sábado, 21 de fevereiro de 2009

A ARTE DE ESCREVER: frases e ensinamentos de autores muito sabidos

Ernesto Sábato

“É impossível falar ou escrever sem metáforas, e quando parece que o fazemos é porque se tornaram tão familiares que são invisíveis.”

In: O escritor e seus fantasmas


Charles Baudelaire

“Começo de um romance, principiar um assunto seja em que ponto for, e, para ter desejo de ir ao fim, começar por frases muito belas.”

In: Meu Coração desnudado


Edgar Allan Poe

“A melancolia é, assim, o mais legítimo de todos os tons poéticos.”

Filosofia da Composição, In: Poemas e ensaios


Ezra Pound

“Os bons escritores são aqueles que mantêm a linguagem eficiente. Quer dizer, que mantêm a sua precisão, a sua clareza.”

“Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai.”

“O bom escritor escolhe as palavras pelo seu ‘significado’. Mas o significado não é algo tão definido e predeterminado como o movimento do cavalo ou do peão num tabuleiro de xadrez. Ele surge com raízes, com associações, e depende de como e quando a palavra é comumente usada ou de quando ela tenha sido usada brilhante ou memoravelmente.”

“O Domínio da técnica não é alcançado sem pelo menos certa persistência.”

In: O ABC da Literatura


J. W. Goethe

“Não é a linguagem em si e para si que é exata, hábil, graciosa, mas o espírito que nela toma corpo. E assim não depende de nós dar aos nossos contos, discursos, ou poemas as características desejáveis. A questão aqui é se a Natureza deu as características espirituais e morais. As espirituais: o poder de intuição e de penetração. As morais: o poder de o artista afastar os maus demônios que o poderiam impedir de prestar homenagem ao Verdadeiro.”

In: Máximas e reflexões


Machado de Assis

“A primeira condição de quem escreve é não aborrecer.”

“O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

In: Pensamentos e reflexões de Machado de Assis (Seleção e organização: Gentil de Andrade)

Fernando Pessoa

“De nada serve o simples ritmo das palavras se não contêm ideias”.

“Ninguém pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam a língua em que se fala.”

In: Alguma prosa


Friedrich Nietzsche

“Um bom escritor não tem apenas o seu próprio espírito, mas também o espírito de seus amigos”.

“Quando o autor nega seu talento para se equiparar ao leitor, comete o único pecado mortal que este jamais lhe perdoa; caso o perceba, naturalmente. Pode-se dizer tudo quanto é ruim de um homem; mas na maneira de dizê-lo devemos saber restaurar sua vaidade.”

“É frequente o leitor e o autor não se entenderem porque o autor conhece bem demais o seu tema e o acha quase enfadonho, dispensando os exemplos que conhece às dúzias; mas o leitor é estranho à matéria, e a considera mal fundamentada se os exemplos lhe são negados.”

In: Humano, demasiado humano


Ernest Hemingway

“A gente escreve melhor, por certo, quando está apaixonado.”

“O futuro do escritor ... Deveria enforcar-se, por haver descoberto que escrever bem é tremendamente difícil. Depois, deveria ser esfaqueado sem piedade e obrigado pelo próprio ser a escrever tão bem quanto possível durante o resto da vida. Pelo menos teria, para começar, a história do enforcamento.”

“Se um escritor deixa de observar, está liquidado.”

In: Escritores em ação (Entrevistas da Paris Review; Coordenação: Malcolm Cowley)

Lawrence Durrel

Para escrever bem:

“Não tem nenhuma importância que se fracasse uma, duas, três vezes, mas é de vital importância que a água encontre seu próprio nível e que se faça o melhor que se puder com as forças que lhe são dadas. É perder tempo lutar por coisas fora do nosso alcance, da mesma maneira que é absolutamente imoral ser indolente a respeito das qualidades que se tem.”

In: Escritores em ação (Entrevistas da Paris Review; Coordenação: Malcolm Cowley)


Marcel Proust

“Há somente uma maneira de escrever para todos, que é escrever sem pensar em ninguém, para aquele que tem algo de essencial e profundo.”

“O bom senso dos artistas, o único critério da espiritualidade de uma obra, é o talento.”

