segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (3)

                                                                                                                                                       Foto: Gilberto G. Pereira
Vista da 5ª Avenida, perspectiva do alto do 86º andar do Empire State Building: mais táxi do que carro de passeio

Dia 3 (8 de julho de 2016)

Chegamos a Nova York por volta das 22 horas do dia anterior. Passamos pela imigração no terminal 4 do JFK sem problemas. Pegamos as malas na esteira, passamos pelo hall de desembarque, e rejeitamos ofertas de táxis “clandestinos”, cujos motoristas ficam por ali fazendo seu serviço de pesca sem serem incomodados, como ocorre nas saídas de alguns aeroportos brasileiros.

Entramos na fila para pegar um táxi “oficial”. O motorista árabe marroquino  era um sujeito educado. Conversamos em inglês, e no final da viagem ele já estava tentando me convencer a aprender árabe, “porque é uma língua bonita e com ferramentas mentais que nos conectam com a verdade do mundo e de Deus”, não exatamente com essas palavras.

Concordei com ele, e disse que tenho um grande apreço pela cultura árabe, pela literatura, sobretudo, mas meu interesse não é exatamente na iluminação divina que, tenho certeza, existe de modo grandioso no cerne da língua árabe, como no das línguas hebraica, grega, latina, esses incomparáveis códigos verbais.

Ele então me disse que o inglês é uma língua rasa e que não ensina a pensar. E eu disse a ele que não podíamos subestimar um língua dentro da qual nasceu Shakespeare. Mas depois fiquei pensando que talvez não tenha sido a língua inglesa que criara Shakespeare, mas o contrário – Shakespeare é que teria recriado o inglês –, num exagero de pensamento nos moldes da ideia de Harold Bloom, segundo o qual, Shakespeare forjou o tipo de humano que se vive na modernidade.

O que o taxista não sabe, ou não quer saber, é que talvez o inglês tenha sido a língua capaz de criar um leito de pensamento em que teoria e prática de ideias tecnicistas prevaleçam. E isso seria a exata vantagem do pensamento ocidental. Neste sentido, talvez o inglês e as línguas modernas sejam quase anti-humanistas à medida que seriam também antideístas, digamos assim.

No hotel administrado por coreanos no Korean Town (Rua 32, entre a Quinta Avenida e a Broadway), nos preparamos para abraçar a cidade com pernas e braços, ouvidos, bocas, narinas e olhos. Estávamos a duas quadras do Empire State Building e a três do Madison Square Garden. Era a hora de mergulhar em Nova York. Era só dormir e esperar o amanhecer.

Motes, spots e holofotes
Enquanto preparava a viagem, procurei um mote para falar da cidade. Muitas coisas me vieram à cabeça. A primeira delas foi o grande cliché de todos os tempos: “Start spreading the news I’m living today.” Muita gente quer fazer parte disso, essa é a busca, mas começá-la por um clichê não é nada incrível. Não que eu vá encontrar o lado incrível de minha aventura em Nova York. No entanto, teria de começar com algo mais impactante, ao menos para mim.

Reli Garcia Lorca, Poeta em Nova York, e só ao reler é que me toquei que o poeta espanhol passou pela cidade exatamente nos anos da depressão (1919 e 1930). Eu esperava achar um verso interessante que desenhasse Manhattan com a precisão que Lorca desenhou Córdoba, “lejana y sola”.

Lorca enche a cidade de cores, bichos, orla cintilantes de sonhos e dores, recria Nova York em todos os boroughs, em todos os rios e ilhas, faz homenagem merecida a Walt Whitman, e diz em versos muitas coisas tristes (“Nova York de lama/ Nova York de arame e de morte./ Que anjo levas oculto na face?”), e deposita em minha alma essa Nova York cheia de sonhos e pesadelos.

Nova York lejana. Viajamos 12 horas, encapsulados, pelo ar para vê-la. Com os olhos de Lorca, vejo Nueva York, y és sola para unos muchos, embora se escancare de mingled souls (não resisti), almas mistas, prontas a criar novas conexões, entre uns poucos (os happy fews).

Revisitei a Trilogia de Nova York, de Paul Auster. Também tentei derrubar o segredo de Joe Gould para achar em seus escombros algo que me motivasse a começar a busca do mote perfeito. Joe Gould foi um personagem das ruas de Manhattan entre as décadas de 1930 e 1950, que gastava seus dias nas adjacências de Greenwich Village, bairro boêmio até hoje. Usava barba e “tinha algo de infantil e de perdido”, segundo Joseph Mitchell, jornalista da revista The New Yorker que publicou dois perfis dele.

