terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Paris não é uma festa



O escritor amazonense Milton Hatoum cavoucou fundo e explorou os sulcos trevosos da memória no romance A noite da espera (Companhia das Letras, 2017, 239 páginas), o primeiro de uma trilogia intitulada O mugar mais sombrio. As páginas iniciais já trazem um mundo soturno, os dias de inverno parisiense atravessando a existência nostálgica do brasileiro Martim.

Jovem arquiteto cuja mãe está desaparecida no Brasil, em plenos anos de chumbo da ditadura militar, Martim está em Paris, em 1978. Exilado, morando num bairro de imigrantes, ele reorganiza suas memórias recentes a partir de fotografias, anotações em cadernetas, folhas avulsas, guardanapos, cartas e diários de amigos que ele guardou consigo, de amigos muitos dos quais estão “perdidos, talvez para sempre”.

A recuperação desses registros forma o tecido narrativo do romance. Desse modo, Martim recua dez anos no tempo, e vem arrastando-o como quem puxa peixe na tarrafa. É a memória de estudante sendo passada a limpo. Neste sentido, é um romance de formação, cujos volumes posteriores provavelmente darão conta dos anos de amadurecimento do personagem (com as sombras da existência alcançando ainda mais um lugar de destaque).

A noite da espera tem Paris como ponto de partida, mas invade vários espaços e tempos, ao sondar o passado. As primeiras anotações são de 1968, quando a família se esfacela e Martim, aos 16 anos, se vê obrigado a deixar o bairro do Paraíso em São Paulo para morar com o pai, Rodolfo, em Brasília. Lina, a mãe, foi viver com o amante, um artista, em algum lugar que Martim nunca soube identificar, nem quando ainda recebia cartas dela.

Na capital federal, “cidade para quem tem asas ou pode voar”, Martim permaneceu cinco anos, de 1968 a 1972 (período e local em que transcorre a maior parte da trama). Lá, estudou no Centro de Ensino Médio (Colégio Aplicação), da Universidade de Brasília (UnB), onde depois ingressou para fazer o curso de Arquitetura.

Deslocamento

Em Brasília, entre a arte e a política, entre a liberdade e o poder, a vida de Martim passava como se estivesse sempre em outro lugar. Ele convivia com a turma do teatro, embora não fosse ator. Envolvia-se com os conflitos políticos, embora não fosse militante de causa nenhuma. Vivia com o pai, mas só pensava na mãe. Tinha deixado o Paraíso para enfrentar o inferno do centro do poder autoritário.

O deslocamento físico e de alma é fulcral. A principal identificação de Martim é a de um sujeito deslocado da família e do país, um homem desenraizado, que sentiu o baque emocional da, talvez involuntária, rejeição materna, um baque do qual ele não se recuperaria.

Desse modo, a vida vai transcorrendo. Do fundo, emerge sempre o espectro da ditadura, o fantasma do medo e da violência, a censura. O período é tratado com sutileza na textura da trama. As mortes, a repressão aparecem nas notícias e nos tropos das metáforas, dos sopros carregados de significados no bojo dos diálogos, dos sustos, dos sonhos interrompidos no meio da noite, do ar abafado e cortante sob o céu de Brasília. Até que atinge a classe representada no romance, os estudantes.

Por exemplo, no adiantado da trama, quando Martim já está na faculdade e a repressão começa a apertar o cerco, o professor de linguagem estética do curso de Arquitetura é demitido. Outro, alinhado à ditadura o substitui. Este só fala do Barroco (não avança sobre os novos conceitos da arquitetura moderna, nem do modernismo e sua verve contestadora).

Em decorrência disso, numa das aulas, os jovens saíram em debandada, um a um foi esvaziando a sala (metáfora da capital sitiada pela arbitragem do poder). Martim não saiu, ficou lá, ele e uma moça que não se decidia sobre o que fazer da vida enquanto assistia a aulas avulsas. Ficou lá como quem não sabe o que fazer também.

