domingo, 3 de maio de 2009

HISTÓRIA DO OLHO: desejo e alienação

“A linguagem erótica de Sade não tem outra conotação que a de seu século, ela é uma escritura; a de Bataille é conotada pelo próprio ser de Bataille, ela é um estilo; entre as duas, algo de novo nasceu, que transforma toda experiência em linguagem extraviada e que é a literatura.”
Roland Barthes


Georges Bataille, autor de livros importantes como O erotismo e A literatura e o mal, viveu toda a sua infância sob uma forte perturbação psicológica, com o pai louco e a mãe também perdendo a sanidade. Na casa dos vinte anos, após ter testemunhado a desordem mental dos pais e se recordar sempre de imagens que, aos seus olhos de criança, eram obscenas (ver trecho do livro no final), ele procurou um psicanalista.

O resultado da análise, que durou apenas um ano, foi História do olho, um livro erótico surreal que prima pelo valor fantasioso, surgindo de reminiscências verdadeiras, e pela alta elaboração técnica. O Narrador relata sua experiência sexual, a partir dos 15 anos, com Simone, menina da mesma idade.

Os dois vivem diversas histórias de devassidão, regradas à total entrega ao desejo desenfreado, ao imperativo categórico do sexo. Nessa relação, qualquer movimento do corpo provoca tesão. Qualquer evento é ensejo para a manipulação do corpo e a provocação do prazer.

Nessa aventura do desejo – em que os dois atropelam uma moça, enlouquecem outra, assistem a uma tourada, em que o chifre do touro vasa o olho do toureiro, seduzem e fazem orgia com um padre até a morte deste e depois arrancam-lhe um olho – os adolescentes em erupção experimentam uma grande obsessão pela imagem do ânus, chamado pelo vocábulo mais escandaloso, cu, colocando-o no centro da rotação metafórica.

Simone brinca de quebrar um ovo com o ânus, senta nua num prato cheio de leite, e o Narrador, continuamente, não deixa esquecer essa parte anatômica, que é lambida, bolinada, adorada, regada de sêmen, urina, água, outros líquidos, e às vezes até sangue (com dose sado-masoquista). E assim, ele põe às claras o caráter obsceno da narrativa.

Há choque e escândalo, sim, mas apenas no plano da confissão. Todas as cenas são realizadas à meia luz, em lugares absconsos, no meio da noite, ou na casa de Simone, ou no manicômio, numa igreja, no camarote de um show de tourada. As testemunhas, geralmente, são os que participam das ações, como ativos ou passivos. O voyeurismo é deles.

Em História do olho, as metáforas giram em torno da imagem trazida no título, cuja conotação maior, claro, é erótica. A rotação alterna entre dois grupos metafóricos, interligados pela relação olho/lágrima: olho, cu, ovo, testículos, prato e sol; lágrima, leite, chuva, mar, urina, esperma (profusão de sêmen) e Via Láctea (dentro da qual há o globo terrestre, em similaridade com íris e esclera). E várias outras que se juntam e acumulam no desejo satisfeito.

A história é do olho

Publicado originalmente em 1928, sob o pseudônimo de Lord Auch, com tiragem clandestina de 134 exemplares, História do olho, que é o primeiro livro de Bataille, teve várias edições nas décadas seguintes. Ganhou admiradores fervorosos e escandalizou meio mundo também. Entre os leitores entusiasmados estão Roland Barthes e Julio Cortázar.

Em 2003, a editora brasileira Cosac Naify publicou A história do olho com tradução e um ótimo prefácio da professora – especialista em literatura francesa, estudiosa de Marquês de Sade – Eliane Robert Moraes, além de colocar junto três ensaios de Barthes (A metáfora do olho), Cortázar (Ciclismo em Grignan) e Michel Leiris (Nos tempos de Lord Auch).

É uma bela edição, que esclarece de todos os ângulos as sombras que, por ventura, o leitor possa ter. Barthes, por exemplo, nos chama atenção para o fato de o livro ter como personagem principal não o Narrador, mas o próprio olho, caracterizado justamente pela sequência metafórica que vai transferindo a imagem do olho de objeto em objeto, de situação em situação.

Alienação e crime

Essa escrita de Bataille é profundamente marcada pela psicanálise. Sua história trata de um abismo sensual, em que a obscenidade toma conta dos dois adolescentes e daqueles que se relacionam com eles, levados por uma irresistível pulsão de morte.

As cenas partem de uma realidade presumida, mas se desenvolvem como se fossem sonhos. Num passeio de bicicleta pela madrugada, por exemplo, Simone pedala nua e se contorce no selim até gozar, e no momento do gozo seu corpo é lançado ao chão, sendo todo arranhado pelos cascalhos.

O desejo é realizado sempre, mas também cada atitude está ligada a um crime, um delito e à ameaça de morte, que às vezes acontece. Por causa disso, e pelo fato de ter ambientação noturna, aspectos sombrios, em sua maior parte, e algumas paisagens ensolaradas, Leiris o considerou um romance ao mesmo tempo erótico e noir.

