terça-feira, 10 de março de 2026

Exercício de tradução - blues em preto e branco, de May Ayim

May Ayim (1960-1996) é uma poeta afro-germânica, conhecida no Brasil mais pelo esforço acadêmico de alguns pesquisadores e por internautas do que por interesse editorial. Ela viveu uma vida cheia de altos e baixos, e teve um fim trágico.

Filha de mãe branca alemã (Ursula Andler) e pai negro ganês (Emmanuel Ayim), que estudava medicina em Hamburgo, foi separada dos pais ainda bebê, entregue pela mãe para um casal de alemães brancos, enquanto o pai voltava para Gana. Os novos pais a chamaram de May Opitz, e a criaram até os 19 anos, quando foi expulsa de casa, depois de anos de maus tratos, segundo a própria May.


Já adulta, ela chegou a conviver com o pai biológico e com a família dele, passando a assinar May Ayim, mas continuava morando na Alemanha, onde estudou, fez graduação e mestrado, com uma importante pesquisa sobre mulheres afrodescendentes na Alemanha e a violência do racismo.


Aos 36 anos, sofreu um colapso mental, por estresse, e foi diagnosticada com depressão. Tentou o suicídio uma vez, tomando overdose de remédios, foi atendida pelos médicos, mas na segunda tentativa, pulou do 13º andar de um prédio e morreu, em Berlim.


O poema a seguir é de 1990, traduzido do alemão (blues in schrvarz weiss) para o inglês por Tina Campt, e em português por mim, como exercício de tradução. Mas foi retirado da abertura de Blues in black and white: a collection of essays, poetry and conversations, de 2002, com tradução para o inglês de Anne V. Adams.


.....//


blues em preto e branco


de novo uma vez mais

há os que são

seperados, vendidos e distribuídos

os que sempre são, foram, e sempre serão os outros

de novo uma vez mais

os realmente outros se autodeclaram

os únicos verdadeiros

de novo uma vez mais

os realmente outros declaram contra nós

a guerra


é o blues em preto e branco

1/3 do mundo

dança sobre

os outros

2/3

eles celebram em branco

nós celebramos em preto

é o blues em preto e branco

é o blues


uma alemanha reunida

se celebra em 1990

sem seus imigrantes, refugiados, judeus e negros

celebra no seu círculo íntimo

celebra em branco


mas é o blues em preto e branco

é o blues

alemanha unida, europa unida, estados unidos

celebram 1992

500 anos desde colombo

500 anos – de escravidão, exploração e genocídio nas

américas

ásia

e áfrica


1/3 do mundo se une

contra os outros 2/3

no ritmo do racismo, do sexismo e do anti-semitismo

eles querem nos isolar; eliminar nossa história

ou mistificá-la ao nível do

irreconhecimento

é o blues em preto e branco

é o blues


mas estamos conscientes disso – estamos conscientes

1/3 da humanidade celebra em branco

2/3 da humanidade não entram na festa


.....//


blues in black and White


over and over again

there are those who are

dismembered, sold off and distributed

those who always are, were, and shall remain the others

over and over again

the actual others declare themselves

the only real ones

over and over again

the actual others declare on us

war


it's the blues in black-and-white

l/3rd of the world

dances over

the other

2/3rds

they celebrate in White

we mourn in black

it's the blues in black-and-white

it's the blues


a reunited germany

celebrates itself in 1990

without its immigrants, refugees, Jewish and black people

it celebrates in its intimate circle

it celebrates in White


but it's the blues in black-and-white

it's the blues

united germany united europe united states

celebrates 1992

500 years since columbus

500 years — of slavery, exploitation and genocide in the

americas

asia

and africa


l/3rd of the world unites

against the other 2/3rds

in the rhythm of racism, sexism, and anti-semitism

they want to isolate us; eradicate our history

or mystify it to the point of

irrecognition

it's the blues in black-and-white

it's the blues


but we're sure of it — we're sure

l / 3 r d of humanity celebrates in White

2/3rds of humanity doesn't join the party

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