quinta-feira, 26 de junho de 2008

CRUZ E SOUSA E A CRÍTICA LITERÁRIA

Cruz e Sousa é um poeta importante na história da literatura brasileira, mas passa quase incógnito pela crítica. Nascido João da Cruz e Sousa, em 1861, na cidade catarinense de Desterro, que mais tarde se tornaria Florianópolis, tornou-se o maior representante do Simbolismo no Brasil, um movimento poético que teve sua máxima representação na poesia francesa, com Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé.

Filho de negros africanos vindos como escravos para o Brasil, Cruz e Sousa foi educado com todo o primor pela família do senhor de seus pais, que mais tarde os alforriaria. Cresceu no ambiente de princípios cristãos, cultivando o espírito com as letras da cultura nórdica.

Leitor de Schopenhauer, Haeckel e da literatura francesa, estudou inglês, francês, alemão e latim, ao mesmo tempo que convivia com seus pais, que traziam consigo os costumes africanos. Após perder seus protetores, o poeta mudou-se para o Rio de janeiro, em 1891.

Era consciente da situação do negro, do racismo, da história de maus tratos contra os escravos e da negação das condições mínimas de sobrevivência à maioria dos negros após a abolição da escravatura.

Para os interessados na obra do poeta catarinense, que ainda não sabem por onde começar, há pelo menos quatro críticos literários indispensáveis a essa introdução, considerando dois períodos distintos: Nestor Vítor (que fora amigo do poeta) e Roger Bastide, na primeira metade do século XX; Alfredo Bosi e Davi Arrigucci Jr., na segunda.

Os dois primeiros lançam luz sobre aspectos gerais e particulares da obra sousiana, mas ainda sob uma ótica que privilegia elementos do determinismo social e biológico.

Para Vítor, Cruz e Sousa era um poeta valoroso, que introduziu o Simbolismo na literatura brasileira com o lançamento de Broquéis (1893). Mas aponta falhas em sua poesia e as atribui ao caráter deficitário da cultura do poeta.

O preconceito racial permeando a crítica

Ao se referir à origem do poeta negro, Vítor define-o como oriundo de uma “raça primitiva, cujo canto rude e tosco, lá no continente onde habita, só figura, como por ironia, em folclores, de caráter científico” (Cruz e Sousa: Coleção Fortuna Crítica 4. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira, 1979, p. 136).

A afirmação se aproxima das idéias kantianas sobre a falta de sensibilidade negra. Em Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (Papirus, 2000), livro originalmente publicado em 1764, Kant diz que os negros africanos não possuem “nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo”, e que são muito vaidosos, “mas à sua própria maneira, e tão matraqueadores, que se deve dispersá-los a pauladas.”

Essas idéias racistas sempre existiram, como podemos atestar, nos dias de hoje, nas afirmações do biólogo James Watson, em entrevista ao jornal britânico The Times, em 16 de outubro de 2007.

De acordo Watson, Prêmio Nobel de Medicina em 1962, junto com Francis Crick e Maurice Wilkins (pela descoberta da estrutura molecular do DNA), os africanos não alcançam o mesmo nível de inteligência dos ocidentais (brancos).

Ainda no século XIX, o racismo ganhara uma contribuição da teoria do Conde de Gobineau, diplomata francês que viveu no Brasil entre 1869 e 1870, segundo o qual, os negros e índios não tinham capacidade intelectual, nem gosto sofisticado ou tendências mais elevadas.

Mas, apesar do tom racista (talvez ingênuo) em algumas afirmações de Nestor Vítor, isso não o impede de comparar Cruz e Sousa a Rimbaud. Ele consegue fazer tal comparação por meio de um artifício simplificador: o que julga ser da tradição européia é aplaudido no poeta negro.

Já a musicalidade de tom vertiginosa sugerindo êxtase e entusiasmo, Vítor pensa ser evocação de África, “selvagem e torturante candomblé”, ele descreve como coisas demoníacas, “escabrosidades”, como se as religiões africanas tivessem inventado o conceito de demônio.

