quarta-feira, 21 de junho de 2017

Bruna Caram e “o lado de dentro da tempestade”

                                                                                                            Foto: Twitter da cantora
“Meu coração/ anda endiabrado./ Numa hora berra!/ Noutra hora emperra,/ encurralado.”    

Quando abri o livro de poemas da cantora e atriz Bruna Caram, Pequena poesia passional (sem data, mas segundo seu site é de 2015), a primeira coisa que vi foi o prefácio de Luiz Tatit (compositor e doutor em semiótica, professor da USP). Vi o prefácio mas não li de antemão, para não me sentir influenciado pela leitura do autor de Capitu, aquela canção poeticamente insinuante sobre o personagem de Machado de Assis.

Fui direto aos poemas. Minha primeira pergunta às linhas de Bruna foi, obviamente, tem paixão em cada poema? Tem. O tema da paixão às vezes vem estampado no título, como em Amor mesmo, Amor, Coragens, Covardia, Endiabrado, Felicidade, Fossa, Instável, Inveja, Louca, Marra, Medinho, Passional, Qualquer coragem, Saudades, Sem-vergonha, Solidão.

Como o leitor deve ter observado, os poemas estão distribuídos em ordem alfabética pelo título. Obviamente, trata-se de um capricho (elemento passional) da poeta. Mas é interessante notar o modo como ela se preocupou em organizar seus poemas numa espécie de dualidade poética também, em que o poema anterior cria uma empatia verbal com o poema posterior, pelo título e pelo conteúdo. Senão, vejamos:

Alívio

“O tempo passa, com ou sem você.
Isso me conforta!

Melhor que isso
só você entrando agora
por esta porta.”


Altar

“Esqueço
ao subir ao palco
de tudo que sou,
recebo
ou causo.
Me aqueço de sonho
e salto.

Só acordo na hora do aplauso.”

O alívio é uma espécie de gozo, alcançado pelo sujeito poético no tempo, com ou sem a pessoa amada, porque no fim das contas, o sujeito poético não a esquece. Há uma lembrança dentro da passagem do tempo. Já no palco como altar, o sujeito poético se esquece de si mesmo. Ali, o gozo é mais intenso. É onde o tempo não passa.

No encadeamento de outros títulos, a dualidade é muito mais explícita: Ano novo/Antídoto; Chuva/Cinema; Depois/Depressa; Desculpa/Desejo; Direito/Direto; Disco/Distância. E assim por diante.

Os poemas sugerem que a paixão é feita do cotidiano. O elemento passional é o conector da vida interior com o mundo exterior. A poesia de Bruna Caram, neste livro, retrata objetos, sentimentos, afetos e outras abstrações, lugares, tempo e memória como fulcrais da vida vivida. Eles surgem nos poemas como figuras ígneas da paixão, e a paixão passa então a ser não a busca, mas o resultado da vivência no dia a dia.

Bruna Caram traduz bem a passionalidade em seus poemas. Citando palavras como avião, hotéis, avô, travesseiro, estrada, canto, blues, ela traz um sentido mui pessoal (e passional), ou mui passional (e pessoal). Parece ser ela mesma essa passionalidade. Um atributo traduzido muito bem no título da letra de seu primeiro sucesso, Palavras do coração, cuja composição não é sua, mas deve ter sido feita exclusivamente para ela.

Isso também explica metáforas mais íntimas (interiores) como no poema Tempestade, em que o sujeito poético diz ser “o lado de dentro/ da tempestade.”

Os 180 poemas de Bruna Caram, distribuídos em 208 páginas de um livro de formato pequeno, são curtos. O maior deles, Hotéis, com 38 versos, está ali para provar que tamanho não é documento. Ele traz muito do cotidiano e pouco do poético.

Coragens, seu menor poema, no entanto, com dois versos apenas, dizem mais: “Todos os sonhos reagem/ a cada nova coragem.” O plural do título ressoa no singular do vocábulo do segundo verso sugerindo uma sucessão de sonhos, uma vida inteira em que, dia a dia, vive-se a jornada em busca das realizações.

Seu livro é uma produção independente. Não tem assinatura de nenhuma editora. Os poemas, ao nascerem, foram sendo publicados primeiro no Instagram, fotografados. Só depois, ela decidiu que eles mereciam o nobre espaço do livro.

No conjunto, há versos muito bons, sem dúvida. Embora, ela queira se aproximar de Manoel de Barros, pelo que indica a epígrafe com verso do poeta sul-mato-grossense falecido em 2014, em alguns momentos, seu modo de fazer poesia se aproxima mesmo é do de Affonso Romano de Sant’Anna.

Em Contratempo, ela diz:

“Meu coração imenso
anda dividido
entre o meu silêncio
e o seu ruído.”

Em Louca:

“Nunca
se continha:
Vinha
Me beijava a boca
Me tomava toda
Me invadia sem calma.

Um dia
Eu totalmente louca
Ainda permitiria
Ele tocar minha alma.”

Algo da poesia minimalista e semiótica de Paulo Leminski, alguém diria. Mas, então, o que sobra para ela mesma, de sua verve, seu ritmo, seu mundo vocabular? Sobra tudo que há de subjetivo e autoral. Para além de comparações, Bruna consegue boas rimas em uma cadência cujo ritmo é o da emotividade, a justa medida de sua proposta. Como no poema Bonita.

“Dormir com você
me deixa bonita.
Você me olha
como quem não acredita
e me beija valente.
Na hora, o mundo ferve,
nosso corpo, um no outro serve,
e o mundo serve à gente.
Você não entende.
Nem eu.
Depois acordo assim,
toda bonita,
Você também, me imita.
E ninguém explica
o que aconteceu.”

Pois bem. O que diz então Luiz Tatit, no prefácio? Rasga elogios à poeta, claro. Mas faz isso com análise. Ele é bom. Começa chamando a atenção para o tamanho dos poemas e já abrindo com o arremate: “A pequena poesia é o formato ideal para a lírica moderna. Mal o tema se define já vem o desfecho cortante desviando a linearidade da leitura.”

Tatit demonstra por que Bruna Caram domina o ofício da poesia e como ela transita bem nesse universo da ironia cotidiana das paixões. Joga luz sobre a capacidade da cantora de entender o funcionalidade dos signos e de manipulá-los. Não diz que é uma grande poeta, mas arranja-lhe um bom lugar. “Poesia boa é poesia esperta, com poucos versos já desconcerta.” Esta é a poesia de Bruna Caram.


Serviço


Livro: Pequena poesia passional
Ano: 2015
Páginas: 208
Quanto: R$ 20


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