sábado, 4 de julho de 2009

O AMOR DE RIOBALDO - trecho de Grande Sertão: Veredas

Sério, quieto, feito ele mesmo, só igual a ele mesmo nesta vida. Tinha notado minha ideia de fugir, tinha me rastreado, me encontrado. Não sorriu, não falou nada. Eu também não falei. O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha uma velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto: – Que você em sua vida toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!... – que era como se Diadorim estivesse dizendo. Montamos, viemos voltando. E, digo ao senhor como foi que eu gostava de Diadorim: que foi que, em hora nenhuma, vez nenhuma, eu nunca tive vontade de rir dele. (Grande Sertão: Veredas, p. 252)

Esse trecho de Grande sertão: veredas, um pseudo segredo de brokeback mountain, fala tanto do amor de Riobaldo por Diadorim. Fala assazmente muito do medo de Riobaldo e do que se passa na alma de Diadorim. Tanto sobre o sertão e a metáfora dos olhos verdes, o céu e o inferno de Riobaldo. Tanto de um sentimento rastreado apenas pelo cinzel de Heidegger, pelo agir da linguagem, pela essência dela, desdobrada em sua magnitude de arte, ali, Riobaldo pensador, filósofo do sertão no porvir do sentimento amoroso. Filosofia e amor são duas coisas que procuram cavar a verdade do ser no ser, através do tempo. “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”

4 comentários:

Marcia disse...

Seu comentário é bem fundamentado e creio que deva ter (você) grandes leituras...Não tenho autoridade para tanto, mas arrisco dizer que Grande Sertão: Veredas é o maior romance de Rosa. Abraço.

Gilberto G. Pereira disse...

Oi, Márcia! Obrigado!
Na verdade, Grande sertão: veredas é o único romance de Rosa. Outros livros, como Noites no Sertão e Manuelzão e Miguilin, são novelas, embora alguns o veem como romances, porque são extensos. Os demais são de contos e textos curtos. Há também um livro de poesia, com o qual Rosa ganhou um concurso de poesia no começo da sua carreira. É isso. Um abraço!

brubaker disse...

Definistes bem a essencia de Rosa:
o amor incancavel, marcante, atroz, aquele amor fidalgo, dilacerante, que nao quer se calar...
\ abraco

Gilberto G. Pereira disse...

Não é?