segunda-feira, 21 de setembro de 2009

FLORES AZUIS: escrita, fetiche, amor, violência e loucura


As cartas de amor figuram na literatura desde há muitos séculos. Entre as mais tocantes estão as inventadas pelo poeta Ovídio, em seu livro Cartas de Amor, em que ele recria missivas entre Medeia e Jasão, Penélope e Ulisses e outras tantas.

Diário de um sedutor, romance do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, também é outro que lida com o tema. Mas talvez o mais emblemático desses romances epistolares seja mesmo As relações perigosas, de Chardelos de Laclos, que no Brasil conta com uma das raras traduções feitas por Carlos Drummond de Andrade.

Dito isso, em 2008, a escritora chilena-carioca Carola Saavedra publicou um romance muito bom, que também traz em seu fulcro uma espécie de missivas amorosas, intitulado Flores azuis (Companhia das Letras, 2008), que “homenageia e ao mesmo tempo desconstrói o gênero do romance epistolar”, conforme está escrito na quarta capa do livro. Foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009, mas não levou os R$ 200 mil para casa.

Em todo caso, Flores azuis vale a leitura. São duas narrativas paralelas, em que, de um lado, um homem recém-separado começa a receber cartas em seu apartamento destinadas a quem ele imagina ser o antigo morador. De outro, eis a autora das cartas, que não se identifica, assinando apenas A.

À medida que as correspondências vão chegando ao seu endereço, Marcos penetra no universo angustiante e fascinante dessa suposta mulher que escreve. As primeiras cartas revelam um amor incondicional, submisso, mas também uma insinuação sado-masoquista ou uma espécie de fetiche, o que acaba criando a tensão que atinge em cheio o leitor fictício e o leitor real.

Tudo seria mais fácil se fosse só isso, a violência, o sangue, as marcas no dia seguinte, as coisas mais espantosas. E eu poderia te amar ou te odiar profundamente. Mas, não. Havia também outras nuances, outros momentos, às vezes, havia uma suavidade, e eu ficava pensando, de onde viria aquele teu jeito dócil, indefeso, de onde viria, assim, de repente. Havia algo em você que de te tão suave me emocionava, como se você também estivesse sofrendo, o tempo todo. E eu te olhava surpresa e extasiada. Por que você sofria?

A autora das cartas sabe bem o que faz. Tem domínio da escrita, consciência das palavras e clareza na maneira de usá-las em cada texto. Nesse sentido, Flores azuis é também um exercício de linguagem, um tipo de literatura muito em voga nos dias de hoje.

“Há sempre uma palavra que nos une”, diz em uma das cartas. “Agora, os meus dedos sobre as teclas. Agora, a tua leitura no sofá, ou na cadeira, ou na poltrona, o lado que eu desconheço. Essa palavra que nos une.”

A vida de Marcos não será a mesma após receber essas cartas misteriosas. Seu cotidiano muda completamente. Os problemas com a ex-mulher, a dificuldade de lidar com a filha pequena e de se acertar com as novas namoradas, antes fatores centrais de sua rotina, passam a ser secundários.

Há um deslocamento de atenção e de sentido. Nesse ponto, a dinâmica do jogo criado pela autora se parece um pouco com os personagens de Paul Auster em Trilogia de Nova York, uma lembrança sutil, principalmente no que se refere ao desfecho da trama de Flores azuis.

Além da violência retratada, que imprime uma estranheza sui generis, as outras temáticas exploradas pelo texto de Carola ajudam a compor esse romance singular. Um desses fios é justamente a metalinguagem, ou seja, a maneira de se construir um texto discutida dentro do texto ao longo do livro.

“O tempo que se interpõe entre as palavras e as suas voltas e retornos. Entre esta e a primeira carta há todo um desencadear de fatos e consequências e lembranças, entre esta e a primeira leitura, todo um desencadear preenchendo, desvirtuando o que e com tanto empenho quis dizer.” O que nos faz desconfiar de tudo que ela diz, recompondo sempre o texto dentro de nós.

Carola tem 36 anos de idade e já é um a autora de respeito, com alguns livros publicados, como Do lado de fora (7 Letras, 2005) e Toda terça (Companhia das Letras, 2007). A julgar por Flores azuis, sua literatura promete frutos cada vez melhores.

2 comentários:

Maria Teresa disse...

Fiquei curiosa para conhecer FLORES AZUIS. Seus comentários são muito interessantes e incentivam a leitura que, de antemão, já começa prazerosa. Você conhece as Cartas Portuguesas de Mariana Alcoforado, a freira portuguesa de Beja? Se não as conhece, procure por elas; acredito que irá gostar.

Convido-o a visitar meu blog:
www.mteresahf.blogspot.com
Abraços.

Gilberto G. Pereira disse...

Oi, Maria, obrigado! Não conheço Mariana Alcoforado, mas vou aceitar sua sugestão. Depois a gente conversa de novo sobre isso, né. Eu já acessei seu blog, sim. Aliás, ele já está na minha lista de blogs. Gostei muito. Tentei deixar um comentário lá, mas não consegui. É isso.
Grande abraço!