quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

PÓ DE PAREDE: um livro sobre amadurecimento e amizade


Os escritores gaúchos sempre tiveram bons representantes no cenário da literatura nacional. De Simões Lopes Neto, Dyonélio Machado, Érico Veríssimo, passando por João Gilberto Noll, Assis Brasil, até chegar aos discípulos deste último, como Cíntia Moscovich, Amílcar Bettega Barbosa e Daniel Galera (paulista de 30 anos que se criou em Porto Alegre).

Além destes, nos últimos anos, do Rio Grande do Sul despontaram mais nomes que vão fazer a diferença nas próximas décadas, sem dúvida. Um exemplo bom é a jovem Carol Bensimon, nascida em 1982, em Porto Alegre, e que também fez a oficina de escritores de Assis Brasil.

Foi com prazer que li seu primeiro livro, Pó de parede (Não-Editora, 2008). São três histórias, catalogadas como novelas, mas que poderiam ser três mínimos romances, pela estruturação dos personagens dentro da trama: A caixa, Falta céu e Capitão Capivara.

As duas primeiras histórias são marcadas por um sentimento de angústia, solidão e tristeza, retratando a transição entre a infância e a fase adulta, cuja sensação de deslocamento é palpável e invade o leitor.

Na terceira, o que prevalece é o tom cômico, destoando um pouco das anteriores, sendo mesmo mais fraca que as outras, mas cumprindo o papel de fechar o livro, que parte de uma pesada carga dramática e poética para certa leveza do ser. Nesse ínterim, o deslocamento permanece.

Pó de parede é um livro sobre o amadurecimento e a amizade. Neste sentido, seria um ‘romance’ de passagem, não exatamente de formação, mas de transição. Seus personagens sofrem a dor do crescimento e da libertação das amarras parentais. Seus personagens deixam para trás a infância e a inocência, para sentir essa corrosão do novo mundo que se abre.

A caixa

Aqui, a narrativa corre entre 1991 e 2007, num tempo não-linear, mostrando a relação de três garotos, Alice, Tomás e Laura, que vivem bons momentos de amizade, na infância e na adolescência, até que nesse último ano, já um futuro distante, tudo se desconfigura.

No princípio de suas vidas, Alice e Tomás são despadronizados. Não se vestem como os demais, gostam de ouvir músicas que destoam do gosto dos outros, e por isso são excluídos pelos colegas da escola. Laura é a vizinha patricinha, a menina certinha que estuda no mesmo colégio.

É dentro desse esquema que vemos Alice como protagonista. Sua voz se sobressai. Seu ponto de vista marca a narrativa, embora ela não seja a única a narrar. Vemos Alice se transformando da infância para a fase adulta, vivendo um drama invulgar, o excesso de liberdade no seio familiar a ponto de deixá-la deslocada.

Nesta novela, as palavras vão cuidadosamente cadenciando o texto, criando um tecido espesso e firme, que busca sempre a marcação próxima da poesia, forçando o leitor a ler em voz alta. É como se a narrativa quisesse saltar das páginas para, saindo dos trilhos, ganhar o vasto mundo. É o melhor texto.

Mas no final, Alice está ajustada, pagando, para tanto, um preço alto. O desfecho trágico, em que Laura se revela num desajuste jamais pensado, faz Alice se sentir culpada por não ter percebido o problema da amiga.

Falta céu

No segundo texto, uma garota observa a transformação de sua cidade pacata – situada à beira de um rio – em alvo da especulação imobiliária. Seu olhar é de perplexidade, ao ver os tratores arrombando a mata ciliar para construir um condomínio. Mas, esse olhar que percebe a mudança externa é também o olho do leitor que vê a menina se transformando intimamente.

A paisagem externa muda (de idílica para fake) e a interna também (de inocente, feliz, para as descobertas da angústia e do desejo). A autora mostra a habilidade na construção do texto quando consegue fechar toda a história com uma simples frase no final, “falta céu”, falada por um publicitário do mercado imobiliário, que, ao transformar o espaço idílico em pedaços de paraíso para ricos e enquadrá-lo em fotografias, viu que a mentira ainda não estava completamente convincente.

Capitão capivara

Nesta novela, dois personagens, Clara e Carlo Bueno, se intercalam, narrando suas histórias ambientadas num hotel. Um terceiro personagem, Edgard, é amigo de ambos e o fio condutor da trama.

É a mais cômica das três novelas (até pelo título). Aliás, possui um humor que não está presente nas outras duas. Os personagens, no entanto, são mais velhos aqui, demonstrando uma continuidade que amarra, sutilmente, as três histórias.

Clara é uma garota de 20 anos, aspirante a escritora, que quer sair da proteção dos pais e conquistar outro patamar de vida. Para tanto, vai procurar emprego numa pousada de luxo, onde trabalha seu amigo Edgar. Quando consegue o emprego, fica feliz, mas descobre que terá de se vestir de Capitão Capivara, o mascote do hotel, para animar as crianças.

Carlo Bueno é um escritor frustrado, que se hospeda no hotel para escrever mais um livro encomendado, que ele detesta escrever, mas que lhe dá muito dinheiro.

Nas três novelas, os personagens se despertam para a vida, tornam-se conscientes do drama maior da existência. Embora em Capitão Capivara o leitor ria mais, o tom dramático está inscrito em algumas passagens, como na descrição que Clara faz de seu amigo: “Edgar tinha a cara de um James Dean esquecido.”

Nesta descrição, além da referência ao cinema e à cultura pop, há também o aspecto da tristeza, “James Dean esquecido”, o desenho do abandono, da entrega à dor da existência, como uma tomada de consciência de que o mundo é estranhamento.

Coincidência de cenas

Alguns trechos de Pó de parede se assemelham com Mãos de cavalos, primeiro romance de Daniel Galera, que, como Carol, também fez a oficina de escritores de Assis Brasil. Por duas passagens, especificamente: a do menino que cai (e a ideia de que cair é legal, é ser forte, presente em Falta Céu) e a do sentimento de culpa (em A caixa).

Pode parecer banal e apenas uma coincidência. Afinal, as atitudes descritas fazem parte do humano. Mas não quando se trata de dois escritores jovens que passaram por um mesmo curso, em que, se não foram colegas, foram vizinhos no tempo.

As duas cenas devem ter sido parte de algum exercício de técnica de narrativa. Carol partiu para uma fragmentação. Galera, para uma unidade. Ambos acertaram nas escolhas e por isso resolveram colocá-las em seus romances de estreia.

As três histórias de Pó de parede não se encaixam muito bem como novelas, nem como contos. São como fragmentos de romances, muito bem delineados. São um exercício bem resolvido. Não estranharei se no futuro Carol voltar com um desses argumentos em romance de fôlego.

Para 2009, no entanto, o que se espera é o lançamento de seu segundo livro, o romance Sinuca embaixo d’água, anunciado na capa do primeiro.


Serviço

Título: Pó de parede
Autora: Carol Bensimon
Editora: Não-Editora, 2008, 128 páginas
Gênero: Novelas
Preço: R$ 25,00

4 comentários:

L.C. disse...

tô esperando.

Penetralia disse...

Gostei tb. Seu blog é muito bom para apresentar jovens escritores.

Bea disse...

Para um trabalho de faculdade gostaria de saber se neste livro existem personagens negras? :) Muito obrigada

Gilberto G. Pereira disse...

Não, Bea. Procure no texto SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA: dicas de leitura, publicado no meu blog. No final do texto, há uma lista de livros, incluindo romances em que há personagens negros. Talvez você encontre um que esteja ao seu alcance, numa biblioteca perto de você, enfim. Boa sorte!