domingo, 19 de agosto de 2007

POR QUE FREUD ERROU: a morte de Freud

Os intelectuais franceses, defensores entusiastas da teoria freudiana, sofreram um baque em 2006 com a publicação do Livro negro da psicanálise. Há na mídia de lá um grande debate em torno da cientificidade da obra de Freud. Na mídia de lá, porque nos Estados Unidos e na Inglaterra, por exemplo, Freud já está morrendo.

Entre os livros mais contundentes contra as idéias do médico austríaco é Por que Freud errou, de Richard Webster, que passou uma década pesquisando a vida e a obra do autor de Interpretação dos sonhos para chegar à conclusão de que a Psicanálise é falsa ciência, que em sua essência o que há é um “cientificismo inexorável, redutor e subordinado à necessidade da fama que o afundou [Freud] cada vez mais num labirinto de erros”.

Um dos objetivos do livro é mostrar que, em vez de profundidade revolucionária, as idéias de Freud demonstram inexatidão e camuflagens retóricas. Quanto à aceitação do que Webster escreveu, ele mesmo é realista: “Qualquer trabalho que critique Freud corre o risco de provocar fortes ressentimentos”. Mais do que isso, quem segue mesmo os ensinamentos do gênio austríaco não leva a sério nada que rebata sua eficácia terapêutica. Isso porque a Psicanálise é mais do que uma simples teoria, é uma ótima fonte de renda. O próprio Freud o confessou, segundo Webster, citando um ex-discípulo do psicanalista, Sandor Ferenczi.

Em seu diário secreto, Ferenczi teria escrito que desconfiava da eficácia da Psicanálise, e “‘como prova e justificativa dessa desconfiança, lembro algumas declarações que Freud me fez. É óbvio que ele confiava em minha discrição. Disse que os pacientes não passavam de ralé. Só serviam para ajudar o analista a ganhar a vida e oferecer material para a teoria. É claro que não podemos ajudá-los. Isso é niilismo terapêutico. No entanto atraímos os pacientes escondendo-lhes essas dúvidas e incentivando suas esperanças de ser curados. (...) Outra prova é a aversão [de Freud] (...) a psicóticos e pervertidos, na verdade, sua aversão a tudo que considera “anormal demais”’” (página 322).

Webster não se cansa de gritar contra Freud. Quer mesmo acabar com a farsa, e é convincente em suas investidas. Para ele, o Inconsciente, a principal invenção freudiana, “não é apenas uma entidade oculta para cuja existência verdadeira não há qualquer prova palpável. É uma ilusão produzida pela linguagem – uma espécie de alucinação intelectual”.

Freud levou anos plantando suas idéias na cultura ocidental, e muita gente acreditou nele, e gente importante, formadora de opinião, a tal ponto que hoje somos quase todos freudianos. Segundo Webster, o que ele queria mesmo era notabilidade. Seu erro foi querer que fosse ciência um conjunto de idéias improváveis e especulativas acerca do comportamento humano, muitas das quais só podem ser pensadas dentro da religião e da arte, não dentro da ciência. Outro engano foi o fato de a maioria das doenças que ele diagnosticou como histeria “na verdade vinha de males orgânicos que escaparam à identificação do próprio Freud e da medicina do século XIX como um todo”, numa época que não havia, por exemplo, o eletroencefalograma.

Hoje, nem mesmo os freudianos levam a sério o conceito de histeria. Muita coisa mudou dentro da Psicanálise desde seus primeiros fundamentos. O próprio Freud fez várias mudanças sempre que se defrontava com erros gritantes, não para corrigir o erro em si, mas para não ser flagrado como charlatão. Mas na evolução da teoria, os maiores contribuintes para um verniz mais aceitável, partindo para uma concepção mais literária, de criação poética, e até terapêutica, psicológica, segundo Webster, foram seus seguidores.

