terça-feira, 6 de junho de 2017

A arte de ler dicionários

                                                                                                         Foto: Gilberto G. Pereira
O dicionário é importante para ajudar a ampliar os horizontes das descobertas. Mas é preciso buscar também a aplicabilidade da palavra.

Dizem que na era digital, no irreversível e impiedoso mundo da internet, os dicionários perderam o sentido (com perdão do trocadilho). Quando queremos procurar o significado de uma palavra, clicamos no Google e, voilà, eis que o mundo acontece diante de nós.

Não é bem assim. Primeiro porque nem todo significado surge imediatamente na tela do Google. É preciso cruzar dados, exercitar a inteligência, senão, mergulha-se no ramerrame das palavras, sem penetrar na fina essência das coisas por meio de sua representação.

Por exemplo, quando buscamos o significado de um vocábulo no Google, nem sempre aparecem todas  acepções. Ficamos reféns da sinonímia. Mas as palavras encerram significados às vezes contraditórios.

Senão, vejamos: para ‘cambito’, o Houaiss traz sete acepções, e uma delas é especial para a cultura do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, significando ‘libélula’. ‘Pirosca’ é outra com díspares significados. É um tipo de peixe, também conhecido como pirarucu (o bacalhau de água doce), nos caudalosos rios da Região Norte e Centro-Oeste.

Mas no Dicionário Houaiss, a única acepção para ‘pirosca’ é ‘gude’ (tanto a bolinha de vidro quanto o próprio jogo), na fala de Minas Gerais. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. No entanto, se você digitar ‘pirosca’ na internet, só o peixe aparece. Outro possível significado é o de pênis, num sentido chulo, segundo o Dicionário Aurélio.

Em segundo lugar, mesmo na internet, as páginas especializadas em vocabulário têm valor de dicionário, como a Wikipédia (cruzamento de dicionário, enciclopédia e manual). Sendo esta plataforma contestável - por muitas vezes apresentar informações conflitantes sobre um mesmo vocábulo ou verbete -, os melhores serviços deste ramo na internet (enciclopédias e dicionários eletrônicos) não raro são pagos (o que é justo).

Inúmeros campos

A importância do dicionário não se dá apenas por causa do léxico, da palavra em si, mas pelos inúmeros campos de pesquisa, cada um explorando o mesmo vocábulo de modo diferente do senso comum. Os dicionários especializados, como os de política, psicanálise, sociologia, por exemplo, trazem uma terminologia própria desses campos de estudo.

Neste sentido, a importância maior é saber como os termos se organizam, de onde vêm, para que servem, quem os formulou. Quando você estiver lendo Bauman, e se deparar com um termo sociológico, com o uso do dicionário de sociologia, você saberá em que linha de pensamento o termo está sendo empregado, e se for perspicaz, vai entender também por que Bauman o empregou.

Um dicionário especializado sugere inclusive o grau de importância de cada entrada. Quanto mais páginas são dedicadas a um verbete, mais importante ele terá sido na história do pensamento.

O Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano, por exemplo, me dá essa lição. Aprendi muita coisinha inútil com ele, mas também muitas informações filosóficas importantes que, sem ele, eu teria de ler grandes tratados (e eu não seria capaz de fazê-lo, pela falta de tempo e de energia mental). O significado de ‘consciência’, por exemplo, cujo uso na filosofia é diferente do senso comum e da medicina. Isso aprendi com o Abbagnano.

A alma consigo mesma

Etimologicamente, ‘consciência’ vem do latim, ‘conscientia’ (de conscire = estar ciente). Está registrado na Wikipédia. Mas o Abbagnano me dá uma definição melhor dentro da tradição filosófica, trazendo a definição que me esclarece de vez o significado do conceito comum e filosófico.

