terça-feira, 7 de julho de 2009

LITERATURA E SUICÍDIO: viés da transgressão

Sócrates, obrigado a se matar, prestes a tomar a cicuta e discutindo
a imortalidade da alma em quadro de Jacques-Luis David (1787)

O suicídio é um tema antigo da literatura. Para quem encara a Bíblia como texto literário, já pode retirar daí um exemplo clássico, por assim dizer. Saul, o primeiro rei de Israel, se suicidou. O jovem Werther, personagem criado por Goethe no romance O sofrimento do jovem Werther, também se matou, por amor, ou por falta de um feedback amoroso.

Em O resto é silêncio, Erico Veríssimo trata da morte misteriosa de uma moça que cai do alto de um prédio, cujos indícios dão a entender que foi suicídio. O romance de Kenzaburo Oe, O grito silencioso, também trata do suicídio. O narrador encontra seu amigo dependurado numa corda, mortinho, nu e com um pepino introduzido no ânus, e aí começa o calvário da escrita.

Argemiro de Sant’Amour, personagem de O amor nos tempos do cólera, de García Márquez, se mata quando fica velho, por se sentir imprestável. Suicida-se junto com o cachorro, quer dizer, mata o cão, que não tinha nada a ver com a crise do seu senhor, ao inalar gás até a morte. Essa Terra, de Antônio Torres, conta a história de um rapaz que sai da terra natal, no interior da Bahia, para ganhar São Paulo, mas fracassa, e, ao voltar, não suporta o desconforto da vida e se enforca.

Em Romeu e Julieta há suicídio. Em O clube dos suicidas, de Robert L. Stevenson, o título já se encarrega do tema, que é recorrente na literatura adulta. Mas nos romances juvenis, será que há? Nos Estados Unidos, o escritor Jay Asher virou best-seller com Thirteen reasons why (Treze razões, em tradução literal), livro que aborda esse assunto espinhoso, para os adultos, talvez, porque para os jovens, nem tanto.

Antes ele do que eu

Segundo Josalyn Moran, vice-presidente da área de livros infanto-juvenis da Barnes & Noble, famosa rede de livrarias norte-americana, a morte sempre foi um tema popular entre a garotada.

Para Moran, em entrevista ao Sunday Book Review, caderno literário de The New York Times (9/03/2009), os adolescentes gostam de ler sobre situações que parecem piores do que aquelas em que eles se encontram. “Fazem isso para concluírem ‘Ok, minha vida não é tão ruim assim’.”, explica.

Eu particularmente não consigo me lembrar de nenhum livro tendo o suicídio como tema que tenha sido febre de jovens leitores brasileiros, e por isso me inclino a concluir que há algo de errado na alma da juventude norte-americana. Talvez eu esteja equivocado e o próximo passo do best-seller seja chegar ao Brasil e arrasar quarteirões.

Não li o livro. Mas também não estou escrevendo exatamente sobre ele, apenas sobre literatura e suicídio, e, de quebra, o que a mídia anda publicando a respeito desse romance de Asher.

Segundo matéria do El País (10/03/2009), por ocasião de seu lançamento em espanhol, a trama de Thirteen reasons gira em torno das gravações que Hannah Baker, menina de 16 anos, fez antes de cometer suicídio e da reação de seus colegas após ouvir o que estava gravado. Cada fita revela um episódio sobre um colega de classe que Hannah culpa por sua morte.

“As fitas são enviadas ao colega Clay Jensen, numa caixa de sapatos. Clay fica sabendo que são 13 as razões pelas quais Hannah se suicidou, ou seja, as 13 fitas cassettes se referem às 13 pessoas que devem escutá-las. E ele é uma delas. ‘É um jogo muito simples: primeiro as escuta, depois passa adiante’, diz Hannah na primeira fita descoberta.”

Treva

Desde que esse livro foi publicado nos Estados Unidos, em 2007, até março de 2009, ocasião das reportagens em The New York Times e no El País, haviam sido vendidos 158 mil exemplares no mercado norte-americano. É algo semelhante ao que aconteceu com Crepúsculo, de Stephenie Meyer, que também é a ‘treva’, para usar uma expressão em voga bem adolescente. O livro de Meyer fala de vampiros (morte em vida) e é um fenômeno, inclusive no Brasil.

É bem verdade que de todos os livros sobre suicídio citados neste post, Thirteen reasons why é o único voltado para o público jovem desde sua concepção. Mas O sofrimento do jovem Werther também atingiu esse público em toda a Europa do final do século XVIII, sempre propenso ao fatalismo, à morte, à visão mórbida do mundo, um tipo de espírito que predominou na estética por muito tempo, sob a batuta dos românticos ao largo da terra.

O suicídio é um tema recorrente na literatura. É uma espécie de veia psíquica da arte, o afluente principal da transgressão. Com exceção do sexo, não conheço nada mais transgressor do que a morte, e quando ela é trabalhada na concepção do suicídio, se for bem manejado, aí não há víscera que fique de fora. Até os vasos sanguíneos da ereção entram na jogada.

5 comentários:

james p. disse...

Oi Giba,belo post,como sempre.Não estava tendo tempo para visitar quase ninguém,mas agora estou de férias.
E como vai tudo aí em Goiânia?
Um grande abraço.

Gilberto G. Pereira disse...

Grande James, como vai, rapaz!
A vida começa a se ajeitar em Goiânia. Estou num jornal semanal daqui chamado Tribuna do Planalto, só cobrindo férias, fazendo especiais, ams vamos ver no que vai dar, né. Obrigado pela visita!
Um abraço!

Gerald disse...

Nossa, adorei esse post! Deu-me até vontade de escrever um artigo sobre o suicídio na literatura. Onteressante mesmo! Falow!

Gilberto G. Pereira disse...

Valeu, Gerard! Se você levar adiante a vontade de escrever o artigo sobre o suicídio, por favor, dê um toque onde será publicado, pra gente acompanhar.
Abç!

Gerald disse...

Com certeza! Mas a minha ideia é publicá-lo em alguma revista sobre literatura ou de letras. Ainda assim prometo avisá-lo, ok? Abraços.