sábado, 26 de novembro de 2016

Todas as cidades, a cidade faz uma leitura semiótica da paisagem urbana

                                                                                      Foto: Agência Brasil
Vista do calçadão do bairro de Ipanema, paisagem icônica do Rio de Janeiro

Quando se chega a uma cidade desconhecida, uma possibilidade é que o recém-chegado deseje dominar os caminhos dela, captando as imagens mais relevantes que podem servir como referenciais. Se essas imagens, ou imagens análogas, já estão no imaginário do visitante, pode-se traçar um paralelo entre a cidade imaginada e a paisagem urbana real.

Outra possibilidade é que o espaço urbano que se percorre seja o berço do observador; então, procura-se identificar os caminhos e aperfeiçoar o reconhecimento deles, recriando-os de diversos ângulos.

A isso, se pode dar o nome de leitura, e essa leitura, dependendo do tamanho da cidade, pode durar a vida toda. Cada esquina dobrada pode ser interpretada como uma página que se vira. Um exemplo de pesquisa acerca de como o ambiente urbano foi e deve ser lido é o livro Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana, de Renato Cordeiro Gomes.

Publicado originalmente em 1994, o livro foi relançado em 2008, em edição ampliada (Editora Rocco, 208 páginas). Trata-se de uma crítica literária que se propõe a ler a cidade como livro de registro, cujo discurso tem “fios secretos e descontínuos”. Essa crítica traz uma junção de rigor analítico e amor ao objeto analisado.

Na primeira parte, o autor explora os códigos da cidade por meio de conceitos criados a partir de Paul Klee, Giulio Carlo Argan, Carlos Drummond de Andrade e Italo Calvino. No segundo ensaio, Gomes recorre aos olhares de grandes cronistas do Rio de Janeiro para ler a Cidade Maravilhosa. Mas é mesmo no primeiro ensaio que se encontra o cerne da leitura semiótica do autor, porque é mais universal. Os recortes indicados como essenciais na análise podem ser aplicados a qualquer cidade.

A grande aventura dessa busca pelos signos da cidade é a tentativa de encontrar nela os vestígios do efêmero, impresso pela modernidade, em meio à aparente fixação das coisas. Nos grandes centros urbanos, tudo muda vertiginosamente. O espaço não é o mesmo de um dia para o outro, a paisagem se retoca a cada instante.

Para ilustrar sua leitura, Gomes utiliza um conceito de Paul Klee (1879-1940), no quadro Uma folha do livro de registro das cidades, de 1928. Nesse quadro, o pintor alemão retrata a cidade como um livro aberto, fugindo da tradição arquitetônica de representação: “Uma folha do livro de registro das cidades serve de metáfora operatória e teórica para a leitura da cidade cifrada, da ‘cidade código’ (para repetir a imagem de Drummond), de múltiplas e complexas inscrições”, diz Gomes.

A complexidade dessas inscrições pode ser captada por meio de uma série de metáforas. Uma delas é crucial: o eco. Em um grande centro urbano, tudo vira eco, como se as configurações do espaço não dessem tempo de se acentuar, partindo imediatamente após o grito de sua chegada. Mas há também o eco das experiências distantes no tempo.

A malha semiótica

Para ler a cidade é preciso, portanto, contar com a imaginação e a memória: aqui ficava uma livraria, alguém pode dizer, e agora o que há é uma lojinha de R$ 1,99, ou uma floricultura, que nada impede de, ao passar amanhã, poder-se ver um grupo de pedreiros enfurecidamente colidindo o pequeno prédio para construir um edifício moderno e liso, sem os adornos de outrora.

A cidade é isso, segundo Gomes. É um conjunto de signos que podem ser levados a qualquer momento pelo tempo implacável. E o que permanece está apenas em seu livro de registro, na história da arte, na literatura, no olhar de cada um, mas nunca em forma geométrica certinha.

Neste sentido poético e fugidio, nessa mistura de visão crítica e protesto sutil contra o efêmero, o discurso da cidade é um labirinto. “A memória condiciona a leitura da cidade, uma busca de sentido explícito e reconhecível, que a sociedade moderna já não permite.”

As metáforas que podem ser ordenadas nesse livro de registro seguem linhas diversas e, todas elas, são importantes para a leitura. Podem ser metáforas visuais, determinadas pelos espaços. O Rio de Janeiro, por exemplo, tem o Pão de Açúcar, o Maracanã, as praias, o mar, baías e pontes, que são a cara da capital fluminense, e que, na produção do discurso, servem como imagens recuperadoras de uma cidade que se refaz diariamente.

Já São Paulo tem a Avenida Paulista, a Praça da Sé, o Parque Ibirapuera, o MASP, o Morumbi, o Pacaembu, o Teatro Municipal, o Vale do Anhangabaú, o Mercado Municipal, a 25 de Março, a Estação da Luz, os Jardins, o Rio Pinheiros, o Tietê.

As metáforas também podem ser orgânicas: “(o corpo ou o vegetal) expressam uma concepção da cidade.” Nesse sentido, há rios e esgotos (nas metrópoles, isso, às vezes, é sinônimo) que cortam o perímetro urbano e que são as veias. Mas há também outras artérias, o sangue, o coração da cidade, e assim por diante.

Há metáforas diagramáticas, bem representadas pela imagem dos átomos, os aglomerados que se unem e que se tornam indivisíveis, como bairro e morro, como centro e bairro. As metáforas arqueológicas são outro grupo de imagens que ajuda o leitor a se encontrar no registro histórico do espaço urbano, sugerindo, na interpretação de Gomes, “a escavação dos significados, para recuperar as ruínas da memória.”

