domingo, 7 de setembro de 2008

DA VELHICE: um fio puxado do quadro de Van Gogh

“Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
sepulcros vivos de senis segredos,
eternamente a caminhar sozinhos”


Violões que choram, poema de Cruz e Sousa

“A gente leva a vida inteira para entender o que realmente importa e, então, já não está mais lá.”

O teatro de Sabbath, de Philip Roth

"Surpreende-te que os outros passem ao teu lado e não saibam, quando passas ao lado de tantos e não sabes, não te interessa, qual é o sofrimento deles, seu oculto câncer?"

Cesare Pavese, in: O ofício de viver

Velho triste (No solado da eternidade), pintado por Van Gogh em 1890, ano de sua morte

A velhice me assusta não pelas ameaças que traz consigo em doenças, mas pela ferocidade da impotência diante do outro. O outro sempre mais forte. O outro de olhar feroz atropelando, passando por cima como quem amassa a massa de pastel com rolo compressor.

Velhinhos chorando me arrancam a alma. Um velho chorando na calçada, ou no solado da porta. Sabe-se lá se é fome, se é medo de viver, se é saudade, abandono, solidão, dor.

Dor da alma, do desprezo, da perda de si e dos outros, no solado da eternidade, como no quadro de Van Gogh (1853 – 1890), ao pé da porta que se abre para o fim.

Van Gogh morreu aos 37 anos, suicidou-se, mas sabia o que era ser velho na quarta década de vida. Quando se chora na velhice, há muitas razões. Quem sabe não é o peso da memória.

Uma velhinha em lágrimas não me passa, jamais passará, a imagem da mulher que foi, vigorosa ou eternamente debilitada, dócil ou megera. Uma velhinha chorando é uma velhinha chorando. Pode ter sido a pior das madrastas. Sem conhecimento prévio, não há julgamento.

Um velhinho fraquinho, raquítico homem, pode ter sido uma fera no passado, que sempre volta à tona. Pode ter batido na mulher, deixado o filho com fome, surrado a mãe ou o pai, quando era jovem e forte.

Mesmo assim, velhinhos chorando me dilaceram a alma, porque serei eu amanhã, porque a velhice me sopra a fronte sempre que me sinto forte, como vento e tempo, como vida e morte.

Não é de bom tom sair por aí batendo em velhinhos indefesos, dizem os homens que discernem as coisas. E eu me pergunto: Não é um tapa na cara, um soco no estômago a fila de hospital, tripa quilométrica de INSS? Não é humilhação demais para um homem de idade, depois de ter trabalhado tanto? Vá lá, mesmo que não tenha trabalhado tanto, não faz sentido espancar a velhice.

Aquilo que se vê nas ruas, ou no lado absconso da civilidade, não é literatura. Não é arte. Não há dignidade no semblante triste de um velhinho chorando. Não é verossimilhante, nem vale o trocadilho (velhossimilhante). Não é aquilo que poderia ter sido. É o que não poderia ser.

É verdade que muitas pessoas envelhecem bem e morrem otimamente. Nunca passam por humilhação nenhuma. Nunca choram de tristeza, nem de dores, nem de vícios, nem sentem a solidão carcomer-lhe a alma. Mas outras não.

Por outro lado, há pessoas que sofreram e choraram, que tiveram uma infância infeliz, mas recuperaram a dignidade a laço. Há pessoas que conheceram o inferno, que se perderam e depois se reencontraram. Mas outras não.

A velhice me assusta pelo que tem de horror à morte, pelo que tem de apagamento, desvanecimento, desaparecimento. A entrega dos pontos. Só a literatura permanece. Só a arte resiste.

Viver é aprender a envelhecer, eu sei. O mais difícil, o mais vagaroso, o mais sublime – e ao mesmo tempo o mais terreno – dos aprendizados.

4 comentários:

Anônimo disse...

Oldberto my friend,

A velhice está já me tocando os dias de forma mais dolorosa, tenho alguém muito muito próxima que está vergando rapidamente sob o peso da impotência pela falência da carnal máquina. O conviver com algúem cuja vitalidade, força e gênio fizeram estremecer toda uma geração familiar e vê-la agora dependente de uma braço de apoio para se locomover (tarefa tão primitivamente básica), me machuca mais do que se fosse comigo. Depois que nos tornamos pais, preferimos que as crias sejam poupadas e que as coisas ruins passem para nós e deixem os pequenos. Com os velhos também. Espero chegar lá, mas a perda da independência é que deve fazer chorar...Meus cabelinhos brancos ainda encontram tinta que os cubra. Mas e quando eu não mais tiver vaidade para pintá-los? Acho que também vou chorar, pelo último amor que me abandonar: o meu.
Flávia VanGrogue.

Gilberto G. Pereira disse...

"a perda da independência é que deve fazer chorar". Flávia, seu dolorido comentário é compartilhado com muita gente. Eu mesmo, quando a velhice me chegar, se chegar, não sei se terei saco para depender dos outros. Sempre me lembro de um personagem de O amor nos tempos do cólera, de García Márquez, Argemiro de Saintamour, se não me engano, que ao chegar à velhice se matou. Segundo Gabo, em sua autobiografia, esse personagem era real. Não estou sugerindo o suicídio, mas concordo que a perda da independência deve ser mesmo uma lástima.

L.C. disse...

isso pra não falar da morte.

L.C. disse...

meu comentário comentava o texto e não o comentário.