quarta-feira, 26 de agosto de 2009

MITOLOGIA GREGA III: o herói no caminho do humano


No terceiro e último volume da trilogia de Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega (Vozes, 2009, 15ª ed.), caímos na malha inescapável da mitologia, em que nos são narrados os mitos do herói grego. Nessas narrativas, dependendo de como as lemos, nos deparamos com situações típicas de nossa própria caminhada.

É o que diz Nairo de Souza Vargas, psiquiatra, analista junguiano e membro fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, no prefácio desse terceiro volume. “Sempre que algo novo e transformador vai ser implantado em nossa consciência pessoal e coletiva algum dinamismo heroico deverá estar ativado.”

A condição humana, correndo nas veias desses heróis, é analisada com rigor por Brandão. Misto de deus e mortal, o herói carrega as qualidades mais contraditórias no escopo de sua alma, da covardia à bravura, da mesquinhez à nobreza de sentimentos.

Razão louca

Vemos isso, por exemplo, no mito dos Argonautas, em que Jasão lidera uma expedição em busca do velocino de ouro e conhece Medeia. Ela se apaixona por nosso herói, ajuda-o a vencer as tarefas que lhe darão o direito de levar o velocino de ouro, mata muita gente, para depois ser abandonada por ele.

E Medeia então acomete-se de uma espécie de loucura sã, em que, consciente do horror que vai cometer, mesmo sofrendo, ainda assim mata os filhos para se vingar de Jasão.

Trabalhos de amor perdidos

Essa situação de amor e abandono também vemos no mito de Teseu, em que o herói vai a Creta com a tarefa de livrar Atenas do fardo de sacrificar todo ano 14 jovens que servem de alimentos ao minotauro, que está preso num labirinto, feito por Dédalo a pedido de Minos, rei de Creta.

É bom lembrar que quando Dédalo terminou de construir o labirinto, onde se instauraria o monstro, metade touro e metade homem, ele mesmo não conseguiu achar a saída.

Acompanhado de seu filho, Ícaro, construiu asas de cera e os dois saíram do labirinto voando. Ícaro, jovem e impulsivo, voou mais alto do que deveria, aproximando-se demais do sol, teve suas asas derretidas e caiu ao chão. A consequência desse ato irresponsável e juvenil, claro, foi a morte.

Quando Teseu chegou a Creta conheceu Ariadne, a mais bela filha de Minos, e os dois se apaixonaram. Ariadne sabia que Teseu não sairia do labirinto vivo e temeu pelo seu amor. Deu a Teseu um novelo de fios, que o herói ia desenrolando à medida que adentrava o labirinto. Após matar o touro, ele seguiu o caminho dos fios até encontrar a saída.

Teseu havia prometido a Ariadne que a levaria com ele, e a levou. Mas só até um trecho da viagem. Na ilha de Naxos, Ariadne foi abandonada por seu amor. Nesse rico mito analisado por Brandão figura o aspecto sombrio do homem e as ações do inconsciente.

Mas Teseu, herói que foi, deixou heranças míticas positivas e muito fortes na Grécia antiga. Ele herdou Atenas de seu pai, Egeu (que ao pensar erroneamente que o filho havia sido morto pelo Minotauro, se jogou no mar, que levou seu nome). Como rei de Atenas, Teseu promulgou leis, adotou o uso da moeda e, junto com outros atos, fundou os preceitos da democracia grega.

A morte enganada

Como já disse, em Mitologia Grega III há um desfile de mitos sobre as atitudes dos heróis. Entre eles também estão os mitos de Perseu e Medusa, Belerofonte e a luta contra a Quimera, Heracles (Hércules), Édipo, Ulisses e Clitemnestra. Todos esses mitos se entrelaçam de alguma forma, e por isso vale a pena ler, pôr na cabeceira essa bíblia pagã. Mas fecho o comentário deste último volume com a lembrança de Sísifo.

Quando eu era criança meu pai me contou várias vezes a história de um homem que quis enganar a morte. Segundo seu relato, ao chegar a hora de a morte levar o tal homem, ele pediu clemência, disse que ainda precisava gozar a vida, que ainda não tinha dado tempo de sentir as delícias do mundo, e a morte aceitou o argumento.

