quinta-feira, 21 de agosto de 2008

BIOGRAFIA MÍNIMA: vida de Giordano Bruno é contada em livro recém-publicado nos Estados Unidos

A jornalista norte-americana Joan Acocella escreveu na edição da The New Yorker desta semana (18 a 25 de agosto) uma bela resenha sobre a biografia de Giordano Bruno, que acaba de sair nos Estados Unidos.

Giordano Bruno: Philosopher/Heretic [Giordano Bruno: filósofo e herege, em tradução literal] foi escrito pela historiadora, especializada em Renascença, Ingrid Rowland. Inédito em português, o livro é a primeira biografia do pensador italiano escrita em inglês, segundo Acocella.

A jornalista começa sua resenha dizendo o seguinte:

“Em 1600, o Campo de Fiori de Roma, hoje uma bela praça rodeada de cafés, era uma das áreas de execução da cidade. Na Quarta-Feira de Cinzas daquele ano, Giordano Bruno, um filósofo e ex-padre acusado de heresia pela Inquisição, foi levado até lá e queimado na fogueira.

A data foi cuidadosamente pensada. Quarta-Feira de Cinzas é o primeiro dia de penitências do Cristianismo. Quanto ao ano, o Papa Clemente VIII escolheu 1600 porque era o Jubileu da Igreja – festividade que seria engrandecida com a execução de um herege importante.

Bruno foi para o Campo de execução montado numa mula, o meio de transporte tradicional dos enviados para a morte. (Também era um meio prático. Após anos em prisões da Inquisição, muitos dos condenados não conseguiam andar) Quando chegou e foi amarrado na fogueira, um crucifixo foi sustentado diante de seu rosto.

De acordo com uma testemunha, ele se virou com raiva. Não conseguia falar; havia sido amordaçado com um cabresto de couro. (Alguns dizem que era uma ponta fina de aço cravada em sua língua) Estava atado a uma estaca, e a fogueira acesa. Quando acabou de ser queimado, seus restos foram jogados no rio Tibre.”


Com essa introdução, digna de uma descrição de romance policial best-seller, Acocella passa a falar de como Rowland pintou Giordano Bruno. Em primeiro lugar, o início. Filho de comerciantes, Bruno nasceu em 1548, na pequena Nola, perto de Nápoles, que na época era a quinta maior cidade do mundo.

A formação

Era um garoto solitário e intelectualizado. Aos 14 anos, a família o mandou para Nápoles, para estudar, e aos 17, entrou para o monastério dominicano San Domenico Maggiore, instituição napolitana responsável pela educação dos filhos da nobreza local. Foi lá que ele entendeu como funciona o mundo da classe dominante, além de ter conhecido o filosofia neoplatônica, que mudaria sua maneira de pensar.

Segundo Rowling, Giordano Bruno tinha três personalidades. A primeira era escolástica, com um rígido sistema de construção lógica. A segunda era um personalidade de exaltação poética platônica. E a terceira, “‘uma sombria inteligência vinda da casa de seus pais e das ruas perigosas de Nápoles”.

Em Nápoles, ele morava numa pensão localizada num “aglomerado de casas de pescadores, costureiras, transportadores, lavadeiras, carpinteiros, açougueiros, ferreiros e vendedores de água, que andavam de pés descalços no agradável clima e viviam basicamente de pães e figos.”

Rowland argumenta que as experiências dessa época ensinaram Giordano Bruno importantes habilidades para a sobrevivência. “Talvez essa experiência também tenha sido a fonte daquilo que mais tarde se tornaria sua idéia dominante sobre o universo: pleno e infinito”, escreve a biógrafa.

São essas idéias as principais causas de sua acusação de herege. É bom lembrar que no Brasil, a única obra do filósofo disponível em português é justamente a que fala do universo: Giordano Bruno: acerca do infinito, do universo e dos mundos (publicado por várias editoras).

Entre outras heresias, ele confirmava a teoria copernicana segunda a qual a Terra girava em torno do Sol e não o contrário, como queria a Igreja. História que todos conhecemos.

Autodenominava-se um homem “irritado, insubordinado e complexo, que não se contenta com nada, teimoso feito um velho de 80 anos, arisco feito um cão que levou mil chicotadas.”

Em vez de chicote, Giordano Bruno sentiria a ira santa e o ardor da fogueira inquisitória. Tudo isso por causa de sua inteligência e agudeza de espírito, aliadas ao comportamento subversivo.