Na primeira acepção, está a única definição filosófica conhecida pelos gregos fundadores da filosofia (pré-socráticos e a tríade Sócrates, Platão e Aristóteles), que é a base do significado do senso comum: “possibilidade de dar atenção aos próprios modos de ser e às próprias ações, bem como de exprimi-las com a linguagem.” Ou seja, é a capacidade de perceber o mundo, no sentido de estar ciente das próprias percepções e ideias, de não estar desmaiado, nem dormindo, bem como de usar a linguagem para exprimir essa capacidade.

Segundo o Abbagnano, a segunda acepção traz uma nova descrição, mais complexa, a partir dos estoicos e neoplatônicos, que vai além da compreensão da consciência como atributo dos sentidos físicos para dar conta do mundo.

Nesta segunda acepção, o significado de consciência é o da “relação da alma consigo mesma, de uma relação intrínseca ao homem ‘interior’ ou ‘espiritual’, pela qual ele pode conhecer-se de modo imediato e privilegiado e por isso julgar-se de forma infalível e segura.” Ou seja, vai além da mediação da palavra, e alcança o que o Abbagnano chama de testemunho “de si para si”, “esfera de interioridade” ou “interioridade da alma”.

Para descrever a primeira acepção, o Abbagnano utiliza oito linhas. Para a segunda, faz uso de dez páginas. Temos aí, portanto, uma noção de por onde passa sua definição. Desde os estoicos, portanto, todos os filósofos se ocuparam do estudo da consciência: Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Kant, Hegel, Husserl, Heidegger, os existencialistas e os filósofos da mente (John Searle, Gilbert Ryle), e uma multidão de pensadores.

O Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano é mais complexo que isso, obviamente, mas abre uma janela para a compreensão dos complexos termos da linguagem filosófica.

Outra lição que ele me deu foi sobre o significado de um dos termos mais caros à filosofia, ‘juízo’. Aprendi que ‘juízo’ em grego é ‘krisis’. Ou seja, a filosofia nasce da crise, que é a capacidade de separar, julgar, peneirar, crivar.

A procura amorosa da verdade faz-se no espaço judicativo da crítica, do questionamento sem rancor. ‘Crise’, sem dúvida, significa também um incômodo existencial, a manifestação da alma num lugar de inquietude, procurando o lugar da estabilidade do ser (que nunca encontra, obviamente, não na filosofia, talvez na religião).

É claro que em cima de tudo isso, deve-se ler, mergulhar na história do pensamento para tentar, a partir dessa leitura, construir um pensamento novo sobre o mundo em constante mudança.

Primórdios

A ideia de dicionário é importante, mesmo que não se busquem mais suas edições físicas. Historicamente, segundo Peter Burke, os dicionários começaram a proliferar a partir da invenção da imprensa de Gutemberg.

“Os primeiros dicionários foram de latim, para uso em escolas de gramática, fundadas como parte do movimento humanista do Renascimento e frequentadas por meninos originários das classes alta e média”, diz Burke em Uma história social dos dicionários, artigo publicado na Folha de S. Paulo em 3 de novembro de 2002.

Burke ainda comenta: “O primeiro dicionário de latim-português que conheço, compilado por Cardoso, só foi publicado em 1562. Como os estudantes conseguiam fazer suas traduções de Cícero e Virgílio antes dessa data, não sabemos. Ou confiavam na memória ou compilavam para si mesmos vocabulários manuscritos, que desde então se perderam.”

Atualmente, há dicionário para tudo. Os que mais uso são os de línguas vernáculas, português-português, inglês-inglês, como o Houaiss e o Oxford, e os bilíngues para estudar línguas modernas como espanhol, francês, alemão, mas também tenho dicionário de português-japonês, português-latim, e adoraria ter um de grego, mas é caro.

No caso da língua inglesa, aprendi cedo a comparar a qualidade vocabular dos dicionários bilíngues consultando palavras que geralmente são ignoradas, por se acharem inúteis no universo do aprendizado imediato. Por exemplo, ‘newt’ e ‘gecko’ significam ‘lagartixa’. A diferença é que a segunda se refere à lagartixa de parede, aquela branquinha e horrorosa que a gente vê grudada nas paredes de casas urbanas.

