domingo, 31 de agosto de 2008

AS IMAGENS DE AFRODITE: exposição de uma deusa na história da arte

Vendo as pinturas que representam Afrodite (Vênus, em latim), sentimos a força de uma deusa fascinante, certamente porque é a senhora do amor, e em nosso imaginário, não há nada mais belo. Mas antes de tudo, ela é a deusa da beleza, e não há nada mais apaixonante do que a imagem do belo.

As imagens que se seguem retirei do livro de Wendy Becktt (1930 - ), História da pintura. São cinco quadros que narram a trajetória de Afrodite nas artes visuais, de certa forma. Embora haja mais pinturas da deusa que não entraram nesse livro, essas são as figuras mais representativas, porque cada uma delas capta um momento.

A leitura de Becktt sobre cada peça é um deleite, é de quem entende, é uma aula.

O nascimento de Vênus

A eterna inocência paira, ou chega, em meio à tristeza

Este é o quadro mais célebre dos que representam a deusa: O nascimento de Vênus. Pintado no período da Primeira Renascença por Sandro Botticelli (1444 - 1510), entre 1485 e 1486, mede 175cmx280.

O que vejo nesta pintura é uma eterna inocência, em meio a uma tristeza cuja razão nem sei. Mas Beckett tem muito a dizer sobre as figuras que recebem Vênus saindo do mar, as árvores ao fundo e a concha de onde ela sai.

Da concha e da criação

“Botticelli retrata Vênus ao primeiríssimo sinal de ação, com uma bela e complexa série de flexões e voltas, quando a deusa está para sair da gigantesca concha dourada de vieira. Vênus foi concebida quando o titã Crono castrou o próprio pai, o deus Urano; os genitais cortados caíram no mar e o fertilizaram. Aqui, a bem dizer, não temos Vênus quando nasceu das ondas, mas sim o momento em que, levada pela concha, ela chega a Pafo, em Chipre.”

Zéfiro e Clóris, à esquerda

“Com os membros entrelaçados, Zéfiro e Clóris voam como entidade dual: de faces coradas, Zéfiro (do grego zéphyros, ‘vento oeste’) sopra vigorosamente enquanto a bela Clóris exala o hálito quente que leva Vênus para a terra firme. À volta deles, chovem rosas, que, segundo lenda, surgiram no nascimento da deusa. Cada rosa tem um coração dourado.”

A ninfa, à direita

“Essa ninfa pode muito bem ser uma das três Horas, as deusas gregas das estações que eram acompanhantes de Vênus. Tanto o seu traje suntuoso quanto a linda capa que ela estende para Vênus são bordados com margaridas vermelhas e brancas, prímulas amarelas e centáureas azuis – todas flores primaveris, apropriadas ao tema do nascimento.”

As árvores

“As árvores são parte de um laranjal em flor (correspondente ao sagrado jardim das Hespérides nos mitos gregos), e cada uma das pequenas florescências brancas recebeu um toque dourado. O ouro é usado por toda a pintura, o que acentua o papel dela como objeto precioso e reverbera a condição divina de Vênus. As folhas, verde-escuras, têm pecíolos e contornos dourados, e os troncos são realçados com linhas diagonais curtas e, também, douradas.”

Para fechar a leitura de O nascimento de Vênus, Beckett vai ao ponto crucial da relação entre amor e alma:

“Em O nascimento de Vênus, esse desejo veemente, essa tristeza obsessivamente intangível, fica ainda mais visível no rosto adorável da deusa, trazida pelos ventos a nossa costa escura, onde vestes suntuosas estão prontas a cobrir-lhe o corpo harmonioso e nu. A pintura afirma que não podemos contemplar o amor despido; somos demasiado fracos, talvez demasiado conspurcados, para suportar a beleza.”

Vênus e Adonis

A deusa suplica, e até Cupido chora de pena

A imagem é clara. Afrodite está desesperada. Ela suplica. Sujeita-se à humilhação por um beijo de Adônis. O nome da pintura da Alta Renascença italiana é Vênus e Adonis, pintada em 1560, por Ticiano (1488 - 1576).

De acordo com a mitologia grega, Adonis é fruto de um incesto. Mirra, sua mãe, era muito bonita e queria rivalizar com Afrodite em beleza.

Mas a deusa, perversa, lançou-lhe um feitiço que a fez se apaixonar pelo próprio pai, Téias, o rei da Síria, que foi seduzido e acabou tendo um caso de amor com a filha.

Ao descobrir a verdade, Téias perseguiu Mirra com a intenção de matá-la. Para protegê-la, os deuses a transformaram em árvore, cuja casca, tempos depois, se abriu para o nascimento de Adonis.

Afrodite ficou admirada com a beleza da criança e, tocada por um profundo sentimento, pegou Adonis e o entregou secretamente a Perséfone que o levou para o Hades, terra dos mortos.

O trato era que depois Perséfone devolveria a criança a Afrodite, o que não aconteceu, porque Perséfone também caiu de amores pela criança.

Para resolver a contenda, Zeus – o deus supremo do Olimpo – decidiu que Adonis ficaria quatro meses com cada uma. Os outros meses, passaria onde quisesse.

Mas, Adonis, já adolescente e cada vez mais belo, ficava os oito meses com Afrodite. É nessa fase de sua vida que Adonis morrerá, e Afrodite sabe disso, diz a ele, mas ele não quer acreditar, jovem que é, e a deusa não pode fazer nada.

Daí a súplica do beijo. Daí a posição de desespero. A pintura capta um momento único em que amor e morte se misturam no olhar suplicante da deusa.