Entre os discípulos, no entanto, há um em especial que Freud queria adotar como seu sucessor, mas este era esperto demais para se submeter à falácia do pai da psicanálise e se rebelou para criar a sua própria teoria, que vem rivalizando com a de Freud até hoje. Trata-se de Carl Gustav Jung. No fim de sua relação com Freud, Jung escreve-lhe uma carta que demonstra claramente o conflito entre os dois.

“Posso lhe dizer algumas palavras com toda a seriedade? Admito a ambivalência de meus sentimentos para com você, mas estou inclinado a adotar uma visão honesta e absolutamente franca da situação. (...) Eu salientaria que sua técnica de tratar seus alunos como pacientes é um erro crasso. Dessa maneira, você gera filhos escravos ou bonecos (Adler-Stekel e todo o bando insolente lançando agora seu peso em Viena). Sou objetivo o bastante para ver por trás do seu truquezinho. Você anda por aí bisbilhotando todas as ações sintomáticas em sua vizinhança e com isso reduzindo todos ao nível de filhos e filhas que, enrubescidos, admitem a existência de seus erros. Enquanto isso, você fica firme no alto como o pai, bastante assentado. Por pura obsequiosidade, ninguém ousa puxar o profeta pela barba e perguntar de uma vez por todas o que diria a um paciente com a tendência de analisar o analista em vez de a si mesmo. Certamente, você lhe perguntaria: ‘quem é o demente aqui?’.

Como vê, meu caro professor, enquanto lançar mão desse material, pouco estou ligando para minhas ações sintomáticas; elas se reduzem a nada comparadas ao brilho no olho do meu irmão Freud. Não sou nem de longe neurótico – bato na madeira! Submeti lege artis et tout humblement à análise e estou muito melhor por isso. Você sabe, claro, até onde chega um paciente com a auto-análise; não sai de sua neurose – exatamente como você. Se algum dia se livrar inteiramente de seus complexos e deixar de representar o pai para seus filhos, e em vez de apontar o tempo todo para os pontos fracos deles, der uma boa olhada em si mesmo para variar, aí eu me corrigirei e ao mesmo tempo perderei o hábito de vê-lo com ambivalência. Ama os neuróticos o bastante para identificar-se sempre com eles? Mas talvez você odeie os neuróticos. Nesse caso, como pode esperar que seus esforços para tratar seus pacientes com tolerância e amor não sejam acompanhados de um sentimento mais ou menos contraditório? Adler e Stekel foram tapeados por seus truquezinhos e reagiram com insolência infantil. Continuarei ficando perto de você publicamente e mantendo ao mesmo tempo minhas próprias opiniões, mas em particular passarei a dizer-lhe em minhas cartas o que realmente penso sobre você. Considero essa maneira de agir simplesmente decente.”

Depois dessa carta, claro, as relações dos dois azedaram de vez, e Freud reuniu todas as suas forças para expulsar o discípulo rebelde, “brutal e hipócrita”, segundo ele mesmo, da confraria psicanalítica. No dia 6 de março de 2006 foi celebrado o sesquicentenário do nascimento de Sigmund Freud. Uma coisa não se pode negar: quem leu Interpretação dos sonhos sabe que não pode desprezar o poder de persuasão do médico austríaco. E se sua teoria não serve para curar doenças da alma, é útil ao menos para aliviar o estresse da vida moderna, ou rearranjar a consciência, como literatura de alcances abissais.

2 comentários:

thaisa disse...

nao estava muito satisfeita com o q havia lido sobre freud, e ai passei a pesquisar mais sobre o mesmo. este texto abriu meus olhos e me deu a certeza d q nao estava errada em discordar do q vi.
isso foi muito bom.

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Thaissa! Eu comecei lendo o livro desconfiando do autor (Webster), mas ele me foi convincente também. Mesmo assim, continuo achando Interpretação dos Sonhos uma fonte inesgotável de invenção e beleza (literatura da melhor qualidade e um ótimo tratado da verdade, levando em conta que a verdade é um conjunto de crenças que permeiam a linguagem e a cultura humanas. Em função disso, a obra de Freud oferece a possibilidade de reajuste, de reorganização de um mundo particular).