In: Contre Sainte-Beuve: notas sobre crítica e literatura


Jean-Paul Sartre

OBS: Aqui Sartre fala do escritor engajado, mas serve para quem quer escrever bem.

“Nunca dizer: ‘bem, terei no máximo três mil leitores’; mas sim, ‘o que aconteceria se todo o mundo lesse o que eu escrevo?’”

A objetividade do bom escritor:

“As palavras, como diz Brice-Parain, são ‘pistolas carregadas’. Quando fala, ele atira. Pode calar-se, mas uma vez que decidiu atirar é preciso que o faça como um homem, visando o alvo, e não como uma criança, ao acaso, fechando os olhos, só pelo prazer de ouvir os tiros.”

“Ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinado modo. E o estilo, decerto, é o que determina o valor da prosa. Mas ele deve passar despercebido. Já que as palavras são transparentes e o olhar os atravessa, seria absurdo introduzir vidros opacos entre elas.”

“Escrever é, pois, ao mesmo tempo desvendar o mundo e propô-lo como uma tarefa a generosidade do leitor. É recorrer à consciência de outrem para se fazer reconhecer como essencial à totalidade do ser; é querer viver essa essencialidade por pessoas interpostas.”

“É com a palavra que pensamos. Teríamos de ser muito pretensiosos para acreditar que contemos dentro de nós belezas inefáveis que a palavra não é digna de exprimir.”

In: Que é a literatura?


Henry Miller

“Examino com assiduidade o estilo e a técnica daqueles que uma vez admirei e cultuei (...). Imitei todos os estilos na esperança de descobrir a chave do segredo torturante da arte de escrever (...). Eu fracassei. Percebi que não era nada. (...). Foi nesse ponto, em meio à estagnação do mar dos Sargaços, por assim dizer, que realmente comecei a escrever. Comecei do nada, lançando tudo ao mar, mesmo aqueles a quem mais amava”.

In: A sabedoria do coração

Gore Vidal

“A qualidade da frase é tudo o que um escritor tem de seu.”

“Inteiramente absorvido por seu assunto, o gênio é um inovador natural – fato que deve ser enlouquecedor para o escritor comum, que, simplesmente ambicioso, é obrigado a abordar a literatura do exterior, na esperança de que o estudo da forma de uma obra-prima e a análise de seu conteúdo lhe deem condições de reconstituir o princípio de sua elaboração, para então criar paródias ou, se for furiosamente ambicioso, algo ‘novo’ (reorganizando os componentes).”

In: De fato e de ficção


Gabriel García Márquez

“A primeira frase pode ser o laboratório para estabelecer muitos elementos do estilo, da estrutura e até do comprimento do livro.”

“Hemingway nos ensinava muita coisa, inclusive a saber como um gato dobra uma esquina.”

In: Cheiro de goiaba: conversas com Plínio Apuleyo Mendoza

Júlio Cortázar

“Um escritor argentino muito amigo do boxe me dizia que, no combate que se dá entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance sempre ganha por pontos, ao passo que o conto precisa ganhar por nocaute. Isto é verdadeiro, pois o romance acumula progressivamente seus efeitos no leitor, enquanto um bom conto é incisivo, mordaz, sem quartel desde as primeiras frases. Não se entenda isto demasiado literalmente, porque o bom contista é um boxeador muito astuto e vários dos seus golpes iniciais podem parecer pouco eficazes quando, na realidade, já estão minando as resistências mais sólidas do adversário.”

“Os contistas inexperientes costumam cair na ilusão de imaginar que bastará pura e simplesmente escrever um tema que os comoveu para comover por sua vez os leitores. Incorrem na ingenuidade daquele que acha seu filho belíssimo e sem hesitar acredita que os outros o consideram igualmente belo. Com o tempo, com os fracassos, o contista capaz de superar esta primeira etapa ingênua aprende que em literatura não bastam as boas intenções.”

In: Obra crítica 2


Autran Dourado

“‘O estilo é o homem’ foi uma frase que quase botou a perder a maioria dos escritores brasileiros, os de Minas sobretudo, que quiseram fazer ‘estilo’, esquecidos de que na verdade ‘o estilo é o assunto ou a matéria.’”

