qualquer senhor escravocrata e reivindica o direito comum.

“Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas/ ardentes do olhar.” Ele ri como um deus que já não suporta mais a presença do escravagista e quer castrá-lo para ouvir um grito de dor, dor que o próprio poeta havia sofrido e cantado tantas vezes.

O riso é muito presente nos poemas de Cruz e Sousa, assim como o grito, o clamor. No entanto, muitas vezes o que se ouve como gargalhada é sarcasmo, claro. Não há felicidade possível nos versos do poeta negro catarinense.

Um comentário:

Tem Problemas disse...

Quero agradecer ao autor do blog, terei uma prova sobre a literatura afrodescendente em breve, e pela falta do tema em livros didáticos, precisei estudar pela internet... Obrigado novamente, o texto clareou muito sobre a vida de Cruz e Sousa.