Gould andava com um calhamaço de manuscritos debaixo do braço, aos moldes de Paulo Leminski quando escrevia o Catatau. Dizia que estudara medicina em Harvard na turma de 1911 e que estava escrevendo havia décadas um livro intitulado Uma história oral de nossa época, e por isso não podia se dedicar a um trabalho convencional, e por isso pedia trocados para o Fundo Joe Gould.

No primeiro perfil, O professor Gaivota, publicado em 1942, Joseph Mitchell descreveu Gould como uma figura excêntrica que estava levantando dados para uma obra brilhante sobre a moderna história oral, num texto que ficou famoso e levantou a bola de Joe Gould. No segundo e definitivo perfil, intitulado O segredo de Joe Gould, de 1964 (quando Gould já tinha morrido, em 1957), o autor descobre e desmascara a farsa involuntária de seu personagem, que não estava escrevendo nada.

Muito tempo depois, os dois textos foram reunidos e publicados como O segredo de Joe Gould, um clássico do jornalismo literário, gênero que mistura técnicas da narrativa literária com informações reais de interesse jornalístico, também chamado de Novo Jornalismo.

Os bastidores dessa história também são incríveis. Depois de revelar o segredo de Gould, Mitchell nunca mais escreveu nada, e o editor da New Yorker, William Shawn, nunca mais cobrou nada de Mitchell e jamais deixou de pagar seu salário, por 32 anos, até a morte do renomado jornalista em 1996.

Quando li o livro de Joseph Mitchell pela primeira vez, senti que eu era Joe Gould. Hoje, aos 41, ainda não escrevi nada de fato, mas estou sempre informando os amigos de algum projeto falido que me alimenta de esperanças.

Do livro de Mitchell, além do personagem, ficaram fincadas em minha alma as descrições topográficas de Nova York, das ruas que eu viria a percorrer nessa viagem inesquecível. Mas o mote não havia sido encontrado. E ainda estava a sua procura algumas semanas antes de viajar.

Das tiradas de Woody Allen, a que mais me impactou foi o coro grego em Poderosa Afrodite. Um conjunto de vozes falando comigo com aquela sapiência e ironia, com a carga sarcástica de séculos me acompanhando pelas ruas de Manhattan, talvez seria uma boa.

Mas no caso do coro, não era de fato um mote, uma palavra definidora, uma frase. Era uma imagem, uma companhia virtual, e de virtualidade eu já estava abarrotado. O que eu queria era uma definição verbal para continuar a jornada. Os clichês enumerados por Isaac, ou Ike, em Manhattan, também de Allen, não me ajudariam de igual modo.

Foi então que encontrei em Fantasma sai de cena, romance de Philip Roth, um de meus companheiros literários, a definição perfeita: “Bastaram poucas horas para que Nova York fizesse o que ela costuma fazer com as pessoas – despertar suas possibilidades. A esperança irrompe.”

A definição, no entanto, também pode vir de Hanya Yanagihara, escritora americana, nascida no Havaí, e residente em Nova York, onde é editora da revista T, do jornal The New York Times. Segundo ela, “Nova York é a cidade onde ninguém tem um passado e todos querem criar um futuro.”

A frase de Hanya é o tipo que dá para fazer uma raspagem e retocar o verbo. Ninguém quer ter um passado quando chega a Nova York. Todo mundo quer uma vida cheia de novidades e sucesso, um novo despertar. É claro que neste caso refiro-me aos que chegam para ficar.

Quem vem como turista (que é meu caso) para passar 13 dias e 14 noites, experimenta um voo raso sobre uma paisagem pontilhada de coisas para ver. É o suficiente apenas para fazer uma leitura de reconhecimento. Além disso, quero meu passado, junto comigo, do meu lado, como um clarão de luz iluminando meu futuro (minha consciência).

Mesmo com essas palavras bonitas de Hanya e de Roth, de efeito estético e sociológico interessantes, há outras definições para Nova York que chamam a atenção para o outro lado do deslumbramento. Em Histórias de duas cidades: o melhor e o pior da Nova York de hoje (leia resenha aqui), Tim Freeman (um dos vários autores do livro) nos sacode, tenta nos acordar do sonho, procura nos despertar como quem joga um balde de água fria do Hudson, ao dizer:

“Nova York é uma grande exportadora de sua cultura – do cinema à literatura, passando pela música e pela moda. O consumidor americano médio, todas as semanas, é exposto a centenas de referências a Nova York, que geralmente retratam o lado positivo, divertido e deslumbrante da cidade. Vemos o jovem rico, boêmio e talentoso; a modelo chique, a socialite sofisticada. O que as referências não costumam mostrar são as longas filas diante de um posto da previdência social, as crianças que vivem em abrigos para sem-tetos, a mãe solteira que vive de auxílio social recebendo uma notificação de despejo e os inquilinos de um prédio cujo gás foi cortado porque o senhorio se esqueceu de pagar à Con Edison.”


