quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cool Heart – diário de viagem a Nova York (6)

                                                                                                                                                                                                                            Foto: Gilberto G. Pereira
Manhattan ao anoitecer: o belo skyline visto a partir do Brooklyn Bridge Park é uma visão realmente digna da Big Apple


Dia 6 (11 de julho de 2016)

O rap nasceu no Brooklyn e no Bronx, nasceu na verdadeira Nova York, a Nova York habitada pelos caras que colocaram a mão na massa para construir essa cidade desde os tempos holandeses da Nova Amsterdã. Os negros começaram a chegar a Nova York por volta de 1648, quando os holandeses descobriram que a agricultura não movimentaria a economia com a força necessária para fazer a cidade crescer. Foi quando começaram a comercializar escravos.

Séculos depois, os negros estavam livres dos grilhões da escravatura, mas ainda queriam se livrar da miséria a que foram relegados, e, entre tantas ferramentas de luta, inventaram o gênero musical que ia além do belo lamento do Blues e das palavras de amor, algo que batesse nos pontos cruciais da existência deles na sociedade americana.

“O rap teve início na década de 1970 nos bairros predominantemente negros de Nova York e Nova Jersey”, diz Ellis Cashmore. Gary Byrd teria sido o precursor com certa influência do DJ jamaicano Kool Herc, radicado no Bronx na ocasião. A primeira gravação de rap de sucesso comercial, com 2 milhões de cópias vendidas, foi Rapper’s delight, de Sugar Hill Gang, lançado em 1979, tipo ostentação: “I got a color TV/ so I can see/ the Knicks play basketball” (“Tenho um TV a cores, e por isso posso ver os Knicks jogar basquete”, diz o trecho em tradução livre).

Depois, veio o sucesso The Message, de The Grandmaster Flash and The Furious Five, em 1981, com um clipe que o leitor pode ver no Youtube, uma mensagem feroz sobre a New York City, dizendo que às vezes  a cidade parece uma selva e que é preciso cuidar para não perder a cabeça.

A letra retrata a miséria do negro no gueto das grandes cidades. Fala de “ratos na sala da frente/ baratas nos fundos/ sucata no corredor/ e um bastão de basebol”, para citar o trecho traduzido por Dinah Kleve do Dicionário de relações étnicas e raciais, de Cashmore.

Não é que eu seja um grande fã do rap (tampouco desgoste do gênero). Mas admiro a genialidade de rappers brasileiros como Emicida, e o talento incrível de Marcelo D2, por exemplo. Talvez  por isso, essas coisas flutuem na minha alma suspensa, como seivas que vão do caule para as folhas na imensa floresta da vida.


“No Brooklyn, tô sempre ali”
“Não sei qual que é! Se me vê, dão ré.” É o Sabotage dizendo que “o pobre sofre, mas vive”, narrando o fato diário de um negro caminhando nas ruas das grandes cidades brasileiras.  É Sabotage, fundador do rap visceral, do rap dionisíaco, misturando som absoluto com contestação. “Rap é o som”.

Sabotage nasceu numa favela incrustada num outro Brooklyn, o Brooklin, bairro da Zona Sul de São Paulo, batizado com este nome em homenagem ao distrito nova-iorquino. “No Brooklyn, tô sempre ali, pois vou seguir, com Deus, enfim.”

O Brooklin paulistano é um bairro de classe média, um bom lugar, mas não para Sabotage que nascera na favela do Canão, em 1973, ao lado de prédios de bacanas, levando uma vida miserável junto aos seus, “cotidiano difícil”, quase todos pretos.

Cresceu na miséria material, virou traficante de drogas, cometeu assassinatos, foi preso, e depois saiu do tráfico para tentar a vida como artista. Despontou na mídia ao fazer o filme O invasor, de Beto Brant, com Marco Ricca, Alexandre Borges (que faz papel de Gilberto, meu xará), Malu Mader, Mariana Ximenes e o agora ex-titãs Paulo Miklos, que conhecia o rapper.

Miklos faz o papel de um bandido que começa a trabalhar como jagunço para Gilberto, e acaba levando um rapper (Sabotage) da periferia para o ambiente do patrão, para que este o patrocine. Sabotage é co-autor da trilha sonora do filme e canta Um bom lugar em uma das cenas.  

Sabotage começou a fazer sucesso, mas não conseguiu se livrar da ligação com o crime, e um desafeto acabou metendo-lhe quatro  tiros nas costas, em 2003. Lembrei-me dele em plena Nova York. Essa cidade é a cara de artistas como ele, mesmo sendo ele pouco instruído, mesmo não sabendo como a língua portuguesa se estrutura, e muito menos outra língua, mesmo assim, tinha a força da língua na alma.

Para citar apenas um grande artista hoje, em Nova York, Jay-Z teve uma trajetória semelhante nas ruas do Brooklyn. Nasceu pobre em 1969. O pai abandonou a família quando Jay-Z (cujo nome de batismo é Shawn Corey Carter) tinha 11 anos. Um dia, o menino e seus colegas foram à casa de uma professora, em Manhattan, e ele então se deu conta de que era pobre.

Depois dessa cena, Jay-Z  e os colegas começaram a falar em ficar rico de qualquer modo. Veio o rap, veio o crack, e Jay-Z tornou-se rapper e traficante, esfaqueou um homem, foi pra cadeia, saiu, gravou um álbum, voltou para o tráfico, depois pegou a grana do tráfico de crack e montou uma gravadora, abandonou o crime, chegou ao topo com o rap, o seu e o de outros artistas que ele começou a produzir. Mais tarde, casou-se com uma das estrelas mais requisitadas do pop, Beyoncé.

