quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Eu não sou seu negro

“O mundo não é branco. Branco é uma metáfora de poder.” James Baldwin


É preciso ver o documentário Eu não sou seu negro mais de uma vez para poder assimilar os inúmeros silogismos de James Baldwin sobre a bipolaridade entre brancos e negros (dominadores e dominados) nos EUA.

As palavras de Baldwin - na voz de Samuel L. Jackson ou na sua própria, em vídeos recuperados de entrevistas - cintilam ao longo do filme. Por causa de suas palavras, o documentário se torna um grande objeto de reflexão.

O racismo americano se manifesta de modo diferente do racismo à brasileira. Mas em muitas ocasiões, ao longo do filme dirigido pelo haitiano Raoul Peck, podemos tirar alguma lição para a análise de nossa própria realidade.

A tese geral de Baldwin é a de que pretos e brancos precisam se entender, isso é ponto pacífico. Mas os brancos, uma vez que o poder está com eles, é que precisam analisar o ódio contra os negros e sua dificuldade de aceitá-los num projeto integral de nação.

Para os negros, a ideia de que os brancos é que precisam tomar a iniciativa de um entendimento é mais fácil de ser assimilada. Somos nós que apanhamos de toda as formas. Mas quem não consegue compreender essa tese, basta seguir as palavras de Baldwin, enquanto imagens de negros sendo espancados ou humilhados por brancos passam na tela. A sensibilidade encarrega de mostrar a força da obra.

A violência é atual, tanto é que Raoul Peck utilizou vídeos da década de 1960 e dos últimos anos, em que negros foram assassinados ou espancados por policiais em várias cidades americanas, da mais cosmopolitana, Nova York, à mais interiorana, como Falcon Heights, em Minnesota, Estado que faz divisa com o Canadá, no Centro-Norte dos EUA.

O documentário de Raoul Peck concorre ao Oscar 2017, e foi muito bem avaliado pela crítica americana. A tensão fulcral da história narrada por Peck é a ferocidade do racismo nos EUA que em poucos anos de diferenças abateu três grandes líderes da consciência negra: Medgar Evers (1963) Malcolm X (1965), Martin Luther King Jr (1968).

A reflexão sobre a luta contra o racismo e os assassinatos desses três líderes, que eram amigos de Baldwin, fizeram-no escrever Remember this house, um roteiro incompleto, que viraria filme dirigido pelo próprio Baldwin, mas este morreu antes, em 1987, aos 63 anos, na França (Saint-Paul-de-Vence, litoral mediterrâneo), onde morava havia 39 anos. Peck o resgatou o texto inacabado e criou a seu modo um filme indispensável para os negros da diáspora e para brancos que não odeiam ninguém.

Peck é haitiano, ou seja, vem de uma país cuja história de luta pela liberdade e de capacidade intelectual é estupenda, mas que depois se perdeu, pela dizimação sistemática que as potências imperiais do século XIX impuseram sobre o Haiti.

Entre sua obra estão o bom documentário Lumumba, de 2000, sobre o líder anti-colonialista congolês Patrice Lumumba, assassinado aos 26 anos, em 1961, e Abril sangrento, um filme de 2005, sobre o genocídio de Ruanda impetrado pelos hutus aos tutsi. E agora Peck aparece com Eu não sou seu negro, esta película estupenda, merecedora de prêmios.

As lições de Baldwin são fascinantes porque ele não demoniza os brancos, embora nãos os coloque numa situação lisonjeira, como se lê na legenda da foto acima. Ele questiona o ódio racial fria e racionalmente. Sua obra literária, com romances importantes como GiovanniNuma terra estranha, é marcada pelo conflito de cor, mas também pela tentativa de personagens brancos se entenderem com personagens negros.

Segundo ele mesmo diz, talvez o que o salvou do ódio contra os brancos tenham sido o carinho e a atenção de uma professora branca quando ele era criança. A professora Orilla Miller, que os alunos chamavam de Bill, dava livros para Baldwin e conversava com ele sobre literatura e cinema.

Para um garoto nova-iorquino de 10 anos, negro e pobre, numa terra que exalava o enxofre do racismo, esse laço afetivo era uma emulação poderosa. Fez bem a Baldwin. Sua história e convicções políticas deveriam servir de luz para o caminho da consciência negra no Brasil. Por aqui, talvez seja mais fácil debater sobre uma aproximação verdadeira. Difícil mesmo é derrubar o cinismo.


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