terça-feira, 5 de maio de 2009

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO: o efeito madalena



Os sete volumes de Em busca do tempo perdido, pela Globo, ou os três, pela Ediouro, são pouco lidos, mas o efeito que a bolacha madalena causa na memória do narrador, Marcel, todo leitor conhece.

O biscoito ficou tão famoso por causa do livro, que até hoje vários turistas se dão ao trabalho de ir a Illiers – cidade que foi modelo para a Combray do romance (hoje, chama-se Illiers-Combray) – para comer uma madalena na padaria.

A quem ainda não leu ou quer reler, segue abaixo o famoso trecho do livro de Marcel Proust, tal como está publicado, num só parágrafo, longo, centopeico, mas belo.


Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusórios sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato a minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

(Em busca do tempo perdido: No caminho de Swann. Editora Globo, Tradução de Mário Quintana)

3 comentários:

james p. disse...

Olá Giba.Amo esse livro.O primeiro parágrafo também é fantástico.Aliás,toda a 'Recherche'.Grande abraço.

Gilberto G. Pereira disse...

É verdade, James. É um livro indispensável para quem gosta de literatura. Obrigado pela visita!
Grande abraço!

adriano b.boy disse...

Degusto, gosto do gosto, indireto que até hodie deixa o bouquet em minha boca..........