quinta-feira, 2 de julho de 2009

LEITURA E ARTE LITERÁRIA I

“Lemos para nos encontrar, de um modo mais intenso e crítico do que poderíamos fazê-lo não fosse a leitura. (...) Exorto o leitor a procurar algo que lhe diga respeito e que possa servir de base à avaliação, à reflexão. Leia plenamente, não para acreditar, nem para concordar, tampouco para refutar, mas para buscar empatia com a natureza que escreve e lê.” (Harold Bloom).

Foto: Jesús Ciscar


A palavra como arte é subversiva, e é por isso que ela nos tira do curso monótono da vida. É preciso ter cuidado, porque ela pode nos guiar para mares inavegáveis. Esse desvio de rota é visto em personagens como Dom Quixote, Policarpo Quaresma, Emma Bovary e até o real Domenico Scandella, do livro de Carlo Guinzburg, O queijo e os vermes, que sofreram a influência da leitura.

Mas é aí que está a delícia da arte literária. A aventura dentro da qual o leitor se encontra compartilha elementos de quem escreve e de quem lê. A leitura literária é uma espécie de espelho que nos revela os caminhos mais secretos de nossa própria alma. Ler um bom livro equivale a explorar nossos sentimentos. Porque somos todos humanos.

Quem escreve pode ter uma visão mais larga, mais ampla daquilo que sentimos e vemos, daquilo sobre o qual também pensamos, e pode nos mostrar uma maneira mais plena de olhar o mundo.

Quem escreve pode inclusive nos dar a oportunidade de conhecer algo novo ou sobre nova perspectiva. Mas isso não significa que esse algo novo esteja fora de nossa própria existência. Na verdade isso pouco importa.

O importante é saber que a leitura da arte literária vai além da articulação da informação. Tem como fator principal a formação estética e o prazer. Com ela, aprendemos a olhar as coisas de modo diverso sem perder o princípio do prazer. E por isso mesmo, a leitura nos dá a capacidade de olhar para dentro de nós mesmos por intermédio da palavra do outro.

A literatura como arte lida com emoções, forja um conhecimento sensível que tem na emoção sua mola propulsora, por meio da qual se alcança o estético. Daí a palavra ‘estético’ vir de ‘estesia’, ou seja, sensibilidade. Outras palavras também têm sua raiz no vocábulo ‘estesia’, como anestesia e sinestesia, respectivamente, ‘sem os sentidos’ e ‘mistura das sensações’.

Desse modo, a literatura é sensual. E quanto mais concentrada em significado, quanto mais suas palavras forem polissêmicas, mais ela corresponde ao valor literário.

Ler é colher as palavras, abrir brechas na espessura misteriosa do texto e da vida. Conhecimento também é texto (tecido). Literatura também é conhecimento. Mas é um tipo de conhecimento, um tipo de saber que não se faz pela objetividade do mundo, de fora para dentro, mas pela articulação subjetiva das verdades.

Um exemplo desse conhecimento interior e do conflito que vem dele é o poema de Ferreira Gullar, Traduzir-se:

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


A leitura do texto literário pode ser feita de várias maneiras. E não é porque queremos, é porque a própria literatura possibilita diversos modos de ver aquilo que está sendo dito. Citei a poesia, mas a prosa também se enquadra no elemento do espanto, do estranhamento.

2 comentários:

Daiane disse...

Belíssimo trabalho... parabéns..

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Daiene!