sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O VELHO E BOM CONY

Christian Wirthmann
Cony no programa Letra Livre, da TV Cultura, edição que vai ao ar no começo de março

Sempre admirei a inteligência de Carlos Heitor Cony. É verdade que leio mais suas crônicas na Folha de S. Paulo do que seus romances, mesmo porque, durante muito tempo ele escreveu quase todo dia no jornal dos Frias. Mas os artigos e crônicas são o suficiente para sentirmos sua veia iconoclasta e o aguçado senso de humor, misturado a uma auto-ironia que nos mata de rir.

Tenho mais a dizer sobre Cony, mas o que tenho a dizer pode ser adiado sempre porque é muito pouco. Para compartilhar as tiradas hilárias de Cony, se autoflagelando, rindo de si mesmo, abro parte da cortina de seu texto publicado nesta sexta-feira (20/02), no Caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo.

O texto, intitulado O Mosteiro dos Tijolos de Feltro, referente ao um quadro que pintou, segundo ele, fala de suas peripécias na arte de ganhar a vida, começando como pianista de inferninho, aos 20 anos, depois passando a escrever literatura e para o jornalismo.

Há muita invenção nessas histórias, claro. Mas a delícia do texto não está completa se não imaginarmos Cony atuando em cada cena.

Em razão de todo o seu talento e sua capacidade de arregaçar as mangas para qualquer coisa, ele diz:

“Nunca precisei rolar pelas sarjetas - profecia de um mestre que perdeu a paciência comigo por causa de umas equações de 2º grau e me profetizou um futuro negro, esmolando pão, dormindo sob marquises, coberto por jornais da véspera. Essa imagem às vezes retorna ao meu inconsciente: são os únicos momentos em que me considero um vencedor. Pelo menos até agora, ainda não cheguei a esse estágio de miséria.”

Em trecho mais adiante:

“Nunca se deve confiar em quem já tocou piano e escreveu tanto para ganhar o pão de cada dia. Tempos atrás, aproveitando um recesso doméstico -fui operado nas cordas vocais e tive que passar duas semanas na encolha- dei para pintar. Isso mesmo: pintar quadros.

Pegava pincéis e espátulas, esparramava cores aqui e ali, depois assinava e datava para que a posteridade soubesse quando e onde havia feito uma obra-prima. Borrando aqui e ali fui acumulando obras de arte que transbordaram de meu apartamento e vieram comigo ao trabalho.

Um dia - que ainda será celebrado na história universal como um marco memorável da estupidez humana -, vendi um quadro a um desprevenido. Por maior que fosse minha decadência moral e humana, senti algum remorso. À noite, rondei a casa do camarada, para ver se ele havia sido expulso do lar.

Cheguei a imaginá-lo sentado na calçada, o quadro entre as pernas, meditando sobre a besteira que fizera e que lhe provocara o exílio. Alguma coisa de inacreditável deve ter acontecido, pois o cara foi aceito em casa, por sua mulher, filhos e agregados.”

Ultimamente seus textos andavam meio chatos, mas este trouxe de volta o velho e bom Cony.

2 comentários:

Juanita disse...

O primeiro livro pesado ou "forte", que li na minha adolescência, foi O Ventre. Gostei, mas nunca mais li mais nada de Cony. A não ser textos esporádicos que me caem, eventualmente às mãos.

Achei interessante seu texto sobre ele. Abçs

Gilberto G. Pereira disse...

Pois é, Joana. Esse livro, O Ventre, foi relançado em 2008, e eu queria lê-lo, mas não tive grana pra tanto. Foi a estreia de Cony na ficção. É sem dúvida um livro que preciso ler, se quero me prezar como leitor de literatura brasileira. Eis aqui mea culpa. Mas li outros romances muito bons dele, e outros nem tanto. Entre os bons estão Pessach: a travessia e Quase-memória, que inclusive resenhei aqui neste blog, e, entre os ruins está O indigitado, de 2001, se não me engano.
Um abraço!