Mas marcou outro dia determinado em que voltaria para levá-lo, e dessa vez não haveria choro, nem preces. Foi nesse dia marcado que o homem resolveu driblar a morte. Raspou a cabeça, fez a barba por completo e foi brincar de roda com uma leva de crianças, próximo ao local do encontro. Pediu que dissessem à morte que ele havia viajado para bem longe e que não sabiam da data de retorno.

A morte chegou, perguntou por ele e lhe disseram: “Olha, ele viajou para bem longe e não sabemos quando volta.” E a morte, sem perder tempo, disse: “Tudo bem. No lugar dele, vou levar aquela criança de ‘cabeça raspada’ que está brincando de roda ali.”

Desde que li sobre o mito de Sífiso e sua alta capacidade de mentir, enganar e roubar, essa história contada por meu pai me vem à mente. Tenho quase certeza de que é sobre Sísifo, embora meu pai mesmo tivesse estudado apenas 30 dias e, certamente, não sabia mitologia grega (aprendeu isso por outras fontes). E como ele já morreu, nunca saberei de onde tirou esse conto.

Mas é Sísifo, ou parente próximo, de alguma mitologia coirmã. Não é por menos. Sísifo enganou a morte duas vezes. É o único autor de tal façanha na mitologia grega. Sísifo foi rei de Corinto e faz parte da lista inumerável dos personagens mitológicos, mas não tem um mito central.

Mesmo assim, ou talvez por isso, era o personagem preferido de Albert Camus, pela esperteza, sem dúvida, mas também pela capacidade de resistir aos tempos difíceis, pelo imenso potencial humano.

Ao ser condenado pelos deuses, no Hades, a levantar uma pedra até o topo da montanha para vê-la cair e ter de ir buscá-la e levantá-la de novo, ad eternum, foi condenado em razão desse triunfo sobre a morte. Camus achava que Sísifo subia a pedra com absoluta indiferença, sem jamais se diminuir, sem nunca curvar-se diante dos deuses, cumprindo à risca seu fardo pesado.

Para Camus, a humanidade carrega um fardo parecido, ininterruptamente, como se os genes fossem a pedra dada por Zeus, como se a vida mesma fosse uma montanha de incessantes e inúteis viagens. E hoje, cada vez mais, vemos o homem num esforço brutal para enganar a morte, utilizando-se de técnicas cada vez mais sofisticadas, mas em vão.


Trecho

Sísifo, o mais solerte e audacioso dos mortais, conseguiu por duas vezes livrar-se da morte. Quando Zeus raptou Egina, filha do rio Asopo, foi visto por Sísifo, que, em troca de uma fonte concedida pelo deus-rio, contou-lhe que o raptor da filha fora o Olímpico. Este, imediatamente, enviou-lhe Tânatos, mas o astuto Sísifo enleou-o de tal maneira, que conseguiu encadeá-lo. Como não morresse mais ninguém, e o rico e sombrio reino de Hades estivesse se empobrecendo, a uma queixa de Plutão, Zeus interveio e libertou Tânatos, cuja primeira vítima foi Sísifo. O solerte rei de Corinto, no entanto, antes de morrer, pediu à mulher que não lhe prestasse as devidas honras fúnebres. Chegando ao Hades sem o ‘revestimento’ habitual, isto é, sem ser um eidolon, Plutão perguntou-lhe o motivo de tamanho sacrilégio. O esperto filho de Éolo mentirosamente culpou a esposa de impiedade e, à força de súplicas, conseguiu permissão para voltar rapidamente à terra, a fim de castigar severamente a companheira.

Uma vez em seu reino, o rei de Corinto não mais se preocupou em cumprir a palavra empenhada com Plutão e deixou-se ficar, vivendo até avançada idade. Um dia, porém, Tânatos veio buscá-lo em definitivo e os deuses o castigaram impiedosamente, condenando-o a rolar um bloco de pedra montanha acima. Mal chegando ao cume, o bloco rola montanha abaixo, puxado por seu próprio peso. Sísifo recomeça a tarefa, que há de durar para sempre.

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