terça-feira, 11 de agosto de 2009

MITOLOGIA GREGA II: os principais mitos


O segundo volume de Mitologia Grega, de Junito de Souza Brandão (Vozes, 2009, 18ª edição), é o mais cativante dos três, o mais embevecido em termos de histórias míticas. É aqui que o leitor encontra a narração e a análise dos principais mitos gregos.

Apolo e sua irmã Ártemis. Narciso e a ninfa Eco. Dioniso e sua trajetória errante, entusiástica, trágica e vencedora. Orfeu e Eurídice. Hermes e a capacidade genial de confundir e criar, como quando inventou a primeira lira, sua criação visceral que fez canalizar a música como expressão máxima do espírito.

Hermes, “o menos olímpico dos imortais”, por ser próximo demais dos homens, como Dioniso, como Prometeu. Hermes, que amou Afrodite, a deusa da beleza, a mãe do amor.

Na leitura desse volume, veremos o quanto é comovente a paixão irrefreável da ninfa Eco por Narciso, o mais belo jovem mortal que despertava amor em todos que o vissem, mas que não podia ver a si mesmo, sob pena de cair de encantos pela própria imagem.

Um dia, Eco, que havia sido condenada por Hera a sempre repetir as últimas sílabas dos outros, aproximou-se de Narciso. Este a ignorou, o que a fez definhar de amor até a morte, deixando nos bosques apenas sua voz repetidora da fala alheia, perpetuando o eco que até hoje nos acompanha.

Um deus que sabe dançar

Outro mito central na história da Grécia é o de Dioniso, deus do vinho, do êxtase e do entusiasmo, envolto às sensações voluptuosas da carne e ao arrebatamento da alma, beirando sempre a loucura e a exclusão da vida normativa, da vida comezinha do Olimpo, da vida social grega, cortesã, cheia de mesuras e medidas da Grécia mítica.

Dioniso nasceu duas vezes. No primeiro parto, foi filho de Perséfone com Zeus, que era pai da bela deusa, filha de Deméter (Ceres). Do enlace incestuoso nasceu Dioniso, um deus garoto genial, sabedor de todas as coisas, que seria preparado para a sucessão de Zeus.

Mas Hera não gostou do que viu. A mando dela, os titãs mataram Dioniso – entre aspas, porque um deus nunca morre (veja Cristo) – e o cozinharam, comendo-o todo. Só o coração do deus em frêmito foi salvo por Zeus, que o engoliu e depois fecundou a princesa Sêmele.

Ciente de que não havia acabado, Hera manteve a implacável perseguição a Dioniso, fazendo com que Sêmele, ainda grávida do pequeno deus, pedisse ao amante que se mostrasse em todo seu esplendor de imortal.

E Zeus, não podendo dissuadi-la do pedido, apresentou-lhe como o todo poderoso do Olimpo, cuja epifania, entre raios e trovões, causou o mais furioso dos incêndios no palácio onde morava Sêmele, matando-a. Só deu tempo de salvar Dioniso, que terminou de ser gerado na cocha de Zeus e depois nasceu pela segunda vez.

Ainda por causa da perseguição de Hera, o pequeno deus metamorfoseou-se de bode para ser levado por Hermes ao o monte Nisa, onde foi criado pelas Ninfas e pelos Sátiros, que se tornaram seus seguidores. Foi nesse local que Dioniso, ainda garoto, criou o vinho e tomou o primeiro porre, junto aos mortais, caindo na dança ao som dos címbalos, enchendo-se de êxtase e de entusiasmo.

Quando Nietzsche disse “um deus dança dentro de mim”, em Assim Falou Zaratustra, ou algo como “só aceitaria um deus que soubesse dançar”, ele pensava em Dioniso, seu deus-modelo, sua preferência mitológica. Dioniso criou o teatro – embora Apolo é que tenha moldado o trágico no imaginário grego – e libertou o espírito humano. Dioniso é um deus liberto das amarras divinas, um deus muito próximo do povo. Dioniso, o deus da metamorfose.

