sexta-feira, 20 de junho de 2008

COMO EU SE FIZ POR SI MESMO: a grande jornada

“O que é escrever senão uma tentativa vã, desesperada, de exorcizar os demônios e arrancar deles um sentido?” Jamil Snege

“Conversar sobre literatura é bem mais agradável do que fazer literatura – especialmente para vagabundos que nem eu.” Jamil Snege

Foto: Travessa dos Editores

A literatura como arte nos oferece vários pontos de significados, porque é polissêmica, e nesse sentido é também veículo das diversas possibilidades do humano.

Digo isso para falar de um dos livros mais interessantes da literatura brasileira da década de 1990: Como eu se fiz por si mesmo (Travessa dos Editores, 1994), romance autobiográfico do curitibano, descendente de libaneses e italianos, Jamil Snege, que nasceu em 1939 e morreu – de câncer – em 2003.

Ao ler essa narrativa confessional, ambientada em sua maior parte na capital paranaense, o que percebemos é que ainda dá para chorar dentro do riso.

Snege não diferencia vida real e ficção nessa história, e é o que dá um sabor especial, porque nunca se sabe quando está fazendo blague ou dizendo a verdade. Cita nomes reais, fala de situações verdadeiras e imprime no texto o que há de melhor e de pior de si e dos outros.

Não foi o primeiro a fazer isso, mas aqui o que importa é a verve do escritor, sua peculiaridade, a literariedade de si mesmo. Para entrar no universo literário de Snege, o leitor precisa vestir as roupas dadas pelo próprio autor e se tornar leitor incauto, arguto, desfrutável, conspícuo, leitor maldoso, náufrago, lascivo leitor.

É necessário tudo isso para embeber-se nas filigranas de imagem e som, tatear os sentidos da vida com os cheiros e sabores particulares que vêm da prosa de Snege, uma prosa que costura infância, adolescência e vida adulta.

É, portanto, um romance de formação, de memórias e de deleite subversivo. Enquanto a tradição manda evocar os deuses da ‘decência’, ou as musas de plantão, para se criar uma obra sublime, nosso herói evoca nada menos do que Shiva, deus da criação caótica.

“Enquanto o logos é a solidão e a lei, Shiva é anárquico e gregário. Por onde o deus dança, uma horda de delinqüentes – os ganas – o acompanha ruidosamente”, lembra o autor.


O rastro da memória

Se a infância é a fonte do homem, a memória sem dúvida são os fios que ligam esse período quase perdido ao adulto. Snege usa as imagens de seu tempo de criança para construir a complexidade do homem feito. E o faz muito bem.

Seus atos mais memoráveis de garoto são as incontáveis partidas de futebol num campinho reles onde se encontrava com os amigos, e em outros campos mais sofisticados, como os dos padres, para onde iam às escondidas, vivendo o perigo de serem descobertos, como o foram tantas vezes.

Essa plena liberdade da infância foi se perdendo ao longo dos anos e tecendo na alma do nosso escritor um misto de sarcasmo e delícia no desfrute da vida, ao passo que ele mesmo narra a miséria e a grandeza do homem.

Mas há também a delícia do impossível, que são aquelas lembranças que surgem em nós como pinças querendo puxar de volta o concreto daquilo que um dia foi, mas que não volta jamais, e só agora é que damos conta da doçura que havia ali.

“Meu avô ficou cego – e era eu, aos quatro anos, quem o guiava em suas fuga de casa. (...) Aos setenta e tantos anos, forte e enfezado, prendê-lo em casa era tarefa difícil. Principalmente quando eu estava por perto, longe da vigilância das mulheres. Aproximava-me do seu banquinho, ninguém olhando, e tocava-lhe o ombro.

– Nono ...

O velho, de um salto, punha-se de pé. Oferecia-me sua mão ossuda e sussurrava:

– Andiamo, piccinino. Andiamo via.

E saíamos os dois, pelas ruas de terra, tropeçando nos sulcos endurecidos que as rodas abriam quando chovia. (...) A aventura terminava algum tempo depois, a família toda mobilizada numa caçada feroz. Aí então o velho Isidoro impunha suas condições: retornar como viera, pela mão do neto, o séqüito de captores no mínimo a dez passos atrás. Eu jamais deveria volver a cabeça. Ele exigia: desconhecêssemos solenemente aqueles que seguiam nossos calcanhares.

O nono morreu logo depois. Embora passasse a vaguear por outras paragens, talvez até pelos campos macios e perfumados do paraíso, eu ainda o imaginei, anos a fio, escondido atrás do portão, o bote armado para o convite irresistível:

– Andiamo via, piccinino. Andiamo via, subito.”

A miséria e a grandeza do homem

Snege está na linha de autores geniais como Campos de Carvalho (1916-1998), escritor mineiro que escreveu O púlcaro búlgaro, A vaca de nariz sutil e, entre outros poucos, mas pungentes livros, A lua vem da Ásia, uma das mais belas histórias de devaneio, loucura e lucidez.

