segunda-feira, 27 de junho de 2016

O grande mestre: a incrível história de Yip Man numa trilogia boa de se ver

Yen contracena com Mike Tyson, numa bela sequência de luta   

A trilogia O grande mestre, que conta a história de Yip Man, é quase ignorada pela crítica e pelo público geral, embora sejam três filmes que merecem atenção não só de quem gosta de artes marciais, mas também de quem se simpatiza pelo movimento feminista. À primeira vista, o espectador que desconhece a história da criação do estilo Wing Chun de Kung Fu talvez não veja os elementos que dialogam com a questão da mulher, mas eles estão lá.

Yip Man (1893-1972) foi o grão mestre chinês que conseguiu reerguer o Wing Chun após as artes marciais chinesas passarem pelo catastrófico embate da Revolução dos Boxers em 1910, em que o Ocidente impõe seu domínio sobre a China e consequentemente sobre sua cultura. Por acaso, Yip Man também foi o mestre de Bruce Lee, que levou o estilo ao cinema e o imortalizou.

O que há por trás da história contada na trilogia é o fato de Wing Chun ter sido um estilo de Kung Fu criado por uma monja Shao Lin de nome Ng Mui. Segundo a história, que se mistura à lenda, a monja presenciou o drama de uma jovem chamada Wing Chun, assediada por um fanfarrão rico do norte da China. Ng Mui desenvolveu o estilo com técnicas simples e poderosamente eficientes, dividindo-as em três categorias de golpes, quase todos com o uso das mãos e as ensinou à jovem, batizando o estilo de Wing Chun Tao (Caminho da Pequena Primavera), para que esta se defendesse do sujeitinho adepto, certamente, da cultura do estupro.

Quando o fanfarrão procurou a jovem novamente, Wing Chun deu-lhe uma surra histórica, e ele nunca mais apareceu na aldeia da família dela. Wing Chun havia se tornado mestre, difundindo sua arte pela comunidade. Isso havia ocorrido no começo do século XVIII, e a partir dos anos 1920 Yip Man entrou na história.

O Wing Chun é um estilo de movimentos econômicos, valorizando a rapidez e a eficiência dos socos mais do que a força em si. Como o Aikidô japonês, o Wing Chun se aproveita da força do oponente para se potencializar, buscando os pontos vulneráveis do adversário, atacando e defendendo ao mesmo tempo. A menor distância entre dois pontos é a reta, eis a filosofia do estilo.


Boas cenas de lutas

Cena do garotinho dando recado da mãe ao pai: 
"começa a lutar logo pra não quebrar as coisas."

A trilogia é dirigida por Wilson Yip, protagonizada por Donnie Yen (Yip Man) e Lynn Hung (Cheung, mulher de Yip). A história filmada se baseia na lenda em torno do nome do grande mestre, sem dúvida. Não é, portanto, exatamente uma cinebiografia. Donnie Yen atua com gestos contidos, semblante calmo, que deixa à mostra uma energia latente tal qual deve ser a representação de quem pratica o Wing Chun.

O homem poderoso, educadíssimo, sempre tranquilo, mantém um respeito absoluto pela mulher. Em vários momentos, mestre Yip deixa de lutar porque sua mulher não o quer lutando. O Wing Chun representa essa delicadeza. Muitas cenas são cheias de graça ou de vigor, a depender do momento. O filme também imprime a crônica dramática da vida dos chineses nas primeiras décadas do século XX, com a dominação repressora do império japonês.

Entre as cenas mais belas dos três filmes estão a que mostra a mulher de Yip consentindo-o que lute com um jovem mestre arrogante, dentro da casa de Yip. Durante a luta (do primeiro filme, de 2008), após muitas trocas de sopapo, objetos quebrados, e o mestre suavemente só se defendendo, enquanto o iludido jovem pensa ter alguma chance, um garotinho passa com o velocípede dando o recado: “Papai, a mamãe falou pra começar a lutar logo, senão vão quebrar a casa toda.”

No segundo filme (2010), a luta de Yip para ser aceito na confraria dos mestres em Hong Kong também é emblemática e plasticamente muito boa. Yip luta contra o mestre Hung Kuen, líder dos mestres da cidade, interpretado por Sammo Hung, um magistral lutador e ator chinês (gordo e impressionantemente ágil, por isso fez sucesso no cinema) que já apareceu em vários clássicos de kung fu, inclusive nos filmes de Bruce Lee, e protagonizou a série americana Martial Law, transmitida na TV Bandeirantes como Um Policial da Pesada.

A luta com Mike Tyson, que interpretou um chefão mafioso chamado Frankie, no terceiro filme (2015), figura entre as melhores cenas da trilogia. Tyson não é tão alto, tem 1,78m, na comparação com os campeões pesos pesados de box, como Muhammad Ali (1,89m), George Foreman (1,92m) ou Lennox Lewis (1,95m). Donnie Yen, que faz o mestre Yip tem 1,73m, mas o mestre Yip mesmo era mais baixo (1,63m), e o confronto entre Frankie e Yip fica interessante, à medida que o primeiro parece um Golias perito em box pronto a massacrar o David do kung-fu.

Na vida real, talvez fosse isso que acontecesse. Embora, na vida real, quer por generosidade e admiração, quer por uma convicção enviesada, quando Bruce Lee morreu em 1973, o “impávido” Muhammad Ali (1,89m) chegou a dizer do “tranquilo e infalível” lutador e ator sino-americano (1,69m): “Morreu o único homem capaz de me vencer.” Nessa época Ali estava no auge da capacidade física, da técnica e da arrogância.

Em todo caso, na fictícia luta entre o mestre Yip Man e Frankie (Mike Tyson) há uma sequência maravilhosa de troca de sopapos, esquivas e clinches. Yip procurou o mafioso para salvar sua família da perseguição dos subordinados de Frankie. “Dizem que você é invencível”, disse o grandalhão. “Te dou três minutos. Se você durar tudo isso, te deixo em paz.”

Yip Man é uma figura mítica na China. Sua história foi contada no cinema por outros diretores, incluindo o cineasta mais famoso da china, Ang Lee, ganhador do Oscar, em que se vê uma fotografia maravilha, uma produção impecável de cenário, mas não se sente a força da trilogia de Wilson Yip, que está em cartaz no Netflix e que o Leituras do Giba recomenda.


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