A cidade é uma malha semiótica. Gomes salienta que quem a lê também a escreve ao mesmo tempo: “Ler/escrever a cidade é tentar captá-la nessas dobras; é inventar a metáfora que a inscreve, é construir a sua possível leitura. Cidade: linguagem dobrada, em busca de ordenação”, diz o autor.

Em Todas as cidades, a cidade: literatura e experiência urbana, oferece-se um instrumento crítico útil para a construção do texto das cidades: “Ler a cidade é escrevê-la, não reproduzi-la, mas construí-la, fazendo circular o jogo das significações. Assim, uma outra cidade pode ser inscrita na margem do livro de registro da cidade.”

Essa perspectiva tem guiado o labor dos cronistas, mas também dos romancistas e dos poetas que assumiram o espaço urbano como um elemento repertorial da sua produção. Inclusive, aqueles que pressupõem retratar a cidade como ela é, os jornalistas, também reescrevem a cidade, relendo-a e oferecendo ao leitor mais um livro sobre a cidade-alvo, uma chave de leitura a mais, muitas vezes menos poética, dura demais, como se fosse a face definitiva do urbano.

Rio de Janeiro et alii

O Rio de Janeiro tem sido objeto de abundantes e múltiplos tratamentos nos três gêneros da escrita literária. Bastaria citar, como exemplo simbólico, Machado de Assis. Outros escritores que têm focado o Rio de Janeiro na sua produção são Lima Barreto, Antônio Cícero (em A cidade e os livros), Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Rodrigo Lacerda (com Vista do Rio).

Em se tratando de crônicas, então, há simplesmente o panteão: Marques Rebelo, Rubem Braga, Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), Paulo Mendes Campos, João do Rio, Ruy Castro etc. Em relação a outros espaços urbanos brasileiros houve também seus respectivos construtores de cidades imaginadas e imaginárias. Drummond cantou Itabira e Rio. Ferreira Gullar fez louvores a São Luís do Maranhão e Rio.

Seria uma lista interminável, incluindo Mário de Andrade para São Paulo, junto com Menotti del Picchia. O mineiro Luiz Ruffato escreveu Eles eram muitos cavalos, que também se insere nesta leitura paulistana, além da pentalogia Inferno Provisório, em que aponta uma ligação entre o interior do país e a malha semiótica da cidade. José Castello (em O fantasma), Dalton Trevisan, Jamil Snege, Miguel Sanches Neto, Fábio Campana, escreveram Curitiba.

Mapa metafórico

Nesse marco de projetos literários de apropriação e reconstrução de cidades, insere-se a trilogia do baiano Antônio Torres, Essa terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, três romances que abordam a relação imaginária, sonhadora e desejosa entre os moradores de uma cidadezinha do sertão da Bahia e a grande São Paulo da década de 1970 aos anos 2000.

Na trilogia de Antônio Torres, uma das pontes dessa relação é o narrador, Totonhim, que viaja para São Paulo e se estabelece lá, tornando-se um deslocado, sem se adaptar completamente, sem se esquecer de todo da sua terra, e quando volta lá, também não a reconhece como o lugar onde nascera e vivera a infância.

Gomes nos oferece elementos semióticos para mostrar como foi feita a leitura da cidade na obra de Torres. Numa das passagens do segundo volume, O cachorro e o lobo, Totonhim se lembra de quando era menino e um caixeiro viajante passou por Junco, sua terra natal, e causou um alvoroço ao mostrar fotografias do Rio de Janeiro e de São Paulo à população:

O homem viajado e portador do objeto mágico, cuspidor de palavras persuasivas como um exímio propagandista de remédio para unha encravada e dor de dente, ajeitava os visores da sua engenhoca fantástica aos olhos dos espectadores e passava a mover uma minúscula manivela, para mudar as imagens, que por sua vez se resumiam a uns já surrados slides de São Paulo – o Viaduto do Chá, o edifício do Banco do Estado, a Praça dos Correios, o monumento do Ipiranga, ruas e avenidas espetaculares. E do Rio de Janeiro: o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, Copacabana, o mar, o mar – eta marzão pai-d`égua – e mulheres lindas, estonteantes, maravilhosas... de maiô! E essas eram mesmo de desmaiar. Com que então existia um mundo assim, lá longe, como esse deslumbrante Brasil de cinema? Isso era demais para os olhos de quem nunca havia mirado mais do que uns pés de grota.

Esta é a primeira leitura de Totonhim de cidades grandes, o livro número 1, a partir do qual ele escreverá/lerá a metrópole que escolheria para viver. Com o esquema semiótico de Gomes aplicado a essa malha literária de Torres, percebemos a diversidade de pontos que nascem da leitura da cidade.

Chave

Nesse sentido, Todas as cidades, a cidade é como uma chave que abre as possibilidades de leitura. Para a aventura do olhar, para a leitura de qualquer cidade dessas, o livro do professor Renato Cordeiro Gomes parece ser uma ferramenta realmente útil.

Segundo Gomes, o processo de metaforização são estratégias que buscam sustentar a leitura da cidade tal qual um texto cuja tessitura vai tornando-se cada vez mais volátil, rarefeita: o sentido da cidade como um lugar intimamente ligado aos obstáculos para dizer o que ela poderia significar.

Os “vestígios do efêmero” projetam a impressão de que a paisagem se retoca o tempo todo, gerando a visão de que tudo se move e de que o que fica é um vestígio do que já foi. O eco, como a “aparente fixação”, é a metáfora da recuperação do que passou e ficou como vestígio.

O Edifício Martinelli, por exemplo, encravado no centro histórico de São Paulo, traduz bem isso. É ao mesmo tempo um vestígio do que fora no passado, o prédio mais alto da capital paulista, símbolo de glamour e riqueza, e a fixação, o prédio está lá, ainda existe, mas já não é o que fora um dia. É um eco.


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