terça-feira, 21 de julho de 2009

MITOLOGIA GREGA I: do Caos a Zeus


O mito escrito está para o mito em função assim como a fotografia está para a pessoa real. É assim que Junito de Souza Brandão explica a relação entre o que foi a mitologia para os gregos antigos e o que ela se tornou após alguns filósofos pré-socráticos desacreditarem-na.

Os mitos perderam a dinâmica da transformação no acompanhamento da sociedade, mas em compensação não morreram, como queriam alguns paladinos da razão desde os gregos, como Xenófanes e Zenão, até Kant e Descartes.

O mito grego agora serve como força simbólica de interpretação das ações humanas, dos sentimentos mais corriqueiros à manifestação máxima da cultura. Por isso ainda se mantém vivo. Por isso ainda encanta muita gente.

Talvez seja esta a razão para a trilogia Mitologia Grega (Editora Vozes, três volumes), de Junito de Souza Brandão, chegar às livrarias em mais uma edição, com novas ilustrações de capas, adaptada ao novo acordo ortográfico e fascinante como sempre. O primeiro volume, por exemplo, chega à sua 21ª edição.

Volume I

Depois de uma detalhada explanação sobre o significado de mito, rito, religião e de contextualizar a Grécia antiga, Brandão começa a guiar o leitor pelo mais completo mapeamento sobre a mitologia grega.

Neste primeiro volume, após o surgimento do universo a partir do Caos, o destaque fica para a formação das gerações de deuses, em que se veem Úrano (Céu) dominar o universo na primeira geração, Crono, na segunda, e Zeus, na terceira e última troca de poder no Olimpo.

Zeus se tornou o mais poderoso entre os deuses após vencer seu pai, Crono (Tempo), que por sua vez havia vencido o próprio pai, Úrano, num jogo de interesse político, cada um a seu modo, procurando se sustentar no topo das decisões.

Lição de política

Na primeira geração, entre as proles da união de Urano com Geia, estão Os Titãs (Oceano, Ceos, Crio, Hiperíon, Jápeto e o caçula Crono), as Titânidas (Teia, Reia, Mnemósina, Febe e Tétis), além dos Ciclopes e os Hecatonquiros (“monstros de cem braços e de cinquenta cabeças”).

Não suportando a maneira nada gentil do marido de conduzir as coisas do universo, Geia pediu que seu caçula derrotasse o velho pai. Não foi difícil para Crono castrar Urano e tomar o poder. Mas, titã que era, violento e possessivo, Crono também se tornou tirano.

Casado com a irmã Reia, com a qual foi pai de Héstia, Hera, Deméter, Hades, Posídon e o caçula Zeus, Crono tinha medo de que se cumprisse a profecia segundo a qual seria derrotado por um dos filhos. Para não correr o risco, engolia a todos.

Reia, no entanto, cansada de ver seus pequenos serem devorados pelo marido, escondeu Zeus na terra e, em seu lugar, deu uma pedra para Crono engolir. De novo, um deus dança no Olimpo, perdendo lugar para o filho caçula.

Mas dessa vez, na terceira geração de deuses, as coisas mudam, porque, Zeus agiu diferente. Nunca na história do Olimpo, um deus havia feito alianças para conquistar, manter e expandir o poder sobre o universo. E foi o que fez aquele que se tornaria o deus dos deuses.

Zeus venceu o próprio tempo e se eternizou no Olimpo. Depois de soltar os ciclopes e os hecatonquiros – que haviam sido lançados no Tártaro por Crono –, fazer alianças com eles, soltar os próprios irmãos da barriga do pai e lutar durante dez anos para tomar o poder, tramou uma das mais interessantes ideias da história da política real e imaginada.

Casou-se com a irmã Hera, dividiu o poder com os outros dois irmãos mais fortes, ficando ele com o domínio do Céu, Posídon, com o mar, e Hades, com o mundo subterrâneo. Mas Zeus ficou também com a supremacia do universo. Afinal, ele lutara praticamente só contra os titãs e Tifão, monstro criado por Geia e Tártaro, enquanto os irmãos se escondiam disfarçados de animais na terra.

Depois disso, Zeus continuou sua ideia de supremacia. Chegara à conclusão de que se manteria no poder se povoasse o universo com seu próprio sangue. Uniu-se a Hera, sua esposa, mas também a outras deusas para procriar vários Deuses, e a mortais, criando heróis como Héracles (Hércules).

Foi pai de deuses como Dioniso, Apolo, Ártemis, Atená, Horas, Moiras, Afrodite, Ares, Hebe, Hefesto, Hermes, Perséfone, entre outros, e de heróis, como Héracles, Perseu, Argos, Tântalo, entre tantos outros. Só por isso, o livro de Brandão já valeria a investida. Mas ainda há o alcance dos estudos em que, entre um e outro mito principal, ficam estampados os fios de erudição do autor.

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