Olhando por esse prisma da história louca de Jay-Z no Brooklyn nova-iorquino, Sabotage (cujo nome de batismo era Mauro Mateus dos Santos, que curtia Michael Jackson, Chico Buarque, Pixinguinha e mais tarde o próprio Jay-Z) no Brooklin paulistano poderia ter percorrido um caminho semelhante. Era um gênio bruto, uma alma imensa, que poderia se lapidar se tivesse tido sorte. O documentário de Guilherme Xavier Ribeiro, intitulado Sabotage: nós ao compromisso do rap, joga luz sobre essa história.

Nova York é uma cidade para selfmade men, um bom lugar, apesar, contraditoriamente, dos imensos bolsões de pobreza que os turistas não veem, por isso digo, emocionado, “eu me emociono, eu não me escondo”, que Nova York, que tem muitas faces, é a cara do Sabotage.


“Feel this drum beat, as it beats within”
As referências do rap vêm do blues, do lamento que se transformou em protesto político, crítica social, e do jazz, da verve improvisadora do som. Como música negra, o rap me toca. Se eu fosse traduzir esse sentimento (não exatamente estético, mas étnico), utilizaria um verso de reggae, outro ramo da música negra: “Feel this drum beat, as it beats within” (Bob Marley).

Gosto do rap, senão por outras razões, porque suas referências passam pelo coração do blues e do jazz em canções como What did I do to be so black and blue (“o que fiz pra ser tão preto e triste?” em tradução livre), de Louis Armstrong, por exemplo, não pelo ritmo neste caso, claro, mas pela indignação, pela dor.

A primeira vez que li (antes de ouvir) a música de Armstrong foi no romance The invisible man (O homem invisível), no trecho que diz: “Até os ratos fogem do meu quarto”. O romance é de Ralph Ellison, que nasceu em Oklahoma City, em 1914, mas morreu em Nova York, em 1994. Estou mesmo mais ligado à literatura, embora a música aciona dentro de mim um certo ritmo.

Segundo Harold Bloom, em Como e por que ler, Ellison estudou a fundo Armstrong e entendeu que o jazz “se moveu de uma música do povo para uma alta inovação da arte por causa de Armstrong”, que se enfia na narrativa de O homem invisível como uma espécie de guia espiritual do narrador.

Eu me enfio no coração de Nova York tendo como guia espiritual a literatura. Fiz uma lista de livros que compraria na Barnes and Noble, a famosa livraria da cidade. Encontrei poucos. Um dos títulos que gostaria de ter comprado lá, mas que não achei, foi Last exit to Brooklyn (Última saída para o Brooklyn), de Hubert Selby Jr..


Black Lives Matter
Fizemos a primeira visita ao Brooklyn no dia 11, atravessando a Ponte do Brooklyn, ida e volta. Uma experiência incrível, porque enquanto andava sobre a ponte reagia à beleza do local, observando ora a Estátua da Liberdade ao sul, ora, olhando para trás e vendo Manhattan, ora olhando o norte e vendo a Manhattan Bridge e Williamsborough bridge.

Do outro lado, ao descer da ponte, fomos para o Brooklyn Bridge Park. Enquanto chegávamos à ponta da ponte, um grupo de algumas dezenas de jovens usando faixas e bandeiras do movimento Black Lives Matter marchavam com palavras de ordem sobre a ponte rumo a Manhattan. Naquelas dias, o nome do movimento não saía da mídia americana por causa da morte de cinco policiais em Dallas, abatidos a tiro por um maluco que se dizia simpatizante do movimento negro mais em voga hoje.

Tem sido um tormento para a consciência negra americana e para o movimento em si, que tem de se explicar o tempo inteiro contra acusações de racistas cínicos e de pacifistas equivocados que dizem que o Black Lives Matter apoia a violência contra policiais, enquanto estes matam negros quando querem e, como no Brasil, alegam legítima defesa (“uma mentira deles, dez verdades”).

O assassinato dos cinco policiais ocorreu no dia 7 de julho, e depois mais policiais sofreram atentados em Chicago. Em Nova York, o Departamento de Polícia estava preocupado também. Por isso, no 11 de julho, quando atravessávamos a Ponte do Brooklyn, o Black Lives Matter cruzava sobre as águas do East River protestando contra a violência da polícia sobre os negros e o discurso na mídia de que o grupo era o grande agente do aumento do conflito nos dias atuais.

De cima da ponte e do Brooklyn Bridge Park, já do outro lado, acompanhamos um dos mais belos skylines de Manhattan, vendo uma fileira de prédios como o Empire State Building, a Tower One, o Crysler Building, o Trinity Building, o Manhattan Municipal Building, o Beekman Tower (Eight Spruce Street), que a Penélope chamou de Prédio-que-é-um-mas-que-parece-dois.

O cinza da malha verticalizada de concreto e vidro da ilha dos lenapes impera nos céus de Manhattan, visto do outro lado do East River. Aquela perspectiva dá-nos uma ideia mais límpida do que é o delírio e a vertigem da arquitetura nova-iorquina. Voltamos extasiados, certos de que naquele dia, naquele começo de noite, tudo tinha valido a pena.

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