O Narrador descreve Simone da seguinte forma:

É alta e bonita; nada tem de angustiado no olhar ou na voz. Mas é tão ávida por qualquer coisa que perturbe os sentidos, que o menor apelo confere ao seu rosto uma expressão que evoca o sangue, o pavor súbito, o crime, tudo o que arruína definitivamente a beatitude e a consciência tranquila.

É uma transgressão. O que eles querem é chocar, é ultrapassar qualquer limite moral. Mas se levarmos em conta o caráter autobiográfico do texto, também vemos aí a tentativa de vencer uma obsessão, procurando esgotar, superar, todos os traços do desejo mórbido.

Nessa tentativa, nessa relação entre desejo realizado e crime, não há sinal de culpa. O que existe é uma espécie de alienação. Para os dois adolescentes, os outros não existem, a não ser como objeto.

Desde o momento em que se conhecem, suas relações se estabelecem na esfera do corpo. Todas as cenas levam ao imperativo do desejo. O desejo comanda. Trata-se de uma alienação (do eu literário) no sentido de a relação afastar-se, cada vez mais, do espírito e do fator psicológico, e se concentrar no corpo.

Eliane Robert Moraes intitula de Olho sem rosto o seu prefácio. Neste caso, podemos ir adiante e dizer que ‘sem rosto’ também caracteriza a negação da face, ou seja, não há cabeça, não há comando cerebral. Os sentidos estão diretamente interligados para o fim erótico, para atender, exclusivamente, aos caprichos do desejo.

Trechos:

O princípio e o fim de História do olho têm uma ligação interessante, porque entre os últimos capítulos, na verdade, após o desfecho da história, quando os personagens já saíram de cena, há um capítulo chamado Reminiscências, no qual o Narrador explica parte da natureza de sua história, ligando-a a elementos autobiográficos.

Não explica tudo, claro, porque há uma forte intervenção criativa, mas esclarece muito. Seguem abaixo um trecho do início da história e outro do capítulo Reminiscências.

O olho de gato

Fui criado sozinho e, até onde me lembro, vivia angustiado pelas coisas do sexo. Tinha quase dezesseis anos quando encontrei uma garota da minha idade, Simone, na praia x. Nossas famílias descobriram um parentesco longínquo e nossas relações logo se precipitaram. Três dias depois do nosso primeiro encontro, Simone e eu estávamos a sós em sua casa de campo. Ela vestia um avental preto e usava uma gola engomada. Comecei a me dar conta de que ela partilhava a minha angústia, bem mais forte naquele dia em que ela parecia estar nua sob o avental.

Suas meias de seda preta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu (esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria a sua bunda pelada.

Havia no corredor um prato de leite para o gato.

― Os pratos foram feitos para a gente sentar – disse Simone. ― Quer apostar que eu me sento no prato?

― Duvido que você se atreva – respondi, ofegante.

Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua ‘carne rosa e negra’ banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados.

De repente, ela se levantou: o leite escorreu por suas coxas até as meias. Enxugou-se com um lenço, por cima da minha cabeça, com um pé no banquinho. Eu esfregava o pau, me remexendo no assoalho. Gozamos no mesmo instante, sem nos tocarmos. Porém, quando sua mãe retornou, sentando-me numa poltrona baixa, aproveitei um momento em que a menina se aninhou nos braços maternos: sem ser visto, levantei o avental e enfiei a mão por entre suas coxas quentes.

Voltei para casa correndo, louco para bater uma punheta de novo. No dia seguinte, amanheci de olheiras. Simone me olhou de frente, escondeu a cabeça contra o meu ombro e disse: ‘Não quero mais que você bata punheta sem mim.’



Reminiscências

Nasci de um pai sifilítico (tabético). Ficou cego (já o era ao me conceber) e, quando eu tinha uns dois ou três anos, a mesma doença o tornou paralítico. Em menino, adorava aquele pai. Ora, a paralisia e a cegueira tinham, entre outras coisas, estas consequências: ele não podia, como nós, urinar no banheiro; urinava em sua poltrona, tinha um recipiente para esse fim. Mijava na minha frente, debaixo de um cobertor que ele, sendo cego, não conseguia arrumar. O mais constrangedor, aliás, era o modo como me olhava. Não vendo nada, sua pupila, na noite, perdia-se no alto, sob a pálpebra: esse movimento acontecia geralmente no momento de urinar. Ele tinha uns olhos grandes, muito abertos, num rosto magro, em forma de bico de águia. Normalmente, quando urinava, seus olhos ficavam quase brancos; ganhavam então uma expressão fugidia; tinham por único objeto um mundo que só ele podia ver e cuja visão provocava um riso ausente. Assim, é a imagem desses olhos brancos que eu associo à dos ovos; quando, no decorrer da narrativa, falo do olho ou dos ovos, a urina geralmente aparece.