Viagens e decepções

Ele se tornou padre aos 24 anos. Aos 27, recebeu um título equivalente ao doutorado em Teologia. Nessa época, apropriou-se de quadros de arte sacra para decorar seu quarto, e também começou a dizer que Jesus não era totalmente divino, utilizando os argumentos de um padre chamado Ário, do século IV, argumentos que ficaram conhecidos como heresia ariana.

É interessante lembrar aqui que, contemporâneo a Giordano Bruno, havia um moleiro italiano, que pregava algo semelhante aos argumentos de Ário. Era Domenico Scandella, o Menocchio, que também foi queimado em 1600 (leia mais).

Voltando a Bruno, em razão de suas atitudes, foi expulso e excomungado pela Igreja. Aproveitou a oportunidade para viajar durante 15 anos pelas cidades de Genebra, Toulouse, Lyon, Paris, Londres, Oxford, Wittenberge, Praga, Helmstedt, Frankfurt, Zurique, Pádua e Veneza. Nunca permanecendo mais de três anos em cada cidade.

Abro aspas aqui para citar o texto de Acocella, que por sua vez também cita a autora do livro, sobre o que aconteceu com Bruno nessas viagens.

“Em todas as cidades de sua viagem, procurava emprego como professor de filosofia. Em alguns lugares, ele arranjava colocação. Em Paris, deu uma série de 30 conferências sobre Lógica e Metafísica. Em outros lugares, tinha menos sorte.

Em Oxford, quando deu uma aula-teste, o público veio abaixo, rindo de seu sotaque e seu jeito napolitano de falar com as mãos. (Ele passou a odiar os ingleses a partir de então. Eles ‘te olham com o nariz empinado’, dizia, ‘riem de você ... peidam em você com os lábios’).

Às vezes, ele mesmo estragava tudo. Durante sua estada em Genebra, publicou um jornal listando 20 erros que um professor do alto escalão havia cometido numa única conferência. Foi processado por difamação e teve de sair da cidade às pressas.”

Ao deixar Genebra, voltou para a Itália, escolhendo logo Roma. Erro fatal. Foi denunciado por um aluno seu e capturado pela Inquisição.

Subversão e coragem

De acordo com a biógrafa, embora não haja muitos dados sobre seu julgamento, há uma história que ilustra bem a subversão e a coragem de Giordano Bruno até o fim. Afinal, é preciso ter coragem para fazer o que fez.

“Ele disse aos inquisidores que se o Papa viesse pessoalmente se certificar de que suas ações eram definitivamente heréticas, ou se o Espírito Santo dissesse que sim, então ele se retrataria. Caso contrário, não.” Não houve resposta, claro, e o filósofo foi queimado na Fogueira Santa, aos 52 anos.

No final da resenha, Acocella avalia o livro de Rowland dizendo:

“Rowland faz o melhor que pode com o material que possui sobre Giordano Bruno, mas tem em mãos um grande problema, pois sabe-se muito pouco sobre a vida dele. Ela não consegue nos dizer muita coisa sobre sua infância, seus ensinamentos, suas amizades, ou sobre seu caráter moral. E quando tem alguma coisa para dizer, geralmente é um conjunto de dados indisciplinados difíceis de se encaixarem no resto da história.”

Mas, nas últimas linhas, a resenhista faz uma ressalva: “O livro tem uma grande e compensativa virtude. Não importa quem tenha sido Giordano Bruno, ele foi uma mente rebelde e extrema, e Rowland soube mostrar isso muito bem.”

Para quem gosta de histórias medievais/renascentistas, envolvendo inteligência rebelde e inquisição, eis aqui uma dica.

5 comentários:

superlativa disse...

vamos achar o gilsonnnn e cia., ou não?

b.m. disse...

Cara, bem legal o seu blog. Dei uma olhada nos textos de cima a baixo e me parece bem atualizado e informativo; vou linkar e devo aparecer mais vezes.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, B.M.!

Anônimo disse...

Interessante. Dê uma olhada no site www.acropolis.org e vai encontrar outras coisas legais sobre Bruno e a filosofia em geral.

Anônimo disse...

Gostei bastante desse seu topico sobre giordano bruno, pois esta ajudando-me a realizar meu trabalho de litaratura, que se trata da vida dele. E devido as informações atuais e do bom conteudo do seu blogge estou melhorando meu trabalho.