Osgas, labigós e outros bichinhos

Quando vejo um dicionário novo de inglês, daqueles de bolso ou mini, recorro àquelas duas palavras. Geralmente, não as encontro. E aí, julgo não ser um bom dicionário, embora, às vezes, eu possa estar errado. Há outras palavras também que costumo cruzar.

‘Tick’, que significa ‘carrapato’ e outras coisas díspares, por exemplo, também uso nesse método de comparar dicionários em inglês, seja bilíngue ou não. Aliás, foi por saber que carrapato em inglês é ‘tick’ que aprendi rápido como se diz carrapato em francês, ‘tique’.

Essas correlações, geralmente, estão ligadas à raiz latina. E por isso, muitas palavras ficam fáceis de assimilarmos nas outras línguas ocidentais, por saírem de uma língua próxima de nós, como ‘anta’, que em inglês se diz ‘tapir’, como em tupi (pois não existe anta fora da América do Sul, a não ser em cativeiro, como bicho exótico).

A lagartixinha branca a que me referi antes, é chamada de osga em português. Uma vez, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em outubro de 2003, José Saramago se referiu a ela, demonstrando a importância do vocabulário para quem quer escrever ou, de resto, apreender melhor o mundo.

“Consultando o Dicionário Houaiss, que é magnífico, na minha opinião, encontrei uma coisa que não consigo entender como é que passou aos lexicólogos, que é a palavra ‘osga’” dizia Saramago. “A definição que se dá é ‘lagartixa’. Mas ‘osga’ não é uma lagartixa. Nunca foi uma lagartixa. Não se parecem fisicamente, nem se parecem do ponto de vista da mentalidade. A osga é um animal  com umas patas que se agarram às paredes, coisa que a lagartixa não pode fazer.”

Sempre que Saramago vinha ao Brasil e dava entrevista na televisão, eu o ouvia atentamente. Foi assim no Jô Soares Onze e Meia, ao lado de Chico Buarque, em 1997, e no Roda Viva, por exemplo. Gostava mais de ouvi-lo do que lê-lo de fato.

A osga é o que chamei acima de lagartixinha de parede. Quando assisti ao Saramago naquela ocasião, eu já tinha o hábito de associar a palavra ‘gecko’ à ‘osga’. Portanto, achei interessante a descrição do autor, aprendi com isso, mas continuo com a  definição que ficou em minha cabeça, embora tendo consciência dessa dicotomia. Meu mundo enriqueceu.

Tenho consciência também que ‘newt’ não é de fato a lagartixa que conheço, que no interior do Mato Grosso, onde vivi minha infância, era chamada de labigó, palavra que não está cunhada no Houaiss, meu dicionário de cabeceira. A labigó é diferente do calango, que é meio esverdeado.

A labigó é um pouco menor que o calango, e é meio cinza-casca-de-pau. Fica o tempo todo fazendo um movimento com a cabeça, para cima e para baixo, como se concordasse com alguma coisa, à semelhança dos roqueiros head-bangers, só que um pouco mais acelerado.

Horizontes das descobertas

Voltando aos dicionários, uso muito dicionário eletrônico também. No Leituras, há alguns links interessantes, na barra lateral direita, lá embaixo. São gratuitos, e talvez por isso sejam imperfeitos. Não encontramos todas as palavras que queremos. “Mas nunca vamos encontrar todas a palavras que queremos”, nem pagando, alguém pode dizer. Às vezes o mecanismo de busca falha. É verdade. Em todo caso, hoje está melhor que a escuridão do passado, em termos de opções.

O dicionário é importante para ajudar a ampliar os horizontes das descobertas. É claro que depois desse aprendizado, como na filosofia, é preciso buscar a aplicabilidade da palavra, é preciso saber ouvir o outro, ler o outro, como me ocorreu com Saramago à distância. A vivência da palavra, real e intelectual, é de vital importância.


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