sexta-feira, 15 de maio de 2009

CONVERSAS COM CORTÁZAR: anotações acerca do entendimento literário

Cortázar: “Os verdadeiros escritores são como
caracóis – carregamos a nossa casa nas costas”

Em 1978, o jornalista uruguaio Ernesto González Bermejo publicou um livro chamado Conversas com Cortázar, resultado de uma série de entrevistas com o escritor argentino Julio Cortázar (1914 – 1984). Em 2002, o livro foi publicado no Brasil pela Zohar, com tradução de Luiz Carlos Cabral e prefácio de Eric Nepomuceno.

Nestas conversas, Cortázar, autor que se consagrou no gênero conto, fala de sua criação literária, da narrativa fantástica, da condição de escritor e de uma infinidade de assuntos ligados à literatura, principalmente ao conto, que, segundo ele, é um gênero cujo acabamento deve ser tão perfeito quanto uma esfera, sem arestas, sem relevos.

“Um conto pode revelar uma situação e ter um enredo interessante, mas para mim isso não basta”, diz Cortázar. Em sua concepção, a esfera tem que ser fechada. “Não estou dizendo que eu negue a qualidade de contos admiráveis, dos quais gosto muito – alguns de Katherine Mansfield, por exemplo – só porque eles não atendem à minha noção de conto. Simplesmente, eu não os teria escrito da mesma maneira.”

Aqui o escritor argentino esclarece perfeitamente sua maneira de olhar para a técnica de escrever. Este conceito, aliás, pode se juntar a outro, comentado pelo autor no livro Obra crítica 2, no qual ele diz que o bom conto precisa vencer o leitor por nocaute, enquanto o romance sempre ganha por pontos.

O escritor é um caracol

Ao escolher a França como sua morada, aos 37 anos, em 1951, Cortázar foi muito criticado pelos seus compatriotas, que o acusaram de escritor estrangeiro, alegando que, com a escolha, ele se tornara no mínimo um autor franco-argentino.

A esta acusação, o autor de O jogo da amarelinha respondia ser uma injustiça, uma vez que, apesar de morar na França, ou por isso mesmo, sua obra era uma experiência positiva para a literatura argentina, pois escrevia em castelhano e com foco direto na América Latina.

Além disso, Cortázar acreditava que o escritor não tem de se preocupar com o lugar onde está, porque onde quer que ele esteja, sempre terá o que necessita para escrever, ou seja, sua bagagem interior.

“Os verdadeiros escritores são como caracóis – carregamos a nossa casa nas costas”, diz Cortázar, sem deixar nenhuma dúvida de que, além de ser, se sentia um verdadeiro escritor.

Trechos:

Literatura = brincadeira, jogo, felicidade e amor

Creio que a literatura serve como uma das muitas possibilidades do homem de realizar-se como homo ludens. E, em última instância, como homem feliz. A literatura é uma das possibilidades da felicidade humana.

Segundo Cortázar, o romance é um conceito de retórica, algo que nos moldes originais já não existe. É, segundo ele, um baú, “a possibilidade de expressar uma multiplicidade de conteúdos com uma liberdade enorme. (...). É um instrumento preciso nas mãos do criador, que dá a ele infinitas possibilidades.”

Minha noção de brincadeira – demonstrada exaustivamente ao longo de tudo o que fiz – é séria e profunda. Eu acho que a brincadeira é uma atividade essencial do ser humano. Confundir brincadeira com frivolidade é uma primeira distração.

A literatura é para mim uma atividade lúdica, lúdica naquele sentido que eu dou ao jogo, à brincadeira, (e ainda) uma atividade erótica, uma forma de amor.

4 comentários:

whisner disse...

Acredito que para um escritor a literatura deixa de ter essa possibilidade de felicidade, porque o prazer perde lugar para o ofício, que é um cão raivoso vigiando o empregado.

Gilberto G. Pereira disse...

Whisner, obrigado pela visita!
Também acho que escrever, fazer literatura, é mais uma angústia. Todo artista tem uma angústia, porque lida com a emoção. Talvez o ato de escrever, para muitos escritores, tirando Cortázar e mais alguns, seja uma espécie de angústia que busca no desfecho da escrita uma felicidade. Mas aí entra o cão raivoso. Essa imagem é forte e dá quase uma conotação de relação senhor (escrita-literatura)/escravo (escritor). A diferença é que há um ganho, ainda que seja um mero alívio ao cabo da empreitada de escrever.
Um abraço!

james p. disse...

caro Giba,estou passando aqui para convida-lo a participar da blogagem coletiva-leitura coletiva,que estou promonendo com a Vanessa do fio de ariadne.Dê uma passada no meu blog,e leia o post.Um abraço.
Não tenho passado muito por aqui ultimamente porque estive cheio de trabalho nas duas últimas semanas.
adiós.

Gilberto G. Pereira disse...

James, também estou navegando menos (rs). Mas aceito, sim seu convite, vou acessar o link.
Grande abraço!