quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Mais 32 frases de Grande sertão: veredas – a sabedoria de Riobaldo 2


Em 2009, o Leituras compilou e publicou 42 frases do romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, mas a compilação foi colhida só até a página 371.

O feixe de imagens impressas nestas 32 frases é grandioso tanto quanto as que vieram no lote de 42, embora lá elas apareçam com mais densidade. Riobaldo estava mais falante. À medida que o romance vai chegando ao fim, privilegia-se a ação rumo ao desfecho, e a reflexão se esconde um pouco.

Mesmo assim, podemos ler observações profundamente filosóficas e agudas da vida, como “quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”, ou “sossego traz desejos”. Para quem quer ser anti-Nietzsche, pode dizer: “Homem tem nojo é do humano.” E para quem deseja ser freudiano, ou até mais revelador que Freud, pode se agarrar à verificação metafísica desta frase: “E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio – feito remanchas n’água.”

A quem possa interessar, seguem agora as frases roseanas, a partir da página 373 de Grande sertão: veredas:


Posso me esconder de mim?

Amor é assim – o rato que sai dum buraquinho: é um ratazão, é um tigre leão.

O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo.

O sertão é confusão em grande demasiado sossego.

Aqui digo: que se teme por amor; mas que, por amor, também, é que a coragem se faz.

A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação.

Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte.

Muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente.

Um menino nasceu – o mundo tornou a começar.

Arejei que toda criatura merecia tarefa de viver.

E o demo existe? Só se existe o estilo dele, solto, sem um ente próprio – feito remanchas n’água.

Ao que tropecei, e o chão não quis minha queda.

Minha alma tem de ser de Deus: se não, como é que ela podia ser minha?

Meu medo é esse. Todos não vendem? Digo ao senhor: o diabo não existe, não há, e a ele eu vendi a alma... Meu medo é este. A quem vendi? Medo meu é este, meu senhor: então, a alma, a gente vende, só, é sem nenhum comprador...

O amor só mente para dizer maior verdade.

O sertão aceita todos os nomes.

O que não existe de se ver, tem força completa demais, em certas ocasiões.

Um homem é um homem, no que não vê e no que consome.

Homem tem nojo é do humano.

O sertão não tem janelas nem porta. E a regra é assim: ou o senhor bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa...

Um lugar conhece o outro é por calúnias e falsos levantados; as pessoas também, nesta vida.

A vida é um vago variado.

Picapau voa é duvidando do ar.

Sossego traz desejos.

Hoje-em-dia eu nem sei o que sei, e, o que soubesse, deixei de saber o que sabia... (Diadorim falando pra Riobaldo)

Quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade.

Tinha medo não. Tinha era cansaço de esperança.

Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas...

Aprender-a-viver é que é o viver, mesmo.

A vida da gente nunca tem termo real.

O existir da alma é a reza.

O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia.

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