Em todo caso, Vítor seria o primeiro crítico a levantar a voz em favor de Cruz e Sousa, apontando a qualidade, a originalidade, e até mesmo a superioridade de seus versos face à produção poética daquele tempo.

Uma das razões para sua crítica às vezes soar confusa talvez seja o fato de ele estar muito em cima das linhas teóricas que explicavam o Simbolismo e não ter a argúcia crítica à altura do bardo negro, para captar todas as nuanças da obra sousiana.

É bom lembrar que não tenho a pretensão sequer de chegar à altura do trabalho de Nestor Vítor. Restrinjo-me aqui à qualidade estética da poesia de Cruz e Sousa e à visão de seus críticos. Além disso, possuo as ferramentas que me permitem enxergar a limitação e as virtudes do crítico carioca.

Sociologia e literatura

Já o sociólogo francês Roger Bastide, que veio para o Brasil no final da década de 30 para substituir Claude Levi-Strauss na Universidade de São Paulo (USP), deu – segundo a opinião de todos os críticos literários – a maior contribuição para os estudos da poética de Cruz e Sousa, ao se empenhar na compreensão do negro na literatura brasileira.

No escopo de sua análise, Bastide dizia que, junto com Mallarmé e Stefan George, poeta simbolista alemão, Cruz e Sousa formava a grande tríade harmoniosa do simbolismo. Rimbaud e Verlaine, portanto, estariam em um patamar abaixo.

Segundo o sociólogo, a diferença entre o poeta negro brasileiro e o mestre francês é que a poesia daquele era pautada pela experiência simbólica, enquanto que a deste era criada pela visão platônica, ficando no terreno da pesquisa técnica, da busca da perfeição pela palavra certa.

A experiência foi um fator fundamental para Cruz e Sousa, de fato. E Bastide acerta em sua análise até certo ponto. Ele parte do princípio de que a luta forja os valores. Para que haja uma arte de reivindicação racial, é preciso que haja barreiras, como o preconceito de cor, e foi esta a condição dada a Cruz e Sousa.

Mas Bastide também quer fazer crer que a busca da poesia de matizes nórdicos, como o Simbolismo, é uma tentativa de Cruz e Sousa se embranquecer, usando a estética simbolista como “um meio de classificação racial” (Cruz e Sousa, 1979), como se um negro não fosse naturalmente estético, nem estivesse à altura das ambições simbolistas sem uma ambição pessoal de se tornar (talvez até simbolicamente) branco.

E diz mais: “Por um curioso artifício, é no momento em que acredita ter mais do que franqueado a linha de cor que encontra a África” (Idem). Que artifício seria esse, Bastide nem se esforça para dizer. Mesmo porque, ainda que quisesse, não o encontraria, porque não existe.

Cruz e Sousa não encontra a África por intermédio da poesia branca, termo este, aliás, bastante duvidoso. Ele é consciente de sua origem desde o princípio, conforme fica demonstrado em sua obra. A África sempre esteve lá.

O fato de obstáculos raciais provocarem em um negro uma reação de cunho artístico, levando-o a fazer poesia, não significa que ele vá fazer poesia para se tornar branco, fugindo do problema. Significa apenas que ele sente necessidade de exprimir sua dor, seu descontentamento, seu protesto, e até mesmo, por que não?, suas vantagens e desvantagens de ser negro.

O protesto, a dor e a manifestação entusiástica, que pode sugerir não apenas o transe das religiões africanas, mas também o frenesi dionisíaco, a evocação de Dionísio, o deus grego do êxtase e do entusiasmo, são características muito presentes na obra de Cruz e Sousa.

Neste caso, Bastide também vê na poesia do catarinense esses procedimentos, aos quais ele dá o nome de “gemido”, “grito de uma raça oprimida” e “grito magnífico de orgulho”. Denominação esta que não combina com o desejo do poeta de se tornar branco por meio da poesia, apresentando, portanto, outra contradição.