Campos de Carvalho está voltando à tona, graças às montagens teatrais baseadas em suas novelas. Já Snege nunca fez questão que seus livros fossem publicados por editoras importantes ou divulgados pela grande imprensa. Mesmo assim é conhecido por quem acompanha de perto a cena literária brasileira.

Em Como eu se fiz por si mesmo, Snege traça os caminhos tortuosos da vida e desenha com sarcasmo e ironia o espírito da sociedade curitibana dos anos 70, provinciana, conservadora, preconceituosa e fechada. O que não difere muito dos dias de hoje.

Como personagem principal, Snege, que era graduado em Sociologia Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e publicitário de profissão, se coloca na condição de outsider, social e intelectualmente, mas talvez seja esse o caráter mais ficcional de seu livro.

Se por um lado, é feito o retrato da miséria do homem, como ser incompleto e cheio de defeitos, fracassos e arrogância, por outro, a grandeza de espírito do autor se mistura com a do próprio personagem, principalmente em relação às várias amizades descritas no livro, de nomes conhecidos hoje em dia, como Roberto Requião (atual governador do Paraná) Cristóvão Tezza, Wilson Bueno, Fábio Campana, Domingos Pellegrini, Alice Ruiz, Valêncio Xavier, Roberto Gomes, Sylvio Back, Dalton Trevisan, entre outros, que freqüentavam sua vida.

O autor tinha um grande apreço pela literatura, mas trata o caso com a mesma ironia de sempre, comparando-a aos seus casos de amor, que eram abandonados ao meio, fragmentados, figuras obliteradas pela força maior da existência, a de não se apegar a qualquer sentimentalismo.

“Minha vida sentimental sempre caminhou passo a passo com minha vida literária. Sou capaz de estabelecer uma íntima relação entre minhas mulheres e meus livros. Felizmente fui muito mais profícuo na primeira das atividades, o que me salvou de uma existência letrada e infeliz.”

Em outra passagem, sua verve autodestrutiva tenta se equilibrar, na contramão e no sarcasmo habitual, com um ideal de vida, para ele, saudável.

“O êxtase ou a queda? Ambos. Menos a felicidade. Esta entedia. É pobre e engorda. Embota. Escapar da felicidade talvez seja o supremo dan na arte de viver. Tenho tentado não ser feliz e às vezes consigo. Paz de espírito, serenidade, dinheiro no banco, amor – isso mata qualquer um. Antes, o conflito. A Sarna para se coçar.”

Se vida e literatura se igualam em Como eu se fiz por si mesmo, nada deve ser levado a sério e, ao mesmo tempo, tudo tem de ser considerado. Toda a narrativa pode ser o que poderia ter acontecido, mas também pode ser a inverossimilhança da vida real, em que o próprio Snege engana a si mesmo.

Em todo caso, o que interessa é o teor dessa crônica deliciosa, engraçada, sofrida, mas bem-humorada sempre. Como eu se fiz por si mesmo é sobre a vida, que para Snege se resumia em duas coisas: literatura e amizade.

Trechos:

“(...) Pra todos vocês, vivos ou mortos, desaparecidos ou desgarrados, pra vocês todos, seus pulhas, dedico a bosta deste livro.”

“Bebuns, boêmios, jogadores – todos os pobres-diabos que andavam com passos tortos pela vida eram instados a permanecer longe de mim. Tudo em vão, infelizmente. Mais eles se afastavam, mais eu reclamava sua companhia. Sempre tive orgulho de preencher dois terços de minhas amizades com pessoas de baixa cotação na bolsa da vida. Os piores alunos do colégio jogavam no meu time; a putinha mais desencontrada ganhava a minha mais inspirada carta de amor; o mais doido dos doidos era alvo de toda a minha lucidez. Amei os fracos, os combalidos, os inviáveis, essas aves de penas rotas às quais o vôo se nega. Amei os trôpegos, aqueles cuja insânia acende uma auréola violácea sobre suas pobres cabeças. Amei o que a natureza fez torto e a sociedade entortou mais ainda.”

“A morte de meu pai deixou-me com um pé bailando no abismo. Ela existe, concluí. Vem devagar ou bruscamente, vem com reiterados avisos ou sem aviso algum. Mas não falha. Ilógica, imponderável, essa branca senhora se insinua, abrange, abarca. Brande suas navalhas. Abrevia. O corpo que nos abandona é seu bastidor tecido, seu risco bordado – sempre igual. Fio de vida finalmente tramado. Arremate final.”



Obra de Jamil Snege:

Tempo sujo (1968)
A mulher aranha (1972)
Ficção onívora (1978)
As confissões de Jean-Jacques Rousseau (1982)
Para uma sociologia das práticas simbólicas (1985)
Senhor (1989)
O jardim, a tempestade (1989)
Como eu se fiz por si mesmo (1994)
[Veja texto http://leiturasdogiba.blogspot.com/2008/02/como-eu-se-fiz-por-si-mesmo-o.html)
Viver é prejudicial à saúde (1998)
Os verões da grande leitoa branca (2000)
Como tornar-se invisível em Curitiba (2000)

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