segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (8)

                                      Foto: Gilberto G. Pereira
Vista da Times Square, um dos pontos icônicos de Manhattan

Dia 8 (13 de julho de 2016)

“O epíteto é como uma nota musical única soando no início de uma composição” (Richard P. Martin). E Nova York tem muitos epítetos. Uma série deles retirei de Nova Yorkdelirante, de Rem Koolhaas. Nova York, “a capital da crise perpétua.” Nova York, “teatro do progresso”. Nova York, “Galápagos de novas tecnologias.”

Nova York, “acúmulo de possíveis desastres que nunca acontecem”. Acontecem, sim. O primeiro deles foi em 1904, com a virada de um barco lotado de passageiros, matando mais de mil, cena registrada em Ulysses, de James Joyce, sobre a qual falarei ainda. O segundo, gigantesco e abissal, foi o 11 de Setembro. Nova York, “máquina de prazer e hedonismo”, cujo coração é Manhattan, “esse grande linguado estendido sobre uma rocha” (Le Corbusier).

“Mesmo sob um simples ponto de vista realista, as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamente nos achamos.” Isso é Proust, obviamente. Em seu romance-oceano, Em busca do tempo perdido, Marcel, o narrador, planeja viajar para Veneza, seu tropo literário, seu desejo abstrato de beleza, de arte, seu ideal. Nova York foi e ainda é assim para mim.

A biblioteca
O hotel em que nos hospedamos fica na Rua 32, entre a 5ª Avenida e a Broadway, quase no entroncamento com a 6ª Avenida. Tínhamos duas opções de acesso à cidade ao sair do hotel, portanto: virando à direita para pegar a Broadway, ou virando à esquerda para chegar à 5ª Avenida. No dia 13 de julho, saímos do hotel, dobramos à esquerda até a 5ª Avenida, viramos à esquerda de novo e subimos em direção ao norte da ilha.

Um senhor me perguntou onde ficava a biblioteca púbica. Expliquei-lhe que já estava quase lá. Era só seguir reto até a esquina da Rua 40. Lá estaria um predião bonito, à esquerda. Só
não disse que estávamos indo pra lá também. Andávamos mais rápido, e logo chegamos. Minha irmã ficou encantada com o edifício, a ponto de dizer que era a coisa mais bonita que já tinha visitado.

Já tínhamos captado a skyline do sul de Manhattan ao ir à Estátua da Liberdade, passeado pela Ponte do Brooklyn, explorado o High Line Park, caminhado um pouco (mas ainda não de forma esquematizada) pelo Central Park, mas para ela, a biblioteca teria sido a coisa mais impactante. É claro que mais tarde ela se deslumbraria muito mais com o Museu de História Natural, com as mil faces do Central Park e com a vista exuberante do 86º andar do Empire State Building.

A Biblioteca é mesmo um lugar esplêndido. Seu interior é ainda mais pomposo do que a fachada. “Com uma biblioteca dessa é impossível ser ignorante”, pensei. Já havia fotografado a fachada da biblioteca do Bronx, onde Harold Bloom aprendeu a ler e a falar inglês, aos quatro anos, porque em sua casa só se falava íidiche. Mais tarde, fotografaria a biblioteca do Brooklyn, outra gigante de arquitetura fabulosa.

A Biblioteca Pública de Manhattan é um dos ícones da democracia americana. Sua construção começou no final do século XIX (1899) e foi terminar 12 anos depois, em maio de 1911. Dona de um fachada suntuosa, acabada em mármore, a biblioteca foi erguida num projeto combinando princípios clássicos das arquiteturas grega e romana, Renascença italiana e elementos da arquitetura francesa do século XVII.

Apesar da beleza, o que mais encanta é a ideia de ilustração com o acesso aos 4,3 milhões de livros distribuídos pelos diversos departamentos da biblioteca. Com isso, eu chegaria à conclusão de que tudo na Big Apple, além da sedutora máquina de fazer dinheiro, atrai mesmo as pessoas mais inteligentes do mundo, as mais sensíveis, as mais loucas, as mais ricas (ou que ficariam mais ricas), e as mais pobres que não escalariam nada.

Nova York é também um estalo de ilusão, que todos têm. E por isso há tanta pobreza ao redor, pobreza que o turista não vê se não sair de Manhattan, ou se ao menos não tiver a curiosidade de andar pelas beiradas da ilha, como o Lower East Side, dar um pulo na Tompkins Square, caminhar por ali.

Todos os nomes
Os grandes escritores de uma época migraram para Nova York atrás da aura de sonhos que pairava sobre a cidade. John Updike, Norman Mailer, Gore Vidal, Truman Capote, Joan Didion, Tom Wolf, Gay Talese, Philip Roth.

Djuna Barnes, Ralph Elison e John Steinbeck fazem parte da turma anterior, mas que moraram na cidade, morreram nela, como Walt Whitman também. O que é? É a água do Hudson? Não. São as pessoas. Pessoas atraem pessoas, um modo de vida, um desejo similar pulsando no mesmo compasso especializando o imaginário.

Damon Runyon (1880-1946), “considerado o principal cronista do submundo da Broadway”, é um caso curioso: nasceu em 1880, em Manhattan, uma cidade do Kansas, e morreu em 1946, em Manhattan, New York, New York. James Thurber (1894 – 1961), autor de A vida secreta de Walter Mitty, Dorothy Parker (1893- 1967), autora de Big Loira e outras histórias de Nova York, todos escolheram Nova York para viver e morrer. Walter Mosley nasceu em Los Angeles, mas mora em Nova York, como Spike Lee, que nasceu em Atlanta.