Em suas anotações de 1 de dezembro de 1972, ele diz: “Quando os demais estudantes saíram, a neblina cobriu o vão da porta e penetrou um pouco na sala. Parecia uma massa de ar pegajosa e suja na manhã mais nevoenta da minha vida em Brasília. Vi na última fileira o rosto da moça dormindo, os olhos pestanudos e fechados me olhavam lá de dentro e me perguntavam o que é um poema numa tarde que já era noite.”

Por meio desta metáfora (“uma tarde que já era noite”), todos os leitores de romance temos capacidade sensível e intelectiva de compreender esse quadro dramático do trapo que estava se tornando o tecido social da jovem cidade. Todos reconhecemos o papel do poema, da arte, que é o de oxigenar a vida.

O drama aumenta quando o contraponto disso tudo é Paris, o exílio de onde Martim, deslocado e lúgubre, reescreve, ou edita, suas memórias. Não uma Paris festiva, de alegria semovente, de festas movediças em cada quartier. Uma Paris sombria, habitada por uma alma sem raiz.

Em Paris, as vozes ressoam na memória de Martim com uma vivacidade incrível, como fantasmas que chegam à noite e assombram uma casa vazia, ocupada apenas por um andarilho solitário.

Lugares e tempos

Martim é um personagem assombrado pela memória, pelos enigmas da vida cotidiana que ele não soube decifrar. É um sujeito atormentado pelos sentimentos edipianos. Para traçar um breve paralelo, em Dois irmãos, há uma mãe que não desgruda; em A noite da espera, há uma mãe sem cola alguma. É esse desprendimento que arrebenta com Martim.

Neste romance, o foco do drama familiar é entre pai e filho, metáfora de uma relação política autoritária. A conturbada relação com o pai cria um visível paralelo com a situação política, em que um governo arbitrário asfixia a liberdade, com seus cães de guarda à espreita, prontos para avançar contra qualquer voz dissonante, que ameace o projeto de uma nação ordeira e obediente.

“Me examinava sem o olhar, só com o faro, feito um cão de caça, ou um animal violento, um animal que cerca sua presa”, escreve Martim sobre o pai. A correlação imediata com a ditadura se completa com a fala do pai para o filho: “Você quer me desafiar, mas o desafio é um erro.”

No bojo da trama, Hatoum, obviamente, não deixa de fazer referências pontuais a escritores franceses que dialogam com o texto. Marcel Proust surge numa remissão quase que de imperativo categórico, quando Martim começa a se lembrar de seus tempos em Brasília, embora de modo sombrio, “para ir da gravidade ao terror político bastaram duas xícaras de café e um biscoito”.

De Louis-Ferdinand Céline (Viagem ao fim da noite), fica a referência do título e uma frase: “A distância e o tempo constroem artifícios. Percebo isso na solidão deste estúdio, no fim da noite parisiense.”

De vez em quando, aparece Goiânia: a figura do Grande Hotel, a antiga rodoviária de frente para o Lago das Rosas, que Martim anota em seu diário como Parque das Rosas, a Avenida Anhanguera, a Avenida Goiás, o coreto da Praça Cívica; ou seja, o que aparece na memória de Martim é a velha Goiânia da década de 1970, que também quase não existe mais, nem mesmo para os goianienses, só existe de modo minguante, como uma lua sem retorno.

Caráter fragmentário

O ritmo de A noite da espera embala uma espécie de blues do Cerrado, quase que uma batida de tambor fúnebre, mas com uma doce canção ao fundo. A memória é um pente semelhante ao de uma arma poderosa, com a diferença de que seus cartuchos, os da memória, vêm carregados de uma porção de coisas díspares como dor e alegria, morte, ironia, ressentimento e saudade, cavando o subterrâneo dos sentimentos.

Quando Martim dispara sua memória, seus projéteis nos atinge com a extrema eficiência da solidão e da dor, da amargura, em meio a uma beleza que desce como estalactites. E não é só a memória pessoal, há a memória dos outros. “Sem a memória dos outros eu não poderia escrever”, diz Martim. 

A memória tem um caráter fragmentário. Por isso, em A noite da espera não só elementos como tempo e espaço são recortados e recompostos em fragmentos, mas tudo, pensamentos, atitudes, prazer, a figura dos personagens. Quando Martim começa a se enturmar, ele conhece várias garotas, como Ângela e Dinah. Esta sacou logo a dele, e disse: “Ele prefere observar. Ficou de olho o tempo todo. Um olho nos exercícios e outro em Ângela.”

