segunda-feira, 9 de junho de 2008

CHINUA ACHEBE EM THE NEW YORKER: uma apreciação da literatura africana

Achebe foi um dos primeiros a pôr na literatura a África sem estereótipos

A revista The New Yorker de 9 de maio deste ano publicou uma grande reportagem sobre o escritor nigeriano Chinua Achebe. Em se tratando de literatura africana, não podemos esperar que no Brasil algo dessa magnitude aconteça (exceto pela magnífica edição especial da Entrelivros Nº 6, revista esta que deixou de ser publicada).

Quem já sequer leu sobre Achebe aqui? O que sabemos de literatura africana circunscreve aos autores em língua portuguesa, como Pepetela, José Eduardo Agualusa, Mia Couto, Luandino Vieira, mais recentemente, o jovem Ondjaki, e alguns em inglês, como J. M. Coetzee. E temos de agradecer aos deuses por tanto.

O propósito da reportagem de The New Yoker, que agora é acesso livre no site da revista, é a celebração dos 50 anos de um livro que marcou a ascensão dos escritores africanos: O mundo se despedaça (Things Fall Apart, com tradução da editora Ática de 1983), que ganha edição comemorativa, em inglês, claro.

Publicado pela primeira vez em 1958, O mundo se despedaça mostrou aos africanos que eles mesmos podem ser vistos na literatura sem os estereótipos criados pelos escritores europeus.

Foi pelo caminho aberto por Achebe, por exemplo, que outro nigeriano, seu contemporâneo, se descobriu e chegou a ganhar o Nobel de Literatura, Wole Soiynka, em 1986. Outros africanos também ganharam o Nobel (até hoje, o prêmio literário mais importante, apesar da pecha de prêmio político), Claude Simon e Albert Camus (ganharam pela França, embora tenham nascido, respectivamente, em Madagascar e Argélia), Nadine Gordimer, J. M. Coetzee (pela África do Sul), que são brancos, e Naguib Mahfouz, que é árabe.

A única publicação (esgotada, inclusive) de Achebe no Brasil é O Mundo se despedaça. Em Portugal também foi publicado A flecha de deus. O resto é escuridão sobre um autor tão importante para quem se interessa por literatura da África profunda, a fonte primeira da história da humanidade.

Achebe nasceu em 1930 na região de Igbo, que se denominou República da Biafra ao tentar se tornar independente pela guerra de 1967. Nessa época, Achebe foi militante da causa dos Igbo. O resultado do conflito foram milhões de mortos, e em 1970 a região foi reintegrada à Nigéria.

Ao analisar a vida e a obra de Achebe, a reportagem nos dá uma noção exata da realidade da produção literária africana, do que foi ontem do que é hoje e de como seus autores se movimentam nesse cenário para tentar imprimir, a seu modo, a realidade e a arte africanas, pouco conhecidas pelo resto mundo.

Trechos:

“Autoritarismo político não é uma coisa hipotética na Nigéria, que, tendo alcançado sua independência em 1960, enfrentou um longo período de insurgência. Em 1967, após dois golpes que desencadearam um violento genocídio contra os Igbo, estes declaram independência da Argélia como República da Biafra.

O próprio Achebe se tornou alvo da violência: seu romance A man of the people [Um homem do povo, tradução literal], uma sátira política, previu o golpe de maneira tão profética que muitos acreditaram que ele fazia parte do complô.

Ele então se dedicou totalmente à causa biafrense. Parou de escrever ficção por um tempo e passou a escrever poesia, ‘algo curto, intenso, mais ligado ao meu estado de espírito’, dizia.”

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“A ‘situação no mundo’, 50 anos após a publicação de O mundo se despedaça, não alterou como gostaríamos. Como Binyavanga Wainaina – editor fundador da revista literária keninana Kwani? – demonstrou num artigo satírico chamado How to Write About Africa [Como escrever sobre a África, em tradução literal], os estereótipos racistas ainda prevalecem: ‘Nunca ponha uma fotografia de um africano bem-ajustado na capa de seu livro, ou dentro dele, a menos que este africano tenha ganhado o Prêmo Nobel ... Certifique-se de que você esteja mostrando como os africanos têm música e ritmo no fundo da alma e comem coisas que nenhum outro humano comeria.’

Mas o poder do legado de Achebe não dá para ser apagado. Adichie [Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, autora do romance sobre a guerra da Biafra Half of a Yellow Sun, que ganhou o prêmio britânico Orange Prize, em 2007] lembra que descobriu a obra de Achebe aos dez anos de idade. Até então, disse ela, ‘eu não imaginava que era possível para as pessoas como eu estar nos livros.’”

8 comentários:

Guillermo Alexander Rivera disse...

Entrelinhas, não. EntreLivros. Aliás, a edição especial da EntreLivros intitulada "Panorama da Literatura Portuguesa" volta a enfocar bons escritores africanos. Abraços!

Gilberto G. Pereira disse...

Grande Guillermo, obrigado pela correção! E, a tempo, parabéns pela aprovação no Instituto Rio Branco.

Guillermo disse...

Obrigado, Gilberto. Abraços!

RAYA disse...

GOstei do texto. FElizmente em 2011 o livro Flecha de DEus foi reeditado no BRasil . FOi enviar a mensagem esta semana no meu blog www.literaturasafrikanas.blogspot.com

POderao ver também outros livros de autores africanos publicados em português. Boas leituras

Gilberto G. Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Raya! Vou acompanhar seu blog para ver as novidades da literatura africana, também. Abc!

Gabriela Antunes disse...

Bom dia, Gilberto, acabo de encontrar o seu blog e ler o que você escreveu sobre Achebe. Acabo de ler "O mundo se despedaça" e me apaixonei. També escrevi sobre o livro, se você estiver interessado, aqui esta a minha resenha: http://oquevcestalendo.wordpress.com/2014/04/17/o-mundo-se-despedaca-de-chinua-achebe/
Abraços e parabéns pelo blog!
Gabriela

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Gabriela, pela visita e pelo comentário! Vou acessar seu blog e ler seus textos, incluindo a resenha sobre O mundo se despedaça, claro. Grande abraço!