Novaiorquinos da gema que conheço de ler suas obras ou ver seus filmes existem aos montes, ou existiram em algum período não muito longe do passado. Eis alguns deles: Herman Melville (1819- 1891), autor de Moby Dick, Martin Scorsese, Woody Allen, que dispensam apresentação, Colin Harrison, autor de livros policiais como The Havana room e Noturno em Manhattan, Scarlett Johansson, a atriz mais bonita de Hollywood em atividade, que protagonizou um filme sobre a moça de turbante que fora a modelo preferida de Veermeer, pintor holandês, como holandeses foram os homens que fundaram Nova Amsterdã, mais tarde, entregue aos ingleses, passando a se chamar Nova York.

Al Pacino, Rosario Dawson, Frankie Lymon (1942 – 1968), Robert De Niro, Eric Roth, Anne Hathaway, Lady Gaga, Adam Sandler, Jerry O'Connell (que fez o engraçado, mas fraco filme Joe e as baratas, produzido pela MTV), Oliver Stone, Lucy Liu, Neil Diamond, Billy Crystal, Darren Aronofsky, James Mangold, Nicole Krauss. Todos nasceram em Nova York e absorveram o que a cidade tinha a oferecer, e criaram muita coisa boa em troca, contribuindo de algum modo para a riqueza simbólica e material do lugar.

Nicole Krauss, por exemplo, é autora de A história do amor e A memória de nossas memórias. Neste último, ela busca uma identidade universal, de inter-relações por meio de personagens de várias origens. É uma espécie de Nova York multiespacial, uma Nova York espacializada, fora da geografia, dentro da memória.

O romance de Nicole rearranja de modo positivo o sentido negativo da figura de Nova York que vemos em uma passagem de Ulysses, em que o narrador sugere que, a despeito de ser considerada a terra da liberdade, não se pode esperar muito de Nova York. “O que é que eles são? O rebotalho de tudo quanto é país, inclusive o nosso.”

Obviamente, este não é o pensamento de Joyce, e ademais, trata-se de uma passagem pequena, um registro de um tropo caro ao mundo moderno. Nicole Krauss, por sua vez, cria uma imagem inversa da demonstrada no romance do irlandês, além de seu romance ser um fruto novaiorquino.

Ela criou uma atmosfera que possibilitou mostrar que Nova York é mais que um rebotalho, mais que um refugo de pessoas do mundo todo, mas uma cidade síntese, produtora de significados plurais.

Alguém pode lembrar de Paul Auster, cujo trabalho como Trilogia de Nova York é mais significativo do que o de Nicole para Nova York, ou mesmo Isaac Bashevis Singer, autor de Sombras sobre o Rio Hudson, romance do qual falarei quando eu for escrever sobre o pôr do sol sobre o Hudson, num belíssimo dia que andamos pela orla do Hudson desde o Battery Park até o píer 45, já na altura do Greenwich Village, e de lá subimos ainda a 8ª Avenida até a altura da Rua 32.

Nova York é a cidade fascinante que inspira a criação de arte e a produção de estudos filosóficos também, como o de Félix Guattari em Revolução molecular, ou de Jean Baudrillard, em A troca simbólica e a morte e Tela total. Nova York é a fonte do rap e do grafitti. Nova York domina o olhar do mundo. É fruto do desejo.

Os cerosos  da Rua 42
Deixando a viagem literária para trás, nesse exato 13 de julho, saímos da biblioteca lá pelo meio-dia e descemos a 6ª Avenida, onde encontramos uma estátua relativamente grande do patriarca da independência do Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva. Fiquei empolgado ao me lembrar que a história do Brasil está na respiração de Nova York desde de seus primórdios com os 23 judeus holandeses que chegaram lá em 1654, saindo expulsos do Brasil.

Chegamos ao Madame Tussaud, na Rua 42. Dos nove museus que visitei em Nova York (Museu de História Natural, Museu da Cidade de Nova York, Guggenheim, Museu Nacional do Índio Americano, Museu da Herança Judaica, Museu de Arte Moderna, Museu do Brooklyn e Madame Tussaud), este foi o mais caro (quase US$ 160 dólares para quatro pessoas, sendo uma criança). Mas foi divertido e fonte de muitas fotos.

Passeamos pelos cinco andares do museu, tiramos fotos ao lado de ícones da literatura, do cinema, da música, do esporte e da política. Foi uma diversão. Uma das seções do museu é dedicada aos heróis da Marvel, com direito a uma sala de cinema de efeitos especiais, tipo IMAX.

Assistimos a um curta dos vingadores, em que o Homem de Ferro, o Incrível Hulk, a Mulher Maravilha e outros lutam contra inimigos, e quebram coisas que voam sobre nossas cabeças (virtualmente), espirram água que nos molham de verdade, sobem até o céu, sobem até tudo ficar gelado, e sentimos por alguns segundos o frio congelante das alturas, lutam e fazem o chão tremer, e sentimos o tremor em nossas poltronas.

Outra seção é dedicada aos fantasmas caçados pelos Caça-Fantasmas, além de figuras horrendas do cinema de terror. Estávamos na época do lançamento do novo Caça-Fantasmas. Não fomos a esse departamento horripilante. Fomos almoçar lá pelas 3 da tarde num restaurante grego, chamado Dafni Greek Taverna, na mesma rua do museu.


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