Em outra passagem, o próprio Martim lembra que ao remar um bote, solitário, no Lago Paranoá, atravessando de uma margem à outra, jogou com a imagem das duas garotas: “No meio da travessia me masturbei imaginando o rosto de Dinah no corpo de Ângela; troquei o rosto de uma pelo corpo da outra. Fiz isso mais duas vezes e senti o mesmo prazer.” Tudo se fragmenta.

O grão do drama

É preciso lembrar que a continuidade traz o trágico, porque quando rompe, eis que surge o pranto. A fragmentação é dramática, parece não dar conta do trágico, ou talvez dê conta, mas de outro modo, ao modo contemporâneo, fugaz, líquido, disperso.

Na contemporaneidade, a tragédia escorre pelo ralo por causa da fragmentação, da falta do contínuo, que é a desculpa para a ruptura. O leitor pode estranhar um pouco a nova pegada estética de Hatoum, por causa disso. A noite da espera está mais para o drama do que para o caráter trágico de Dois irmãos e Cinzas do Norte.

Com este novo romance, Hatoum amplia os horizontes do provável, ganha em estética, mas reduz a força motriz da narrativa. O leitor não chora no tranco. O leitor, para o bem ou para o mal, faz uma cara de choro e a leva até o final, talvez com alguns sniffs ou um lenço suspenso na altura dos olhos. E só.

A noite da espera é drama num leve tom cômico, sobretudo nas causalidades que envolvem a vida de Martim, um deslocado sortudo e azarado ao mesmo tempo; as melhores coisas que acontecem com ele não acontecem porque ele busca por elas, mas porque ele está sempre fora do lugar. As piores coisas, também são frutos do extraordinário acaso.

Fragmentário e espelhado. As coisas mais banais remetem a algo mais profundo dentro da trama, como sói ocorrer nos bons romances. Martim, por exemplo, foi parar em Brasília pelo acaso do novo amor da mãe, que o excluiu. E em Brasília, foi remar sozinho no Lago Paranoá, na noite do Ano-Novo, pensando na mãe, e adormeceu. “Um solavanco, o bote oscilou: dois soldados apontavam uma metralhadora para meu peito. O vento levara o bote até a mureta que cerca o Palácio da Alvorada.” Foi preso e fichado pelo DOPS, que desencadearia, lá na frente, a perseguição, forçando-o a deixar Brasília, tendo Goiânia como rota de fuga, e se exilar em Paris.

Efeito paralelo

Além das metáforas que atravessam a trama, frases diretas que revelariam apenas uma situação dada, um ponto de tensão nas relações dos personagens, ecoam agora como efeito paralelo entre a realidade histórica e a realidade presente.

“O Brasil, apesar do governo bruto, está prosperando”, diz um economista, funcionário da ditadura. O ministro “usa viseira de cavalo para lidar com a educação pública”, diz a mulher desse mesmo economista, num tom mais crítico. “Parece que o medo governa todo mundo... e governa com uma terrível eficiência”, completa ela.

Já outras metáforas renovam o significado nesse paralelo. O que era para ficar no passado, ensaia a volta. Em Paris, um colega de Martim dos tempos de Brasília observa alguns selos brasileiros colados nas correspondências antigas da mãe de Martim e diz: “Essa flor do cerrado exala um perfume torpe. Mas envelheceu e não cheira a mais nada.” A flor, no entanto, parece ter voltado a exalar um cheiro que ameaça se espalhar pelo ar do país inteiro.

A noite da espera é um romance notável. O título se refere à situação de Martim, ainda assombrado pela falta da mãe, exilado, esperando um contato dela e o fim da ditadura. “Talvez seja isso o exílio: uma longa insônia em que fantasmas reaparecem com a língua materna, adquirem vida na linguagem, sobrevivem nas palavras...”

Tenho a impressão de que os volumes seguintes terão mais a oferecer, e nos empurrarão para um lugar ainda mais sombrio.

(Gilberto G. Pereira. Publicado originalmente em 9 de dezembro de 2017, no Jornal Opção, de Goiânia)


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