sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

RIMBAUD: o grosseirão insolente

No site da revista The New Yorker (edição de 8 de dezembro), a seção de resenhas traz um texto sobre a biografia de Rimbaud (Rimbaud: the double life of a rebel, 256 páginas, 2008) escrita por Edmund White.

Diz o texto:

“Yeats disse uma vez que o escritor tem de escolher entre a vida ou a obra, mas Arthur Rimbaud – garoto prodígio, arquétipo da rebeldia, aventureiro da África – escolheu ambas.

Embora White observe que ‘a única tarefa de um biógrafo de Rimbaud é preencher suas páginas com as idas e vindas do poeta’, a biografia que escreveu mescla inteligentemente ação e análise.

White declara sua admiração pessoal – chegando a sugerir que o affair que teve com um professor, quando era ‘um adolescente infeliz’, pode ter sido inspirado no exemplo de Rimbaud –, mas é consciente dos defeitos de seu ídolo.

O desprezo de Rimbaud pela vida burguesa fez dele uma visita impossível. Se não estivesse vendendo a mobília da sala, estava usando como papel higiênico a revista em que tinha sido publicada a poesia do anfitrião. No fim das contas, White chega a concordar com aqueles que tinham relação com Rimbaud, que o viam não ‘como um anjo ou um demônio, mas como um grosseirão insolente.”


O gênio sem verniz

Como se sabe, Rimbaud influenciou o mundo da literatura, da música e do cinema com sua poesia, feita entre os 16 e os 19 anos de idade. Depois disso, se tornou traficante de armas e explorador do mercado de escravos e de bebidas na África, até morrer, aos 37 anos, com uma granguena na perna, em 1891.

A razão de ser chamado de ‘grosseirão insolente’ é o fato de ter saído do interior da França, de família pobre, para Paris, e não ter o menor senso de boas maneiras, não ter o verniz da ‘civilização francesa da corte’, sendo um gênio indomável, encrenqueiro e apaixonante, que muito tempo depois de sua morte deu base para as criações de poetas, romancistas e de gente como Jim Morrison, Miguel Ângelo Antonioni e Peter Greenway.

Para finalizar

Dois poemas traduzidos por Ivo Barroso, no livro Poesia Completa (que de completa não tem nada), edição bilíngüe.


Lágrima

Longe de pássaros, pastores e aldeãs,
Eu bebia, de cócoras, nalgum ermo
Rodeado de suaves bosques de avelãs,
Na cerração de uma tarde morna e verde.

Que havia de beber desse jovem Oise,
Olmos sem voz, relvas sem flor, céu sem ar.
Que tirava à cabaça de colocásia?
Algum licor de ouro, insulso, que faz suar.

Terei sido, assim, má insígnia de albergue.
Depois o temporal mudou os céus e aos poucos
Fizeram-se em regiões negras, lagos, perchas,
Colunadas sob a noite azul, em docas.

Perdiam-se as águas em virgens recôncavos.
E flocos no charco o vento fez descer ...
Ora! Como um pescador de ouro ou de conchas,
Dizer que não tive anseio de beber!



Babaquices

I

Casquete
De fera,
Cacete
Que encera,

Pivete
Godera
Bufete
Na espera

E mete
Porrete
Na pêra,

Derrete
Croquete:
Pudera!

3 comentários:

Revistacidadesol disse...

ótimo! Muito interessante, giba!

Mai disse...

Só com uma panorâmica de tão boa qualidade se poderia sintetizar alguém tão complexo.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Mai!
Abç!