Medo e delírio em Manhattan
Confesso que na preparação da viagem senti medo, por ser a primeira viagem para fora do país (não pela língua, tenho segurança no inglês que falo, embora não tenha a pretensão do domínio da língua, do tipo falar inglês tão bem que poderia ser um repórter da CNN).

Que tipo de medo? A perda da vontade de ter coragem? Tudo é literatura. Será que o medo que sinto em visitar Manhattan seria apagado com coisas boas? Não descarto o coro de Allen. Por outro lado, não recuo diante de possíveis grosserias. Não tenho medo disso. Não receio enfrentar aquilo que já experimento em minhas cidades, por ser negro.

Receio a violência descabida, psicológica ou física, por ser estrangeiro e negro. Tenho medo. Medo de um certo racismo. Medo de não gostar do que esperava ver, medo de não ter medo, medo de não querer voltar. Minha paranoia se desfez em poucos minutos ao pisar em solo nova-iorquino.

Fastforward
Caminhei pelas ruas de Nova York de norte a sul, leste a oeste, caminhando como quem corre, como os nova-iorquinos, passei por homens e mulheres, ultrapassei madames chiques com bolsas caras a tiracolo, e pasmem, nenhuma delas escondeu a bolsa ao me ver passar apressado. Se houve esbarrão, não ouvi a ameaça de chamar a polícia, mas um recíproco “I’m sorry”. Senti-me tão à vontade e veloz naquela cidade de vidro e concreto.

New York, New York
No amanhecer do dia 8, tomamos café da manhã, e agora era hora de explorar Manhattan pela primeira vez. Descemos do sexto andar do hotel, passamos pela recepção e empurramos a parte esquerda da porta. Já eram cerca de 10 horas da manhã. O céu estava limpo, e eu sabia exatamente o que fazer.

Além do desejo despertado e do prazer desfrutado em Manhattan, a ilha encerra uma aura de mistério. Por que é tão especial? Por que tantos espíritos se encantam por este pedaço de chão que desperta possibilidades, trecho de terra cercada de água em que a esperança irrompe?

Há uma leve maresia sentida no vento constante que entrecorta os prédios de Manhattan. O vento passa retalhado entre as avenidas retas, de sul a norte, e talvez, penso eu, arranjem forças para varrer também as ruas que recortam as avenidas de leste a oeste. São os ventos do Atlântico Norte.

Sei muita coisa da história de Nova York, desde sua descoberta pelo inglês Henry Hudson, comandante do navio Meia Lua a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, da Holanda, em 1609, passando pela traçado urbanístico sui generis desenhado pelos holandeses, até seu surgimento como laboratório da modernidade, com sua arquitetura simétrica, a invenção do elevador e a possibilidade de se erguerem os primeiros arranha-céus da face da terra, estimulando o mundo a levantar prédios que tocassem as nuvens.

Eu sabia de tudo isso antes de viajar, e conhecia o traçado da ilha e seu funcionamento urbano depois de vários estudos pelo Google e pelo Youtube. Mas meu conhecimento sobre a cidade vem das leituras e dos diversos filmes pregressos. Eis a origem real de meu interesse por Nova York, um interesse estético e humano.

A primeira coisa que fiz naquela manhã foi comprar uma câmera fotográfica, da melhor que pude, para estender meus olhos e apurar minha memória. Escolhi uma Nikon Coolpix P900 na B&H Photos, na 33 com a Nona, onde fui atendido por um vendedor que falava mil e uma línguas.

Eu agora estava dentro da ilha, sobre seu chão, correndo os olhos pelos lugares que experimentara no joystick da imaginação ao ler livros e nas imagens do cinema dos meus olhos, para citar uma expressão cunhada por Vinicius de Moraes.

À tarde, choveu. Estávamos na Times Square como quem faz uma exploração de reconhecimento, e voltamos sob chuva, caminhando pela Broadway até a rua 32, nossa base. Senti vontade de morar ali. Nova York desperta as possibilidades em você, e a esperança irrompe.

Vim para a ilha, que maravilha, sobre o mar pelo ar, para respirar o oxigênio de Manhattan, e assimilá-la, assimilhar os rios e o mar, maravilhado, assim, ilhado (lenape disfarçado), o mar, o ar, eu vi (meninos, eu vi) a ilha e a cidade inteira. Estava ali.

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