segunda-feira, 21 de junho de 2010

A morte não faz intermitências

José Saramago (1922 - 2010)

José Saramago está morto. E junto com ele morre também uma dicção ímpar, uma voz que não só nos romances e nas crônicas, mas também na oralidade, prendia a atenção, convencia, uma voz persuasiva, muitas vezes ranzinza, outras vezes, tão jovial, no sentido de manter a esperança (ou seria a fé?) na humanidade melhorada.

Foi comovente ver todos os sites de língua portuguesa e de algumas outras línguas colocando em destaque a foto do escritor. A internet foi inundada de textos sobre o grande autor. O inevitável sopro contínuo da morte chegou até ele, contrariando a fictícia intermitência anunciada pelo romancista, que também gostava de mostrar o lado controverso da vida.

Li pouco Saramago e, confesso, gosto mais de Lobo Antunes. Mas trata-se de um nível de escolha que não exclui de forma alguma a delícia de leitura que é acompanhar Jesus Cristo, por exemplo, dando suas cabeçadas diante dos desejos mundanos e a vocação a mártir.

Lembro-me que no final de O Evangelho segundo Jesus Cristo, o narrador faz uma observação que imediatamente me remete aos ataques a qualquer bandeira de princípios. O bem é um branco delicado, e basta um pinguinho de sujeira para que se lhe creste para sempre a pureza. Não com estas mesmas palavras, ipsis literis, mas talvez com o mesmo sentido.

Não quis que meu blog deixasse passar em branco a última viagem desse homem admirável, autodidata que foi a alturas que muitos acadêmicos, por mais títulos e honrarias que possuam, jamais alcançariam. Não é um adeus. Em minha casa, dois desafetos que eram, Saramago e Lobo Antunes, podem conviver.

De seu blog Caderno, criado em 2008, retirei uma frase interessante sobre verdades e mentiras que caracteriza bem como o autor pensava o mundo. “Ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global.”

2 comentários:

Maria Teresa disse...

Homenagem merecida, Giba. Gosto tanto de Saramago, que o imaginava eterno. Mas ele não deixa de sê-lo, como você bem colocou.
Abraços

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado, Maria! Grande abraço!