May Ayim (1960-1996) é uma poeta afro-germânica, conhecida no Brasil mais pelo esforço acadêmico de alguns pesquisadores e por internautas do que por interesse editorial. Ela viveu uma vida cheia de altos e baixos, e teve um fim trágico.
Filha de mãe branca alemã (Ursula Andler) e pai negro ganês (Emmanuel Ayim), que estudava medicina em Hamburgo, foi separada dos pais ainda bebê, entregue pela mãe para um casal de alemães brancos, enquanto o pai voltava para Gana. Os novos pais a chamaram de May Opitz, e a criaram até os 19 anos, quando foi expulsa de casa, depois de anos de maus tratos, segundo a própria May.
Já adulta, ela chegou a conviver com o pai biológico e com a família dele, passando a assinar May Ayim, mas continuava morando na Alemanha, onde estudou, fez graduação e mestrado, com uma importante pesquisa sobre mulheres afrodescendentes na Alemanha e a violência do racismo.
Aos 36 anos, sofreu um colapso mental, por estresse, e foi diagnosticada com depressão. Tentou o suicídio uma vez, tomando overdose de remédios, foi atendida pelos médicos, mas na segunda tentativa, pulou do 13º andar de um prédio e morreu, em Berlim.
O poema a seguir é de 1990, traduzido do alemão (blues in schrvarz weiss) para o inglês por Tina Campt, e em português por mim, como exercício de tradução. Mas foi retirado da abertura de Blues in black and white: a collection of essays, poetry and conversations, de 2002, com tradução para o inglês de Anne V. Adams.
.....//
blues em preto e branco
de novo uma vez mais
há os que são
seperados, vendidos e distribuídos
os que sempre são, foram, e sempre serão os outros
de novo uma vez mais
os realmente outros se autodeclaram
os únicos verdadeiros
de novo uma vez mais
os realmente outros declaram contra nós
a guerra
é o blues em preto e branco
1/3 do mundo
dança sobre
os outros
2/3
eles celebram em branco
nós celebramos em preto
é o blues em preto e branco
é o blues
uma alemanha reunida
se celebra em 1990
sem seus imigrantes, refugiados, judeus e negros
celebra no seu círculo íntimo
celebra em branco
mas é o blues em preto e branco
é o blues
alemanha unida, europa unida, estados unidos
celebram 1992
500 anos desde colombo
500 anos – de escravidão, exploração e genocídio nas
américas
ásia
e áfrica
1/3 do mundo se une
contra os outros 2/3
no ritmo do racismo, do sexismo e do anti-semitismo
eles querem nos isolar; eliminar nossa história
ou mistificá-la ao nível do
irreconhecimento
é o blues em preto e branco
é o blues
mas estamos conscientes disso – estamos conscientes
1/3 da humanidade celebra em branco
2/3 da humanidade não entram na festa
.....//
blues in black and White
over and over again
there are those who are
dismembered, sold off and distributed
those who always are, were, and shall remain the others
over and over again
the actual others declare themselves
the only real ones
over and over again
the actual others declare on us
war
it's the blues in black-and-white
l/3rd of the world
dances over
the other
2/3rds
they celebrate in White
we mourn in black
it's the blues in black-and-white
it's the blues
a reunited germany
celebrates itself in 1990
without its immigrants, refugees, Jewish and black people
it celebrates in its intimate circle
it celebrates in White
but it's the blues in black-and-white
it's the blues
united germany united europe united states
celebrates 1992
500 years since columbus
500 years — of slavery, exploitation and genocide in the
americas
asia
and africa
l/3rd of the world unites
against the other 2/3rds
in the rhythm of racism, sexism, and anti-semitism
they want to isolate us; eradicate our history
or mystify it to the point of
irrecognition
it's the blues in black-and-white
it's the blues
but we're sure of it — we're sure
l / 3 r d of humanity celebrates in White
2/3rds of humanity doesn't join the party
Nenhum comentário:
Postar um comentário