A nova crítica

Nos últimos anos, os críticos Alfredo Bosi e Davi Arrigucci Jr. também escreveram sobre Cruz e Sousa, fazendo uma releitura crítica de sua poesia. Eles dão outra dimensão aos estudos da obra do poeta negro.

Isso porque estão muito mais distantes no tempo tanto de Cruz e Sousa quanto do sociólogo francês e de Nestor Vítor. Eles têm outros parâmetros de comparação, mais distanciamento estético e histórico; possuem outras ferramentas de análise.

Segundo Arrigucci Jr. (A noite de Cruz e Sousa. In: Outros Achados e Perdidos. São Paulo; Companhia das Letras, 1999), hoje, a explicação crítica de Bastide para a adesão de Cruz e Sousa a uma ‘poesia essencialmente nórdica’, “nos parece pouco convincente”, principalmente por se tratar de “uma leitura prejudicada pelo reducionismo sociológico.”

Pode-se ver a distância entre a crítica de Bastide e a de Arrigucci Jr., por exemplo, quando analisam a noite na poética do bardo catarinense. Para Bastide, ela apresenta dois aspectos: por um lado é “muito doce, muito boa”, e é a noite dos simbolistas; por outro, é “feiticeira, satânica, povoada de terrores e fantasmas”, que é a noite africana.

Já Arrigucci Jr. procura explorar as possibilidades de sugestão da palavra ‘noite’ pelo viés da indeterminação de significados que a poesia simbolista requer, em que o espaço se torna oco, permeável e pouco táctil.

Em seu longo ensaio sobre o tema, quando relaciona o olhar, o vazio e o escuro, ele conclui: “Tanto as formas alvas quanto a noite de Cruz e Sousa se arriscam a preencher esse mesmo vazio, o indizível da experiência simbólica, o oco do olho, às vezes só silêncio.”

Bosi, por sua vez, em seu ensaio ‘Poesia versus racismo’ (In: Literatura e Resistência. São Paulo; Companhia das Letras, 2002.), analisa o poema em prosa ‘Emparedado’, presente no livro Evocações (publicado logo após a morte do poeta, em 1898) para mostrar como Cruz e Sousa construiu sua poesia em meio ao discurso racista da época e à negação de seu talento.

Como reflexo das idéias que circulavam no período, Bosi cita o livro do médico e antropólogo maranhense Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil, em que o autor retira o negro da condição de mercadoria para colocá-lo como objeto de estudo científico, mas, mantendo as afirmações racistas, segundo as quais o negro é um ignorante por natureza que merece ser estudado.

O último grito de Cruz e Sousa

Ao desenhar esse cenário de racismo com ramificações na sociedade e nos meios acadêmicos, Bosi diz que Cruz e Sousa tinha aguda consciência da situação. E por esta razão, o poeta sabia que só havia dois caminhos a seguir: “E ele os percorreu intrepidamente”, diz o crítico. O primeiro caminho era “o da sua libertação pessoal enquanto negro injustiçado que protesta contra a ‘ditadora ciência d’hipóteses.’”

O segundo caminho percorrido pelo poeta foi o de “profeta incompreendido”, que é a figura do gênio, muito valorizada entre os românticos. Desse modo, o poeta se associava aos “valores de liberdade e resistência”.

E foi dentro desse escopo, que Cruz e Sousa “reagiu dramaticamente à opressão dos prejuízos pseudocientíficos.” Marcado pelo tom de protesto e auto-avaliação, ‘Emparedado’ foi o último texto do último livro que o poeta preparou, mas que não chegou a publicar.

Levando em conta os termos utilizados pela crítica, ‘Emparedado’ foi, portanto, o último grito de Cruz e Sousa.

2 comentários:

A Voz Que Não Quer Calar disse...

Parabéns pelo texto !!! Cruz e Souza é a maior expressão simbolista do país.


Ana Paula Fanon
wwwliteraturasubversiva.blogspot.com

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Ana Paula! Cruz e Sousa é uma luz, né.