segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Moacyr Scliar e Benedito Nunes

Foto: Unicamp
Benedito Nunes (1929 - 2011)


Foto: Portal Literal
Moacyr Scliar (1937 - 2011)


Dois homens das letras brasileiras morreram ontem, domingo: o gaúcho Moacyr Scliar e o paraense Benedito Nunes. O primeiro era muito conhecido. O segundo, nem tanto (e deveria). Mas ambos são muito importantes para a cultura brasileira.

Scliar, que também era médico sanitarista, contribuiu de forma decisiva para a literatura brasileira ao escrever contos, romances e crônicas, muitos dos quais em cima da temática judaica. Seus livros foram traduzidos em dezenas de línguas.

Já Nunes, que era filósofo e professor, publicou vários livros de estética, teoria poética, linguagem, narrativa e sobre os grandes pensadores do Ocidente, além de escrever vários ensaios sobre os grandes da literatura brasileira, entre eles Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

O livro de introdução O tempo na narrativa e o de ensaios O crivo de papel, de Nunes, são ótimas dicas para quem começa a explorar o terreno da escrita.

O poeta e hoje professor da USP, Fernando Paixão escreve sobre Benedito Nunes na Folha de S. Paulo desta segunda-feira. Paixão era diretor do núcleo de Infanto-Juvenil e paradidáticos da Ática quando trabalhei nessa editora, em 2001 e parte de 2002.

Foi nessa época que li alguns livros de Nunes publicados ali, alguns deles editados pelo próprio Paixão. Segue abaixo o texto.

Erudito, autor foi mestre da humildade

FERNANDO PAIXÃO
ESPECIAL PARA A FOLHA


"Quando adolescente, Benedito Nunes recebia com frequência, em Belém do Pará, uma remessa de livros enviada pelo tio médico, também erudito e tradutor amador, residente em São Paulo.

A cada envio, era uma alegria e uma vereda nova que se abria para a curiosidade do rapaz, que começou a escrever versos e se tornou um dos maiores intelectuais brasileiros. Em alguma medida, essa história contém a chave de sua existência.

Continuou sempre fiel à sua cidade de origem, mas atiçado pelo gosto confesso de viajar, fosse por conta dos compromissos universitários ou pela curiosidade pessoal.

Depois de se formar em filosofia na capital paraense, fez estudos complementares em Paris e teve aulas com Paul Ricoeur e Merleau-Ponty, que marcaram o seu modo de pensar e de escrever. Dedicou-se ainda ao estudo de filósofos alemães, sobre os quais veio a realizar estudos fecundos e originais, focando Heidegger em especial.

Ao lado dos temas filosóficos, desenvolveu reflexões sobre a obra de Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, entre outros. Entendia a expressão literária em vínculo estreito com a existência, de um lado, e os recursos de linguagem, de outro. Nesse encontro ele sabia reconhecer a singularidade de cada autor.

Erudito de rica formação, foi um mestre da humildade. Admirava Proust, mas também acompanhava com interesse a produção de autores jovens. Quem teve o privilégio de conviver com ele, pôde conhecer uma feliz combinação entre inteligência e simpatia, rigor intelectual e despojamento. Pessoa rara.

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Fernando Paixão, 55, é poeta e professor de literatura do IEB-USP (Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo). Foi editor de algumas obras de Benedito Nunes, pela editora Ática."

6 comentários:

Kaya - Revista de Atitudes Literárias disse...

Obrigado, Gilberto, pela decência em fazer a memória dos nossos ilustres brasileiros, sobretudo aos seres humanos ("demasiadamente humanos") que eles foram (são) e que deram qualidade ao tempo do mundo! Enquanto isso a manada sem juízo vai aos cinemas ver Bruna Surfistinha!? Fiquemos nós, então, aqui nas tarefas de choro e fortaleza, pois que ainda sensíveis a estas saudades que já se iniciam, saudades de Benedito Nunes e de Moacyr Scliar. Abraços, meu caro! Webston Moura.

Gilberto G. Pereira disse...

Eu é que te agradeço pelo comentário, Webston, e pela audiência! Grande abraço!

Pandolfo disse...

Caro bloguista Giba Pereira. De parabéns pela lembrança de dois dos mais importantes nomes da literatura brasileira recém-falecidos. Scliar foi, sem ponta de dúvida, um dos maiores (e melhores) escritores nacionais de todos os tempos e, paralelamente com a confecção de seus livros, exerceu a medicina em sua plenitude, praticamentte até o final de seus dias. Benedito Nunes eu o conheci ao perto, pois fui seu aluno de filosofia no Colégio Moderno, em Belém, na década de 1950. Foi um dos maiores pensadores das últimas gerações, tendo deixado um legado de obras de filosfia, crítica literária, ensaios e quejandos, mas vivia recluso em sua estufada biblioteca de mais de cinco mil livros, calçado com as sandálias da humildade. Somente o tempo (o senhor da razão, a redizer Collor), como sói acontecer com os verdadeiramente grandes, trará reconhecimento a esses dois gigantes da cultura nacional. Sérgio Martins Pandolfo/PA

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Sérgio! Você também se inscreve na classe dos médicos literatos, né. Mas privilégio mesmo deve ter sido estudar com o mestre Benedito Nunes. Eu gostaria de ter tido umas aulinhas com ele, assim meu exercício de leituras seria mais reto, sem tantas babagens na caminhada, rs. O Moacyr Scliar até que foi reconhecido, até fora do país, a ponto de descobrirem plágio de um livro seu no Canadá, se não me engano. Agora a importância de Benedito Nunes, realmente, ainda está por ser reconhecida com justiça. Um abrç!

futebol bola cheia disse...

muito bom esse site :)
essa materia foi otima para conhecermos mas os grandes escritos.
Foi muito triste eles terem morrido, perdemos 2 grandes escritores.
Abraço.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Matheus! Um abraço!