O mito é cheio de fendas que permitem várias interpretações desde o começo. Há duas versões interessantes: a primeira diz que Ártemis, deusa da caça (Diana, em latim), enviou javalis furiosos contra Adonis, durante uma caçada, matando-o, sem que se saiba a razão (mas é bom lembrar que a mãe de Perséfone é Deméter, deusa da fertilidade agrícola, Ceres, em latim); a outra diz que foi Ares, deus da guerra, que matou Adonis por ciúme de Afrodite.

Em todo caso, a pedido da deusa do amor, Zeus transformou Adonis em anêmola, flor da primavera, e onde seu corpo foi estraçalhado criou-se um belo jardim.

Segundo Beckett, “são os tons trêmulos que tornam tão maravilhoso o Ticiano tardio, a beleza tenra e bruxuleante da carne. Vênus mostra-nos as magníficas costas e nádegas, sedutoramente arredondadas, que prometem muito. Adônis é uma contraparte rija e viril à maciez de Vênus. O cabelo arrumado da deusa denota deliberação – não se trata de nenhuma dama desgrenhada em sua alcova. Aliás, os dois dormiram ao ar livre, debaixo de um céu inquietante. Os grandes sabujos, mais sensatos que o dono, percebem algo errado, e mesmo Cupido chora de pena.”

Alegoria com Vênus e Cupido
Pintado em 1545, o quadro faz referência à sífilis

Nesta pintura de 1545, feita por Bronzino (1503 - 1572), sob o título de Alegoria com Vênus e Cupido, a deusa aparece com ar libidinoso, beijando Eros com os lábios entreabertos. Há muitas figuras ao redor, forçando uma rica leitura simbólica. Mas a leitora aqui é sempre Beckett, e ela cita outro especialista para interpretar o quadro:

“Alguns acharam que se tratava de uma alegoria do incesto, inerentemente pervertida. Mas, em 1986, um médico propôs uma explicação muitíssimo plausível, afirmando que a pintura era uma referência à sífilis. A figura atormentada à esquerda é uma ilustração intrincada na qual abundam os sintomas clínicos da doença e um ou dois efeitos colaterais dos tratamentos usados no século XVI. Segundo essa hipótese, o amor ilícito é ajudado pelo Engano, que oferece um favo de mel. Uma criança, que representa os logrados, corre para desfrutar o prazer. O resultado do abraço ignorante é a sífilis. O Tempo expõe a doença puxando o pano de fundo azul, para revelar a Verdade, que se esconde de Vênus e Cupido.”

Vênus, sátiro e Cupido
As curvas de Afrodite, adormecida, nesta pintura despertam o desejo de qualquer um

Assim como Bronzino, Corregio (1489 - 1534) viveu no período maneirista da Renascença italiana. Foi ele quem pintou Vênus, sátiro e Cupido, entre 1524/1525. Neste quadro, Afrodite aparece lânguida e sensual. É o amor entregue ao farniente, ao prazer da lassidão. As curvas de Afrodite, adormecida, nesta pintura despertam o desejo de qualquer um.

No entanto, diz Beckett:

“Vênus, sátiro e Cupido expressa completa languidez sensual, mas há inocência em sua carnalidade, uma sensação de viver antes que o homem fosse expulso do Éden. Cada corpo reflete individual e diferentemente o luar; as proporções estão erradas, mas de um modo sutil que, por isso mesmo, as torna moralmente ainda mais tranqüilizadoras.”

Vênus consola o Amor
Sua nudez insiste em desviar meu olhar para a concupiscência

É a pintura mais diáfana desta série, de sutis traços harmoniosos, lembrando ternura. O amor é terno, também. Neste quadro pintado por François Boucher (1703 – 1770) em 1751, longe da Renascença, já no final do Barroco francês, Afrodite é representada na condição de mãe.

Apesar de Afrodite continuar bela, e sua nudez insistir em desviar meu olhar para a concupiscência, o que me encanta na pintura é a relação de carinho entre mãe e filho, apontando um profundo laço de intimidade entre os dois.

Para fechar, fiquemos com as palavras de Beckett, certeiras sempre.

“Vênus consola o Amor flutua deliciosamente na tela com uma deusa nua e três bebês também nus. Todos os quatro guardam uma semelhança sobrenatural com o par de pombas corpulentamente emplumadas que vemos aninhando à beira da água. Aqui, nada é real e nada se pretende real. Mas a sensação de prazer com a beleza ideal é bastante verdadeira e transforma a obra em muito mais que simples trivialidade.”

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2 comentários:

Anônimo disse...

Gibalângelo Davinci,
Deliciosos os acepípes visuais que nos oferecem os Eternos, não? Todos superlativamente (lembrando Laurérrima) frescos, opulentos e apetitosos, mas o de Afordite e o Sátiro é de um teor erótico desconcertante; a deusa lânguida parece adormecida mas também apresenta um semblante de desfalecida, e este estado de entrega involuntária, alimentado pelo desejo escorregadio dos olhos gulosos do Sátiro, parece aumentar a voluptuosidade da cena. O desejo aminalesco do ser meio-homem(parte que atinge da cintura para cima, ou seja, é a parte consciente)e meio-animal (nem preciso dizer o que faz parte da parte animal...), e a posição indefesa e convidativa da poderosa são uma dose cavalar de catuaba na veia do expectador. Estou entregue. Os mitos acabam comigo.
Flávia Campbell.

Gilberto G. Pereira disse...

É verdade, Flávia. Lembrando também que o sátiro representa Dionisio, o deus do entusiasmo, da embriaguez, estado em que se fica ao contemplar a deusa. Em latim, Fauno.