Alma minha gentil

Como fechamento do volume, há o mito de Eros e Psiqué, uma bela história de provações e de conquista. Segundo o mito, Eros, deus do amor, se apaixona por Psiqué (alma, em grego) ao se ferir com a própria flecha que usava para deixar as pessoas enamoradas.

Os dias se passaram, até que o oráculo revelou aos pais de Psiqué que ela teria de ser sacrificada. A jovem filha foi jogada penhasco abaixo, conforme a sugestão do oráculo. A família chorou sua morte, as irmãs ficaram desoladas. Mas Eros havia pedido ao vento Zéfiro (Hermes) que transportasse Psiqué para “um vale macio e florido”, que era a morada do Amor.

De acordo com o mito, Psiqué, ao chegar, andou por todo o palácio, onde era servida por uma multidão de vozes que atendiam até mesmo os desejos não formulados da jovem princesa. Já na primeira noite, Eros visitou Psiqué e fez dela sua mulher. Mas antes de o sol nascer, ele desapareceu misteriosamente. Todas as noites era a mesma coisa. Eros não mostrava seu rosto. Encantada com a vida que tinha, Psiqué não se importava com aquilo.

Até que um dia, a Fama, outro personagem mitológico, espalhou a notícia de que Psiqué não havia morrido, e que desfrutava da melhor das vidas junto a um deus. As irmãs caíram de inveja e, ao visitá-la, insistiram para que Psiqué visse o rosto do marido, alegando que ele era um monstro, e por isso não se mostrava.

Convencida de que seu marido era a mais terrível das serpentes, o esperou dormir para matá-lo. Mas, ao iluminar o rosto de Eros, Psiqué deparou-se com a bela face de um deus. Era tarde. Eros foi embora e a deixou só, como castigo. E começava aí “o itinerário doloroso” da alma, imposto por Afrodite, a deusa da beleza e do amor, mãe de Eros (a sogra da bela princesa).

Psiqué sofre para reconquistar o direito de estar com seu amado. Mas consegue. Do encontro dos dois nasceu uma filha chamada Volúpia. Segundo Brandão, “talvez, ‘na linguagem dos deuses’, essa criança divina tenha recebido simplesmente o nome de mulher.”

Fernando Pessoa e a mitologia

Além da narrativa baseada no livro O Asno de ouro, de Lúcio de Apuleio, e as explicações dos contornos simbólicos do mito, Brandão ainda brinda o leitor com a reprodução do poema de Fernando Pessoa, Eros e Psiqué:


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

4 comentários:

Leila Silva disse...

Mitologia grega sempre nos ensina muito, mas confesso que não conhecia este livro.
Abraço

Gilberto G. Pereira disse...

Obrigado Leila, pela visita! Este livro é mesmo uma dica.
Grande abraço!

Lucas Vitoriano disse...

Ja li o primeiro e o segundo livro, mas tenho que descordar quando você diz que ele é o mais cativante dos trés. Na minha opinião o primeiro livro por mostrar toda a descendência divina desde o reino de Urano ate a supremacia de Zeus, explicando detalhadamente sobre todos os deuses e todos os seres misticos, por isso achei o primeiro livro melhor.
Mas o segundo também é surpreendente, pois a analise feita dos mitos gregos é maravilhosa, em especial a de Eros e Psique ao qual se dedica um gigantesco capitulo.

Gilberto G. Pereira disse...

Sim, você não deixa de ter razão. Eu gosto mais do segundo porque parece mais leve, mais poético, cheio de nuanças que nos ligam à centelha divina. Pra mim, o primeiro é mais duro, fala dos mitos fundantes, talvez seja mais profundo, no entanto, tem um peso que não nos deixa flutuar, digamos, no espaço dos mitos. Acho que gosto mais do segundo porque fala dos deuses mais geniais, como Hefesto, Dioniso, Hermes, todos os filhos de Zeus, né. Os três volumes se completam, essa é que é verdade, mas há sempre aquele ponto em que gente passeia com mais prazer , né. Obrigado pela visita e pelo comentário, Lucas!