“O caso mais curioso de ‘estilismo’ que conheço, porque radical, é o de Dalton Trevisan, escritor curitibano de merecido êxito, mas em quem o ferrete disciplinador está presente, cuja influência mineira testemunhei e segui de perto. Mas com quem ele aprendeu isso? Com (...) Otto Lara Resende, seu amigo pessoal, a quem Dalton Trevisan trazia seus contos (...) quando vinha ao Rio, pedindo ao mineiro que castigasse os seus originais, que fosse ‘cruel’, como ele dizia. De posse e ainda sangrando das corrigendas e sugestões sádicas, voltava para a friorenta Curitiba, onde ia lamber prazerosamente as feridas. Lá, na solidão-solitude, com o frio de quebrar orelha e gretar os lábios, misturava aquilo tudo na cabeça, sacolejava com sal de frutas, e depois apresentava os resultados, às vezes excelentes.”

In: Poética do romance: matéria de carpintaria

Gustave Flaubert

“Trabalhe, medite, medite acima de tudo, condense seu pensamento, você sabe que os belos fragmentos não são nada. A unidade, a unidade, tudo está aí! O conjunto, eis o que falta a todos os de hoje, tanto nos grandes quanto nos pequenos. Mil passagens bonitas, mas não uma obra.”

“Todo o talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras.”

“A biblioteca de um escritor deve se compor de cinco a seis livros, fontes que é preciso reler todos os dias.”

“O que há de mais mal construído do que tantas coisas de Rabelais, Cervantes, Molière e Hugo? Mas que murros súbitos! Quanto poder numa só palavra! Quanto a nós, é preciso empilhar pedra sobre pedra para construir nossa pirâmide que não chega a um centésimo das deles, que são feitas de um bloco só.”

In: Cartas exemplares

Para finalizar:

“Nenhum pensamento humano pode prever agora a que deslumbrantes sóis psíquicos desabrocharão as obras do futuro. Enquanto esperamos, vivemos num corredor cheio de sombras; tateamos nas trevas. Falta-nos uma alavanca; a terra desliza sob os pés; o ponto de apoio nos faz falta a todos, literatos e escrevinhadores que somos. Para que serve isto? A que necessidade responde esta tagarelice?”

Gustave Flaubert, in: Cartas exemplares

OBS: Minha amiga Luciana Feijó, autora do blog Purpurina de Rua, enviou uma ótima contribuição, que segue abaixo:

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Graciliano Ramos, acho que em Caetés.

Serviço

Alguns dos livros citados estão com edição esgotada, mas podem ser encontrados em sebos. Na lista abaixo, seguem os que podem ser comprados na Livraria Cultura.

Título: Poemas e ensaios
Autor: Edgar Allan Poe
Editora: Globo, 1987, 297 páginas
Gênero: Teoria e crítica literária
Preço: R$ 36,00

Título: O ABC da Literatura
Autor: Ezra Pound
Editora: Cultrix, 1995, 218 páginas
Gênero: Teoria e crítica literária
Preço: R$ 27,00

Título: Contre Sainte-Beuve: notas sobre crítica e literatura
Autor: Marcel Proust
Editora: Iluminuras, 1988, 185 páginas
Gênero: Teoria e crítica literária
Preço: R$ 47,00

Título: Que é a literatura?
Autor: Jean-Paul Sartre
Editora: Ática,1993, 231 páginas
Gênero: Teoria e crítica literária
Preço: R$ 49,90

Título: Obra crítica 2
Autor: Júlio Cortázar
Editora: Civilização Brasileira,1999, 368 páginas
Gênero: Teoria e crítica literária
Preço: R$ 56,00

Título: Cartas exemplares
Autor: Gustave Flaubert
Editora: Imago, 2006, 258 páginas
Gênero: Literatura, Correspondências
Preço: R$ 53,00

2 comentários:

Luciana Feijó disse...

Grande, Giba!

Gostei bastante dos seus posts!
Beijos pra família!

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

Graciliano Ramos

Gilberto G. Pereira disse...

Luciana, obrigado por essa contribuição maravilhosa de Graciliano Ramos! Acho que é um trecho de Caetés, não é? Vou jogar para as dicas.
Um abraço!